O Sonho da Câmara Vermelha ou Hung (Hong) Lou Meng (em ou "O Sonho do Pavilhão Vermelho"; originalmente intitulado em ), é uma obra-prima da literatura chinesa e um dos Quatro Grandes Romances Clássicos () da China. O livro foi escrito em meados do século XVIII, durante a dinastia Qing, e tem sua autoria atribuída a Cao Xueqin (曹雪芹). Esta obra é reconhecida como o ponto mais alto dos romances clássicos chineses. "Vermelhologia" é o campo de estudo dedicado exclusivamente a esta obra. Jonathan Spence, The Search for Modern China (New York: Norton, 1990), 106–110.
O romance circulou em cópias manuscritas com vários títulos até sua impressão em 1791. Enquanto os primeiros 80 capítulos foram escritos por Cao Xueqin, Gao E, que preparou a primeira e segunda edições impressas com seu sócio Cheng Weiyuan em 1791–2, adicionou 40 capítulos ao romance.David Hawkes, "Introduction," The Story of the Stone Volume I (Penguin Books, 1973), pp. 15–19.
Acredita-se que o conteúdo da história seja semi-autobiográfica descrevendo o destino da própria família do escritor e, por extensão, da dinastia Qing.Jonathan D. Spence, Ts'ao Yin [Cao Yin] and the K'ang-Hsi Emperor: Bondservant and Master (New Haven,: Yale University Press, 1966) is a study of Cao's grandfather Como o autor detalha na introdução ao primeiro capítulo, o livro se destina a ser um memorial às meninas que ele conheceu em sua juventude: amigas, familiares e serviçais. O romance é memorável não só pelo seu enorme elenco de personagens (a maioria do sexo feminino) e âmbito psicológico, mas também pela sua precisa e detalhada observação da vida e das estruturas sociais típicas da aristocracia chinesa do século XVIII.
Por causa da inquisição literária prevalecente na China das dinastias Ming e Qing, o livro foi primeiro publicado anonimamente e somente depois atribuída a sua autoria. História do texto A história do texto é complexa, e já foi objeto de muito escrutínio, debate e conjectura.Shang, Wei (2010). "The Literati Era and Its Demise (1723–1840)". In Chang, Kang-i Sun. The Cambridge History of Chinese Literature, Volume II: From 1375. Cambridge: Cambridge University Press. p. 283. ISBN 978-0-521-85559-4. Cao Xueqin, membro de uma eminente família que servira aos imperadores da dinastia Qing mas cuja sorte começara a declinar, começou a escrever a obra durante a década de 1740.Shang, Wei (2010). "The Literati Era and Its Demise (1723–1840)". In Chang, Kang-i Sun. The Cambridge History of Chinese Literature, Volume II: From 1375. Cambridge: Cambridge University Press. pp. 282-83. ISBN 978-0-521-85559-4. Por volta de sua morte em 1763 ou 1764, Cao havia completado os primeiros oitenta capítulos da obra e, possivelmente, havia esboçado os capítulos restantes.Shang, Wei (2010). "The Literati Era and Its Demise (1723–1840)". In Chang, Kang-i Sun. The Cambridge History of Chinese Literature, Volume II: From 1375. Cambridge: Cambridge University Press. p. 282. ISBN 978-0-521-85559-4. Os primeiros oitenta capítulos circularam durante a vida de Cao em manuscritos, primeiramente entre os amigos de Cao e um crescente círculo de fãs, e eventualmente no mercado livre, onde eram vendidos por elevadas somas de dinheiro.Minford, John; Hegel, Robert E. (1986). "Hung-lou meng 紅樓夢". In Nienhauser, William H. The Indiana Companion to Traditional Chinese Literature. Bloomington: Indiana University Press. p. 452. ISBN 0-253-32983-3. A primeira versão impressa, publicada por Cheng Weiyuan e Gao E em 1791, contém edições e revisões não autorizadas pelo autor. David Hawkes, "Introduction," The Story of the Stone Volume I (Penguin Books, 1973), pp. 15–19. É possível que Cao tenha destruído os últimos capítulos, ou que ao menos partes do final original de Cao tenham sido incorporados às versões de 120 capítulos de Cheng-Gao,Maram Epstein, "Reflections of Desire: The Poetics of Gender in Dream of the Red Chamber," Nan Nu 1.1 (1999): 64. com "cuidadosas emendas" de Gao E ao esboço de Cao.Edwards, Louise P. (1994). Men and Women in Qing China: Gender in the Red Chamber Dream. Leiden: Brill. ISBN 9004101233. p. 11, 64. Versões ruges Até 1791, a novela circulou em manuscritos. Mesmo entre os doze manuscritos independentes sobreviventes, existem pequenas diferenças. Os manuscritos mais antigos terminam abruptamente no capítulo oitenta. As versões mais antigas contêm comentários e anotações em tinta preta ou vermelha de comentadores desconhecidos. As observações desses comentadores revelam muito do autor enquanto pessoa, e se acredita agora que muitos deles podem ter sido membros da família de Xueqin. O principal comentador se chama Zhiyanzhai, e revelou muito da estrutura interior da obra e do final original do manuscrito, atualmente perdido. Esses manuscritos, que são as versões mais confiáveis do ponto de vista textual, são conhecidos como "versões ruges" (zhī běn, 脂本).
Os oitenta capítulos iniciais estão cheios de profecias e prenúncios dramáticos que dão pistas de como o livro iria prosseguir. Por exemplo: é óbvio que Lin Daiyu irá, eventualmente, morrer no decurso da novela; que Baoyu e Baochai irão se casar; que Baoyu irá se tornar um monge. Um ramo da vermelhologia chamado tànyì xué (探佚學) é focado na busca do final perdido do manuscrito, baseado nos comentários das versões ruges dos manuscritos e nas dicas fornecidas pelos oitenta capítulos iniciais.
Hoje, muitos manuscritos da novela podem ser encontrados na China e na Europa. O manuscrito Jiaxu (1754) está localizado atualmente no Museu de Xangai; o manuscrito Jimao (1759) está localizado na Biblioteca Nacional da China; o manuscrito Gengchen (1760) está localizado na biblioteca da Universidade de Pequim. A Universidade Normal de Pequim e o Instituto de Estudos Orientais da Academia de Ciências da Rússia em São Petersburgo possuem manuscritos bem anteriores à primeira edição impressa da novela (1791). Versões Cheng-Gao Em 1791, Gao E e Cheng Weiyuan publicaram a primeira edição impressa da novela. Foi, também, a primeira edição "completa" de "A história da pedra", que eles publicaram com o título "Sonho ilustrado da câmara vermelha" (繡像紅樓夢). Enquanto os manuscritos ruges originais tinham oitenta capítulos, a edição de 1791 completou a novela até atingir a marca de 120 capítulos. Os primeiros oitenta capítulos foram editados a partir dos manuscritos ruges, mas os quarenta capítulos restantes eram material inédito.
Em 1792, Cheng e Gao publicaram uma segunda edição corrigindo erros editoriais da versão de 1791. Nos prefácios de 1791, Cheng alegou ter anexado um final baseado nos rascunhos do autor.Edwards, Louise P. (1994). Men and Women in Qing China : Gender in the Red Chamber Dream. Leiden: Brill. ISBN 9004101233. pp. 11, 64.
O debate sobre os quarenta capítulos finais e os prefácios de 1791-2 prosseguem até hoje. Muitos acadêmicos atuais consideram que esses capítulos foram uma adição posterior. Hu Shi, em seu ensaio de 1921 "Provas sobre um sonho da câmara vermelha", defendeu que o final havia sido escrito por Gao E, e citou o prenúncio sobre o destino dos principais personagens no capítulo cinco, que difere do final da versão de 1791 de Cheng-Gao. Entretanto, em meados do século XX, a descoberta de um manuscrito de 120 capítulos bem anterior a 1791 complicou ainda mais as questões relativas à participação de Gao E e Cheng Weiyuan - se eles simplesmente editaram ou realmente escreveram a continuação da novela.Irene Eber, "Riddles in the Dream of the Red Chamber," in Galit Hasan-Rokem, and David Dean Shulman, eds. Untying the Knot : On Riddles and Other Enigmatic Modes (New York: Oxford University Press, 1996), p. 237. Embora não esteja claro se os quarenta capítulos finais do manuscrito descoberto contêm o trabalho original de Cao, Irene Eber disse que a descoberta "parece confirmar a afirmação de Gao e Cheng de que eles apenas editaram o manuscrito completo, composto por 120 capítulos, mais do que realmente escreveram uma parte da novela".
Usualmente, o livro é publicado e lido na versão de 120 capítulos de Gao e Cheng. Algumas edições modernas, como a de Zhou Ruchang, não incluem os quarenta capítulos finais.
Em 2014, três pesquisadores usaram análise de dados de estilos de escrita e disseram que "a aplicação de nosso método à versão de Cheng-Gao de 'O sonho da câmara vermelha' levou a convincentes senão irrefutáveis evidências de que os primeiros oitenta capítulos e os quarenta capítulos finais do livro foram escritos por dois autores diferentes".Xianfeng Hu, Yang Wang, Qiang Wu, "Multiple Authors Detection: A Quantitative Analysis Of Dream Of The Red Chamber" Advances in Adaptive Data Analysis 6.4 October 2014
Sinopse O tema principal gira em torno de um triângulo amoroso entre o personagem principal, Jia Baoyu, que ama sua prima adoentada Lin Daiyu, mas que está predestinado a se casar com outra prima, Xue Baochai. Este triângulo amoroso tem, como pano de fundo, o declínio dos dois ramos do clã (família) Jia (賈): a casa Rongguo (榮國府) e a casa Ningguo (寧國府). Eles residem em dois grandes complexos residenciais na capital. Seus antepassados foram feitos duques e ganharam títulos imperiais. No início do romance, os dois ramos estão entre as mais ilustres famílias na capital. Uma das membras do clã é escolhida consorte real, e um jardim exuberante é construído para receber sua visita. A novela descreve a riqueza e a influência dos Jias com grande detalhamento naturalista, e descreve a queda dos Jias das alturas de sua glória, acompanhando trinta personagens principais e mais de quatrocentos personagens secundários. Eventualmente, o clã Jia cai em desgraça junto ao imperador, e suas propriedades são confiscadas.
Na narrativa moldura da história, uma pedra senciente abandonada pela deusa Nu Kua quando esta havia consertado os céus éons atrás, pede, a um monge taoista e a um monge budista, para levá-la consigo para que ela possa conhecer o mundo. A pedra, com um acompanhante (na versão de Cheng-Gao, ambos se fundem em um único personagem), ganha a chance de aprender com a experiência humana.
O personagem principal é o adolescente despreocupado herdeiro da família, Jia Baoyu. Ele nasceu com um pedaço mágico de "jade" na boca. Ele tem uma ligação especial com sua enfermiça prima Lin Daiyu, com quem divide seu amor por música e poesia. Baoyu, entretanto, é predestinado a se casar com outra prima, Xue Baochai, cuja graça e inteligência se encaixam no conceito de mulher ideal chinesa. Porém Jia Baoyu não tem nenhuma conexão emocional especial com Xue Baochai. A rivalidade amorosa e a amizade entre os três personagens, com o pano de fundo da decadência do prestígio de suas famílias, compõe a principal história da novela.Complete review. Disponível em http://www.complete-review.com/reviews/orientalia/tsots.htm. Acesso em 29 de julho de 2018. 180px|esquerda|thumb|Uma cena da história, ilustração de Xu Baozhua (1810–1873). Personagens "O sonho da câmara vermelha" contém um número extraordinário de personagens: os personagens principais somam quase quarenta, e existem mais de quatrocentos personagens adicionais.Yang, Weizhen; Guo, Rongguang (1986). 《红楼梦》辞典. 山东文艺出版社. Introduction. There are entries for 447 named characters. ISBN 7-5329-0078-9. A novela também é conhecida pelos complexos retratos de seus muitos personagens femininos.Helen Tierney (1999). Women's studies encyclopedia, Volume 1. Greenwood Publishing Group. p. 247. ISBN 0-313-31071-8. De acordo com Lu Xun no apêndice de "Uma breve história da ficção chinesa", "O sonho da câmara vermelha" quebrou todos os pensamentos e técnicas concebíveis na ficção chinesa tradicional; suas caracterizações realistas apresentam personagens que não são "nem inteiramente bons, nem inteiramente maus", e que parecem habitar o mundo real.Chen Weizhao (陈维昭), Hongxue Tongshi (红学通史, "A History of Redology"). Shanghai: Shanghai People's Publishing House, 2005. ISBN 7208057885. pp. 1–2. Jia Baoyu e as Doze Beldades de Jinling