Wilton House é um palácio rural inglês situado em Wilton, próximo de Salisbury, no Wiltshire. Foi a sede rural dos Condes de Pembroke por mais de 400 anos.

O primeiro edifício registado no lugar onde se ergue a Wilton House foi um priorado fundado pelo Rei Egberto cerca de 871. Mais tarde, devido à magnificência do Rei Alfredo, foram concedidas terras e solares a este priorado até este se tornar numa poderosa e rica abadia. No entanto, quando a Abadia Wilton foi dissolvida, durante a Dissolução dos Mosteiros pelo Rei Henrique VIII de Inglaterra, a sua prosperidade já estava em declínio — depois da confiscação da abadia, o Rei Henrique VIII ofereceu-a com as suas propriedades William Herbert, 1º Conde de Pembroke (na criação de 1551) por volta do ano 1544.

História e arquitectura William Herbert William Herbert, o descendente duma distinta família das marcas galesas, foi um favorito do rei. Na sequência duma recomendação ao Rei Henrique VIII feita pelo Rei Francisco I de França, a quem Herbert havia servido como mercenário, foram-lhe concedidas armas apenas dois anos depois. Regressando a Inglaterra cerca de 1543, Herbert casou com Anne, filha de Sir Thomas Parr, de Kendal, e irmã da última rainha de Henrique VIII, Catherine Parr. A concessão duma propriedade como a Abadia de Wilton a Herbert foi uma honra e uma evidência da sua posição na corte.

Herbert começou imediatamente a transformar a abadia abandonada numa refinada casa e símbolo da sua riqueza. Chegou a pensar-se que a velha abadia havia sido completamente demolida; no entanto, na sequência de renovações ocorridas após a Segunda Guerra Mundial, foram encontrados vestígios do antigo edifício religioso nos níveis mais baixos das paredes existentes.

Hans Holbein

Tem sido afirmado desde há muito, embora sem provas, que Hans Holbein, o Jovem, redesenhou a abadia numa casa rectangular em volta dum pátio central, que é o coração do palácio actual. Holbein faleceu em 1543, pelo que o seu desenho para a nova casa deveria, de facto, ter sido executada muito rapidamente. No entanto, o grande pórtico de entrada do novo palácio, removido do edifício e, mais tarde, transformado num pavilhão de jardim no século XIX, é conhecido até hoje como the "Holbein Porch" ("Pórtico Holbein") — um exemplo perfeito da mistura entre o velho estilo gótico e o novo estilo renascentista. Em todo o caso, se não foi feito por Holbein, deve-se certamente à mão dum grande mestre.

Quem quer que tenha sido o arquitecto, foi erguido um grande palácio. Actualmente, apenas uma outra parte do solar Tudor sobrevive: a grande torre no centro da fachada leste. Com o seu arco central (que em tempos dava acesso ao pátio mais além) e três pisos de janelas salientes por cima, a torre lembra vagamente a entrada do Hampton Court Palace. Flanqueda actualmente por duas alas num claro estilo georgiano — cada uma delas limitada por uma torre-pavilhão italianizada — esta peça central Tudor da fachada não aparece como um elemento incongruente, mostrando apenas a aparência aceite dum grande palácio rural inglês, a qual tem evoluido ao longo dos séculos.

Inigo Jones

O edifício Tudor construído por William Herbert, 1º Conde de Pembroke (1506–1570) em 1551 estava destinado a durar apenas oitenta anos. Quando Philip Herbert sucedeu como 4º Conde de Pembroke, em 1630, decidiu demolir a ala sul e erguer um novo complexo de salas de aparato no seu lugar. É então que surge o segundo grande nome associado a Wilton House: o de Inigo Jones.

A arquitectura da frente sul apresenta um severo estilo palladiano, descrito na época como "Estilo Italiano"; construida em pedra local, suavizada por arbustos escalados, é a quintessência da cultura inglesa aos nossos olhos de hoje. Enquanto o resto do palácio apresenta três pisos de igual valor em estilo inglês, a fachada sul tem um piso térreo rusticado, quase sugerindo uma meia-cave. Três pequenos portais projectados apenas neste nível, um ao centro e um em cada extremo da fachada, providenciando pequenas varandas às janelas situadas acima. O piso seguinte é o piano nobile (andar nobre), cujo centro apresenta a grande janela veneziana de altura dupla, ornamentada no segundo nível com as armas dos Pembroke em relevo de pedra. Esta janela central é flanqueada por quatro altas janelas de guilhotina de cada lado. Estas janelas têm baixos frontões planos. Cada extremo da fachada é definida por decoração com "pedra de esquina", dando a sensação que as alas de secção única se projectam para fora. Aqui, as janelas simples são encimadas por um verdadeiro frontão apontado. Sobre este piso existe um outro, quase um mezzanino, com as suas pequenas janelas sem frontão alinhadas com as mais largas situadas abaixo, servindo para enfatizar a importância do piano nobile. A linha de telhados é escondida por uma balaustrada. Cada uma das "alas" terminais é coroada por uma torre de piso único com frontão, lembrando um pavilhão palladiano. Deve ser lembrado que este estilo era uma revolução na arquitectura inglesa da época: uns meros trinta anos antes Montacute House havia sido construida num incrível estilo novo e tinha passado apenas um século desde a conclusão da massa justaposta de alas não planeadas que forma Compton Wynyates.

A atribuição das várias etapas arquitectónicas pode ser difícil e o grau de envolvimento de Inigo Jones tem sido questionado. A Rainha Henriqueta Maria, uma convidada frequente em Wilton, interrogou Jones sobre o seu trabalho ali. Na época (1635), o arquitecto foi empregado por ela com o intuito de completar a Queen's House, em Greenwich. Parece que nesse tempo Jones estava demasiado ocupado com os seus clientes reais e não fez mais que providenciar alguns esboços para este palácio, tendo delegado a sua execução num assistente, Isaac de Caus (por vezes chamado "Caux"), um francês e jardineiro paisagista de Dieppe.

Um documento que Howard Colvin encontrou na biblioteca do Worcester College, em Oxford, na década de 1960, não só confirmou de Caus como o arquitecto de Wilton House, mas também que o plano original para a fachada sul previa mais do dobro do comprimento daquela que foi construida; o que podemos ver hoje foi pensado, apenas, como uma das duas alas idênticas ligadas por um pórtico central de seis colunas coríntias. O conjunto era para ser realçado por um grande parterre, cujas dimensões seriam de 1000 por 400 pés. Este parterre foi, de facto, criado e existiu por mais de 100 anos. No entanto, a segunda ala acabou por não se materializar — talvez, por causa da briga do 4º Conde de Pembroke com o Rei Carlos I, e consequente queda de favores, da eclosão da Guerra Civil, ou simplesmente por falta de finanças.

Deve ter sido só então que Inigo Jones tomou um firme domínio nas suas ideias originais. Vendo a ala completa de De Caus erguida como um todo, esta era condiderada demasiado plana — o plano original de De Caus previa que a gigantesca fachada tivesse um telhado pouco inclinado, com alas acabando sem símbolos arquitectónicos de término. As modificações à ala concluida consistiram numa balaustrada ocultando a fraca linha de telhados e torres em forma de pavilhões italianos em cada extremo. O ponto focal acabou por ser não um pórtico, mas a grande janela veneziana de dupla altura. Esta fachada sul tem sido considerada como um triunfo arquitectónico da arquitectura palladiana britânica e crê-se largamente que as modificações finais ao trabalho de De Caus foram executadas pelo próprio Inigo Jones.

Em 1647, poucos anos depois da conclusão da nova ala sul, esta foi danificada pelo fogo. A gravidade do incêndio e a devastação que causou são, agora, matéria de alguma disputa. O historiador de arquitectura Christopher Hussey tem defendido convictamente que não terá sido tão severo como alguns registos têm sugerido. O que é certo é que Inigo Jones trabalhou, então, com um outro arquitecto, John Webb (o sobrinho da sua esposa), regressando novamente a Wilton. Devido incerteza sobre os danos na estrutura da casa causados pelo fogo, o único trabalho que pode ser atribuído sem qualquer dúvida à nova parceria é o redesenho do interior das sete salas de aparato contidas no piano nobile da ala sul; e mesmo aqui, a extensão da presença de Jones é questionada. Parece que este terá dado conselhos à distância, usando Webb como seu intermediário.

Salas de aparato

As sete salas de aparato contidas por trás da bastante simples frente sul maneirista de Wilton House são semelhantes a às de qualquer uma das grandes casas britânicas. As salas de aparato nos palácios rurais ingleses raramente eram usadas, ficando reservadas apenas para o uso pelos mais importantes convidados da casa, frequentemente um monarca e a sua consorte ou outro membro de Estado de elevado estatuto, o que justifica o nome State Rooms (Salas de Estado), pelo qual são conhecidas em Inglaterra. Existem quase sempre num número ímpar pela seguinte razão: no entro da fachada, encontrava-se a sala maior e mais luxuosa (em Wilton, a famosa Double Cube Room), que era um local de encontro para a corte do convidado homenageado. Dispostas simetricamente a partir da sala central para cada um dos extremos ficavam frequentemente dois conjuntos de salas mais pequenas, embora ainda bastante grandes, para uso exclusivo do ocupante da última sala em cada extremo da fachada — o quarto de aparato (ou state bedroom). As salas menores (mas mesmo assim enormes) intermédias seriam usadas para audiências privadas, como sala de recolhimento e sala de vestir. Eram apenas parte do conjunto do quarto e não serviam para uso público.

Actualmente, na maior parte das casas inglesas essas salas tornaram-se numa sucessão sem sentido de salas de estar, perdendo-se a sua intenção original; isto é, certamente, verdade tanto na Wilton House como no Blenheim Palace. A razão para isto prende-se com o Período Eduardiano, quando grandes festas de casa precisavam duma gigantesca colecção de salões para jogar bridge, dançar, falar e para a diversão em geral, e também porque os ocupantes dos quartos de aparato preferiam o confortp duma sala quente mais privada, num piso tranquilo, com casa de banho incluida.

As magníficas salas de aparato desenhadas por Inigo Jones e por um ou outro dos seus parceiros são: A Single Cube Room (Sala Cubo Simples): esta sala, um cubo perfeito com 30 pés de comprimento, largura e altura, tem um apainelamento de pinho dourado e braco, entalhado do rodapé à cornija. A lareira de mármore branco foi desenhada pelo próprio Inigo Jones. A sala tem um tecto pintado, em tela, pelo pintor maneirista italiano Cavalier D'Arpino, representando Daedalus e Ícaro. Esta sala, onde estão penduradas pinturas de Lely e Van Dyck, é a única que se pensa ter sobrevivido ao incêndio de 1647 e foi o único interior que restou da parceria de Inigo Jones com De Caus. A Double Cube Room (Sala Cubo Duplo): a grande sala do palácio. Possui 60 pés de comprimento, 30 de largura e 30 de altura. Foi criada por Inigo Jones e Webb cerca de 1653. A parede de pinho pintada de branco é decorada com grandes grinaldas de folhagem e fruta em folha de ouro. O mobiliário com veludo dourado e vermelho complementa a colecção de pinturas, por Van Dyck, da família de Carlos I e do contemporâneo Conde de Pembroke. Entre as janelas estão espelhos executados por Chippendale e consolas por William Kent. O tecto com caixotões, pintado por Thomas de Critz, descreve a história de Perseus. Aqui, existe uma outra anomalia que põe em causa o verdadeiro envolvimento de Jones: a grande janela veneziana, peça central da fachada sul e peça fulcral da double cube room, não é o centro morto da sala; as outras janelas da sala não estão colocadas simetricamente e a lareira central e a janela veneziana não se encontram em posições opostas entre si como as proporções que uma sala desenhada, só por si, como um elemento arquitectónico exigiria.