O tubarão-martelo-panã (nome científico: Sphyrna mokarran), também chamado popularmente tubarão-panã, cação-panã, cação-rodela, cambeva-pata, panã, panapaná ou panapanã, é a maior espécie de tubarão-martelo da família dos esfirnídeos (Sphyrnidae), podendo chegar a ter entre 4-6 metros de comprimento e pesar cerca de 230-450 quilos. É encontrado em águas tropicais e temperadas quentes no mundo todo, habitando áreas costeiras e a plataforma continental. Pode ser distinguido de outros tubarões-martelo pela forma de seu "martelo" (denominado "cefalofólio"), que é largo e com uma margem frontal quase reta, além de por sua altura e a barbatana dorsal em forma de foice.

Um nadador solitário e grande predador, o tubarão-panã se alimenta de uma grande variedade de presas que vão desde crustáceos e cefalópodes, a peixes, arraias e pequenos tubarões. Observações desta espécie em estado selvagem sugerem que as funções do cefalofólio serviam para imobilizar arraias, a presa favorita deste tubarão. Esta espécie tem um modo de reprodução vivíparo, tendo ninhadas de até 55 filhotes a cada dois anos.

Embora potencialmente perigoso, o tubarão-panã raramente ataca humanos. Às vezes se comporta inquisitivamente com mergulhadores e deve ser tratado com respeito. É muito pescado por suas grandes barbatanas, que são valiosas no mercado chinês por serem o principal ingrediente da sopa de barbatanas de tubarão. Consequentemente, grandes populações de tubarão-martelo estão diminuindo substancialmente em todo o mundo, e tem sido avaliada como ameaçados pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN / IUCN).

Etimologia

O nome vernáculo cação provavelmente foi construído com a aglutinação do verbo caçar e o sufixo -ão de agente. Foi registrado pela primeira vez no como caçon, e depois em 1376 como caçom e 1440 como caçõoes. Tubarão, por sua vez, tem origem obscura, mas pode derivar de alguma das línguas nativas do Caribe. Seu registro mais antigo ocorre em 1500, como tubaram, na Carta de Pero Vaz de Caminha, e então como tuberão, em 1721. Panã deriva do tupi panâ, "o que bate", que alude aos saltos que a espécie dá quando pescada; foi registrada em 1887 como panán. Por fim, cambeva (e suas variantes campeva, cambeba ou cambeja) deriva do tupi a'kanga, "cabeça", e + pewa, "chato, plano, liso".

Taxonomia e filogenia

O tubarão-martelo-panã foi descrito pela primeira vez como Zygaena mokarran em 1837 pelo naturalista alemão Eduard Rüppell. O nome foi posteriormente mudado para o atual Sphyrna mokarran. A etimologia de Sphyrna é grega: sphyrna significa "martelo", enquanto mokarran é um nome árabe que significa "grande". Por muitos anos, porém, seu nome científico válido foi considerado Sphyrna tudes, que foi cunhado em 1822 por Achille Valenciennes. Em 1950, Enrico Tortonese determinou que os espécimes ilustrados por Valenciennes eram, de fato, tubarões-martelo de olhos amarelos, aos quais o nome S. tudes então se aplicava. Como o sinônimo mais antigo, Sphyrna mokarran tornou-se o nome válido do tubarão-martelo-panã. O lectotipo para esta espécie é um macho de 2,5 m de comprimento (8,2 pés) do Mar Vermelho.

Estudos mais antigos baseados na morfologia geralmente colocaram o tubarão-martelo-panã como um dos membros mais derivados de sua família, refletindo a visão tradicional de que o tamanho do cefalofólio aumentou gradualmente ao longo da evolução do tubarão-martelo-panã, mas esta visão foi refutada por análises filogenéticas que usaram o DNA nuclear e mitocondrial, descobrindo que o grande martelo e o martelo liso (S. zygaena) formam um clado que é basal para todas as outras espécies de Sphyrna. Estes resultados também mostram que os primeiros martelos a evoluírem tinham cefalópodes grandes ao invés de pequenos.

Distribuição e habitat O tubarão-martelo-panã habita águas tropicais em todo o mundo, entre as latitudes de 40°N e 37°S. No Oceano Atlântico, é encontrado da Carolina do Norte ao Uruguai, incluindo o Golfo do México e o Mar do Caribe, e do Marrocos ao Senegal, e ao Mar Mediterrâneo. Habita ainda ao longo da borda do Oceano Índico, e no Oceano Pacífico desde as Ilhas Léquias até a Austrália, Nova Caledônia e Polinésia Francesa, e do sul da Baixa Califórnia até o Peru. Pode viver nas proximidades da Gâmbia, Guiné, Mauritânia, Serra Leoa e Saara Ocidental, mas isto ainda não foi confirmado. É possível encontrá-los em águas costeiras a menos de um metro de profundidade, a uma distância de 80 metros (260 pés) da terra. Favorecem os recifes de coral, mas também habitam plataformas continentais, terraços de ilhas, lagoas e águas profundas próximas a terra. São migratórios; populações ao largo da Flórida e no Mar do Sul da China têm sido documentadas se aproximando dos polos no verão.

Descrição thumb|upright=1.2|esquerda|O tubarão-martelo-panã é grande, com a cabeça tendo um formato retangular. A linha da frente da cabeça desta espécie é praticamente reta, com uma depressão na parte central e leves depressões nas laterais

O corpo aerodinâmico do tubarão-martelo-panã com o cefalofólio expandido é típico dos tubarões-martelo. A espécie se diferencia dos demais pelas barbatanas pélvicas curvas, dentes com margens bastante serrilhadas e pelo formato retangular da cabeça. A linha da frente da cabeça é praticamente reta, com uma depressão na parte central e leves depressões nas laterais. A largura do cefalofólio corresponde a 23-27% do comprimento do corpo. Como os dentes são triangulares e fortemente serrilhados, tornam-se mais oblíquos em direção aos cantos da boca. Dezessete linhas de dentes estão em ambos os lados do maxilar superior, com dois ou três dentes na sínfise (linha média do maxilar), e 16-17 dentes em ambos os lados do maxilar inferior e um a três na sínfise.

A primeira barbatana dorsal é distinta, sendo muito alta e com um formato que se assemelha fortemente a uma foice, e tem origem sobre as inserções das barbatanas peitorais. A segunda barbatana dorsal e a barbatana anal são ambas relativamente grandes, com entalhes profundos nas margens traseiras. As barbatanas pélvicas possuem forma de foice com margens traseiras côncavas. A pele é coberta com dentículos dérmicos bem colocados. Cada dente tem forma diamantada, com três a cinco cristas horizontais que levam a dentes marginais em indivíduos menores, e cinco ou seis em indivíduos maiores. A cor da cabeça varia, de marrom escura a cinza claro e cor de oliva na parte superior, desbotando a branco na parte inferior. As barbatanas não são marcadas nos adultos, enquanto a ponta da segunda barbatana dorsal pode ser escura nos mais novos.

Um tubarão-martelo-panã típico mede 3,5 metros (11 pés) de comprimento e pesa mais de 230 quilos (510 libras), podendo chegar a 4,6 metros (15 pés) de comprimento e pesar 449,5 quilos (991 libras). Uma pequena porcentagem da população, a maioria ou todas as fêmeas, são muito maiores. O maior tubarão-martelo-panã já registrado tinha 6,1 metros (20 pés) de comprimento. O exemplar mais pesado conhecido é uma fêmea de 4,4 metros (14 pés) de comprimento e 580 quilos ( libras) de peso, que foi capturada na costa de Boca Grande, Flórida, em 2006. Seu peso decorria do fato de estar grávida de 55 filhotes neonatais.

Biologia e ecologia O tubarão-martelo-panã é um predador solitário e nômade. Se confrontado, pode responder com uma exposição agonística, deixando cair suas barbatanas peitorais e nadar de forma rígida ou brusca. Os mais jovens são presas de tubarões maiores, como o tubarão-cabeça-chata (Carcharhinus leucas), enquanto os adultos não têm predadores maiores, exceto as baleias assassinas (Orcinus orca), que caçam esta espécie independentemente da idade. Os valetes-amarelos (Carangoides bartholomaei) têm sido vistos se esfregando nos flancos do tubarão-martelo-panã, possivelmente para se livrar de parasitas. Cardumes de peixes-piloto (Naucrates ductor) às vezes acompanham o tubarão-martelo-panã. A espécie é parasitada por várias espécies de copépodes, incluindo Alebion carchariae, A. elegans, Nesippus orientalis, N. crypturus, Eudactylina pollex, Kroyeria gemursa e Nemesis atlantica.

Alimentação thumb|As arraias são uma presa favorecida do tubarão-martelo-panã

O tubarão-martelo-panã é um predador ativo com uma dieta variada, sendo que suas presas conhecidas incluem invertebrados como caranguejos, lagostas, lulas e polvos; peixes ósseos como tarpões, sardinhas, ariídeos, esparídeos, roncadores, carangídeos, cienídeos, garoupas, pleuronectiformes, ostraciídeos, diodontídeos; e tubarões menores. No Atol de Rangiroa, atacam oportunisticamente o tubarão-cinzento-dos-recifes (Carcharhinus amblyrhynchos). A espécie é conhecida por ser canibalista. Na Formação Gatun do Panamá, dentes fósseis pertencentes ao tubarão-martelo-panã sugerem que a espécie alimentava-se de megalodontes mais novos, assim como do extinto tubarão Hemipristis serra, com o qual já foi contemporâneo.

O tubarão-martelo-panã é um predador superior entre os tubarões, e são especialistas em se alimentar de outros tubarões, arraias e rajídeos. As espinhas venenosas das arraias são frequentemente encontradas alojadas dentro de sua boca e não parecem incomodar o tubarão, pois um espécime capturado fora da Flórida tinha 96 espinhas dentro e ao redor de sua boca. O tubarão-martelo-panã caça principalmente ao amanhecer ou ao entardecer, balançando a cabeça em ângulos largos sobre o fundo do mar para captar as assinaturas elétricas das arraias enterradas na areia, através de numerosos órgãos de eletrorrecepção localizados na parte inferior do cefalofólio. O cefalofólio também serve como um hidrofólio que permite que o tubarão se vire rapidamente e atinja uma arraia uma vez que detectada. Fora da Flórida, o tubarão-martelo-panã é frequentemente o primeiro a alcançar as linhas de tubarões atacados, sugerindo um olfato particularmente apurado.

Outra função do cefalofólio foi sugerida após a observação de um tubarão-martelo-panã atacando uma arraia-do-sul (Dasyatis americana) nas Bahamas; o tubarão primeiro derrubou a arraia para o fundo do mar com um poderoso golpe de cima, e depois a prendeu com sua cabeça enquanto girava para dar uma grande mordida de cada lado do disco de barbatanas peitorais da arraia. Isto efetivamente aleijou a arraia, que depois foi recolhida nas mandíbulas e serrada com rápidos abanões da cabeça. O tubarão-martelo-panã também foi visto atacando uma raia-pintada (Aetobatus narinari) em águas abertas, dando uma mordida maciça em uma de suas barbatanas peitorais. A arraia ficou consequentemente incapacitada, e o tubarão mais uma vez usou sua cabeça para prendê-la ao fundo e se movimentou para levar a arraia em suas mandíbulas de cabeça para baixo. Estas observações sugerem que o tubarão-martelo-panã procura incapacitar as arraias com a primeira mordida, uma estratégia semelhante à do grande tubarão-branco (Carcharodon carcharias), e que seu cefalofólio é uma adaptação para o manuseio de presas.

Nado e conservação de energia Um estudo de 2016 de exemplares registrados com acelerômetros mostrou que o tubarão-martelo-panã reduz o arrasto e diminui o gasto de energia nadando de lado em uma postura denominada "natação rolada". O tubarão usa sua nadadeira dorsal muito grande para ajudar a alcançar a elevação, um hábito que já havia sido notado em espécimes cativas, e pode passar até 90% de seu tempo neste modo de natação. Pensa-se que a técnica economiza cerca de 10% em custos de arrasto e, consequentemente, de movimentação.

Histórico de vida thumb|O tubarão-martelo-panã é conectado à mãe por uma placenta durante a gestação