O termo falácia deriva do verbo latino fallere, que significa enganar. Designa-se por falácia um raciocínio errado com aparência de verdadeiro.. Na lógica e na retórica, uma falácia é um argumento logicamente incoerente, sem fundamento, inválido ou falho na tentativa de provar eficazmente o que alega. Argumentos que se destinam à persuasão podem parecer convincentes para grande parte do público apesar de conterem falácias, mas não deixam de ser falsos por causa disso.

Reconhecer as falácias é por vezes difícil. Os argumentos falaciosos podem ter validade emocional, íntima, psicológica, mas não validade lógica. É importante conhecer os tipos de falácia para evitar armadilhas lógicas na própria argumentação e para analisar a argumentação alheia. As falácias que são cometidas involuntariamente designam-se por paralogismos e as que são produzidas de forma a confundir alguém numa discussão designam-se por sofismas.

É importante observar que o simples fato de alguém cometer uma falácia não invalida toda a sua argumentação. Ninguém pode dizer: "Li um livro de Rousseau, mas ele cometeu uma falácia, então todo o seu pensamento deve estar errado". A falácia invalida imediatamente o argumento no qual ela ocorre, o que significa que só esse argumento específico será descartado da argumentação, mas pode haver outros argumentos que tenham sucesso. Por exemplo, se alguém diz:

"O fogo é quente e sei disso por dois motivos: ele é vermelho; e medi sua temperatura com um termômetro".

Nesse exemplo, foi de fato comprovado que o fogo é quente por meio da premissa 2. A premissa 1 deve ser descartada como falaciosa, mas a argumentação não está de todo destruída. O básico de um argumento é que a conclusão deve decorrer das premissas. Se uma conclusão não é consequência das premissas, o argumento é inválido. Deve-se observar que um raciocínio pode incorrer em mais de um tipo de falácia, assim como que muitas delas são semelhantes.

Lista de falácias por categoria Estas são as falácias formais e informais mais comuns...

Falácias da ambiguidade Equívoco Usar uma afirmação com significado diferente do que seria apropriado ao contexto.

Ex.: Os assassinos de crianças são desumanos. Portanto, os humanos não matam crianças.

Joga-se com os significados das palavras. A palavra "humanos" possui vários sentidos, pode ser um tipo de primata (sentido biológico) ou uma boa pessoa (sentido moral), mas a falácia usa a palavra sem considerar a diferença de sentido.

Anfibologia Ocorre quando as premissas usadas no argumento são ambíguas devido a sua má elaboração sintática.

Ex.: Venceu o Brasil a Argentina. Ele levou o pai ao médico em seu carro.

1. Quem venceu? 2. No carro de quem?

Nesse caso, toda a frase possui sentidos diversos a depender do contexto.

Ênfase Enfatizar uma palavra para sugerir o contrário.

Ex.: Hoje o capitão estava sóbrio (sugerindo embriaguez).

Pronuncia-se a palavra "hoje" com muita força para sugerir que ele é um alcoólatra.

É uma ironia.

Apelo a motivos Argumentum ad baculum (apelo à força) Utilização de algum tipo de privilégio, força, poder ou ameaça para impor a conclusão.

Ex.: Acredite no que eu digo, não se esqueça de quem é que paga o seu salário.

O oponente pode perder a coragem de enfrentar seu chefe porque pode perder o emprego.

Argumentum ad consequentiam (apelo à consequência) Considerar uma premissa verdadeira ou falsa conforme sua consequência é desejada.

Ex.: Papai Noel existe, porque eu ficaria muito triste se não existisse.

A premissa é tida como válida somente porque a conclusão é desejada.

Argumentum ad metum (apelo ao medo) Apelar ao medo para validar o argumento. É uma variação do apelo à consequência.

Ex: Se você se converter à minha religião, irá para o céu; de contrário, irá para o inferno.

Argumentum ad misericordiam (apelo à misericórdia) Também chamado apelo à piedade. Consiste no recurso à piedade ou a sentimentos relacionados, tais como solidariedade e compaixão, para que a conclusão seja aceita, embora a piedade não esteja relacionada ao assunto ou à conclusão do argumento. Do argumento ad misericordiam deriva o argumentum ad infantium — "Faça isso pelas crianças" e também o argumento ad sinistram — "Faça isso pelo proletário". A emoção é usada para persuadir as pessoas a apoiar (ou intimidá-las a rejeitar) um argumento com base na emoção, mais do que em evidências ou razões.

Apelo à emoção Recorrer à emoção para validar o argumento.

Ex.: Apelo ao júri para que contemple a condição do réu, um homem sofrido, que agora passa pelo transtorno de ser julgado em um tribunal.

O advogado quer que o júri absolva o réu por compaixão. É semelhante ao apelo à misericórdia.

Argumentum ad antiquitatem (apelo à antiguidade) Afirmar que algo é verdadeiro ou bom somente porque é antigo ou porque "sempre foi assim".

Ex.: Os homens da caverna já faziam assim, esta é a maneira correta de se fazer.

Ex. 2: Nossos avós educavam dessa maneira, assim é o jeito certo de educar.

Argumentum ad novitatem (apelo à novidade) Argumentar que o novo é sempre melhor, sem uma justificativa.

Ex.: Na filosofia, Sócrates já está ultrapassado. É melhor Sartre, pois é mais recente.

Argumentum ad ignorantiam (apelo à ignorância) Tentar provar algo a partir da ignorância quanto à sua validade. Só porque não se sabe se algo é verdadeiro, não quer dizer que seja falso, e vice-versa.

Ex.: Ninguém conseguiu provar que Deus existe, logo ele não existe.

Ou o contrário.

Ex.: Ninguém conseguiu provar que Deus não existe, logo ele existe.

Apelo ao preconceito Associar valores morais, políticos, sociais ou culturais a uma pessoa para convencer o adversário ou desmerecer suas opiniões.

Ex.: Uma pessoa religiosa como você não é capaz de argumentar racionalmente comigo.

A pessoa é estigmatizada por ser religiosa, considerada inferior ao oponente.

Argumentum ad superbiam (apelo à vaidade) Provocar a vaidade do oponente para vencê-lo.

Ex.: Não acredito que uma pessoa culta como você acredita nessa teoria.

O oponente, por ser muito culto, pode se sentir envergonhado de defender essa teoria "absurda". É o contrário do apelo ao preconceito.

Argumentum ad populum (apelo à popularidade) Também chamado apelo ao povo. É a tentativa de ganhar a causa por apelar a uma grande quantidade de pessoas. Por vezes é chamada de apelo à emoção, pois os apelos emocionais tentam atingir toda a população.

Ex.: Inúmeras pessoas acreditam em Deus, portanto Deus existe.

Argumentum ad ridiculum (apelo ao ridículo) Ridicularizar um argumento como forma de derrubá-lo.

Ex.: Se a teoria da evolução fosse verdadeira, significaria que o seu tataravô seria um gorila.

Espera-se que o oponente desista da sua convicção porque o orador a fez parecer ridícula.

Erros categoriais e de regras gerais Composição É o fato de concluir que uma propriedade das partes deve ser aplicada ao todo.

Ex.: Todas as peças deste caminhão são leves; logo, o caminhão é leve.

Perceba que o termo "leve" aplicado ao exemplo tem sentido vago, diferentemente de na frase "todas as peças têm 1 kg; logo, o caminhão tem 1 kg", onde o valor sugerido é inequivocamente especificado, tornando óbvia a invalidade do argumento.

Divisão É o oposto da falácia de composição. Supõe que uma propriedade do todo é aplicada a cada parte.

Ex.: Você deve ser rico, pois estuda num colégio de ricos.

Acidente Trata-se de querer aplicar uma regra geral a todos os casos, ignorando as exceções.

Ex.: Devemos usar um protetor solar por causa da radiação UV, então devemos usá-lo hoje à noite, na praia.

Inversão do acidente Trata-se de querer usar uma exceção como se fosse uma regra geral.

Ex.: Se deixarmos os doentes terminais usarem maconha, deveremos deixar todas as pessoas a usarem.

É chamada de generalização precipitada e se assemelha à amostra limitada.

Falácias causais Cum hoc ergo propter hoc (com isso, logo, por causa disso) Afirma que apenas porque dois eventos ocorreram juntos, eles estão relacionados.

Ex: Ao apontar para um gráfico complicado, Rogério mostra que as temperaturas vêm aumentando nos últimos séculos, enquanto o número de piratas vem diminuindo; logo, os piratas causam resfriamento global e, portanto, o aquecimento global é uma farsa.

Post hoc ergo propter hoc (depois disso, logo, por causa disso) Consiste em dizer que, pelo simples fato de um evento ter ocorrido logo após o outro, eles têm uma relação de causa e efeito. Porém, correlação não implica causalidade.

Ex.: O Sol nasce porque o galo canta.

Inversão de causa e efeito Considerar um efeito como uma causa.

Ex.: O investimento na educação sexual causou a propagação da SIDA (AIDS).

Na verdade, foi exatamente o contrário. A epidemia de SIDA (AIDS) levou ao incremento da educação sexual como forma de prevenção.

Terceira causa Ignorar a existência de uma terceira causa, não levada em conta nas premissas.

Ex.: Estamos vivendo uma fase de elevado desemprego, que é provocado por um baixo consumo.

Há uma causa tanto para o desemprego como para o baixo consumo.

Ex.: A Alemanha está em crise, que é provocada pelos banqueiros judeus.

Existem outros motivos para a crise (ter perdido a Primeira Guerra pode ser uma terceira causa).

Causa diminuta Apontar uma causa pouco importante.

Ex.: Fumar causa a poluição do ar em Edmonton.

A causa maior é a poluição industrial e dos automóveis.

Causa complexa Supervalorizar uma causa quando há várias ou um sistema de causas.

Ex.: O menino não teria sido atingido pela bola se não houvesse acabado o recreio.

Mas também não teria sido atingido se o colega não tivesse chutado a bola para cima, quando o recreio acabou.

Houve muitas outras causas.

Non-sequitur Non sequitur (não se segue que) Tipo de falácia no qual a conclusão não se sustenta nas premissas. Há uma violação da coerência textual.

Ex.: Que nome complicado tem este futebolista! Deve jogar muita bola.

A conclusão de que ele joga muito bem nada tem a ver com a premissa de seu nome complicado.

É o modelo básico de uma falácia porque as premissas não levam à conclusão e podem até levar ao sentido contrário.

Afirmação do consequente Essa falácia ocorre quando se tenta construir um argumento condicional da seguinte forma: Se A, então B. B Então A.

Ex.: Se há carros, então há poluição. Há poluição. Logo, há carros.

Afirma-se o consequente e depois se afirma o antecedente da proposição condicional. O antecedente é o que vem depois de "se" (A) e o consequente é o que vem depois de "então" (B).

A poluição não é causada somente por carros.

Negação do antecedente Essa falácia ocorre quando se tenta construir um argumento condicional da seguinte forma: Se A, então B. Não A Então não B.

Ex.: Se há carros, então há poluição. Não há carros. Logo, não há poluição.

Nega-se o antecedente e depois se nega o consequente.

A falta de carros não acarreta necessariamente a falta de poluição.

OBS: Os modos certos de argumentar são os contrários, afirmar o antecedente e depois afirmar o consequente ou negar o consequente e depois negar o antecedente.

Inconsistência Construir um raciocínio com premissas contraditórias.

Ex.: João é maior do que José e José é maior do que Frederico, enquanto Frederico é maior do que João.

Esta frase não faz sentido lógico, pois se A > B e B > C, logo A > C.

Falácias da explicação Invenção de fatos Consiste em mentir, dar falsa resposta ou apresentar informações imprecisas.

Ex.: A causa da gripe é o consumo de arroz.

Distorção de fatos Também chamada de omissão de dados. Mascarar os verdadeiros fatos.

Ex.: O segredo da minha força são os cabelos.

É omissão de informação.

Teoria irrefutável

Informar um argumento com uma hipótese que não pode ser testada ou inferida logicamente. Em outros termos, afirmar algo que não pode ser provado, e nem refutado, como verdadeiro.

Ex.: Ganhei na loteria porque Deus quis assim.