O período da história da China desde a fundação da República Popular em 1949 até a morte de Mao em 1976 é comumente conhecido como China maoista, China comunista e China Vermelha. A história da República Popular da China é frequentemente dividida pelos historiadores entre a Era Mao e a era pós-Mao. A Era Mao no país estendeu-se desde a fundação da república popular, em 1.º de outubro de 1949, até a consolidação do poder por Deng Xiaoping e a reversão das políticas na terceira sessão plenária do 11.º Comitê Central do Partido Comunista da China, em 22 de dezembro de 1978. A Era Mao concentra-se nos movimentos sociais de Mao Tsé-Tung desde o início da década de 1950, incluindo a reforma agrária, o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural.Jonathan Fenby, The Penguin History of Modern China: The Fall and Rise of a Great Power 1850 to the Present, 3.ª ed., 2019, pp. 353–530.Immanuel C. Y. Hsü, The Rise of Modern China, 6.ª ed., Oxford University Press, 1999, pp. 645–830. A Grande Fome Chinesa, uma das piores fomes da história humana, ocorreu durante essa era.
1949: Proclamação da República Popular da China
A Primeira Sessão Plenária da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC) foi aberta em Pequim em 21 de setembro de 1949. Ela reuniu 662 delegados de diferentes origens, incluindo o PCC, diversos partidos democráticos, organizações populares, o Exército de Libertação Popular, diferentes grupos étnicos e chineses ultramarinos. Em seu discurso de abertura, Mao Tsé-Tung proclamou a célebre frase de que "o povo chinês, que compreende um quarto da humanidade, agora se pôs de pé".
A CCPPC aprovou por unanimidade o Programa Comum como programa político básico do país após a vitória do Partido Comunista da China na Guerra Civil Chinesa. A conferência também tomou várias decisões históricas sobre os símbolos da nova república: designou Pequim como capital, adotou o calendário gregoriano, escolheu a bandeira vermelha de cinco estrelas como bandeira nacional e a "Marcha dos Voluntários" como hino nacional provisório.
A fundação da República Popular da China (RPC) foi formalmente proclamada por Mao Tsé-Tung, presidente do Partido Comunista da China, em 1.º de outubro de 1949, às 15h, na Praça da Paz Celestial, em Pequim. A criação do Governo Popular Central da RPC, o governo da nova nação, foi oficialmente anunciada durante o discurso de proclamação na cerimônia de fundação. Um desfile militar ocorreu durante a cerimônia de fundação.
Início da década de 1950: revolução social A República Popular da China foi fundada num território devastado por um século de invasões estrangeiras e guerras civis. Tanto as comunidades urbanas quanto as rurais, bem como a agricultura e a indústria, registraram crescimento significativo entre 1949 e 1959. O governo de Mao realizou a reforma agrária, instituiu a coletivização e implantou o sistema de campos laogai.
Em 1949, Mao Tsé-Tung declarou que a nação iria "inclinar-se para um lado", o que significava que a União Soviética e o bloco comunista seriam seus principais aliados. Três meses após a criação da RPC em outubro de 1949, Mao e sua delegação viajaram para Moscou. Eles não foram recebidos calorosamente por Stalin, que duvidava de que fossem realmente marxistas-leninistas e não apenas um grupo de nacionalistas chineses. Stalin também havia reconhecido o governo de Chiang Kai-shek e desconfiava de qualquer movimento comunista que não estivesse sob seu controle direto. Depois de uma reunião com Mao, o líder soviético comentou: "Que tipo de homem é Mao? Ele parece ter alguma ideia de revolução envolvendo os camponeses, mas não os trabalhadores." Por fim, um Mao frustrado preparou-se para voltar para casa, mas Zhou Enlai recusou-se a partir sem um acordo formal. Assim, foi assinado o Tratado Sino-Soviético de Amizade, Aliança e Assistência Mútua, e os chineses finalmente deixaram o país em fevereiro de 1950.
Campanha para Suprimir Contrarrevolucionários
Segundo historiadores chineses, entre janeiro e outubro de 1950 ocorreram mais de 800 motins contrarrevolucionários em todo o país, e mais de 40 000 ativistas políticos e quadros teriam sido mortos em consequência deles. O governo alegou que, somente em Quancim, contrarrevolucionários incendiaram e destruíram mais de 25 000 edifícios e roubaram mais de 200 000 cabeças de gado.
Em julho e outubro de 1950 foram emitidas instruções para enfatizar a política de "combinar repressão com leniência" (镇压与宽大相结合). A estratégia seguia o princípio de que "os principais criminosos devem ser punidos, os que foram coagidos devem ficar impunes e aqueles que prestarem serviço meritório devem ser recompensados". Em 21 de fevereiro de 1951, o governo promulgou oficialmente os "Regulamentos da República Popular da China sobre a Punição de Contrarrevolucionários". A campanha concentrou-se principalmente na eliminação de agentes clandestinos do Kuomintang, além de sociedades secretas, gangues criminosas e seitas religiosas.
Quando o movimento em grande escala terminou, no fim de 1951, as autoridades haviam solucionado mais de 600 grandes casos de espionagem e levado à justiça os executores responsáveis pelas mortes de revolucionários conhecidos, como Li Dazhao e Zhao Yiman.
Reformas econômicas e sociais
Quando a RPC foi fundada, em 1949, a reforma agrária ainda não havia sido realizada em áreas que abrangiam cerca de dois terços do território nacional e abrigavam aproximadamente 290 milhões de habitantes rurais. Camponeses pobres e trabalhadores agrícolas, que representavam mais de 57% das famílias rurais, possuíam apenas cerca de 14% das terras cultiváveis. Em junho de 1950, Liu Shaoqi apresentou um relatório sobre questões de reforma agrária na terceira sessão plenária do 7.º Comitê Central do PCC. Em 30 de junho de 1950, Mao Tsé-Tung assinou a Lei de Reforma Agrária da República Popular da China. Em 1953, a reforma agrária estava concluída na China continental, com exceção de Xinjiang, Tibete, Qinghai e Sujuão. A campanha resultou na entrega, pela primeira vez, de um lote de terra a centenas de milhões de camponeses. Aproximadamente 300 milhões de camponeses com pouca ou nenhuma terra receberam cerca de 700 milhões de mu (aproximadamente 47 milhões de hectares), além de outros meios de produção, como animais de tração e ferramentas confiscados dos latifundiários.
thumb|300x300px|Um agricultor rico diante de um "tribunal popular" do Partido Comunista da China no condado de Fogang, Cantão, em 23 de julho de 1952
O Estado confiscou empresas pertencentes às "quatro grandes famílias" (Chiang, Soong, Kung e Chen). Em 1952, a economia estatal controlava setores vitais, incluindo 80% da indústria pesada — energia, carvão e aço —, 100% das ferrovias e todo o sistema bancário. Em 1952, as empresas estatais chinesas respondiam por mais de 40% da produção industrial. Em 1952, a estabilidade dos preços havia sido estabelecida, o comércio havia sido restaurado e a indústria e a agricultura haviam recuperado seus anteriores níveis máximos de produção. Em 1953, a China havia recuperado rapidamente sua economia.
A nova Lei do Casamento foi aprovada em 13 de abril de 1950, sendo a primeira lei básica promulgada pela República Popular da China. Ela proibiu estritamente casamentos arranjados ou forçados, a superioridade dos homens sobre as mulheres e a negligência dos interesses das crianças. A lei também proibiu a bigamia, o concubinato e o casamento infantil, incluindo a prática de criar uma menina pequena na casa de seu futuro marido.
O governo adotou medidas drásticas para fechar bordéis e proibir o ópio e os jogos de azar. Em 21 de novembro de 1949, todos os 224 estabelecimentos de Pequim foram fechados; 1 286 prostitutas e 434 proprietários, intermediários e proxenetas foram presos em 12 horas por cerca de 2 400 quadros. Em todo o país, mais de 8 400 bordéis foram fechados. Em 1952, o problema das drogas — um flagelo havia um século — havia sido essencialmente erradicado por meio de uma combinação de aplicação rigorosa da lei e reabilitação.
O Movimento de Reforma do Pensamento começou em setembro de 1951, após um discurso do primeiro-ministro Zhou Enlai conclamando os intelectuais a reformar seu pensamento. O People's Daily pediu a professores e funcionários universitários que "se armassem com o pensamento do marxismo-leninismo" e "abandonassem as perspectivas vulgares do individualismo e do liberalismo, assim como o pensamento cultural da burguesia reacionária euro-americana". Mao Tsé-Tung endossou oficialmente o movimento em outubro de 1951, afirmando que a "remodelação ideológica, especialmente de todos os tipos de intelectuais, é uma das condições importantes para que nosso país realize a reforma democrática e a industrialização". No fim de 1952, o movimento havia se espalhado de Pequim e Tianjin para todo o país, abrangendo os campos da cultura, das artes e da ciência. Intelectuais foram organizados em diversas formas de estudo das teorias políticas e das políticas do novo Estado e também tiveram de examinar publicamente suas ações e pensamentos anteriores, admitindo posições de classe consideradas "incorretas" ou tendências "burguesas".
A Campanha dos Três Antis começou oficialmente em dezembro de 1951, surgindo do movimento mais amplo de "Aumentar a Produção e Praticar a Economia", iniciado para apoiar o esforço nacional na Guerra da Coreia. A campanha visava especificamente membros do Partido Comunista, funcionários do governo e trabalhadores de fábricas estatais, combatendo corrupção, desperdício e burocracia.Lawrence, Alan. China since 1919: Revolution and Reform: a Sourcebook. Routledge, 2003. . Quando o movimento terminou, em outubro de 1952, aproximadamente 1,2 milhão de pessoas haviam sido investigadas, e mais de 100 000 foram punidas por diferentes graus de corrupção. A partir das revelações da Campanha dos Três Antis, o governo lançou a Campanha dos Cinco Antis em janeiro de 1952. Investigações de funcionários corruptos haviam frequentemente revelado negócios ilegais com proprietários de empresas privadas, levando o governo a procurar regular a chamada "burguesia nacional". A segunda campanha concentrou-se nos setores industrial e comercial privados e buscou eliminar cinco "venenos": suborno, evasão fiscal, roubo de propriedade estatal, fraude em contratos públicos e roubo de informações econômicas do Estado.Spence, Jonathan D.. The Search for Modern China. W. W. Norton, 1991. . O governo mobilizou a classe trabalhadora para supervisionar os empregadores, aliando-se aos capitalistas considerados cumpridores da lei e isolando e punindo os elementos considerados infratores.
Nova Democracia
Depois de 1949, a China funcionou sob o "Programa Comum", que estabeleceu a Nova Democracia como base política para a construção do país. Essa etapa buscava completar o primeiro passo da revolução: transformar um país agrícola atrasado, semicolonial e semifeudal num país industrial independente, criando as condições materiais e culturais necessárias antes do avanço ao socialismo. A economia da Nova Democracia caracterizava-se pela coexistência simultânea de cinco setores econômicos: a economia estatal, de natureza socialista; a economia cooperativa, de natureza semissocialista; a economia capitalista privada; a economia individual de camponeses e artesãos; e a economia capitalista de Estado.
Originalmente, os dirigentes chineses previam que o período da Nova Democracia duraria muito tempo para fortalecer o país. A estratégia geral era resumida pelo lema "três anos de preparação, dez anos de construção". Mao Tsé-Tung comentou em 1949 que a transição ao socialismo poderia exigir de 20 a 30 anos. Liu Shaoqi, em relatórios de 1951, ressaltou que a tarefa era "lutar pela consolidação do sistema da Nova Democracia" e via a transição ao socialismo como uma questão para um futuro distante, pelo menos após dez anos de construção industrial.