O Sol de Maio () é um dos símbolos nacionais dos países do Rio da Prata, Argentina e Uruguai, presente em suas bandeiras e brasões. Seu nome remete à Revolução de Maio de 1810, o evento que catalisou o processo de independência no Vice-Reino do Rio da Prata. É também conhecido como sol inca (), já que a explicação mais difundida sobre seu significado é que representa Inti, o deus solar dos incas. No entanto, nenhuma fonte contemporânea confirma uma origem inca para o símbolo, e essa afirmação surgiu posteriormente, com o desenvolvimento da historiografia argentina. O desenho do Sol de Maio parece ser herdeiro do uso anterior e prolongado do “sol em esplendor” na heráldica europeia. Consiste em um disco dourado com um rosto do qual emergem raios, alternando entre raios flamejantes que giram no sentido horário e raios retos; no caso argentino, são 32 raios, enquanto o caso uruguaio segue a convenção da heráldica europeia de 16 raios. No entanto, a falta inicial de regulamentação quanto ao desenho do sol levou a uma grande variedade de estilos diferentes ao longo do tempo, até que foram definitivamente padronizados por lei em meados do século XX.

O primeiro uso oficial do sol como símbolo nacional ocorreu em 1813, com a Assembleia Constituinte das Províncias Unidas do Rio da Prata, aparecendo em seu selo (que mais tarde se tornaria o brasão nacional da Argentina) e em suas primeiras moedas nacionais. O sol foi incorporado à bandeira de guerra do país em 1818, e esse desenho gradualmente se tornou o padrão para representar o Estado nacional, enquanto os civis estavam restritos a usar a versão sem o sol. Ao longo do restante do século XIX, o sol apareceu em inúmeros desenhos distintos em bandeiras, notadamente em vermelho durante o governo de Juan Manuel de Rosas, bem como em moedas, com variações significativas entre cada província. No início do século XX, surgiram estudos históricos sobre a bandeira e o brasão, com propostas que visavam alinhar o desenho do sol com o da década de 1810. No entanto, foi somente em 1944 que uma regulamentação definitiva foi estabelecida, finalizando o desenho do Sol de Maio com base nas primeiras moedas nacionais de 1813. Finalmente, em 1985, foi estabelecido que a única bandeira argentina era aquela com o sol, eliminando a obrigação de os civis usarem a versão sem sol.

No caso do Uruguai, o país foi constituído em 1818, ao final da Guerra da Cisplatina, que opôs as Províncias Unidas do Rio da Prata ao Império do Brasil pelo controle da Banda Oriental, e adotou símbolos nacionais ligados aos da independência argentina. Assim como no caso da Argentina, o sol utilizado no brasão e na bandeira do Uruguai passou por inúmeras variações até que seu desenho atual foi formalizado em 1952. Esse decreto também padronizou a cor das faixas da bandeira como azul, distinta do azul claro utilizado na bandeira da Argentina.

História

Origem e primeiros usos

O sol foi utilizado pela primeira vez como símbolo na região do Rio da Prata no final de 1810, como insígnia nos uniformes militares. No entanto, o primeiro uso formal do sol ocorreu no selo oficial da Assembleia do Ano XIII (assim denominada por ter sido realizada em 1813), uma assembleia constituinte das nascentes Províncias Unidas do Rio da Prata, o Estado sucessor do Vice-Reino do Rio da Prata após a destituição das autoridades espanholas na capital Buenos Aires na Revolução de Maio (da qual o Sol de Maio tira seu nome), em 25 de maio de 1810. Em 1944, o selo foi oficialmente declarado como brasão nacional da Argentina por meio de um decreto presidencial. Como as forças de Buenos Aires ocupavam a cidade de Potosí, no Alto Peru, naquela época, a Assembleia do Ano XIII também decidiu que a moeda real espanhola cunhada na Casa da Moeda de Potosí deveria mudar seu desenho. Os legisladores determinaram que o anverso das novas moedas deveria ter o selo da assembleia, mas sem o sol nascente, que, em vez disso, aparecia na íntegra no reverso, um sinal da importância que tinha como símbolo da nova nação. Embora se considere que o sol dessas moedas seja idêntico ao do selo da Assembleia do Ano XIII, há uma ligeira diferença entre os dois: no primeiro, os raios flamejantes têm todos a mesma direção, variando sua orientação de acordo com a emissão, enquanto no segundo os raios alternam entre o sentido horário e o anti-horário. O desenho do sol incorpora 32 raios, o dobro dos 16 raios típicos encontrados na heráldica europeia.

O Sol de Maio também é conhecido como "sol inca" (), pois, segundo a explicação mais difundida, ele representa Inti, o deus solar dos incas. A suposta origem inca do símbolo é frequentemente relacionada ao fato de que o brasão nacional foi criado por Juan de Dios Rivera, um ourives de ascendência inca originário de Cusco, mas radicado em Buenos Aires. Por essa razão, ele é considerado por alguns como o criador do Sol de Maio. No entanto, não há fontes primárias que confirmem isso, especialmente porque as atas da Assembleia do Ano XIII desapareceram após 1852, quando foram inventariadas pelo Grande Exército Aliado de Libertação após a Batalha de Monte Caseros. Na realidade, Rivera seguiu as instruções que recebeu do governo, e pesquisas recentes demonstraram a existência de um emblema revolucionário francês do final do século XVIII que serviu de modelo para o selo. miniaturadaimagem|295x295px|O brasão real ornamentado dos reis da Espanha durante a era dos Bourbons, apresentando um sol ao lado do lema “a solis ortu usque ad occasum”. Embora amplamente aceita, a suposta origem inca do Sol de Maio carece de fontes contemporâneas e só surgiu com o desenvolvimento da historiografia do país. Em uma carta de 1900 endereçada a José María Gutiérrez, Bartolomé Mitre escreveu: "A revolução foi dominada pela ideia de promover uma nova revolta das massas incas contra a dominação espanhola no Alto Peru. A adoção do Sol heráldico no brasão nacional foi, sem dúvida, um motivo de atração e reverência para os povos indígenas quíchuas e aimarás, que adoravam o sol." No entanto, Mitre também destacou nessa carta que, em sua opinião, a inclusão do sol no selo da Assembleia do Ano XIII era uma referência ao sol que acompanhava o lema latino "A solis ortu usque ad occasum" ( "do nascer ao pôr do Sol") nas versões ornamentadas do brasão dos reis da Espanha. Isso está relacionado ao fato de que o processo de independência na Argentina teve início quando a notícia da destituição do rei Fernando VII por Napoleão Bonaparte chegou a Buenos Aires, levando à destituição do vice-rei pela elite local sob uma lealdade professada ao rei ausente, algo conhecido como a "máscara de Fernando VII". O motivo do sol era comumente encontrado nas decorações militares da era Bourbon, tanto na Espanha continental quanto em suas colônias americanas, geralmente representado como uma estrela radiante com numerosos raios brilhando intensamente sobre todo o campo, e menos frequentemente em sua forma heráldica. O sol também era frequentemente utilizado em decorações de madeira, tecido ou papelão pintado, usadas em cerimônias fúnebres, juramentos de lealdade a novos monarcas e exibições de destaque em vilas e cidades. Além das teorias que associam a origem do Sol de Maio à heráldica europeia, alguns sugerem uma possível influência maçônica, ligando o emblema à iconografia da Maçonaria.

Uso na bandeira argentina e evolução do desenho

Alguns anos após a cunhagem das primeiras moedas em Potosí, o sol foi incorporado à bandeira nacional da Argentina. Inicialmente, o Congresso de Tucumã legalizou a bandeira composta por três faixas horizontais nas cores azul-claro, branco e azul-claro como uma "bandeira provisória", até que fosse definida a forma de governo a ser adotada pelas Províncias Unidas do Rio da Prata. Embora essa forma de governo ainda não tivesse sido definida, tornou-se urgente definir uma bandeira para uso militar a fim de diferenciar os navios de guerra dos navios mercantes. Como resultado, no início de 1818, sob o comando do Diretor Supremo Juan Martín de Pueyrredón, foi legislado que: "servindo a toda bandeira nacional as duas cores branco e azul da maneira e forma até então habituais, seja distintivo peculiar à bandeira de guerra um sol pintado no meio dela." O decreto não fornece detalhes sobre o significado do sol ou sua origem, limitando-se a decretar seu uso e a função da nova "bandeira de guerra". Na Constituição redigida em 1819, não foi definida uma forma de governo, de modo que a "bandeira geral" permaneceu sem regulamentação, enquanto na Constituição proclamada em 1826 a forma republicana de governo foi formalmente definida, embora a questão da bandeira tenha sido esquecida. Em vez disso, a "bandeira de guerra" passou gradualmente a ser usada como uma espécie de "bandeira geral", representando o Estado nacional de forma ampla e não apenas para fins militares, enquanto a versão sem o sol era reservada para navios mercantes e uso civil.

Embora a legislação vigente exigisse a inclusão de um sol na bandeira, ela não fornecia detalhes específicos sobre seu desenho, o que levou a uma grande variedade de desenhos de sol ao longo do século XIX, com diferenças nas proporções, no número e na forma dos raios, nas características faciais e em outros elementos. Praticamente não havia duas bandeiras com o mesmo sol e, em alguns casos, alguns desenhos tornaram-se altamente complexos, refletindo os estilos elaborados predominantes na heráldica europeia ao longo do século. Embora a legislação não especificasse a cor do sol, presumia-se tipicamente que fosse amarelo — e até mesmo designado como bordado em ouro na faixa do Diretor Supremo no mesmo dia em que a "bandeira de guerra" foi oficialmente adotada; durante a era de Juan Manuel de Rosas, a característica distintiva era o uso ocasional de um sol vermelho, já que essa cor era um dos símbolos de adesão ao governante e à causa federalista. A ausência de um desenho padronizado do sol era evidente também na numismática, já que a maioria das moedas provinciais apresentava desenhos variados do sol, exceto as moedas de La Rioja, que reproduziam as moedas de Potosí de 1813 e 1815. Exemplos notáveis dos diversos desenhos de sol que aparecem na forma completa em um dos lados de uma moeda incluem os reversos de todas as moedas da província de Córdova e os anversos das moedas de cobre da Confederação Argentina. miniaturadaimagem|250x250px|O brasão oficial da Argentina, o Sol de Maio e a bandeira, conforme regulamentados pelo Decreto 10302/44 de 1944.