O Largo da Estação Férrea é o complexo de espaços e edifícios remanescentes da antiga estação férrea na cidade brasileira de Caxias do Sul, e que foi convertido em uma área de cultura e lazer. O sítio é tombado em nível estadual pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico. Localiza-se no Bairro São Pelegrino.

História da Estação

O local tem um importante significado histórico, social e econômico para a cidade. Na primeira década do século XX Caxias do Sul já tinha mais de 30 mil habitantes e era um município florescente e economicamente dinâmico, mas não dispunha de boas estradas de acesso e estava relativamente isolado. A principal via de acesso de pessoas e mercadorias à capital do estado exigia percorrer cerca de 60 quilômetros a cavalo ou em carretas, por caminhos extremamente precários, até São Sebastião do Caí, e lá embarcar em um vapor que as levava num trajeto fluvial de mais de 120 quilômetros até a capital Porto Alegre. Perda de mercadorias durante as viagens, transtornos e atrasos e bloqueio das estradas durantes chuvas eram comuns, e os apelos das lideranças locais ao governo estadual para melhorias dos caminhos eram frequentes. Granzotto, Marlise do Carmo Sonntag. Do protagonismo ao esquecimento : a estação férrea de Caxias do Sul como patrimônio cultural e agente de transformação (1910-2025). Universidade de Caxias do Sul, 2025, pp. 96-97

O projeto de ligação de Caxias à rede ferroviária estadual estava embutido em um programa de ampla escala dos governos federal e estadual que havia iniciado no Império, visando articular um sistema de transporte que atendesse às demandas comerciais, protegesse as fronteiras e interligasse o estado ao restante do país.Granzotto, pp. 80-81 A construção do terminal ferroviário representou um grande avanço para o setor dos transportes e para as atividades econômicas, facilitando o trânsito de pessoas e o transporte de matérias-primas, mercadorias e gado entre Caxias, os entrepostos comerciais de Montenegro e São Sebastião do Caí, e a capital. Granzotto, pp. 93-97

O ramal de Caxias seria estendido a partir do terminal de Montenegro. Foi contratada a empresa belga Compagnie Auxiliaire de Chemins de Fer au Brésil, que na época monopolizava a concessão de quase todas as ferrovias do Brasil, e ela encarregou a execução às empreiteiras Oppitz & Gomes e Irmãos Corrêa & Legendre. As obras iniciaram em 1905, e a acidentada geografia do trecho, atravessando as encostas da Serra Gaúcha, exigiu trabalhos de grande vulto para corte e desmonte de maciços rochosos e nivelação do terreno.Granzotto, pp. 98-99

A chegada do primeiro trem em 1 de junho de 1910 foi comemorada com uma grande festividade cívica, e durante os festejos o governador do estado Carlos Barbosa Gonçalves comunicou ao intendente a elevação da vila à condição de cidade. O jornal O Brazil noticiou o evento nos seguintes termos: "Caxias desperta hoje, engalanada e numa vibração harmônica de supremo entusiasmo. Ei-la, aí está convertida em realidade a maior aspiração deste povo laborioso – a civilizadora do caminho de ferro. [...] Um momento de consagração do progresso e da modernidade que finalmente alcançava os contrafortes da serra". Segundo Marlise Sonntag Granzotto, "a ferrovia atuou como catalisador para o crescimento industrial, agrícola e comercial, simplificando o escoamento da produção local e atraindo novos empreendimentos. [...] Reconfigurou as relações comerciais e impulsionou novos padrões de ocupação territorial. O progresso econômico trouxe consigo a necessidade de expansão e revisão do ordenamento urbano, com o surgimento de novos bairros, densificação das áreas já habitadas e demanda crescente por infraestrutura".Granzotto, pp. 105-108

Entre 1928 e 1929 a estação passou por uma substancial reforma e ampliação, alterando sua configuração primitiva. O frontão, beirais e óculos foram substituídos por platibandas, e as fachadas foram modificadas, resultando essencialmente no edifício que hoje sobrevive. O entorno também sofreu alterações. Em 1933 o abrigo das locomotivas foi ampliado, em 1937 foi ampliado o armazém, e em 1939 o piso da estação foi substituído. Na década de 1950 o entorno do sítio já estava densamente edificado.Granzotto, pp. 128-151

Na década de 1970, sofrendo a crescente competição das rodovias, as ferrovias entraram em declínio e todo o sistema ferroviário brasileiro começou a ser desarticulado. Os equipamentos já não tinham manutenção adequada, o transporte de passageiros por trem era considerado moroso, anti-higiênico e desconfortável, e a procura caiu rápida e acentuadamente, comprometendo sua rentabilidade. Chegou-se a cogitar a demolição da estação caxiense e sua transferência para a periferia.Granzotto, pp. 152-154 Isso não aconteceu, e a ferrovia permaneceu ativa para transporte de passageiros até 1977, e para carga pesada até 1994. Depois a estação foi desativada e abandonada, entrando em um processo de degradação. Não obstante, o valor histórico do sítio foi reconhecido pelo Governo do Estado, sendo tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico em 27 de setembro de 2001.Giacomet, Shaila. Revitalização do Sítio Ferroviários em Caxias do Sul. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2017, p. 4

Revitalização do espaço Com o tombamento, em 2005 a Prefeitura delimitou a área do sítio a ser recuperada, com 7,6 mil metros quadrados, a fim de transformá-la em um polo de cultura e lazer. O prédio da estação foi restaurado em 2007 e passou a servir de sede da Secretaria Municipal da Cultura, o depósito de cargas foi transformado em sala de ensaios da Orquestra Municipal de Sopros, do Coral Municipal e de grupos de teatro, a esplanada foi adaptada para a realização de shows e eventos populares, e no entorno foram abertos alguns bares e restaurantes. O local se tornou uma referência cultural e passou ser muito frequentado. Em 2013 no abrigo das locomotivas foi instalada uma biblioteca. Em 2015 foi criada a Praça do Trem, e em 2016 a Praça das Feiras.Granzotto, pp. 157-160

Em 2025 o sítio começou a ser revitalizado, com um investimento de 8 milhões de reais. As obras incluem conservação da sede da estação, melhorias na integração da esplanada com as duas praças, remoção do estacionamento de veículos, paisagismo, drenagem, terraplanagem, pavimentação, iluminação, instalação de uma fonte luminosa, mobiliário urbano, construção de uma conha acústica, banheiros, rampa de acessibilidade e escadaria, e reforma do reservatório de água elevado e do terminal graneleiro."Primeira etapa da revitalização da Estação Férrea será inaugurada nesta terça-feira". Prefeitura de Caxias do Sul, 19 de novembro de 2025"Começa a obra de revitalização do Largo da Estação Férrea, em Caxias do Sul". Jornal do Almoço, 2025 Foi previsto para o futuro a implantação do Parque Linear, recuperando um trecho da via férrea desativada desde o Bairro São Pelegrino até o distrito de Forqueta, cobertura da Praça das Feiras e restauro de uma antiga locomotiva datada de 1921 que serviu a linha de Caxias e estava em posse da Ulbra, sendo doada à comunidade caxiense."Caxias entrega primeira etapa da revitalização do Largo da Estação Férrea com presença do governador e show da Família Lima". Tua Rádio, 4 de novembro de 20125 Granzotto, pp. 160-161 Em 2026 a Câmara de Vereadores começou um debate sobre o uso do espaço, atendendo a reclamações de moradores da área sobre insegurança, sujeira, barulho e presença de usuários de drogas.Espeiorin, Vania. "Entorno da Estação Férrea será o foco da reunião da Comissão de Desenvolvimento Econômico na segunda-feira". Câmara Municipal de Caxias do Sul, 4 de março de 2016

Estudando a relação do público frequentador com a história do espaço, Marlise Sonntag Granzotto identificou que essa relação é frágil, e não realiza plenamente o potencial do lugar como um espaço de memória, ocorrendo ciclos repetidos de intensa frequentação seguidos de outros de declínio, o que ela atribui a uma ênfase na valorização de aspectos estéticos e físicos em detrimento da educação patrimonial, da acessibilidade à informação histórica e do incentivo à apropriação simbólica da sua herança cultural pela comunidade, pelo que as revitalizações periódicas empreendidas pelo poder público são eficazes somente por curtos períodos, comprometendo sua sustentabilidade no longo prazo. Para a pesquisadora, isso indica "a necessidade de estratégias que reconectem a comunidade com este patrimônio. A conservação da Estação Férrea de Caxias do Sul e a revitalização de seu entorno representam não apenas um desafio de preservação patrimonial, mas também uma oportunidade para aprofundar discussões sobre desenvolvimento urbano, patrimônio cultural e identidade coletiva".Granzotto, pp. 191-193

Ver também

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