O golfinho-da-guiana (Sotalia guianensis), também conhecido como boto-cinza ou costero, é um cetáceo pertencente à ordem Cetartiodactyla, à subordem Odontodecti, à classe Mammalia e à família Delphinidae. É comum para esta espécie atingirem até os 2 metros de comprimento, sendo que os indivíduos podem viver até aos 30 anos. É uma das menores espécies de cetáceos que existem e sua distribuição é restrita, ocorrendo em apenas águas costeiras, baías, enseadas e estuários do oeste do oceano Atlântico, desde Honduras até o estado de Santa Catarina, no Brasil.
No passado, a espécie era considerada uma subespécie marinha do tucuxi (Sotalia fluviatilis). Contudo, diferenças marcantes no tamanho e análises morfométricas tridimensionais repercutiram na separação da espécie costeira da fluvial em 2002.
Taxonomia O gênero Sotalia foi descrito por Gray em 1866, com base em um exemplar coletado na Guiana Francesa, o qual foi originalmente descrito como Delphinus guianensis, passando então a ser chamado S. guianensis (Van Bénéden, 1864).
Estudos mostram claramente que as populações marinha e amazônica resultam de diferentes processos evolutivos, representando duas distintas espécies, S. fluviatilis na Bacia Amazônica e S. guianensis na costa Atlântica da América Central e América do Sul.
Características Físicas O boto-cinza é caracterizado por apresentar coloração dorsal acinzentada, que pode variar do cinza-claro ao cinza-escuro, com duas faixas de coloração mais claras na lateral. A região ventral é mais clara que o dorso, variando do cinza-claro ao rosa. A nadadeira dorsal, predominantemente acinzentada, possui, na extremidade distal, uma coloração que pode variar de rosada a esbranquiçada.
É possível identificar os indivíduos de botos-cinza utilizando a fotoidentificação. Esta técnica permite identificar cada animal por meio de fotos das marcas naturais ou adquiridas ao longo da vida presentes em sua nadadeira dorsal. As marcas naturais funcionam como se fossem impressões digitais, pois cada boto possui um padrão diferente.
O boto-cinza é um dos menores cetáceos existentes. Seu tamanho corporal médio é de 190 centímetros de comprimento, o máximo já registrado foi de 206 centímetros e o peso máximo observado foi de 121 quilogramas. Possui, em média, 120 dentes com formato idêntico.
Reprodução 180px|thumb|Mãe boto-cinza com cria O sistema de reprodução é promíscuo, com competição de esperma, onde ambos os sexos copulam com mais de um indivíduo. Em média, se tornam reprodutivamente maduros (adultos) a partir dos seis anos (fêmeas) e sete anos (machos). Não apresenta dimorfismo sexual significativo e reproduz-se durante todo o ano.
O ciclo reprodutivo dura cerca de dois anos. A fêmea pode somente gerar um filhote a cada três anos, a gestação dura em média quase um ano, o tempo de lactação dura entre seis meses a um ano e o filhote se torna autossuficiente a partir dos dois anos.
Os nascimentos de S. guianensis parecem ocorrer ao longo de todo o ano no Brasil, com picos de nascimentos que variam com a época do ano e região.
Emissão Sonora thumb|cliques boto-cinza (Usados na Ecolocalização)|left thumb|Sons pulsantes boto-cinza|leftthumb|Assobios boto-cinza|left Odontocetos usam sinais de alta frequência. Existe uma correlação entre tamanho e espectro de frequência utilizado por cada espécie. O tamanho do corpo do animal é inversamente proporcional ao espectro (faixa de frequência) de comunicação, ou seja, animais com corpo grande (baleias) emitem sinais de baixa frequência e animais com o corpo pequeno, sinais de alta frequência. thumb|180px|Animação ilustrativa da ecolocalização em golfinhos. Os golfinhos possuem um rico repertório acústico que inclui cliques, sons pulsantes e sons tonais (assobios). Os cliques são sinais pulsados de ecolocalização com picos de frequência alta que permite a localização de presas e objetos. Sons pulsantes caracterizam-se por uma alta taxa de repetição ou pequenos intervalos entre os pulsos e a função é expressar emoções e comunicação. Os assobios são emitidos em interações sociais que envolvem coesão do grupo, reconhecimento individual e alimentação em grupo. Um quarto tipo de som foi registrado para espécie S. guianensis chamado de gargarejo, é emitido por filhotes (até cerca de seis meses) ocorrendo com maior taxa de repetição quando dois ou mais estão em atividade.
Distribuição e Habitat O boto-cinza ocorre no Atlântico Ocidental nas Américas Central e do Sul, abrangendo a área do Sul do Brasil à Nicarágua, chegando possivelmente a Honduras. O limite sul de sua distribuição pode estar associado com a zona de confluência da Corrente do Brasil com a fria Corrente das Malvinas. É encontrado geralmente em águas costeiras protegidas, estuários e baías, embora seja encontrado a 70 quilômetros da costa no Arquipélago de Abrolhos, no Estado da Bahia. Isto pode ocorrer devido ao alargamento da plataforma continental no Banco dos Abrolhos. esquerda|thumb|180px|Agregação de Boto-cinza (Instituto Boto Cinza) No Brasil em 2002, a população da Baía de Sepetiba, localizada no estado do Rio de Janeiro, foi estimada entre 739 e 2 196 botos-cinza, sendo considerada, por pesquisadores, a maior população para toda a área de ocorrência da espécie no mundo. Hoje, a população de botos-cinza na Baía de Sepetiba é estimada entre 600-800 indivíduos. Na Baía de Sepetiba, também ocorre um fenômeno raro, com a ocorrência de duas áreas principais de concentração, sendo uma na entrada e a outra no interior da baía, onde é possível encontrar agregação com mais de 400 indivíduos.
Anteriormente, na Baía de Guanabara, também localizada no estado do Rio de Janeiro, os botos-cinza eram tão abundantes quanto na baía de Sepetiba, a ponto de serem representados no brasão da cidade do Rio de Janeiro. Atualmente, estima-se que haja apenas 30 botos-cinza na baía de Guanabara.
Já na Baía de Paraty, que se encontra inserida no complexo da Baía da Ilha Grande, também localizada no estado do Rio de Janeiro, estima-se o número médio de 621 indivíduos de S. guianensis, catalogados com base na análise de marcas na nadadeira dorsal. Os botos-cinza provavelmente se agregam para se alimentar de grandes cardumes de peixes. Os grupos coesos que esses animais formam sugerem uma forte ligação social entre os indivíduos, principalmente entre fêmeas e filhotes.
Comportamento esquerda|thumb|180px|Salto de Boto-cinza O boto-cinza é uma espécie que realiza poucos saltos e não tem o hábito de nadar próximo à proa dos barcos (bow-riding), como outras espécies de golfinhos. Seus grupos são coesos, com tamanho de 2 a 6 indivíduos, apesar de comumente serem encontrados entre 50 e 60 indivíduos associados em algumas localidades. Na Baía de Sepetiba, frequentemente se avistam duas agregações com mais de 100 animais, que podem atingir até cerca de 400 botos. Há evidências de que tais grupos são instáveis, uma estrutura social típica da espécie denominada "fissão-fusão". Não realizam grandes deslocamentos, permanecendo em uma mesma área durante todo o ano. S. guianensis utiliza sua área de vida de forma heterogênea e com maior uso das partes com maior influência marinha.
Alimentação O principal alimento do boto-cinza são os peixes, em especial a sardinha, a corvina e o parati. Apesar dessa preferência, o boto-cinza gosta de variar a sua dieta alimentar e, por isso, também come lula, polvo e camarão. Esse golfinho, como tubarões e raias, também pode detectar peixes através da sintonização em seus campos elétricos.Guiana Dolphins Can Use Electric Signals to Locate Prey] por Virginia Morell, publicado pela "American Association for the Advancement of Science" (2011)
Ameaças Por seu hábito costeiro, o boto-cinza é encontrado em áreas densamente povoadas e é extremamente suscetível aos impactos humanos. As principais ameaças à espécie são a poluição, degradação do habitat, captura acidental, aumento do tráfego de embarcações e desenvolvimento urbano nas regiões costeiras. Apesar de protegidos por leis federais brasileiras, também ocorrem capturas intencionais em toda a costa brasileira para consumo humano, utilização da carne de boto-cinza como isca para pesca de espinhel, dentre outros usos. Estudos acerca da mortalidade e das interações dessa espécie com as pescarias no Brasil, ainda são escassos.ICMBio. 2011. Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Mamíferos Aquáticos – Pequenos Cetáceos. Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, ICMBio. Brasília.
A Baía de Sepetiba está localizada no litoral sul fluminense, sendo uma das maiores do Brasil (526 quilômetros quadrados), e é um sistema que sofre impactos consideráveis das atividades antrópicas. A Baía de Sepetiba foi considerada pelo Plano Estratégico Nacional de Áreas Protegidas (PNAP) como área de importância biológica extremamente alta e alta prioridade de ação, devido às áreas de manguezais, ao ambiente estuarino, criação e alimentação de peixes, crustáceos e moluscos de importância comercial. A alta importância biológica se estende também para espécies de mamíferos aquáticos, uma vez que é área de ocorrência da maior população e grupos de S. guianensis na costa brasileira. Apesar das características que a tornam uma área prioritária para conservação, a baía é vista como área de potencial portuário e empreendedor, o que tende a ampliar sua degradação com o passar dos anos.MMA. 2007. Áreas Prioritárias para Conservação, Uso Sustentável e Repartição dos Benefícios da Biodiversidade Brasileira.
O recolhimento sistematizado de carcaças realizado pelo Instituto Boto Cinza (IBC) aponta que a população de botos-cinza da Baía de Sepetiba tem sido impactada por atividades pesqueiras na região. Desde 2005 até ao início do ano de 2016, foram recolhidas mais de 343 carcaças de botos-cinza. A mortalidade atinge principalmente os espécimes machos, fato que também foi observado na costa do Espírito Santo, o que pode levar a um desequilíbrio populacional dos botos-cinza da região. Há, também, um aumento de mortes de fêmeas desde 2010, fato muito preocupante uma vez que as fêmeas são o componente mais importante da população em termos de contribuição para a taxa de crescimento populacional.
A descrição qualitativa e quantitativa das capturas incidentais ao longo da distribuição da espécie tem especial importância para sua conservação.