Sergestoidea Dana, 1852, é uma superfamília de crustáceos dendrobranquiados, sendo chamados popularmente de camarões. O grupo abriga duas famílias; Luciferidae e Sergestidae, que originou o nome da superfamília. Suas principais características morfológicas se baseiam no rostro menor que o pedúnculo ocular e a perda ou redução dos pereópodes 4 e 5.

Esses animais têm um hábito de vida bentônico, principalmente Luciferidae, que apresenta alta especialização para tal, como a perda das quelas e a retenção dos ovos no terceiro pleópode da fêmea. Todos os membros de Sergestoidea são marinhos, com exceção de Acetes, um gênero de Sergestidae que vive em água doce. Desempenham um importante papel na cadeia trófica dos oceanos, fazendo parte do zooplâncton, se alimentando de microorganismos e sendo predados por animais maiores. Além disso, também fazem parte da atividade pesqueira em alguns países africanos e asiáticos, assim como no norte do Brasil.

Taxonomia e Filogenia A Super-Família Sergestoidea encaixa-se na Ordem Dendrobranchiata e compreende a Família Sergestidae e Luciferidae.  A Família Sergestidae é composta por 14 gêneros que abarcam 97 espécies. Enquanto Luciferidae é composta por 2 gêneros, que abarcam apenas 7 espécies.

Filogenia de Decapoda, baseada em WoRMS Editorial Board (2019)

A posição de Luciferidae em Sergestoidea é problemática, dada a diferença entre os grupos. A posição de Luciferidae foi inferida por conta de ausência dos pereópodes 4 e 5, dada a presença desses reduzidos em Sergestidae (e até ausentes em Acetes). Atualmente, a maioria das grandes modificações de Luciferidae são atribuídas a sua grande especialização ao modo de vida planctônico. Entretanto, a ausência completa de brânquias em Luciferidae torna difícil e delicada sua inclusão em Dendrobranchiata.Pérez Farfante, I. Kensley, B. F., 1997. - Penaeoid and Sergestoid Shrimps and Praws of the World. Keys and Diagnoses for the Families and Genera. Mém. Mus. natn, Hist. nat., 175: 1-233. Paris ISBN:2-85653510-0.

Revisões taxonômicas mais recentes, com base em dados morfológicos, indicam Luciferidae como grupo monofilético, enquanto que os demais sergestóides, antes composto pela família Sergestidae, não são um grupo natural e são divididos em quatro clados monofiléticos bem suportados: Acetidae, Sicyonellidae, Petalidiumidae e Sergestidae. Características gerais externas são as mais importantes para sustentar as famílias dentro de Sergestoidea, só sendo insuficientes para sustentar Sergestidae. miniaturadaimagem|330x330px|Mapa da distribuição mundial da Família Luciferidae. Retirada de OBIS

Distribuição Geográfica miniaturadaimagem|324x324px|Mapa da distribuição mundial da Família Sergestidae. Retirada de OBIS Sergestoidea é uma Super-Família de distribuição ampla, entretanto, há variações quanto às Famílias. Em Luciferidae, há maior concentração sobretudo em regiões quentes, equatoriais, o que corresponde às informações levantadas por alguns autoresCavalcante-Braga, D. V. (2017). Distribuição Populacional da Família Luciferidae (Decapoda: Sergestoidea) na Plataforma Continental do Amazonas. 2017. Tese (Doutorado em Ecologia Aquática e Pesca) - Universidade Federal do Pará. Belém, PA. Enquanto que, em Sergestidae, os registros são mais distribuídos e abundantes, concentrando-se nas regiões entre Equador e Trópico de Câncer (10° - 15°).

As faixas preferenciais observadas na distribuição das duas famílias reflete a forma com que condições ambientais afetam o ciclo de vida de cada um destes grupos. Isso ocorre porque, em locais de maiores temperaturas, em faixas equatoriais, os Luciferídeos tem maior taxa reprodutiva e de sobrevivência, resultando em uma maior abundância nesta latitude. Enquanto que os Sergestídeos acompanham o Princípio de BergmannSANTOS, Ana Paula Freitas dos et al . Population parameters and the relationships between environmental factors and abundance of the Acetes americanus shrimp (Dendrobranchiata: Sergestidae) near a coastal upwelling region of Brazil. Braz. j. oceanogr.,  São Paulo ,  v. 63, n. 3, p. 229-238,  Sept. 2015 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-87592015000300229&lng=en&nrm=iso>. http://dx.doi.org/10.1590/S1679-87592015086206303.: com o declínio da temperatura da água, há um aumento no período de vida e, consequentemente, no tamanho destes animais, isso porque os crustáceos crescem através de mudas, processo que ocorre durante toda a sua vida, por isso, pode-se dizer que crustáceos mais velhos são maiores, em geral. Em estudos de distribuição de Sergestidae, percebeu-se que indivíduos que vivem em regiões mais frias são maiores que os de regiões mais quentes.

Em estudos associados à análise de distribuição e abundância de Sergestidae, percebeu-se que, além de uma temperatura preferencial algumas vezes mais baixa, estes camarões encontram-se em abundância em regiões onde o nível de clorofila-a medido estava alto, associado diretamente a produção primária e, consequentemente, a uma maior abundância de alimento para os camarões.

A variação da profundidade observada no gráfico, demonstrando picos em áreas de 0 - 10 metros e 200 - 700 / 1000 - 2000 metros, pode ser resultado do processo de migração vertical observada por camarões da família Luciferidae, associado à desova (mais próxima da superfície)  e alimentação (em profundidade)MELO, NFAC et al . Distribution of the Planktonic Shrimp Lucifer (Thompson, 1829) (Decapoda, Sergestoidea) off the Amazon. Braz. J. Biol., São Carlos , v. 74, n. 3, supl. 1, p. S045-S051, Aug. 2014 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-69842014003000007&lng=en&nrm=iso>. Este processo decorre, em alguns casos, pela variação na salinidade por conta da pluviosidade em águas mais rasas, o que ocasiona a migração destes camarões. Além disso, as fêmeas tendem a migrar para profundidades mais rasas no período da noite para desovar, acredita-se que isso se deve à reduzida predação por planctívoros, este processo recebe o nome de Migração Vertical. miniaturadaimagem|320x320px|Gráfico da distribuição de profundidades em que foram registradas ocorrências dos camarões da superfamília Sergestoidea. Retirada de OBIS Além disso, ainda acerca da profundidade, pode ser associada aos diferentes hábitos encontrados em Sergestidae,ocupando desde profundidades mais baixas (0 - 100 metros) a mais altas (300 - 2000 metros)Vereshchaka AL. The shrimp superfamily Sergestoidea: a global phylogeny with definition of new families and an assessment of the pathways into principal biotopes. R Soc Open Sci. 2017;4(9):170221. Published 2017 Sep 6. doi:10.1098/rsos.170221.

Existe, em Sergestidae, uma única espécie encontrada em água doce, Acetes paraguayensis. Esta espécie possui modificações morfológicas evidentes provavelmente associadas ao seu hábitatAlexander L. Vereshchaka, Anastasia A. Lunina, Jørgen Olesen, Phylogeny and classification of the shrimp genera Acetes, Peisos, and Sicyonella (Sergestidae: Crustacea: Decapoda), Zoological Journal of the Linnean Society, Volume 177, Issue 2, June 2016, Pages 353–377, https://doi.org/10.1111/zoj.12371.

miniaturadaimagem|322x322px|Gráfico da temperatura das águas em que foram coletados camarões da superfamília Sergestoidea. Retirado de OBIS As representantes mais abundantes na costa brasileira são algumas espécies de Luciferídeos, encontrados preferencialmente em regiões neríticas tropicais, como a foz do Rio Amazonas (Lucifer faxoni). Alguns autores associam esta distribuição à reduzida salinidade da área, no caso citado acima, por estar associada a área de descarregamento de um grande rio. Entretanto, esta explicação não é consensual, havendo pesquisadores que associem a distribuição de Luciferídeos à áreas de alta salinidade. Apesar da discordância nos estudos analisados, verificou-se um fator importante a ser considerado é que em áreas em que há maior variação na salinidade, decorrente da alta frequência de chuvas, a taxa de sobrevivência de ovos e larvas de luciferídeos é menor, o que resulta em uma redução na população nos meses seguintes.

Há grande variação no tamanho e na abundância de Sergestoídeos encontrados nas diferentes épocas do ano decorrente das mudanças de hábito que acompanham o ciclo de vida destes camarões.TEODORO, Sarah de Souza Alves et al . Population ecology of the planktonic shrimp Lucifer faxoni Borradaile, 1915 (Crustacea, Sergestoidea, Luciferidae) of the southeastern coast of Brazil. Braz. j. oceanogr.,  São Paulo ,  v. 60, n. 2, p. 245-253,  June  2012 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-87592012000200014&lng=en&nrm=iso>. access on  26  June  2019.  http://dx.doi.org/10.1590/S1679-87592012000200014.

Anatomia

Anatomia geral de Dendrobranchiata Uma primeira característica para  classificação dos Dendrobranchiata é a divisão do corpo em regiões, sendo a primeira o cefalotórax, uma fusão dos segmentos torácicos e cefálicos. Neste se encontram um rostro e olhos pedunculados, além de um par de antenas e um par de antênulas, todas com função sensorial. Tem ainda um par de mandíbulas para trituração do alimento e dois pares de maxilas, que vão auxiliar na manipulação do alimento. Na região do tórax existem três pares de maxilípedes e cinco pares de pereópodes (apêndices torácicos), sendo que os três primeiros são quelados. As brânquias são do tipo dendrobrânquia, que é constituída basicamente de dois ramos principais que derivam do eixo central e então se subdividem em ramos secundáriosCosta, R. C.; Fransozo, A.; Melo, G. A. S.; Freire, F. A. M. - Biota Neotropica, v3 (n1) - BN01503012003.

A segunda região do corpo é o abdome, onde se encontram as vísceras do animal (com exceção do coração e das brânquias). Os cinco primeiros somitos (segmentos) abdominais apresentam pleópodes (apêndices abdominais, atuam na natação), enquanto que no sexto somito há a especialização dos apêndices em urópodes (dois últimos apêndices torácicos) que, junto ao telson terminal (sétimo somito), formam o leque caudal, que pode bater e movimentar o animal para trás, estando então envolvido na natação de fuga. A pleura (porção lateral do exoesqueleto de artrópodes) do segundo somito abdominal não sobrepõe a primeira, mas sobrepõe a terceira.

O petasma, aparelho copulador do macho, está presente no primeiro somito abdominal, enquanto que o télico, aparelho reprodutor da fêmea, está localizado ventralmente entre o quarto e o quinto par de pereópodes. Além disso, o télico pode ser fechado, quando a massa espermática é colocada internamente nas placas do télico, ou aberto, deixando então a massa espermática exposta. Os ovos são liberados diretamente na água, não tendo então uma incubação.

Anatomia geral de Sergestoidea Camarões da superfamília sergestoidea caracterizam-se pela sua carapaça extremamente ou pouco comprimida, além de um rostro menor que o pedúnculo ocular. Ainda é possível observar uma redução ou perda dos pereópodes quatro e cinco (com exceção do grupo Sicyonella). A pleurobrânquia é ausente e o flagelo ventral da antênula também pode estar ausente ou modificado. Camarões desse grupo nunca apresentam mais que duas brânquias por somito torácico em cada lado, além de também não terem mais que 7 ou 8 brânquias bem desenvolvidas em cada lado do corpo. miniaturadaimagem|Camarão Luciferidae|200x200px

Anatomia geral da família Luciferidae Caracterizada por ter a carapaça bastante comprimida, especialmente lateralmente, além de ter a porção anterior do corpo alongada, distanciando a mandíbula das antenas e dos olhos. O rostro é diminuído e fino. O flagelo ventral da antênula é ausente, assim como o quarto e o quinto pereópodes, sendo que os restantes não têm quelas, com exceção do terceiro que pode ter uma incompleta. O primeiro maxilípede não tem epipodito e exopodito, enquanto que no segundo maxilípede falta apenas o epipodito.