Balsa da Medusa () é uma pintura a óleo executada entre 1818 e 1819 pelo pintor da época do romantismo e litógrafo Théodore Géricault (1791–1824). Está exposta no Museu do Louvre, Paris, e é considerada um ícone da pintura ocidental.
Obcecado pelo naufrágio da Fragata de Medusa, que inspirou a obra, Géricault chegou a entrevistar sobreviventes, alguns deles forçados ao canibalismo na tragédia.Javier Noriega, La maldición de la Medusa. El naufragio más terrible de Francia, ABC Blogs, 26 de abril de 2014. Consultado em 23 de julho de 2020 Entre os passageiros que teve contato, estavam o engenheiro Alexandre Corréard (que também havia participado da construção da balsa) e o médico cirurgião Jean-Baptiste-Henri Savigny.
A Fragata havia partido da França, e navegava em direção a Senegal, na África, com intenções de colonização do país. Relatos da época afirmam que Géricault teria tido a inspiração para o quadro a partir de uma notícia sobre o naufrágio, ocorrido em 1816. A pintura representa o momento logo após a embarcação começar a afundar, em que a tripulação e os passageiros não conseguiram salvar-se com os botes de emergência. A cena retrata as personagens lutando à deriva.
Pode-se perceber alguns elementos de pintura religiosa pelo conceito e pela montagem dos personagens, que são retratados como consagrados, e até mártires.
Contexto histórico
thumb|upright|140px|Planta de A Balsa da Medusa no momento do resgate por parte de Argus.
Em junho de 1816, a fragata francesa "La Méduse" partiu de Rochefort com destino ao porto senegalês de Saint-Louis. Liderava um comboio doutros três navios: o mercante Loire, o bergantim Argus e a corveta Écho. O visconde Hugues Duroy de Chaumereys fora nomeado capitão da fragata não obstante a falta de experiência de navegação. Após o naufrágio a indignação pública atribuiu de forma equivocada a responsabilidade da sua nomeação como capitão ao rei Luis XVIII, apesar de realmente ter sido uma designação naval rotineira feita internamente no Ministério da Marinha e longe das preocupações do monarca.
A missão da fragata era a de aceitar a devolução de uma parte do Senegal por parte do Reino Unido sob os termos da aceitação francesa da Paz de Paris. Entre os passageiros do navio estava aquele que fora nomeado governador francês do Senegal, o coronel Julien-Désiré Schmaltz, juntamente com a sua esposa e a sua filha. Na tentativa de reduzir o tempo de viagem, a Méduse adiantou-se em relação aos outros navios, mas eventualmente acabou por se desviar do rumo em cerca de 100 milhas. A 2 de julho, encalhou num banco de areia frente à costa oeste da África, perto da Mauritânia. A incompetência de De Chaumereys foi a principal causa da colisão. De Chaumereys era um emigrante francês repatriado que carecia de experiência e capacidade na capitania, mas tinha recebido este cargo como resultado dum acto de ascensão política.
Os esforços para liberar o navio foram em vão, pelo que no dia 5 de julho, a tripulação e os passageiros tentaram nadar as 60 milhas restantes até à costa africana nos seis barcos auxiliares da fragata. Embora a Méduse transportasse 400 pessoas, incluindo 160 tripulantes, os barcos só tinham espaço para cerca de 250 pessoas. A restante tripulação do navio, cerca de 146 homens e uma mulher, amontoaram-se numa jangada feita às pressas, que se submergiu enquanto carregava com todos eles. Dezassete membros da tripulação optaram por permanecer a bordo da Méduse. O capitão e a tripulação a bordo dos barcos auxiliares tentaram rebocar a jangada, mas depois de algumas milhas, esta acabou por ser largada, pois o bote que a trazia estava a se atrasar. A tripulação da jangada só tinha um saco de biscoitos (consumido ao primeiro dia), dois barris de água (que se perderam pela borda fora por causa duma briga) e seis barris de vinho.
Após treze dias de viagem, a 17 de julho de 1816, a balsa foi resgatada pelo "Argus" por fruto do acaso, uma vez que os franceses não levaram a cabo nenhum esforço particular em busca da balsa. Naquele momento só 15 homens estavam vivos, enquanto que os restantes foram assassinados ou lançados pela borda fora pelos seus companheiros, morreram de fome ou lançaram-se eles mesmos ao mar em completo desespero. O incidente tornou-se um escândalo público para a monarquia francesa, que tinha ainda pouco tempo no poder após a derrota definitiva em 1815 de Napoleão I de França.
Investigação e estudos preliminares
thumb|upright=0.6|Estudo da cabeça dum homem afogado, útil para determinar a cor da pele que esteja há muito tempo em contato com a água thumb|upright=0.6|Pintura de membros amputados, usados como modelo para a representação realista do tom muscular dos mortos Géricault ficou fascinado com os relatos do naufrágio e logo percebeu como uma representação do evento poderia ser uma oportunidade para afirmar a sua reputação enquanto pintor. No início de 1818, entrevistou os sobreviventes Henri Savigny e Alexandre Corréard. As emotivas descrições das suas experiências inspiraram em grande medida o tom trágico da pintura. Trabalhou junto com Corréard, Savigny e o carpinteiro da Medusa, Lavillette, para construir um modelo detalhado em escala da balsa, utilizado como um modelo verdadeiro na fase final. Apesar de sofrer de febre, conseguiu fazer várias viagens na costa francesa, particularmente em Le Havre, para testemunhar tempestades e maremotos. Uma visita a vários artistas em Inglaterra deu-lhe a oportunidade de estudar os elementos atmosféricos, inclusive o movimento das ondas, enquanto cruzava o Canal da Mancha.
Obcecado com a precisão histórica e com o objectivo duma representação realista da rigidez cadavérica dos marinheiros mortos na balsa, visitou o obituário do Hospital Beaujon em Paris, para estudar a representação do tom muscular dos mortos, chegando até mesmo a utilizar no seu estudo uma cabeça cortada, que tomou emprestada por duas semanas dum manicómio, e vários membros amputados para estudar o processo de decomposição e para se familiarizar com o desenho dos pacientes moribundos.
A idealização da pintura mostrou ser mais lenta e difícil do que o próprio pintor tinha imaginado e, em particular, a escolha do momento exato a ser imortalizado em tela foi fruto de numerosas reflexões e outros tantos desenhos e esboço para preparação do quadro final. Entre os momentos tidos em consideração na obra, mencione-se o motim contra os oficiais no segundo dia na balsa, a cena de canibalismo e o resgate final. Por fim, Géricault escolheu representar o episódio final, no qual os sobreviventes vêem o barco de resgate Argus no horizonte.
Obra final miniatura|esquerda|Estudo c. 1818-1819, 38cm × 46cm, Louvre.
Géricault, que recentemente se vira forçado a terminar um relacionamento incestuoso com a mulher do seu tio, de quem teve um filho, rapou a cabeça e, desde novembro de 1818 até julho de 1819, levou uma disciplinada vida monástica no seu estúdio em Faubourg du Roule, passando uma ou outra noite fora, alimentando-se com a comida que lhe traziam à porta. Géricault e o seu assistente de 18 anos, Louis-Alexis Jamar, dormiam numa pequena sala adjacente ao estúdio. A sua relação era conflituante e, nalguns momentos mantinham várias discussões. No seu estúdio Géricault trabalhava tão metodicamente e em completo silêncio, que o ruído dum rato era suficiente para interferir com a sua concentração. Trinta anos depois de concluir o trabalho, o seu amigo pintor Antoine-Alphonse Montfort descreve o período de finalização da obra como um verdadeiro exercício de rigor. Para a elaboração da sua obra, utilizou vários amigos como modelos, entre os quais o mais notável foi o pintor Eugène Delacroix, que posou como modelo para a figura no primeiro plano que olha para baixo com um braço estendido. Dois dos sobreviventes da balsa podem ser vistos nas sombras ao pé do mastro, e outras três foram baseadas em Corréard, Savigny e Lavillette. Jamar posou nu para o modelo do rapaz morto que aparece em primeiro plano prestes a cair ao mar, além de servir de modelo para outras duas figuras do quadro.
Apesar da extrema fidelidade aos fatos e ao longo período de pesquisa realizada, Géricault cometeu intencionalmente erros, que se justificaram por uma espécie de licença artística. De acordo com os registos oficiais, o número de passageiros no momento do resgate é inferior do que o retratado na obra e ao invés da manhã ensolarada e das águas calmas relatadas pelas crónicas no dia do resgate, o autor optou por uma atmosfera de tempestade para reforçar o drama
Trabalhando ininterruptamente, o artista completou a pintura em oito meses. Todo o projecto, desde as primeiras etapas da pesquisa até o desenho final, tomou-lhe três anos na elaboração da obra.
De acordo com Hubert Wellington, Delacroix - que se converteu num dos grandes exponentes do romantismo francês após a morte de Géricault - escreveu: "Géricault permitiu-me ver a sua "Balsa da Medusa" enquanto ainda trabalhava nela. Deixou-me uma tremenda impressão tão tremenda em mim que quando saí do estúdio comecei a correr como um idiota e não parei até entrar no meu próprio quarto".
Géricault utilizava pequenos pincéis e óleos viscosos, o que lhe dava pouco tempo para os reutilizar, e secavam num dia. Manteve as cores separadas umas das outras. A sua paleta era constituída por vermelhão, branco, amarelo Nápoles, dois amarelos diferentes ocres, dois ocres vermelhos, siena, rosa, siena queimada, carmim, azul da Prússia, preto, carvão de osso, terra de Cassel e betume. O betume deixa um aspeto brilhante e aveludado quando aplicado pela primeira vez, mas com o tempo perde a sua cor sob a forma de melaço preto, encolhendo e criando uma superfície enrugada que não pode ser renovada. Como resultado, os detalhes em grandes áreas da obra são quase indistinguíveis devido à passagem do tempo.
Géricault esboçou o contorno da composição na tela. Mais tarde, fez com que os seus modelos posassem um a um, completando cada figura antes de passar para a seguinte, em oposição ao método mais comum de trabalhar na composição inteira. Segundo Wintle, a concentração em elementos individuais deu à obra uma "fisicalidade impressionante". Trabalhando com poucas distracções, concluiu a pintura em oito meses, e todo o projecto demorou cerca de 18 meses. 30 anos após a conclusão da obra, o seu amigo Montfort declarou:
Influências A Balsa da Medusa funde muitas influências dos Antigos Mestres: desde o "Juízo Final" e a "Cúpula da Capela Sistina" de Michelangelo, "Transfiguração" de Rafael, à aproximação monumental de Jacques-Louis David e Antoine-Jean Gros aos eventos contemporáneos. A iluminação da pintura é descrita como caravagista e, de acordo com o historiador de arte Richard Muther, a tensão escultórea dos corpos musculosos e saudáveis, constitui um forte legado classicista presente na obra. Muther escreveu que o fato de que a maioria das figuras estão quase nuas surge dum desejo de evitar "costumes não pictóricos", acrescentando que "ainda existe algo de acadêmico nas figuras, que não se parecem suficientemente debilitadas pela privação, doença e pela luta contra a morte". Quando jovem, Géricault pintara várias cópias de Pierre Paul Prud'hon. As "aterradoramente trágicas pinturas" de Pierre, inclusive aquela que se considera a sua obra mestre, "Justiça e a Vingança Divina Perseguem do Crime", que apresenta um escuridão opressora e uma base compositiva dum cadáver nu, também influenciaram fortemente o pintor francês.