thumb|280px|Representação da aparição da Virgem Maria aos três pastorinhos, na Cova da Iria, Fátima Aparições de Fátima é a designação comum dada a um ciclo de aparições marianas que terá ocorrido durante o ano de 1917 na localidade de Fátima, em Portugal.

No dia 13 de maio de 1917, três crianças, Lúcia dos Santos (10 anos), Francisco Marto (9 anos) e Jacinta Marto (7 anos), afirmaram terem visto "…uma senhora mais brilhante do que o Sol" sobre uma azinheira de um metro ou pouco mais de altura, quando apascentavam um pequeno rebanho na Cova da Iria, próximo da aldeia de Aljustrel. Lúcia via, ouvia e falava com a aparição, Jacinta via e ouvia e Francisco apenas via-a, mas não a ouvia.

A aparição da Virgem Maria repetiu-se nos cinco meses seguintes e foi portadora de uma importante mensagem ao mundo. A 13 de outubro de 1917, a aparição apresentou-se-lhes como sendo "a Senhora do Rosário".António Augusto Borelli Machado, As aparições e a mensagem de Fátima nos manuscritos da Irmã Lúcia, 23.ª edição, Maio de 1998, Depósito Legal n.º 123 914, ISBN 972-95919-0-3 (página 35)

Estas aparições foram precedidas e seguidas por outros fenómenos, acontecimentos que foram relatados e redigidos pela vidente Lúcia, primeiro em 1922 de forma sumária (a pedido do seu confessor no Asilo de Vilar, Padre Manuel Pereira Lopes) e depois com mais detalhe a partir de 1935, em quatro manuscritos conhecidos por Memórias I, II, III e IV, estes últimos transcritos com outras fontes neste artigo.Idem (página 25)

Contexto histórico 180px|right|thumb|Localização geográfica de Fátima em Portugal Nos anos das aparições, Portugal, país de maioria católica, atravessava uma das maiores crises da sua história. Em 1908, o Rei D.Carlos I tinha sido assassinado na rua, juntamente com o seu filho mais velho, por dois elementos da Carbonária. Em 5 de Outubro de 1910, a república fora proclamada, a monarquia abolida e o sucessor D.Manuel II, obrigado a deixar o país. A nova República, liberal e laica, entrou imediatamente em conflito com a Igreja. Entre as suas principais medidas encontram-se a expulsão da Companhia de Jesus e das ordens do clero regular, o encerramento dos conventos, a proibição do ensino religioso nas escolas, a lei do divórcio e a separação entre a Igreja e o Estado. Em Maio de 1911, o Papa Pio X rejeita vigorosamente as leis de secularização introduzidas pelo novo governo.

A partir de Maio de 1916, o país entra na Primeira Guerra Mundial, enviando durante o ano das aparições, em 1917, cerca de 55 mil homens para França, assim como outras forças para Angola e Moçambique, que tinham sido invadidas pelos alemães, com uma expectativa de grande perda de vidas humanas e grande esforço material.

Vários anos de caos e instabilidade tinham decorrido, com sucessivos governos num limitado espaço de tempo — nos dezasseis anos de duração, a Primeira República teve nove presidentes e quarenta e cinco governos. Até que, em 28 de Maio de 1926, o General Gomes da Costa instaurou uma ditadura militar, precursora do Estado Novo — o qual se manteria até 25 de Abril de 1974.

Era em Aljustrel que habitavam os pastorinhos. O lugar era habitado apenas por cerca de 25 famílias. Lúcia era a mais nova dos sete filhos de Maria Rosa e António dos Santos. Próximo habitavam os pais de Jacinta e Francisco (primos direitos de Lúcia), Manuel Marto e Olímpia de Jesus, que criavam ao todo nove filhos. As famílias dedicavam-se à agricultura e pastorícia. As crianças não frequentavam a escola, (os três eram analfabetos) e ajudavam os pais pastoreando ovelhas. O analfabetismo atingia então 67% da população portuguesa, mas era maior nas regiões rurais e entre as mulheres (75%).

Relativamente à família dos pastorinhos, somente a mãe de Lúcia, Maria Rosa, tinha aprendido algumas letras. Por esta razão, as crianças aprenderam a catequese e várias histórias de aparições de Nossa Senhora, juntamente com a Bíblia e o livro "Missão Abreviada", pela boca da mãe de Lúcia.

Aparições do Anjo Antes das aparições da Virgem Maria na Cova da Iria em 1917, Lúcia, Francisco e Jacinta tiveram no ano anterior três visões de um Anjo. Estas visões permaneceram inéditas até 1937, quando então Lúcia as divulga pela primeira vez, no designado texto Memória II. A narração é mais completa e o texto definitivo das Orações do Anjo é publicado na Memória IV, escrito em 1941. As aparições do Anjo em 1916, foram precedidas por três outras visões, de Abril a Outubro de 1915, nas quais Lúcia e outras três pastorinhas, Teresa Matias, sua irmã Maria Rosa e Maria Justino viram, também no outeiro do Cabeço, e noutros locais, suspensa no ar sobre o arvoredo do vale "uma como que nuvem mais branca que a neve, algo transparente, com forma humana. Era uma figura, como se fosse uma estátua de neve, que os raios do sol tornavam algo transparente".Idem (páginas 29 e 33) A descrição é da própria irmã Lúcia: "Mal tínhamos começado [a rezar o terço], quando, diante de nossos olhos, vemos, como que suspensa no ar, sobre o arvoredo, uma figura como se fosse uma estátua de neve que os raios de sol tornavam algo transparente. — Que é aquilo? — Perguntaram as minhas companheiras, meio assustadas. — Não sei! Continuámos a nossa reza, sempre com os olhos fitos na dita figura que, assim que terminámos, desapareceu".Memórias da Irmã Lúcia I. 14.ª ed. Fátima: Secretariado dos Pastorinhos, 2010, p. 75.

Primeira aparição thumb|left|300px|Lúcia (no meio, aos dez anos de idade) e seus dois primos: Francisco (nove anos) e Jacinta Marto (sete anos) segurando seus rosários (fotografia tirada na altura das aparições). O relato da mais velha dos videntes, Lúcia, descreve assim os acontecimentos: "Andava eu com os meus primos Francisco e Jacinta a cuidar do rebanho e subimos a encosta em procura dum abrigo a que chamávamos a "Loca do Cabeço". Depois de aí merendar e rezar, alguns momentos havia que jogávamos e eis que um vento sacode as árvores e faz-nos levantar a vista para ver o que se passava, pois o dia estava sereno. Então começámos a ver, a alguma distância, sobre as árvores que se estendiam em direcção ao nascente, uma luz mais branca que a neve, com a forma dum jovem, transparente, mais brilhante que um cristal atravessado pelos raios do Sol. À medida que se aproximava, íamos-lhe distinguindo as feições. Estávamos surpreendidos e meios absortos. Não dizíamos palavra. Ao chegar junto de nós, disse: — Não temais. Sou o Anjo da Paz. Orai comigo. E ajoelhando em terra, curvou a fronte até ao chão. Levados por um movimento sobrenatural, imitámo-lo e repetimos as palavras que lhe ouvimos pronunciar: — Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam. Depois de repetir isto três vezes, ergueu-se e disse: — Orai assim. Os Corações de Jesus e Maria estão atentos à voz das vossas súplicas. E desapareceu. A atmosfera do sobrenatural que nos envolveu era tão intensa, que quase não nos dávamos conta da própria existência, por um grande espaço de tempo, permanecendo na posição em que nos tinha deixado, repetindo sempre a mesma oração. A presença de Deus sentia-se tão intensa e íntima que nem mesmo entre nós nos atrevíamos a falar. No dia seguinte, sentíamos o espírito ainda envolvido por essa atmosfera que só muito lentamente foi desaparecendo. Nesta aparição, nenhum pensou em falar nem em recomendar o segredo. Ela de si o impôs. Era tão íntima que não era fácil pronunciar sobre ela a menor palavra. Fez-nos, talvez, também maior impressão, por ser a primeira assim manifesta".Idem (páginas 29 a 30)

Segunda aparição A segunda aparição deu-se no Verão de 1916, sobre o poço da casa dos pais de Lúcia, junto ao qual as crianças costumavam brincar. Assim narra Lúcia: "Fomos, pois passar as horas da sesta à sombra das árvores que cercavam o poço já várias vezes mencionado. De repente, vimos o mesmo Anjo junto de nós. — Que fazeis? Orai! Orai muito! Os Corações de Jesus e Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia. Oferecei constantemente ao Altíssimo orações e sacrifícios. — Como nos havemos de sacrificar? — perguntei. — De tudo que puderdes, oferecei um sacrifício em acto de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores. Atraí, assim, sobre a vossa Pátria, a paz. Eu sou o Anjo da sua guarda, o Anjo de Portugal. Sobretudo, aceitai e suportai com submissão o sofrimento que o Senhor vos enviar. E desapareceu. Estas palavras do Anjo gravaram-se em nosso espírito, como uma luz que nos fazia compreender quem era Deus, como nos amava e queria ser amado, o valor do sacrifício e como Ele Lhe era agradável, como, por atenção a Ele, convertia os pecadores. Por isso, desde esse momento, começamos a oferecer ao Senhor tudo que nos mortificava, mas sem discorrermos a procurar outras mortificações ou penitências, excepto a de passarmos horas seguidas prostrados por terra, repetindo a oração que o Anjo nos tinha ensinado."

Terceira aparição right|thumb|250px|Monumento da autoria de Maria Amélia Carvalheira da Silva erigido na Loca do Cabeço, local da sua 1.ª e 3.ª aparição aos três pastorinhos (Valinhos, Fátima). A terceira aparição ocorreu no fim do Verão ou princípio de Outono de 1916, novamente na "Loca do Cabeço", como descreve Lúcia: "Rezámos aí o terço e (a) oração que na primeira aparição nos tinha ensinado. Estando, pois, aí, apareceu-nos pela terceira vez, trazendo na mão um cálice e sobre ele uma Hóstia, da qual caíam, dentro do cálice algumas gotas de sangue. Deixando o cálice e a Hóstia suspensos no ar, prostrou-se em terra e repetiu três vezes a oração: — Santíssima Trindade, Pai, Filho, Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores. Depois, levantando-se, tomou de novo na mão o cálice e a Hóstia e deu-me a Hóstia a mim e o que continha o cálice deu-o a beber à Jacinta e ao Francisco, dizendo, ao mesmo tempo: — Tomai e bebei o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos. Reparai os seus crimes e consolai o vosso Deus. De novo se prostrou em terra e repetiu connosco mais três vezes a mesma oração: — Santíssima Trindade… etc.. E desapareceu. Levados pela força do sobrenatural que nos envolvia, imitávamos o Anjo em tudo, isto é, prostrando-nos como Ele e repetindo as orações que Ele dizia. A força da presença de Deus era tão intensa que nos absorvia e aniquilava quase por completo. Parecia privar-nos até do uso dos sentidos corporais por um grande espaço de tempo. Nesses dias, fazíamos as ações materiais como que levados por esse mesmo ser sobrenatural que a isso nos impelia. A paz e felicidade que sentíamos era grande, mas só íntima, completamente concentrada a alma em Deus. O abatimento físico, que nos prostrava, também era grande".Idem (página 31 a 33)

Aparições de Nossa Senhora 13 de Maio de 1917 220px|thumb|right|A imagem de Nossa Senhora na Capelinha das Aparições em Fátima.