Maria Pia de Bragança (Coração de Jesus, Lisboa, 13 de março de 1907 Verona, 6 de maio de 1995) foi uma escritora e jornalista portuguesa. Era também conhecida como Maria Pia de Saxe-Coburgo Gotha e Bragança. ""…Sua Alteza Real D. Maria Pia de Saxe-Coburgo Gotha e Bragança, Princesa herdeira de Portugal" "…aquela que todo o mundo conhece e trata (…) por Maria Pia de Saxe-Coburgo e Bragança" Já depois da morte de D. Manuel II em 1932, a cujo funeral de Estado não compareceu, a partir de meados da década de 1950 alegou publicamente ser filha bastarda do rei D. Carlos I, reivindicando o trono de Portugal, mas a paternidade nunca foi confirmada e o seu reconhecimento pelos monárquicos portugueses foi sempre limitado. Reclamou a pertença dos títulos nobiliárquicos de Princesa Real de Portugal e Duquesa de Bragança e, sustentando-se no texto das Cortes de Lamego, defendeu ser a legítima pretendente a Rainha de Portugal. Ficou também conhecida pelo pseudónimo literário Hilda de Toledano.
Nascimento e batismo Maria Pia de Saxe-Coburgo Gotha e Bragança nasceu a 13 de março de 1907 na Avenida da Liberdade, freguesia do Coração de Jesus, em Lisboa, Portugal, alegadamente filha de uma relação adúltera entre o rei D. Carlos I de Portugal (casado com a princesa D. Amélia de Orleães) e Maria Amélia de Laredó e Murça,"…a brasileira D. Maria Amélia de Laredó e Murça, de cujas relações com D. Carlos nasceu, em 1907, D. Maria Pia de Saxe-Coburgo e Bragança, ainda hoje viva, e desde há algum tempo em conflito nos tribunais com o alegado pretendente ao trono português, D. Duarte Pio. Veja-se o destacável que o Expresso de 7-V-1983 dedicou ao assunto: «O "caso Maria Pia" e a herança polémica dos últimos reis de Portugal». (J.M.)" in Afonso, Aniceto (co-autor); Medina, João (direcção); História contemporânea de Portugal (2º Volume) – Monarquia Constitucional: das origens do liberalismo à queda da realeza. Lisboa: Multilar, D.L. 1990, pág. 213. natural de Cametá, estado do Pará, Brasil, filha esta, segundo o certificado de baptismo madrileno de Maria Pia de Bragança, de Armando Maurício Laredó e Laredó e de Maria Amélia Murça e Berhen. O romance entre o rei D. Carlos e Maria Amélia de Laredó e Murça foi tornado público pelo jornal A Lucta, de Manuel de Brito Camacho, que, em setembro de 1907, já dava conta de um escândalo do monarca envolvendo a oferta de casas na Rua das Necessidades à sua amante brasileira.
thumb|left|280px|O n.º 26 da Avenida da Liberdade, em Lisboa, onde nasceu Maria Pia de Saxe-Coburgo e Bragança (actualmente instalações da EPAL).Maria Pia de Saxe-Coburgo e Bragança alegou que, por ser filha adulterina, foi levada, por razões compreensíveis, não tendo ainda um mês de idade, para a capital espanhola e aí baptizada aos 15 de abril de 1907, na igreja de San Fermin de Los Navarros, Diocese de Madrid-Alcalá. O seu registo de baptismo incluiria, alegadamente, a cópia de uma carta de reconhecimento, supostamente escrita e assinada pelo rei D. Carlos I de Portugal e datada de 14 de março de 1907. Nesta carta o monarca reconhecia-a como sua filha, «a fim de poder chamar-se com o meu nome e gozar d'ora em diante deste nome com as honras, prerrogativas, proeminências ou obrigações e vantagens dos Infantes da Casa de Bragança de Portugal». O original do presente documento terá ficado guardado nos arquivos do rei Afonso XIII de Espanha"Não nos resta qualquer dúvida de que Maria Pia foi reconhecida em vida, pelo menos por grande parte do sistema principesco da Europa, como filha natural do rei Carlos I. Também o foi certamente pela família do rei de Espanha, Alfonso XIII. Um filho do rei, D. Jaime de Bourbon e Battenberg, duque de Anjou e Segóvia, escreveu uma declaração para esse efeito que não pode ser seriamente posta em causa." in pág. 31: PAILLER, Jean (2006); Maria Pia: A Mulher que Queria Ser Rainha de Portugal. Lisboa: Bertrand. que a protegeu nos seus primeiros anos de vida"Um mês depois do nascimento de Maria Pia estão em Madrid, onde a criança é primeiro baptizada em San Fermín de los Navarros e depois mostrada ao rei Alfonso XIII que a declara princesinha amorosa." in pág. 23: PAILLER, Jean (2006); Maria Pia: A Mulher que Queria Ser Rainha de Portugal. Lisboa: Bertrand. e que, baseado na alegada carta régia de reconhecimento paterno, insistiu para que ela defendesse sempre os seus direitos de sucessão ao trono de Portugal.Carta de Sua Majestade Afonso XIII de Espanha a Maria Pia de Bragança datada de 8 de agosto de 1939
Este registo de baptismo estaria supostamente arquivado na Igreja de San Fermín de Los Navarros, construída em 1884 e incendiada durante a revolta popular de 19 de julho de 1936, no início da Guerra Civil Espanhola. Os registos paroquiais desapareceram para sempre, sendo gradualmente reconstruídos graças a atestados e certidões guardados pelos interessados e seus familiares. Em maio de 1958, o vigário-geral da Diocese de Madrid-Alcalá emitiu um certificado de baptismo para Maria Pia de Saxe-Coburgo e Bragança com informações que lhe foram fornecidas nesse momento por António Goicoechea y Cusculluela, um membro do Parlamento espanhol, e pelo governador do Banco de Espanha, que tinham estado, alegadamente, presentes no acto do baptismo. Ao acto do baptismo teriam ainda assistido D. Afonso de Bragança, Duque do Porto, tio da menina, e o ministro plenipotenciário Conde de Monteverde, o qual havia sido apoderado por el-rei D. Carlos para que fosse padrinho da criança. O facto de o assento de baptismo não conter uma procuração formal do pai da criança ao dito Conde de Monteverde constituiu prova, segundo o Supremo Tribunal de Justiça, da ausência de relevância do dito assento. Este certificado baptismal foi continuamente utilizado como prova na reivindicação de Maria Pia de Saxe-Coburgo e Bragança enquanto filha do rei D. Carlos.
Em 1974, Maria Pia passou a viver em Portugal, após a Revolução de 25 de Abril, tendo obtido passaporte e bilhete de identidade portugueses. O seu registo de batismo foi, em 23 de abril de 1975, inscrito no livro de nascimentos da 6ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa, por ordem do conservador.. Em 1978, após ter perdido a ação judicial intentada contra o Estado português, a Fundação da Casa de Bragança e D. Duarte Pio, a carta de reconhecimento de D. Carlos foi considerada não autêntica Maria Pia perdeu a filiação que constava do registo civil, tendo ficado registada apenas com os seus dois nomes próprios, e como filha e neta de pais e avós desconhecidos.
thumb|250px|A Igreja de San Fermin de los Navarros (estilo neo-mudejar), em Madrid, Espanha, onde foi baptizada Maria Pia de Bragança.
Casamentos e filhos
A 16 de junho de 1925, com apenas dezoito anos, Maria Pia de Saxe-Coburgo e Bragança contraiu, em Havana, o seu primeiro matrimónio com Francisco Javier Bilbao y Batista, um cubano de Camagüey proveniente de famílias ricas e que era vinte anos mais velho do que ela. Tendo em conta que Francisco Bilbao era já divorciado, o primeiro casamento de Maria Pia de Saxe-Coburgo e Bragança foi de natureza civil e decorreu numa embaixada em Paris. Deste casamento nasceu apenas uma filha, Fátima Francisca Xaviera Iris Bilbao de Saxe-Coburgo Gotha e Bragança (Verona, Itália, 16 de novembro de 1928 — Pena, Lisboa, 13 de setembro de 1982), que nasceu com deficiência e acabou por recolher-se a um convento.
Maria Pia de Saxe-Coburgo e Bragança viveu durante pouco tempo com Francisco Bilbao y Batista em Cuba, tendo regressado a Espanha. Francisco morreu a 15 de novembro de 1935, na sua casa de Camagüey.
Para escapar à Guerra Civil Espanhola, Maria Pia de Saxe-Coburgo e Bragança mudou-se com a sua primeira filha para Roma. Em 1939, no dia em que começou a Segunda Guerra Mundial, casou com o Coronel Giuseppe Manlio Blais (Subiaco, 11 de junho de 1891), um distinto oficial dos carabineiros. Os oficiais dos carabineiros estavam interditos de se casarem com estrangeiros, pelo que o casamento foi celebrado na clandestinidade e só foi registado civilmente a 5 de agosto de 1946, já com a guerra terminada e o Coronel Blais promovido a General. A união provou-se muito feliz e ambos tiveram uma filha, Maria da Glória Cristina Amélia Valéria Antónia Blais de Saxe-Coburgo Gotha e Bragança, nascida a 28 de julho de 1946. Esta filha, Maria Cristina casou-se com o famoso escultor espanhol Miguel Ortíz y Berrocal (1933-2006) e ambos foram viver para Verona. Tiveram dois filhos: Carlos Miguel Berrocal de Saxe-Coburgo Gotha e Bragança (nascido em 1976) e Beltrão José Berrocal de Saxe-Coburgo Gotha e Bragança (nascido em 1978).
O general Blais morreu em 1983. Em 1985, Maria Pia de Saxe-Coburgo e Bragança contraiu o seu último matrimónio com o português António João da Costa Amado-Noivo (28 de janeiro de 1952 29 de dezembro de 1996), que vivia em Londres e era alegadamente homossexual.
Carreira literária
No início dos anos 1930, Maria Pia de Saxe-Coburgo e Bragança começou a sua carreira jornalística em Madrid, tendo particular êxito quando foi a Havana entrevistar o ditador Fulgêncio Baptista. Tinha uma série de artigos publicados em duas publicações espanholas, a revista Blanco y Negro e o jornal ABC. Esteve também, por sua própria conta, como jornalista correspondente em Marrocos, tendo-se envolvido em diversas aventuras.
Em 1937, Maria Pia de Saxe-Coburgo e Bragança escreveu o seu primeiro livro La hora de Alfonso XIII (A Hora de Afonso XIII), publicado em Havana, Cuba, pela UCAR, Garcia y Compañía. Este trabalho, escrito em espanhol, e publicado sob o pseudónimo "Hilda de Toledano", é uma defesa do rei Afonso XIII de Espanha, que foi viver para o exílio na altura.
Em 1954, Maria Pia de Saxe-Coburgo e Bragança escreveu Un beso y … nada más: confidencia consciente de uma pecadora inconsciente (Um beijo… e nada mais: confissão consciente de uma pecadora inconsciente), publicado em Madrid pela Plenitud. Este trabalho também foi escrito em espanhol, e publicado sob o pseudónimo "Hilda de Toledano". É um romance, mas claramente inspira-se fortemente sobre determinados incidentes na vida da autora.
Em 1957, Maria Pia de Saxe-Coburgo e Bragança escreveu Mémoires d'une Infante vivante (Memórias de uma Infanta viva), publicado em Paris por Del Duca. Este trabalho, escrito em francês e publicado sob o nome de "Maria Pia de Saxe-Cobourg Bragance", é uma autobiografia. Ele marca a primeira tentativa de Maria Pia de Bragança receber o reconhecimento generalizado do público de que ela era a filha ilegítima do Rei D. Carlos I de Portugal. No livro, porém, Maria Pia de Bragança não fez qualquer reivindicação de direitos dinásticos. Em vez disso, Maria Pia de Bragança sugeriu que o legítimo herdeiro do trono português deveria ser a Princesa D. Isabel de Orléans, filha mais velha de Henrique, conde de Paris, e de D. Isabel de Orléans e Bragança, princesa do Brasil.
Reivindicação activa do trono português thumb|right|180px|Brasão da Casa Real de Bragança-Saxe-Coburgo-Gota.
Durante várias décadas Maria Pia de Saxe-Coburgo e Bragança alegou ser filha bastarda do rei D. Carlos I de Portugal, ter sido reconhecida pelo próprio rei como sendo sua filha e que este lhe teria concedido todas as honras, privilégios, prerrogativas, obrigações e direitos que eram devidos aos legítimos Infantes de Portugal, com direito ao tratamento de "Sua Alteza Real" e ao título de "Infanta". Porém, não fez, até 1957, qualquer alegação quanto ao facto de ser a legítima Rainha de Portugal, em sucessão a D. Manuel II, o filho de D. Carlos I (e suposto meio-irmão de Maria Pia de Bragança), que faleceu sem filhos em 1932.