thumb|Cabeça gravemente danificada do Monumento a Stalin em Budapeste durante a Revolução Húngara de 1956

A desestalinização () compreendeu uma série de reformas políticas na União Soviética após a morte do líder de longa data Josef Stalin, em 1953, e o degelo provocado pela ascensão de Nikita Khrushchov ao poder, além de seu discurso de 1956, "Sobre o culto à personalidade e suas consequências", que denunciou o culto à personalidade de Stalin e o sistema político stalinista.

Monumentos dedicados a Stalin foram removidos, seu nome foi retirado de lugares e edifícios, o hino nacional foi alterado e seu corpo foi retirado do Mausoléu de Lenin (conhecido como Mausoléu de Lenin e Stalin entre 1953 e 1961) e sepultado. Essas reformas foram iniciadas pela liderança coletiva que o sucedeu após sua morte, em 5 de março de 1953, formada por Geórgiy Malenkov, presidente do Conselho de Ministros da União Soviética; Lavrenti Beria, chefe do Ministério do Interior; e Nikita Khrushchov, primeiro-secretário do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética (PCUS).

Questões terminológicas O termo desestalinização ganhou uso corrente tanto na Rússia quanto no mundo ocidental após a dissolução da União Soviética, mas nunca foi usado durante a era Khrushchov. No entanto, os esforços de desestalinização foram empreendidos nessa época por Khrushchov e pelo Governo da União Soviética sob a designação de "superação/exposição do culto à personalidade", acompanhados de fortes críticas à "era do culto à personalidade" de Josef Stalin. Contudo, antes do "Discurso Secreto" de Khrushchov ao XX Congresso do Partido, nenhuma associação direta entre Stalin como pessoa e o "culto à personalidade" havia sido feita publicamente por Khrushchov ou por outros membros do partido, embora documentos de arquivo revelem que fortes críticas a Stalin e ao stalinismo apareceram em discussões privadas de Khrushchov no Presidium do Soviete Supremo da União Soviética.

Desestalinização silenciosa A desestalinização significou o fim do papel do trabalho forçado em larga escala na economia. O processo de libertação dos prisioneiros do Gulag foi iniciado por Lavrenti Beria. Ele foi afastado do poder, preso em 26 de junho de 1953 e executado em 23 de dezembro de 1953. Posteriormente, ocorreu um período de "desestalinização silenciosa", pois a revisão das políticas de Stalin foi realizada em segredo e, muitas vezes, sem explicação. Havia riscos em denunciar Stalin, uma vez que ele havia sido colocado em um pedestal tanto internamente quanto entre comunistas no exterior. Esse período testemunhou várias reabilitações políticas não divulgadas, de pessoas e grupos como o marechal Mikhail Tukhatchevski, os membros do Politburo Robert Eikhe e Jānis Rudzutaks, os executados no Caso Leningrado, e a libertação dos condenados com base no "Artigo 58". No entanto, devido ao enorme fluxo de prisioneiros que retornavam dos campos — 90 mil somente em 1954–1955 —, isso não pôde continuar.

Anastas Mikoyan, aliado próximo de Khrushchov, desempenhou papel significativo no início do processo de desestalinização. Em março de 1954, pediu a reabilitação do poeta Yełishe Charents, vítima dos expurgos, em um discurso em Erevã, na sua Armênia natal. Posteriormente, teve papel de liderança na reabilitação de presos políticos e trabalhou com Lev Shaumyan — filho do revolucionário bolchevique Stepán Shaumián — e com os egressos do Gulag Alexei Snegov e Olga Shatunovskaya para convencer Khrushchov da necessidade de denunciar Stalin. Em dezembro de 1955, Khrushchov propôs a criação de uma comissão para investigar as atividades de Stalin em nome do Presidium. A investigação concluiu que, das 1.920.635 pessoas presas por atividades antissoviéticas, 688.503 (35,8%) foram executadas.

Discurso Secreto de Khrushchov

thumb|O kulcie jednostki i jego następstwach, Varsóvia, março de 1956, primeira edição do Discurso Secreto, publicada para uso interno do Partido Operário Unificado Polaco Embora a desestalinização já estivesse ocorrendo silenciosamente desde a morte de Stalin, o acontecimento decisivo foi o discurso de Khrushchov, "Sobre o culto à personalidade e suas consequências", a respeito de Stalin. Em 25 de fevereiro de 1956, a desestalinização tornou-se oficial quando ele discursou em uma sessão fechada do XX Congresso do Partido do Partido Comunista da União Soviética, apresentando alguns dos crimes de Stalin e as "condições de insegurança, medo e até desespero" criadas por ele. Khrushchov chocou seus ouvintes ao denunciar o governo ditatorial de Stalin e seu culto à personalidade como incompatíveis com a ideologia comunista e do partido. Entre outros pontos, condenou o tratamento dado aos velhos bolcheviques, pessoas que haviam apoiado o comunismo antes da revolução e muitas das quais Stalin executou como traidoras. Khrushchov também atacou os crimes cometidos por associados do chefe do NKVD, Lavrenti Beria.

Motivação Uma das razões apontadas para o discurso de Khrushchov foi sua consciência moral; Alexander Soljenítsin afirmou que Khrushchov falou a partir de um "movimento do coração". Os comunistas acreditavam que isso impediria uma perda fatal de confiança em si próprios e restauraria a unidade dentro do partido.

O historiador Martin McCauley argumenta que o objetivo de Khrushchov era "libertar os funcionários do partido do medo da repressão". Khrushchov sustentava que, se o partido se tornasse um mecanismo eficiente, livre do abuso brutal de poder por qualquer indivíduo, poderia transformar a União Soviética e também o mundo inteiro.

Outros, porém, sugeriram que o discurso foi feito para desviar a culpa do Partido Comunista ou dos princípios do Marxismo-leninismo e colocá-la inteiramente sobre os ombros de Stalin, impedindo assim um debate mais radical. A publicação do discurso levou muitos membros do partido a renunciar em protesto, tanto no exterior quanto dentro da União Soviética.

Ao atacar Stalin, argumenta McCauley, Khrushchov minava a credibilidade de Viatcheslav Molotov, Geórgiy Malenkov, Lazar Kaganovich e de outros adversários políticos que haviam pertencido ao "círculo íntimo de Stalin" na década de 1930 em grau maior do que ele próprio. Se eles não "passassem para o lado de Khrushchov", "corriam o risco de ser banidos junto com Stalin" e associados ao seu controle ditatorial.

Por outro lado, o historiador A. M. Amzad argumenta que o discurso foi "deliberado" e "concebido para determinar o destino político de Khrushchov", pois, segundo ele, iniciativas necessárias já haviam sido tomadas "para resolver os males da ditadura de Stalin".

Reações O discurso é central para o período de liberalização conhecido como "Degelo de Kruschev" no bloco soviético e para o processo de desestalinização. Ele foi citado como uma das principais causas da Ruptura sino-soviética de 1961 a 1989 pela China — sob a liderança de Mao Tsé-Tung — e pela Albânia — sob o primeiro-secretário Enver Hoxha —, que condenavam Khrushchov como revisionista. Em resposta, formaram o movimento antirrevisionista, criticando a liderança pós-Stalin do Partido Comunista da União Soviética por supostamente se desviar do caminho de Lenin e Stalin. Na Coreia do Norte, facções do Partido dos Trabalhadores da Coreia tentaram, sem sucesso, remover o presidente Kim Il-sung em agosto de 1956, após criticá-lo por não "corrigir" seus métodos de liderança, por desenvolver um culto à personalidade, por distorcer o "princípio leninista da liderança coletiva e da legalidade socialista" — isto é, recorrer a prisões arbitrárias e execuções de adversários políticos — e por utilizarem outras críticas ao Stalinismo da era Khrushchov contra as ações de Kim Il-sung. Posteriormente, foram expurgadas e executadas.

Mudanças Prisões A anistia de 1953 e os posteriores processos de reabilitação deram início à libertação da maioria dos prisioneiros. Ex-presos políticos frequentemente enfrentavam hostilidade arraigada ao retornarem, o que dificultava sua reintegração à vida normal. Em 25 de outubro de 1956, uma resolução do PCUS declarou "inconveniente" a existência do sistema de trabalho do Gulag. A instituição do Gulag foi encerrada pela ordem n.º 020 do Ministério do Interior (MVD), de 25 de janeiro de 1960.

Para os que permaneceram presos, Khrushchov tentou tornar menos severo o sistema de trabalho do Gulag, permitindo que os prisioneiros enviassem cartas às famílias e que familiares lhes remetessem roupas, algo que não era permitido sob Stalin.

Renomeação de lugares e edifícios Khrushchov renomeou ou restaurou os nomes de muitos lugares que levavam o nome de Stalin, incluindo cidades, territórios, monumentos e outras instalações. O Hino nacional da União Soviética teve removidas as referências a Stalin, assim como os hinos das repúblicas soviéticas. Os versos centrados em Stalin e na Segunda Guerra Mundial foram efetivamente suprimidos quando uma versão instrumental passou a substituí-los. O Palácio da Cultura e Ciência Josef Stalin, em Varsóvia, na Polônia, foi renomeado em 1956. O Pico Stalin, ponto mais alto da União Soviética, foi renomeado Pico Comunismo. Após a dissolução da União Soviética, a montanha passou a se chamar Pico Ismail Samani. Na Alemanha Oriental, Stalinstadt foi renomeada Eisenhüttenstadt em 1961. Em Moscovo, a estação Stalinskaia do Metropolitano de Moscovo foi renomeada Semionovskaia.

Remoção de monumentos thumb|A estátua de Stalin em Erevã foi removida em 1962 e substituída pelo monumento Mãe Armênia em 1967. Na sequência dessas renomeações públicas, o governo soviético desmantelou centenas de monumentos a Stalin em toda a União Soviética. Por exemplo, o monumento a Stalin na capital armênia, Erevã, foi removido na primavera de 1962 e substituído pelo monumento Mãe Armênia em 1967. Vários outros monumentos foram desmontados ou destruídos em todo o Bloco de Leste. Em novembro de 1961, a grande estátua de Stalin na monumental Stalinallee, em Berlim — logo depois renomeada Karl-Marx-Allee — foi removida em uma operação clandestina. O monumento de Budapeste foi destruído em outubro de 1956. O maior de todos, o monumento de Praga, foi demolido em novembro de 1962.

Relocação do corpo de Stalin O processo de desestalinização atingiu seu auge em 1961, durante o XXII Congresso do PCUS. Dois atos culminantes marcaram as reuniões: primeiro, em 31 de outubro de 1961, o corpo de Stalin foi transferido do Mausoléu de Lenin, na Praça Vermelha, para a Necrópole da Muralha do Kremlin; segundo, em 11 de novembro de 1961, a "cidade-herói" Stalingrado foi renomeada Volgogrado.

Mudanças na política externa após Stalin Após a era Stalin, Khrushchov definiu a política externa soviética durante a Guerra Fria. A maior mudança na política externa dizia respeito às "nações não comprometidas". Segundo os soviéticos, havia dois tipos de neutralidade: a ideológica e a circunstancial. Muitas das nações neutras pertenciam a ambos os grupos e eram antigas colônias de potências europeias. Durante Stalin, não havia espaço para países neutros, e a ideia de potências neutras surgiu sob Khrushchov. A maior contribuição de Khrushchov à política externa foi aproveitar outros aspectos da desestalinização para tentar mostrar ao mundo uma União Soviética diferente, mais alinhada aos ideais socialistas tradicionais da era de Lenin.

Extensão da desestalinização Historiadores contemporâneos consideram o início da desestalinização um ponto de inflexão na história da União Soviética, iniciado durante o Degelo de Kruschev. O processo de desestalinização estagnou durante a era Brejnev até meados da década de 1980 e voltou a acelerar com as políticas de perestroika e glasnost sob Mikhail Gorbatchov.