thumb A Beira Interior é uma das regiões incluídas na proposta de sete regiões para a Regionalização de Portugal.https://journals.openedition.org/configuracoes/2117 Domingos Vaz, Departamento de Sociologia da Universidade da Beira Interior & investigador integrado do CesNova De modo informal, é desde há muito uma designação habitual para a parte interior da antiga região da Beira, ao ponto de ter sido empregue no nome oficial de uma universidade pública portuguesa sediada na cidade da Covilhã, a Universidade da Beira Interior. Resulta da moderna união da antiga província da Beira Baixa, com a Beira Transmontana (parte da antiga província da Beira Alta correspondente, grosso modo, ao distrito da Guarda (excetuando o concelho de Vila Nova de Foz Côa pertencente à antiga província de Trás-os-Montes e Alto Douro). Ocupa uma área correspondente a 12 740 km² e contabiliza 383 995 habitantes (2011).

Geografia Municípios É constituída por 26 municípios, sendo 12 do distrito da Guarda, 12 do distrito de Castelo Branco, 1 do distrito de Coimbra e 1 do distrito de Santarém:

Concelhos da Beira Interior Brasão Concelho População (INE, 2011) Área 40px Aguiar da Beira 5 473 hab 206,77 km² 40px Almeida 7 242 hab 520,55 km² 40px Belmonte 6 859 hab 114,56 km² 40px Castelo Branco 56 109 hab 1 439,94 km² 40px Celorico da Beira 7 693 hab 249,93 km² 40px Covilhã 51 797 hab 556,43 km² 40px Figueira de Castelo Rodrigo 6 260 hab 508,57 km² 40px Fornos de Algodres 4 989 hab 133,23 km² 40px Fundão 29 213 hab 701,65 km² 40px Gouveia 14 046 hab 302,49 km² 40px Guarda 42 541 hab 717,88 km² 40px Idanha-a-Nova 9 716 hab 1 412,73 km² 40px Manteigas 3 430 hab 125,00 km² 40px Mação 7 338 hab 400,83 km² 40px Mêda 5 202 hab 285,91 km² 40px Oleiros 5 721 hab 465,52 km² 40px Pampilhosa da Serra 4 481 hab 396,49 km² 40px Penamacor 5 682 hab 555,52 km² 40px Pinhel 9 627 hab 484,5 km² 40px Proença-a-Nova 8 314 hab 395,26 km² 40px Sabugal 12 544 hab 826,70 km² 40px Seia 24 702 hab 435,92 km² 40px Sertã 15 880 hab 446,70 km² 40px Trancoso 9 878 hab 364,54 km² 40px Vila de Rei 3 452 hab 191,26 km² 40px Vila Velha de Ródão 3 521 hab 329,93 km²TOTAL BEIRA INTERIOR 370 468 hab 12 740 km²

Território thumb|Serra da Estrela, a montanha mais alta de Portugal Continental

A Beira Interior tem limites naturais bem vincados. A norte, é delimitada da região de Trás-os-Montes e Alto Douro, pelas serranias dos vales do Douro e do Côa. A este, os rios Mondego e Zêzere, e as serras do Açor, da Gardunha e da Lousã, separam-na da Beira Litoral. A sul e a sudoeste, o rio Zêzere e a serra da Melriça separam-na da Estremadura e Ribatejo. A oeste, as fronteiras com Espanha são as mesmas desde há mais de sete séculos: os rios Águeda e Erges, e a ribeira dos Tourões, sendo que em várias partes existe a chamada "raia seca". E, no extremo sul da Beira Interior, o rio Tejo faz a ponte com o Alentejo. O relevo de toda a região é acidentado, com destaque para as serras da Estrela (que se eleva a ), da Gardunha (), de Alvelos () e da Malcata (). Porém, a raia norte da Beira Interior está situada num planalto, prolongamento da Meseta Norte, cuja altitude oscila entre os 600 e os 800 m. A zona sul da região está inserida noutro planalto, mais baixo, prolongamento da Meseta Sul, com altitudes que oscilam entre os 500 e os 700 m. É banhada por três dos principais rios portugueses, o Douro, o Tejo e o Mondego, e pelos seus afluentes, Côa, Alva, Zêzere, Águeda, Erges e Ocreza, entre outros. A Beira Interior ocupa um total de 12 533 km².

População alt=|miniaturadaimagem|Covilhã, a maior cidade da Beira Interior Em 2011, a Beira Interior tinha 383 995 habitantes, correspondendo a uma densidade populacional de 29,1 hab/km². A população concentra-se maioritariamente nas cidades e vilas, sendo que, se até agora se tem verificado um ligeiro aumento na sua população, desde o início do século que a população tem estagnado ou mesmo diminuído, mesmo nas maiores cidades. Atualmente, segundo o anuário 2017 do INE, existem 10 cidades na Beira Interior: Covilhã (34 481 hab.), Castelo Branco (34 278 hab.), Guarda (25 993 hab.), Fundão (8 065 hab.), Seia (5 383 hab.), Gouveia (3 380 hab.), Pinhel (2 861 hab.), Trancoso (2 721 hab.), Sabugal (2 231 hab.) e Mêda (2 178 hab.). As vilas são outro foco de concentração de população. Para além das sedes de concelho, destacam-se ainda Tortosendo (Covilhã) com 5 624 hab, Alcains (Castelo Branco) com 5 050 hab e Teixoso (Covilhã) com 4 360 hab. Vilar Formoso (Almeida), com 2 219 habitante, também assume elevada relevância devido a ser a principal fronteira terrestre portuguesa. Verifica-se um acentuado envelhecimento da população, que, em alguns concelhos, diminuiu cerca de 15% só entre 2000 e 2007. Grande parte das aldeias da região tem menos de 200 habitantes, e estão em risco de ficar com população zero a curto/médio prazo. Contas feitas, apenas 11,7% dos cidadãos da Beira Interior tem menos de 15 anos, enquanto os idosos (mais de 65 anos) representam já cerca de 25,6%. Esta realidade levará, portanto, a uma diminuição acentuada da população da Beira Interior nos próximos anos. São, portanto, necessárias políticas regionais de fixação de empresas e população, que não estão ao alcance das possibilidades das autarquias nem têm sido preocupação dos sucessivos governos.

Recursos naturais thumb|left|Parque Eólico na Sobreira Formosa, Proença-a-Nova

A Beira Interior é uma região bastante rica em recursos naturais. Em primeiro lugar, os recursos hídricos, provenientes das bacias hidrográficas do Douro, do Tejo e do Mondego, permitem a produção de eletricidade em várias barragens e centrais hidroelétricas. Por outro lado, os fortes ventos que normalmente se registam na Beira Interior permitem a produção rentável de energia elétrica através dos parques eólicos, que têm vindo a aparecer na região. A energia solar tem também espaço para crescer. Deste modo, a Beira Interior é auto-suficiente em termos de energia, podendo inclusive produzir energia para suprir as necessidades do resto do país. Outra das riquezas da região é a abundância de fontes de água de nascente e águas minerais naturais, que são exploradas por várias empresas, dando origem às mais conhecidas marcas de água do nosso país, como a Serra da Estrela, Alardo, São Silvestre e Sete Fontes. O subsolo é também muito rico, registando-se explorações de quartzo, feldspato, lepidolite, estanho, volfrâmio, urânio, tungsténio e cobre, e existindo ainda vários depósitos minerais por explorar. As principais minas da região são as da Panasqueira, no concelho da Covilhã. A exploração de rochas toma também um papel muito importante, principalmente dos granitos amarelos e dos xistos.

Património natural thumb|left|A vila de Manteigas, considerada o coração da Serra da Estrela

O património natural é um dos cartões de visita da Beira Interior. As suas paisagens bucólicas únicas atraem visitantes de todo o país. A neve, rara em Portugal mas frequente na Beira Interior, é o principal atrativo. É nesta região que se situa a maior área protegida do país, o Parque Natural da Serra da Estrela, que contém valores naturais relevantes, incluindo algumas espécies de flora únicas no país; na fauna destaca-se o lobo (Canis lupus), o javali, a lontra e a raposa (Vulpes vulpes). Na Torre, situa-se a única estância de esqui natural do país, a Estância de Esqui Vodafone. Na zona norte da região, situa-se o Parque Natural do Douro Internacional, famoso pelas suas arribas dos vales dos rios Douro e Águeda, onde abundam as aves. Nos concelhos do Sabugal e Penamacor, localiza-se o Reserva Natural da Serra da Malcata, caracterizado pela sua fauna única, onde prontificam espécies como o lobo e a raposa. Foi criada para servir de santuário para o lince-ibérico, espécie em perigo extremo de extinção. A sul, o Parque Natural do Tejo Internacional, caracterizado pelos seus bosques de sobreiros, azinheiras e salgueiros, e por populações únicas de cegonhas, águias, abutres, lontras e veados.

História Os primórdios thumb|Praça-forte de Castelo Bom, um dos mais importantes pólos de ocupação pré-medieval da Beira Interior

A Beira Interior teve, desde sempre, um papel determinante na história de Portugal. Habitada desde tempos imemoriais, por povos pré-históricos, guarda vestígios da época do Bronze (dos quais se destaca a Espada de Castelo Bom, exposta no museu da Guarda), e foi, mais tarde, terra de origem dos Lusitanos, primeiro sinal da identidade portuguesa, que se refugiaram nos montes Hermínios, atual serra da Estrela, na luta feroz contra os invasores latinos. Os romanos, mais fortes, acabaram por vencer e trouxeram grande evolução à região, desenvolvendo a agricultura e apostando na exploração mineira. Seguiram-se os visigodos e os muçulmanos, que trouxeram inovações que estão na origem dos hábitos ancestrais das pessoas desta região.

Período Medieval e Descobrimentos thumb|Belmonte, terra natal do navegador Pedro Álvares Cabral

Mas foi na época medieval que a Beira Interior ganhou mais brilho. Disputada entre os séculos XI e XIII entre portugueses, leoneses, castelhanos e muçulmanos, foi o garante da independência nacional face a estes povos, e tomou uma importância fulcral para o nosso país. Foram construídas dezenas de castelos e fortalezas, que ainda hoje podemos visitar, e que estiveram durante séculos na linha da frente na defesa do reino de Portugal. É talvez por isso que os beirões-interiores se assumem, desde sempre, como grandes patriotas. Após o fim das guerras, com a definição das fronteiras, as povoações são recuperadas, e a população aumenta significativamente, com a tomada de medidas que promoveram a fixação de colonos nestas terras (talvez hoje em dia, fosse necessário retomar esta ideia…). Foi importantíssima na época dos Descobrimentos, tendo sido berço de alguns dos nossos maiores navegadores e exploradores, dos quais se destacam Pedro Álvares Cabral, Afonso de Paiva e Pêro da Covilhã.

Da Guerra da Restauração ao século XX thumb|Fortaleza de Almeida, construída durante a Guerra da Restauração e cercada durante as Invasões Francesas, uma das mais espetaculares da Península Ibérica

Mais tarde, na Guerra da Restauração, os seus castelos e fortalezas, e o patriotismo das suas gentes voltaram a assegurar a independência nacional. Como recompensa, houve melhorias consideráveis nas construções da região. Mais tarde, a Guerra dos Sete Anos provoca a invasão de algumas povoações raianas, que mais uma vez dão uma prova de patriotismo, ao afastar o invasor. Aquando das Invasões Francesas, os beirões voltaram a dar a vida pela independência nacional, no cerco de Almeida e nas batalhas de Fontes de Onor e Trancoso. Estas invasões provocaram uma forte destruição em toda a região, que abriu uma ferida de morte.

A meio do , o progresso chega, com a abertura das Linhas da Beira Alta e da Beira Baixa, e da fronteira rodoviária de Vilar Formoso. Porém, a emigração começa a fazer-se sentir e a população, ao longo do , vai descendo, por falta de condições de vida. Só nos anos 1980 e 90 são criadas algumas infraestruturas, mas o esquecimento a que foi cronicamente votada ao longo de quase dois séculos, e a falta de autonomia regional no presente, continuam a hipotecar o futuro da Beira Interior.

Identidade regional