A Primeira Guerra Mitridática (89–) foi um conflito contra a expansão da hegemonia da República Romana sobre o mundo grego. Neste conflito, o Reino do Ponto e muitas pólis gregas em revolta foram lideradas por Mitrídates VI do Ponto contra os romanos e seus aliados do Reino da Bitínia. Depois de cinco anos, os romanos firmaram a Paz de Dárdanos, cujos termos forçaram Mitrídates a abandonar todas as suas conquistas e a retornar para o seu reino. Esta foi a primeira das três Guerras Mitridáticas travadas no
Contexto Depois de sua ascensão ao trono do Reino do Ponto, Mitrídates VI se dedicou a expandir seu reino. Contudo, os estados vizinhos eram todos reinos clientes de Roma e qualquer ataque a eles inevitavelmente levaria a uma guerra contra a República Romana. Depois de anexar a maior parte da costa à volta do Mar Negro, Mitrídates voltou sua atenção para a Ásia Menor, especialmente para o Reino da Capadócia, onde sua irmã, Laódice, era rainha. Mitrídates contratou o assassinato de seu cunhado, o rei Ariarates VI, pelas mãos de Górdio, um nobre capadócio aliado dos pontinos, e deixou o trono para Laódice, que reinou como regente do jovem Ariarates VII.
A rainha se casou em seguida com Nicomedes III da Bitínia, cujo reino era o inimigo tradicional do Ponto, e os dois anexaram a Capadócia. Mitrídates retaliou expulsando Nicomedes e se estabelecendo como protetor de seu sobrinho no trono. Quando Ariarartes se recusou a a receber Górdio de volta, Mitrídates invadiu a Capadócia novamente e o executou. Logo depois, ele colocou seu próprio filho, também chamado Ariarates, no trono sob a tutela de Górdio. Nicomedes apelou para o Senado Romano, que determinou que Mitrídates deveria sair da Capadócia e que Nicomedes deveria deixar a Paflagônia. Além disto, o Senado nomeou Ariobarzanes I como rei da Capadócia. De seu lado, Mitrídates incitou seu genro, Tigranes da Armênia, a invadir a Capadócia para expulsar Ariobarzanes.
Embaixada de Aquílio (90–) No final do verão de , uma embaixada senatorial foi enviada para o oriente sob a liderança de Mânio Aquílio e Mânlio Maltino para garantir que Nicomedes e Ariobarzanes voltassem para seus respectivos tronos.Lívio, Ab Urbe Condita Periochae LXXIV O senado também enviou instruções a Cássio, "o comandante da Ásia em Pérgamo, que tinha um pequeno exército", e para o próprio Mitrídates, urgindo que ele ajudasse.Apiano, Guerras Mitridáticas XI thumb|esquerda|upright=.9|Mitrídates VI do Ponto.Busto no Louvre, em Paris. thumb|esquerda|upright=.9|Sula.Busto na Gliptoteca de Munique. O "pequeno exército de Cássio" era provavelmente a guarnição padrão de tempos de paz, um número que varia entre meia e uma legião (de 5 a 10 coortes), além de umas poucas tropas auxiliares — certamente não mais do que homens. Os emissários romanos rapidamente aumentaram o contingente com uma grande força de auxiliares gálatas e frígios e usaram este exército para restaurar os dois monarcas aos seus reinos determinados pelo Senado. Mitrídates, furioso com os romanos, não quis cooperar, mas também não se opôs; os dois reis foram restaurados sem luta no outono de .
Com a missão cumprida, Aquílio e Maltino deveriam ter seguido diretamente para Roma no inverno de 90-, mas, ao invés disto, com a desculpa de observar os movimento de Mitrídates. Seguindo instruções secretas do líder da facção dos populares no Senado, Caio Mário, Aquílio começou a provocar o rei do Ponto para que ele iniciasse uma guerra, uma política arriscada por causa da Guerra Social, que ainda estava em curso na península Itálica.
Os reis, especialmente Nicomedes, havia se endividado em Roma para subornar os senadores para que votassem por sua restauração — esta decisão estava em linha com a política romana na região, mas, aparentemente, nada mais se fazia no Senado na época em relação à política exterior sem um pagamento das forças estrangeiras. No grupo de Aquílio estavam alguns representantes destes credores e eles, com o apoio de Aquílio, incitaram os dois reis a invadirem o Reino do Ponto para conseguirem recursos para pagarem suas pesadas dívidas em Roma. Temendo o poderio militar de Mitrídates (e provavelmente cientes de que o Senado certamente não havia dado a ordem), nenhum dos dois reis se animou. Contudo, a pressão dos devedores sobre Nicomedes foi tamanha que ele acabou cedendo.
Foi provavelmente no final do outono de que Nicomedes reconquistou o Bósforo pelo lado trácio e, no início da estação de navegação do ano seguinte (de meados março em diante), passou a impedir a saída de navios pônticos do Mar Negro para o Mar Egeu. Em meados da primavera de , Nicomedes invadiu o antigo território dinástico de Mitrídates, saqueando tudo pelo caminho e chegando até Amástris (moderna Amasra) sem encontrar resistência. Mitrídates já vinha se preparando para enfrentar Roma e estava pronto para responder a afronta. Com o objetivo final de conseguir a maior simpatia possível entre os povos da Anatólia, Mitrídates não se opôs ao raide bitínio para se mostrar como um inocente vítima de atos hostis de representantes e marionetes dos romanos. Os bitínios retornaram para casa com uma grande quantidade de riquezas,Apiano, Guerras Mitridáticas XII presumivelmente suficientes para o pagamento das dívidas de Nicomedes.
Depois do raide, Mitrídates enviou um emissário, Pelópidas, até os legados e comandantes romanos para reclamar, aparentemente em Pérgamo. Em paralelo, continuou seus preparativos para uma guerra, confiando especialmente em sua aliança com Tigranes da Armênia, pois a antiga aliança do Ponto com o Império Parta não podia ser acionada desde o assassinato de Mitrídates II da Pártia pelo rival Sanatruque no verão de (este conflito acabaria tomando toda a atenção de Tigranes também, mas Mitrídates não tinha como saber disto na época). Mitrídates também se aproveitou de suas alianças para conseguir apoio e soldados de seus amigos na Trácia e na Cítia; ele também enviou emissários a Ptolemeu X Alexandre I do Egito, ao Império Selêucida e a diversos reis em Creta.Apiano, Guerras Mitridáticas XIII, XIV e XVI<ref>Salústio, História IV 69.10M (Epistula Mithridatis).</ref>
Pelópidas inteligentemente ignorou o fato de que os raides haviam sido incitados por Aquílio e seus aliados e apelou ao tratado firmado entre Roma e Mitrídates, urgindo que os romanos, como amigos e aliados, punissem ou contivessem a agressão bitínia. Enviados bitínios responderam primeiro citando a agressão contra a Bitínia e contra Nicomedes III e também os preparativos de Mitrídates para a guerra. Segundo eles, Mitrídates se preparava para enfrentar Roma e não o Reino da Bitínia.Apiano, Guerras Mitridáticas XIII Pelópidas respondeu que o passado não importava e que Mitrídates aceitaria todas as decisões romanas no oriente, mas insistiu que algo deveria ser feito em relação à mais recente agressão dos bitínios: o fechamento do Bósforo e o saque do território pôntico. Mais uma vez, ele pediu que os romanos honrassem os termos do tratado e ajudassem Mitrídates a punir seus atacantes ou, pelo menos, que permanecessem neutros enquanto Mitrídates se vingava.Apiano, Guerras Mitridáticas XIV
Pela habilidade de Pelópidas na defesa do caso do Reino do Ponto, Mitrídates conseguiu embaraçar e desacreditar os representantes romanos, que fingiram ouvir atentamente os dois lados e não podiam deixar de concordar com a injustiça óbvia cometida contra um aliado e amigo. Depois de uma grande demora, os romanos finalmente decidiram que nada deveria ser feito contra o aliado Mitrídates e também que não seria permitida uma guerra contra Nicomedes, cujo enfraquecimento não era do interesse dos romanos. Pelópidas ficou insatisfeito com a resposta, mas cedeu e partiu de volta para casa.
Re-anexação da Capadócia (verão de ) Mitrídates Vi sabia bem como funcionava a política romana e como poderia pedir reparações ao Senado romano se desejasse. Porém, sua intenção era aproveitar a recente invasão de seu território. Depois do retorno de Pelópidas, ele enviou seu filho Ariarartes para a Capadócia à frente de um poderoso exército no verão de . A ocupação foi rápida e, uma vez mais (esta era a quarta invasão), Ariobarzanes I, o escolhido dos romanos, foi expulso e o trono foi assumido por Ariarartes.Apiano, Guerras Mitridáticas 15 Esta usurpação violava tanto o senatus consultum que empoderou a embaixada de Aquílio quanto o tratado entre romanos e pônticos. Foi um movimento estratégico que visava claramente provocar uma guerra contra Roma: ao contrário de Nicomedes, Ariobarzanes nada havia feito para ofender Mitrídates. Tratava-se, portanto, de uma declaração de facto de guerra.
A principal fonte antiga, Apiano, afirma que os dois lados começaram a juntar forças para uma guerra total,Apiano, Guerras Mitridáticas XVII implica uma culpa de Mitrídates. Uma embaixada pôntica foi enviada a Roma e os preparativos da guerra provavelmente ocuparam o resto de .
Os detalhes do começo da guerra, por outro lado, revelam que a guerra foi precipitada pelo próprio Aquílio, que estava claramente ansioso para começar a guerra antes do retorno da embaixada pôntica — embora as chances de sucesso da embaixada fossem mínimas por causa da reocupação da Capadócia, havia a possibilidade de, no contexto das terríveis perdas na Guerra Social, o Senado preferir negociar um acordo e enviar uma nova embaixada para substituir Aquílio. As ordens de Caio Mário para Aquílio provavelmente continuavam as mesmas: precipitar uma guerra. Porém, a situação era ainda mais favorável aos populares de Mário, pois a guerra era inevitável, mas ainda a iniciar, o que dava tempo para que ele partisse para a província da Ásia antes que ela começasse. A eleição do optimate Lúcio Cornélio Sula como cônsul romano no outono de foi um choque e pegou Mário de surpresa. Notícias da segunda expulsão de Ariobarzanes (por volta de julho de ) provavelmente chegaram em Roma em setembro, um mês ou dois antes da eleição de Sula. Nas palavras de Plutarco:
Claramente a visão majoritária em Roma era que a reocupação da Capadócia era a gota d'água e que o rei pôntico deveria ser atacado e deposto. Ainda mais importante, a desaceleração da Guerra Social liberava as tropas necessárias. Sula havia se apresentado ao público romano como um grande comandante nas Guerras Sociais e sua eleição ao consulado aparentemente foi costurada no final do outono de através de seu casamento com Cecília Metela Dalmática, viúva do recém-falecido príncipe do senado Marco Emílio Escauro, prima do pretor Metelo Pio e dos jovens irmãos Lúcio e Marco Lúculo. O outro cônsul eleito, Pompeu Rufo, casou seu filho, Quinto Pompeu Rufo, o Menor, com a filha de Sula, Cornélia Sula. Estes arranjos valeram a Sula toda a influência dos Metelos nas eleições e também o apoio de seu colega. Entre os derrotados estava um outro ambicioso patrício, o vir militaris Lúcio Cornélio Cina, que se aliou a Mário.
Guerra thumb|300px|Domínios de Mitrídates VI em , depois de ter tomado à República Romana os territórios das províncias de Ásia e Cilícia, além dos reinos clientes, aliados dos romanos, de Capadócia e Bitínia
Em , Mitrídates respondeu ao ataque de Nicomedes com um potente contra-ataque. O seu comandante, Arquelau, com soldados de infantaria e de cavalaria, derrotou o exército bitínioMêmnon de Heracleia, Livros XV e XVI, citado por Fócio, Biblioteca de Fócio 2 na Batalha do Rio Ânias e o exército romano, comandado por Aquílio, na Batalha do Monte Escorobas. A frota romana do Mar Negro simplesmente rendeu-se. A Capadócia, Bitínia e a província romana da Ásia foram arrasadas e muitas antigas cidades gregas, como Pérgamo, Éfeso e Mileto receberam Arquelau como um libertador do jugo romano.
Vésperas asiáticas (maio de )