Kizomba, Festa da Raça foi o enredo apresentado pela Unidos de Vila Isabel no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro do carnaval de 1988. Com o desfile, a escola conquistou o seu primeiro título de campeã do carnaval carioca, aos 41 anos de existência. O samba-enredo homônimo foi composto por Rodolpho de Souza, Jonas Rodrigues e Luiz Carlos da Vila, e interpretado no desfile por Gera, com apoio de Jorge Tropical. O desfile teve ainda Carlinhos Brilhante e Mariazinha estreando no posto de primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira; e Mestre Mug comandando os 320 ritmistas da Bateria.
O enredo do desfile foi desenvolvido pelo cantor e compositor Martinho da Vila, com base nos eventos de celebração da cultura afro-brasileira produzidos por ele próprio em anos anteriores. O desfile foi confeccionado pelos carnavalescos Milton Siqueira, Paulo César Cardoso e Ilvamar Magalhães. Após a saída de seu patrono, Capitão Guimarães, a escola entrou em crise financeira e perdeu o local de ensaio, tendo que ensaiar na rua. Com poucos recursos financeiros, os carnavalescos optaram por utilizar materiais baratos, como palha, sisal e tecidos estampados. A presidente da escola, Ruça, optou por um desfile politizado, que transformasse a celebração do centenário da Lei Áurea em uma manifestação contra o racismo.
A Vila Isabel foi a sexta escola a se apresentar na segunda noite do Grupo 1, iniciando seu desfile na madrugada da terça-feira de carnaval, dia 16 de fevereiro de 1988. O desfile teve a participação massiva de componentes negros e a presença de artistas e intelectuais, inclusive de outras escolas de samba, como Neguinho da Beija-Flor, a mangueirense Alcione e o portelense Jerônimo Patrocínio; além das crianças do Império do Futuro, escola de samba mirim do Império Serrano. O desfile foi aclamado por especialistas, que apontaram a Vila entre as favoritas ao título de campeã. A Vila ainda recebeu cinco prêmios do Estandarte de Ouro: Melhor Escola; Melhor Samba-enredo; Melhor Enredo; Melhor Bateria; e Melhor Ala de Crianças.
Confirmando a expectativa, a Vila venceu o carnaval com um ponto de vantagem sobre a vice-campeã, Mangueira. A escola perdeu apenas um ponto, no quesito Alegorias e Adereços. O Desfile das Campeãs de 1988 foi cancelado em luto pelas mortes causadas por um temporal que deixou o Rio de Janeiro em estado de calamidade pública na véspera da apresentação. Com isso, o desfile campeão foi realizado apenas uma vez, algo inédito desde a inauguração do Sambódromo. Tanto o desfile quanto o samba-enredo são comumente listados entre os melhores da história do carnaval. O desfile ganhou documentário, livro e diversas reedições por outras escolas ao longo dos anos.
Antecedentes Fundada em 1946, a Unidos de Vila Isabel conquistou seu melhor resultado no carnaval em 1985, quando se classificou em terceiro lugar. Em 1986, enfrentou problemas em seu desfile, ficando na décima primeira colocação. No carnaval de 1987, realizou um elogiado desfile, sendo apontada entre as favoritas ao título, mas se classificou apenas na quinta colocação. Nos três anos, a escola realizou desfiles luxuosos, com o apoio financeiro do seu presidente, o contraventor do jogo do bicho, Capitão Guimarães. Após o desfile de 1987, Guimarães deixou a Vila Isabel para assumir a presidência da LIESA, a liga organizadora dos desfiles. O cantor e compositor Martinho da Vila indicou a sua esposa, Lícia Maria Maciel Caniné, conhecida como Ruça, ao posto de presidente da escola. O conselho deliberativo da Vila aprovou a indicação, elegendo Ruça como nova presidente da Vila. Ruça frequentava a escola desde o final da década de 1960, quando conheceu Martinho. Sem o dinheiro de Capitão Guimarães, a Vila foi despejada do antigo campo do America Football Club e não conseguiu alugar outra sede para ficar. Sem quadra, a escola realizou seus ensaios no Boulevard 28 de Setembro.
O enredo esquerda|miniaturadaimagem|280x280px|Martinho da Vila, autor do enredo. "Kizomba, Festa da Raça" foi desenvolvido por Martinho da Vila. O enredo celebrou a cultura afro-brasileira e o centenário da Abolição da Escravatura no Brasil. O ano de 1988 marcou o centenário de assinatura da Lei Áurea, promulgada em 13 de maio de 1888. Algumas escolas de samba abordaram o centenário em seus enredos. No Grupo 1, além da Vila, Beija-Flor, Mangueira e Tradição também realizaram desfiles inspirados no tema. Segundo a sinopse do enredo, escrita por Martinho, "Kizomba é uma palavra do Kimbundo, uma das línguas da República Popular de Angola. Significa encontro de pessoas que se identificam numa festa de confraternização. Do ritual da Kizomba fazem parte inerentes o canto, a dança, a comida, a bebida, além de conversações em reuniões e palestras que objetivam a meditação sobre problemas comuns. Ainda segundo a sinopse, o enredo "conclama uma meditação sobre a influência negra da cultura universal, a situação do negro no mundo, a abolição da escravatura, a reafirmação de Zumbi dos Palmares como símbolo de liberdade do Brasil. Informa-se sobre líderes revolucionários e pacifistas de outros países, conduza-se a uma reflexão sobre a participação do negro na sociedade brasileira, suas ansiedades, sua religião e protesta-se contra a discriminação racial no Brasil e manifesta-se contra a apartheid na África do Sul, ao mesmo tempo que come-se, bebe-se, dança-se e reza-se, porque, acima de tudo Kizomba é uma festa, a festa da raça negra". A escolha do enredo foi resultado de um processo que se iniciou nas viagens de Martinho e Ruça pela África. Apaixonado pela cultura africana, Martinho criou e liderou o Grupo Kizomba, que promoveu encontros internacionais de arte negra no Brasil durante a década de 1980. Em 1982 foi realizado o show "Canto Livre de Angola", que reuniu diversos artistas angolanos em apresentações realizadas no Rio de Janeiro, em São Paulo e Salvador. O show virou álbum, lançado em 1983, e inspirou o enredo da Vila Isabel para o carnaval de 2012. Em 1984 foi realizado o "Kizomba: Encontro Internacional de Arte Negra", que ganhou uma segunda edição em 1986. Posteriormente, haveria a criação do projeto Concerto Negro, junto com o maestro Leonardo Bruno. O desfile de 1988 foi idealizado por Martinho como parte desses eventos de celebração à cultura afro-brasileira; enquanto Ruça optou por um desfile politizado, que transformasse a celebração do centenário da Lei Áurea em uma manifestação contra o racismo.
O samba-enredo miniaturadaimagem|Luiz Carlos da Vila é um dos autores do samba-enredo do desfile.|280x280px O samba-enredo do desfile foi composto por Rodolpho de Souza, Jonas Rodrigues e Luiz Carlos da Vila. A obra foi escolhida num concurso, coordenado por Martinho da Vila, que reuniu diversos concorrentes concorrentes. A final da disputa teve, além do samba vencedor, outras duas obras: uma assinada por Ovídio e Azo (autores do samba de 1987 junto com Martinho); e outra assinada por Sidney Sã, Miro Jr., Wilson Caetano, Claudinho de Orvalho e Arthurzinho Só. Com a vitória na disputa, Rodolpho assinou seu décimo samba na Vila. O compositor também é autor de outros clássicos da escola, como "Sonho de Um Sonho" (1980) e "Yá-yá do Cais Dourado" (1969), ambos em parceria com Martinho. Jonas assinou seu quinto samba na Vila; enquanto Luiz Carlos assinou sua segunda obra na agremiação. "Kizomba" foi o último samba assinado pelos três compositores na escola. O samba foi oficialmente lançado no álbum Sambas de Enredo das Escolas de Samba do Grupo 1A - Carnaval 88, com interpretação de Gera. "Os compositores não sabiam direito do que se tratava e alguns até me perguntaram se era 'quizumba', sinônimo de confusão [...] Eu dizia que queria algo emocionante e que não viessem com 'oba-oba' porque senão eu entraria na disputa".
Letra
A letra do samba começa exaltando Zumbi dos Palmares e seus ideais de luta que "influenciaram a Abolição". Com esse início, o samba delega o protagonismo da Abolição da escravatura no Brasil à luta de negros e abolicionistas, influenciados pelos ideais de Zumbi ("Valeu Zumbi / O grito forte dos Palmares / Que correu terras céus e mares / Influenciando a Abolição"). A seguir, o samba cita ritmos da cultura afro como o jongo, o maracatu e o caxambu ("Zumbi valeu / Hoje a Vila é kizomba / É batuque, canto e dança / Jongo e Maracatu / Vem menininha pra dançar o Caxambu / Vem menininha pra dançar o Caxambu"). Em seguida, a letra cita a Escrava Anastácia e homenageia a cantora Clementina de Jesus, morta em 1987 (Ôô, ôô, nega mina / Anastácia não se deixou escravizar / Ôô, ôô, Clementina / O pagode é o partido popular"). Nos versos seguintes, o samba convoca "toda a massa" para a kizomba da Vila, deixando claro que, apesar de ser uma celebração da raça negra, todas as raças são bem vindas. Há também uma menção à Constituição brasileira de 1988, que na época estava em processo de fundamentação, vindo a ser promulgada em 5 de outubro de 1988 ("Sacerdote ergue a taça / Convocando toda a massa / Nesse evento que congraça / Gente de todas as raças / Numa mesma emoção / Esta kizomba é nossa constituição / Esta kizomba é nossa constituição"). Os versos seguintes seguem celebrando a raça negra, com destaque para a religiosidade, a arte e a cultura ("Que magia / Reza, ajeum e orixás / Tem a força da cultura / Tem a arte e a bravura / E um bom jogo de cintura / Faz valer seus ideais / E a beleza pura dos seus rituais"). O refrão final do samba faz um jogo de palavras para expressar o desejo da Vila em ter uma quadra ("Nossa sede é nossa sede"). O refrão também clama pelo fim do Apartheid, regime de segregação racial implementado na África do Sul em 1948 pelo pastor protestante Daniel François Malan — então primeiro-ministro —, e adotado até 1994 pelos sucessivos governos do Partido Nacional, no qual os direitos da população negra foram cerceados pela minoria branca no poder ("Vem a lua de Luanda / Para iluminar a rua / Nossa sede é nossa sede / De que o Apartheid se destrua").
Regravações Ao longo dos anos, o samba foi regravado por diversos artistas. Ano Artista Álbum1988Martinho da VilaFesta da Raça1988Emílio SantiagoAquarela Brasileira[Emílio Santiago - Aquarela Brasileira]. O Som do Vinil1990Banda Reflexu'sBahia de Todos os SonsBanda Reflexus - Bahia de Todos os Sons. Som 132005Luiz Carlos da VilaUm Cantar à VontadeLuiz Carlos reluz jóias menores e mostra que é maior do que o CD. Folha de S.Paulo, 23 de novembro de 20052006GeraOs Sambas da Vila Isabel2007Dudu NobreOs Mais Belos Sambas Enredo de Todos os Tempos2010Mart'náliaEm África2015GalocantôGalocantô Canta Luiz Carlos da Vila2018Martinho da VilaAlô Vila Isabeeeel!!!
O desfile