Reinaldo Oudinot (ou Raynaldo Oudinott) foi um engenheiro militar francês do século XVIII, que se tornou mais conhecido pelas suas obras hidráulicas nos portos portugueses do Porto, Aveiro, Leiria e Funchal. Nascido e formado em França, iniciou a sua carreira em Portugal, onde desenvolveu vários projetos em diferentes áreas como arquitetura, urbanismo, engenharia hidráulica, cartografia e ordenamento florestal e agrícola. Em 1803, tornou-se um dos engenheiros mais graduados do exército português, ao ser promovido para o posto de Brigadeiro Real do Corpo de Engenheiros pelos serviços prestados ao Reino.Oudinot, Reinaldo, 1747-1807 - Biografias

Primeiros anos Reinaldo Oudinot nasceu em 1744 em Sampigny, freguesia de Lorena em França. Em 1766 começou a sua carreira militar no exército português com o "posto de ajudante com o exercício de engenheiro". As suas primeiras comissões foram na província da Estremadura onde fez parte da equipa de Guilherme Elsden (?-1779) nos levantamentos cartográficos do rio Tejo em 1768. Nesse ano foi elevado a Capitão de Infantaria.

Leiria (1773-87)

Reinaldo Oudinot, uma das figuras militares mais marcantes da Engenharia Hidráulica dos séculos XVIII e XIX, trabalhou no ordenamento de várias cidades de Portugal, iniciando-se na cidade de Leiria. O seu destacamento para Leiria em 1773 levou a que mais tarde ficasse responsável pela direção das obras decretadas pela Real Casa do Infantado para o rio Lis. Até 1784, Oudinot desenvolveu um extenso projeto de reordenamento do rio, fixando a foz e construindo avançados sistemas de irrigação e de distribuição de águas. A estes trabalhos atribuiu a designação de obra de “Arquitetura hidráulica”.

O projeto desenvolvido por Oudinot para a foz do Lis teve duas fases: a primeira, consistiu na regularização do canal do rio através da limpeza das areias e na formação do rio em linha recta; a segunda, consistiu na construção de um paredão para evitar que futuras cheias ocorressem nas regiões a sul do Lis.

Ao longo dessa comissão nas terras do infante D. Pedro (1717-1786), Oudinot foi destacado pelo seu comandante, o Tenente Coronel Guilherme Elsden (?-1779), para realizar vários levantamentos cartográficos do Pinhal do Rei, sob ordem superior do Marquês de Pombal. Mais tarde, em 1799, a pedido do ministro da Marinha, D. Rodrigo de Sousa Coutinho (1755-1812), Oudinot delineou planos de florestação para o Reino e especificamente para a comarca de Leiria. Apesar destes trabalhos corresponderem a encomendas para entidades distintas, o arquiteto Carlos Leite defendeu na sua dissertação a existência dos mesmos como partes integrantes de um plano global de ordenamento hidráulico, agrícola e florestal de Oudinot para o território de Leiria.

A fixação da foz do rio Lis por Reinaldo Oudinot, no início da década de 80, muito contribuiu para o desenvolvimento da povoação da Vieira tendo consequentemente originado a freguesia Vieira de Leiria. Além disso, essas obras também permitiram a expansão do Pinhal do Rei para as regiões costeiras a sul do rio Lis, as quais anteriormente se encontravam estéreis.

Até aos dias de hoje o traçado da foz definido por Reinaldo Oudinot, nos finais do século XVIII, mantém-se presente mesmo após algumas intervenções de manutenção e reforço.

Porto (1789-1804)

Depois de trabalhar em Leiria Reinaldo Oudinot foi solicitado para trabalhar no porto do Douro, por iniciativa do ministro José Seabra da Silva, a pedido da Companhia do Alto Douro. A barra apresentava vários problemas de assoreamento o que complicava a transição das embarcações e dos grandes navios, colocando em causa toda a economia da cidade do Porto. Oudinot chegou ao Porto em outubro de 1789 com um conjunto de instruções dadas pelo ministro que continham informações sobre o local de intervenção e quais os pontos a trabalhar. Rapidamente, Oudinot apresentou um primeiro plano a ser executado na foz do Douro. Neste plano respondeu às exigências do ministro propondo um dique na parte norte da foz do rio,que ligava o farol de S. Miguel-o-Anjo ao Forte de S. João Baptista. A ideia do projeto era fazer com que a compressão das águas criada pelo dique dragasse a barra e a alargasse a foz para sul. O projeto foi aprovado e em fevereiro de 1790 a Rainha D. Maria I ordenou o início dos trabalhos. O engenheiro Faustino Salustiano da Costa e Sá foi nomeado para ser seu colaboradorMartins, Carlos Henrique de Moura Rodrigues (2014). O programa de obras públicas para o território de Portugal Continental, 1789-1809 : intenção política e razão técnica : o Porto do Douro e a Cidade do Porto. Coimbra: Universidade de Coimbra.. miniaturadaimagem|Reinaldo Oudinot, Planta das Obras da Barra do Douro, e do aumento projectado para conservar o seu melhoramento, e beneficiar a Fortificação Foi neste período que a Rainha ordenou a construção de dois quartéis militares para o Porto, o de Santo Ovídio e o da Casa Pia. O ministro Luís Pinto de Sousa entregou a autoria destes projetos a Oudinot, designando para seu colaborador o arquiteto Teodoro de Sousa Maldonaldo. Durante a década de 90 Oudinot esteve responsável por diferentes comissões de ordem civil e militar, desde a realização de levantamentos cartográficos, planos, obras de fortificação e a criação de um novo projeto urbano e portuário para a Póvoa de Varzim.

De 1789 a 1804, Oudinot apresentou vários projetos que consistiram não só na abertura e limpeza da foz mas também no redesenho de toda a frente marginal do Douro. O seu projeto urbano para a frente ribeirinha consistia no desenvolvimento de cinco locais: São João da Foz, Massarelos, Ribeira do Porto, Guindais e Freixo. Junto com essas melhorias, Oudinot propôs a construção de um cais-estrada à beira-mar que ligasse esses cinco pontos, dando organização e continuidade a esse plano urbano desde a foz até à cidade. Em suma, com este projeto Oudinot conseguiu delinear um plano global que conjugava as áreas de hidráulica, urbanismo e de defesa militar. Ao expandir e fortificar o Forte de S. João Baptista e ao conceber uma nova estrutura urbana de quarteirões e praças, Oudinot reestruturou totalmente a foz do Douro. No entanto, devido a insuficiência de fundos estes projetos não foram construídos. A arquiteta Andreia Coutinho defende na sua dissertação este projeto como sendo um projeto urbano pombalino para frente marginal do DouroCoutinho, Andreia Raquel Sousa (2006). Reinaldo Oudinot e a intervenção na Barra do Douro: Um projecto urbano pombalino numa frente ribeirinha. Porto: FAUP..

Em 1801, com o início da Guerra das Laranjas, Reinaldo Oudinot assumiu o cargo de Governador interino das Tropas do Porto.

Póvoa de Varzim (1791) miniaturadaimagem|Edifício da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim desenhado por Reinaldo Oudinot em 1791 Durante o período em que esteve a trabalhar na cidade do Porto, Reinaldo foi ordenado pelo ministro José Seabra da Silva para se deslocar à Póvoa de Varzim para estudar as condições do local e posteriormente desenvolver um projeto urbano e portuário para a vila. A iniciativa surgiu do Corregedor da comarca do Porto Francisco de Almada e Mendonça a pedido dos poveiros.

O projeto para a Póvoa de Varzim consistia em três pontos: primeiro no transporte de água para o centro da aldeia através da construção de um novo aqueduto; segundo na criação de uma praça nova para a vila, devido ao “grande augmento da população” (este projeto-praça seria acompanhado pela construção do edifício da Câmara Municipal e do Mercado para a Vila); e terceiro, a construção de um porto para que os barcos de pesca pudessem ancorar em segurança durante condições climáticas desfavoráveis. Em janeiro de 1791, o Tenente Coronel Reinaldo Oudinot concluiu o projeto, enviando a planta e o orçamento ao ministro José Seabra da Silva. Um mês depois a Rainha D. Maria I assinou a provisão régia ordenando "Que no Campo da Calssada se construa huma Praça ampla para os mercados e outros logradouros da Povoação e que nella se construão as obras com cazas alpendoradas, Arvores, e hum chafariz nomeyo tudo na conformidade da Planta designada pello dito Tenente Coronel ".

As estratégias desenvolvidas por Oudinot para a Póvoa de Varzim ajudaram a vila a constituir um novo centro político e social através da construção da nova praçaAmorim, Sandra Maria Araújo (2004). Vencer o mar ganhar a terra: construção e ordenamento dos espaços na Póvoa pesqueira e pré-balnear. Póvoa de Varzim: Câmara Municipal da Póvoa de Varzim.. Esta praça, hoje conhecida como Praça do Almada (em homenagem ao Corregedor Francisco de Almada e Mendonça) foi projetada de forma retangular de modo a conectar as duas principais comunidades da época, a mais antiga, inserida no interior da vila, e a comunidade piscatória à beira-mar.

Aveiro (1802-04) miniaturadaimagem|(Reinaldo Oudinot, Luís Gomes de Carvalho), Planta do projecto que se esta executando para a nova abertura da Barra do Rio Vouga por Ordem de SAR o PRNS Em 1802, período em que estava a trabalhar na barra do Douro, Reinaldo Oudinot e o seu auxiliar e genro Luís Gomes de Carvalho foram chamados para trabalhar na barra de Aveiro a pedido do ministro D. Rodrigo de Sousa Coutinho. Esta obra visava restituir a saúde pública e a agricultura de Aveiro que com o passar das décadas iam se deteriorando. Para esse efeito, esta missão tinha como objectivo a abertura da barra e a drenagem das terras alagadas da bacia do rio Vouga.

O projeto de Oudinot consistia na construção de um extenso dique no rio Vouga, no sentido nascente-poente, de modo a impedir o contínuo avanço da barra. O seu projeto apresentava uma forma criativa de abrir a barra através da força das águas; escreveu o arquiteto Carlos Martins na sua dissertação de doutoramento sobre o projeto: “A genialidade da proposta de Reinaldo Oudinot residia em dois aspectos: em primeiro lugar, no carácter inventivo do modo de abrir o canal da barra, tendo como único agente a corrente das águas, solução extremamente económica, pela redução drástica dos meios humanos, e de execução muito mais rápida do que à força de braço; em segundo lugar, no profundo conhecimento da costa portuguesa e que o levou, desde o início do projecto, a prever que seria necessária toda a força e peso das águas represadas para vencer a força da acção marítima e dos ventos que varrem a costa mais ocidental da Europa”.

Com o acontecimento das grandes cheias na Ilha da Madeira no final de 1803, Oudinot foi destacado para o Funchal, tendo que deixar a coordenação das obras de Aveiro nas mãos de Luís Gomes de Carvalho.

Em 1808, as obras projetadas por Oudinot para a barra de Aveiro viriam a revelar-se um triunfo.

Madeira (1804-07) Após as grandes cheias na Ilha da Madeira de 1803, Reinaldo Oudinot foi destacado para trabalhar na reconstrução do Funchal. Nesta época Reinaldo Oudinot era o técnico com mais experiência de obras de hidráulica em Portugal.Para esta comissão, ele foi elevado a Brigadeiro Real do Corpo de Engenheiros.