thumb|308px|Imagem de satélite do vale de Fergana
thumb|308px|Mapa simplifciado do vale
thumb|308px|O rio Sir Dária perto de Cujanda, Tajiquistão
O vale de Fergana (; , pronúncia ; ; ; ), ou simplesmente Fergana, é uma região fértil e histórica da Ásia Central que se estende por cerca de no leste do Usbequistão, sul do Quirguistão e norte do Tajiquistão. É limitado a norte pela cordilheira de (parte do Tian Shan) e a sul pela de Alai, ambas parte do Pamir. Tem aproximadamente 300 km de comprimento por 70 km de largura e é habitado por aproximadamente dez milhões de pessoas, um quinto da população total da Ásia Central. É a região mais densamente povoada daquela parte do mundo.
Dividido entre três antigas repúblicas soviéticas, o vale é habitado por várias etnias e no início do foi palco de conflitos étnicos. É de forma aproximadamente triangular e situa-se numa parte em geral árida da Ásia Central. Deve a sua grande fertilidade aos rios Kara Darya e Naryn, que nascem nas montanhas Tian Shan e confluem junto a Namangã para formarem o Sir Dária. A história da região remonta a ao , quando foi conquistada por invasores greco-bactrianos vindos de ocidente.
Segundo os cronistas chineses, as cidades do vale foram fundadas há mais de anos e foram um elo de ligação entre as civilizações chinesa, grega, bactriana e parta. Ali nasceu Babur , o fundador do Império Mogol, que uniu politicamente o vale ao que é hoje o Afeganistão e a Ásia Meridional. A região foi conquistada pelo Império Russo no final do e passou a fazer parte da União Soviética na década de 1920. As suas três repúblicas soviéticas tornaram-se independentes em 1991. A população é maioritariamente muçulmana e é etnicamente usbeque, tajique e quirguiz, frequentemente misturada e habitando áreas que não seguem as fronteiras políticas modernas. Historicamente há minorias importantes de russos, casgares, quipechaques, judeus bukharan e ciganos.
A cultura extensiva de algodão, introduzida pelos soviéticos no , continua a ser a principal atividade económica, a par duma ampla variedade de cereais, fruta e hortaliças. Há uma longa tradição de pecuária, curtumes e em anos mais recentes registou-se um crescimento do setor mineiro, nomeadamente na exploração de carvão, ferro, enxofre, gipsita, halita, nafta algumas pequenas reservas de petróleo.
Nomes O topónimo é por vezes transliterado como Fargana, Farghana e Ferghana. Noutras línguas regionais é: , , , Ferğana öröönü, , , Vodiyi Farğona / Vodiji Farƣona , Ferganskaja dolina , Vâdiye Ferqâna , Xiao'erjing: em dungano:
Geografia e geologia O vale de Fergana é uma depressão entre montanhas na Ásia Central situado entre as cordilheiras de Tian Shan e de . Ocupa aproximadamente , ao longo de cerca de 300 km de comprimento e 70 km de largura. A sua localização torna-a uma região geográfica separada.
A fertilidade da região deve-se aos dois principais rios do vale, o Kara Darya e o Naryn, cuja confluência, perto de Namangã, forma o Sir Dária. Estes rios têm numerosos afluentes no vale, nomeadamente o Sokh. Os cursos de água e os seus afluentes que nascem nas montanhas, além de abastecerem água para irrigação, trazem também vastas quantidades de areia, que se deposita ao longo dos leitos, especialmente no trecho do Sir Dária que atravessa a cumeada Cujanda-Ajar para formar o vale, onde existe uma vasta área de areias movediças que cobre cerca de onde sopram ventos de sudoeste.
A parte central da depressão que forma o vale é caraterizado por blocos de subsidência, originalmente com profundidades entre 6 e 7 km, em grande parte enchidos com sedimentos cuja idade chega a remontar à extinção do Permiano-Triássico (cerca de 252 milhões de anos). Alguns dos sedimentos são carbonatos marinhos e argilas. As falhas geológicas são cavalgamentos. Os anticlinais associados a estas falhas formam depósitos de petróleo e gás natural, que foram descobertos em 52 pequenos campos petrolíferos.
Clima O clima do vale é seco e quente. Em março, a temperatura máxima média é 20 °C, subindo rapidamente para 35 °C em junho, julho e agosto. Durante os cinco meses a seguir a abril, há muito pouca precipitação, mas aumenta em frequência a partir de outubro. Em dezembro e janeiro, quando ocorre neve e gelo, a temperatura chega a descer aos -20 °C.
História Fergana está na rota por ocidente para a bacia do Tarim, na China, e foi zona fronteiriça de vários impérios da Antiguidade Clássica.
Império Aqueménida No final do , as partes ocidentais do vale de Fergana faziam parte de Soguediana, a qual era governada desde ocidente e no reinado de Dario, o Grande estava dependente do Império Aqueménida. A independente e aguerrida Soguediana formou uma região fronteiriça que isolava os persas aqueménidas dos nómadas citas a norte e a leste.
A Rocha de Soguediana, uma fortaleza em Soguediana, foi capturada em pelas tropas de Alexandre; depois duma extensa campanha para acabar com com a resistência soguediana e da criação entrepostos militares guarnecidos por gregos veteranos, Alexandre uniu Soguediana e a Báctria numa única satrapia.
Cidade helenística thumb|upright=0.6|Parte da
Em , Alexandre, o Grande fundou a cidade grega de Alexandria Escate ("a mais longínqua"), na parte sudoeste do vale de Fergana, na margem sul do rio Sir Dária (antigo Jaxartes em grego), onde atualmente se situa Cujanda, no Tajiquistão. Mais tarde, a cidade foi governada pelos selêucidas, antes da secessão da Báctria.
Depois de , é provável que a cidade tivesse mantido contacto com o Reino Greco-Báctrio, centrado na Báctria, especialmente quando o rei greco-bactriano Eutidemo estendeu o seu controlo sobre Soguediana. Há indicações que a partir de Alexandria Escate foram lançadas expedições até locais como Casgar e Ürümqi, no Turquestão chinês, conduzindo aos primeiros contactos entre a China e o Ocidente circa A norte das montanhas Tian Shan, na soleira da China, foram encontradas várias estatuetas e outras representações de soldados gregos, que estão atualmente em exposição no Museu de Xinjiang em Ürümqi, nomeadamente a Acerca dos greco-bactrianos, Estrabão escreveu «estenderam o seu império até sítios tão longínquos como os dos seres (chineses) e dos ».
A área de Fergana, chamada país dos ou taiuãs pelos chineses, permaneceu uma parte integral do reino greco-bactriano até depois do reinado de Demétrio I da Báctria ; circa foi confrontado pelos iuechis pelo oriente e pelos citas sacas a sul. Depois de , os iuechis foram empurrados para Fergana pelos seus vizinhos do norte e de leste. Os iuechis invadiram a civilização urbana dos daiuãs em Fergana e acabaram por se fixar na margem norte do rio Amu Dária, na região da Transoxiana, no que é hoje o Tajiquistão e Usbequistão, imediatamente a norte do Reino Greco-Báctrio. A cidade grega de Alexandria no Oxo parece ter sido completamente queimada pelos iuechis cerca de . Empurrados por estas forças gémeas, o Reino Greco-Báctrio recentrou-se em volta de territórios que atualmente ficam no Afeganistão, ao passo que os novos invasores foram parcialmente assimilados pela cultura helenística que subsistiu no vale de Fergana.
Dinastia Han Na obra Shiji (Memórias Históricas), baseada nas viagens de Zhang Qian e publicada cerca de , a região de Fergana aparece como o país dos daiuãs, possivelmente descendentes de colonos gregos (dayuan pode ser uma transliteração de "gregos jónicos"). A região foi famosa pelos seus "", que os chineses tentaram obter dos daiuãs sem grande sucesso até terem empreendido contra eles em
Os daiuãs era descritos pelos chineses como tendo caraterísticas incomuns e com uma civilização urbana sofisticada, similar à dos bactrianos e partos — «O Filho do Céu ao ouvir tudo isso raciocinou assim: Fergana (Daiuã) e as possessões da Báctria e da Pártia são grandes países, cheios de coisas raras, com uma população que vive em residências fixas, dada a ocupações de certa forma forma idênticas às do povo chinês, mas com exércitos fracos, e dão muita importância aos ricos produtos da China» ( [Livro dos últimos Han]; ).
As atividades agrícolas dos daiuãs relatadas por Zhang Qian incluíam o cultivo de cereais e uvas para fazer vinho. A área de Fergana foi palco da primeira interação importante entre uma cultura urbanizada falante duma língua indo-europeia e a civilização chinesa, o que levou à criação da Rota da Seda a partir do
Os territórios dos daiuãs foram conquistados pelos chineses durante a Guerra dos Cavalos Celestes, tendo ali sido instalado um regime chinês. Mais tarde, os Tang criaram o Protetorado das Regiões Ocidentais.
Cuchanas thumb|Mapa das antigas cidades da Báctria. Fergana, no canto superior direito, formava uma periferia daquelas cidades e estados menos poderosos.
O Império Cuchana foi formado pelos mesmos iuechis que tinha conquistado a Fergana helenística. Os cuchanas espalharam-se a partir do da confederação iuechi nos territórios da antiga Báctria em ambos os lados do curso médio do rio Oxo (Amu Dária) no que é hoje o Afeganistão, sul do Tajiquistão e Usbequistão. Os cuchanas conquistaram a maior parte do que é atualmente norte da Índia e o Paquistão, avançando para leste a partir de Fergana. O poderio cuchana também consolidou o comércio a longa distância, ligando a Ásia Central tanto à China Han como ao Império Romano.
Sassânidas Os cuchanas governaram a região como uma parte do seu império até ao , quando o império persas zoroastrista Sassânida invadiu os territórios cuchanas a partir de sudoeste. Fergana trocou várias vezes de mãos entre governantes locais e transoxianos a partir daí. Em alguns períodos nos séculos IV e V, o Império Sassânida controlou diretamente a Transoxiana e Fergana, na sequência das conquistas de e aos cuchanas e aos heftalitas.
Heftalitas, goturcos e Dinastia Tang O domínio sassânida de Fergana foi interrompido pelos heftalitas. Por sua vez, estes foram suplantados pelos goturcos em meados do . Os goturcos dominaram a região, ou parte dela, até ao primeiro quartel do . Seguiu-se um período de domínio da Dinastia Tang, durante o qual a região integrou o Protetorado das Regiões Ocidentais, que durou de 659 a 790.
Domínio islâmico Durante o , Fergana assistiu a confrontos entre a Dinastia Tang chinesa e a expansão do poderio islâmico, que originou a Batalha de Talas em 751, que terminou com a vitória dos muçulmanos e provocou o abandono da Ásia Central por parte da China. Nas batalhas precedentes, ocorridas em 715 e 717, os chineses tinham prevalecido sobre as forças árabes e turcas. A seguir à vitória de Talas, Fergana teve uma série de governantes muçulmanos árabes, persas e mais tarde túrquicos.
O Império Samânida, surgido no início do , avançou para o que então era chamado Grande Coração (Khorasan), que incluía a Transoxiana e o vale de Fergana, a partir de ocidente. Em 819, , governador do Grande Coração nomeado pelo califa abássida Almamune, deu a autoridade sobre a cidade de Fergana a Amade ibne Açade, filho de Açade ibne Samane e neto do fundador da dinastia samânida, como recompensa pelo seu apoio contra o rebelde Rafi ibne Alaite. A seguir à morte do seu irmão Nu ibne Açade, que governou em Samarcanda, a autoridade desta cidade foi dada a Amade e a outro irmão, Iáia ibne Açade, pelo governador de Coração. Quando Amade morreu, em 864 ou 865, era o governante da maior parte da Transoxiana, Bucara e Corásmia. Samarcanda e Fergana ficaram nas mãos do seu filho .
Quando a dinastia samânida sucumbiu, o vale de Fergana foi conquistado pelo Canato Caracânida. A parte oriental do vale esteve depois sob a suserania do Canato Caraquitai. O domínio caracânida durou até 1212, quando o Império Corásmio conquistou a parte ocidental do vale.
Domínio mongol-turcomano