thumb|300px|right|Representação de dois jovens homossexuais durante o chá. Pintura em seda sobre um rolo. Dinastia Qing (Séculos XVII e XIX), no Instituto Kinsey, Bloomington, Indiana, Estados Unidos

A situação da homossexualidade na China é relativamente ambígua em um contexto atual, embora haja muitos exemplos de tal prática em muitas dinastias ao largo da história.

Terminologia Nos tempos antigos, termos para expressar a homossexualidade incluíam "a paixão da manga cortada" (断袖之癖, Mandarin, Pinyin: duànxiù zhī pǐ) e "o pêssego mordido" (分桃 Pinyin: fēntáo). Outros termos menos obscuros são "tendência para os homens" (男風 Pinyin: nánfēng), "Irmãos unidos" (香火兄弟 Pinyin: xiānghuǒ xiōngdì), e a "paixão de Longyang" (龍陽癖 Pinyin: lóngyángpǐ), este último refere-se a uma piada sobre o Duque de Longyang do Período dos Reinos Combatentes.

As expressões formais para "homossexualismo/homossexual" são tongxinglian (同性戀, Pinyin: tóngxìngliàn, significa literalmente, relações homossexuais/amor pelo mesmo sexo) e tongxinglian zhe (同性戀者, Pinyin: tóngxìngliàn zhě, pessoas homossexuais). Ao invés dessa palavra Tongzhi é mais frequentemente usada pela comunidade gay chinesa. Tongzhi (ao pé da letra significa 'companheiro') que foi primeiramente adotada por pesquisadores de Hong Kong em seus estudos iniciais sobre a sexualidade naquela região, passou a ser usada como jargão no mandarim para referir-se aos homossexuais, enquanto no Cantonês é usado gei, adaptação do inglês Gay. O termo gay é às vezes considerado ofensivo quando usado por heterossexuais e até mesmo por homossexuais, dependendo da situação. Um outro termo usado popularmente, mas não tão frequentemente, é boli (玻璃, Pinyin: bōli, 'cristal'). Entre os estudantes universitários gays, o acrônimo '"datong"' (大同, Pinyin: dàtóng, utopia) está se tornando popular. Datong é a abreviatura de daxuesheng tongzhi (universitários homossexuais).

As lésbicas geralmente se denominam lāzi (拉子) ou lālā (拉拉). Esses dois termos são abreviaturas da transliteração do termo de língua inglesa lesbian. Ambos os termos são usados com frequência na China continental.

As visões tradicionais da sociedade chinesa sobre a homossexualidade thumb|230px|left|Uma mulher espionando um casal de amantes homossexuais Todas as grandes religiões na antiga China possuíam algum tipo de códice que tradicionalmente tem sido interpretado como sendo contrário à homossexualidade quando esta interfere na continuação da linhagem da família. Diferente do Cristianismo, essas grandes religiões e as tradicionais filosofias chinesas tendiam a ser neutras com relação à homossexualidade.

O Confucionismo diz que tanto o homem quanto a mulher devem se comportar de acordo com o tradicional papel social de gênero. As escrituras do Confucionismo não incluem os homossexuais na lista de pecadores.

O Taoismo destaca o equilíbrio que deve haver entre Yin e Yang, as forças complementares feminina e masculina respectivamente. Acredita-se que uma relação entre dois homens (Yang com Yang) pode resultar para ambos enfraquecimento e até mesmo doença. Nesse caso não houve a harmonia que é alcançada através da relação entre Yin e Yang. Em um relacionamento lésbico (Yin com Yin), não haveria perda de energia, uma vez que esta é inesgotável nas mulheres. Alguns taoistas argumentam que embora todo homem seja por natureza Yang (força masculina), ele também pode apresentar traços de Yin (força feminina). Alguns homens podem ter muito Yin em si e desse modo a presença de um comportamento considerado feminino poderia ser vista como algo natural. Sob esse ponto de vista, a homossexualidade seria algo natural, variando de acordo com o equilíbrio das forças Yin e Yang. A opinião dos taoistas modernos costuma variar individualmente acerca do tópico da homossexualidade.

Algumas escolas taoistas buscaram ao longo da história emular princípios budistas,incluindo preceitos acercas do que seria má conduta sexual. Consequentemente a doutrina de algumas escolas considerou a homossexualidade como má conduta sexual..The Ultra Supreme Elder Lord's Scripture of Precepts(太上老君戒經), in "The Orthodox Tao Store"(正統道藏)The Great Dictionary of Taoism"(道教大辭典), by Chinese Taoism Association, published in China in 1994, ISBN 7-5080-0112-5/B.054

As ideias de Chuang-Tzu (庄子), um dos filósofos taoistas mais influentes da China, têm como bases a liberdade de pensamento e a naturalidade. Dessa forma, algo visto como "fora do comum" seria poderia em tese ser na realidade "natural", pois seguiria uma ordem igualmente natural das coisas.

Embora alguns de seus textos citem a homossexualidade como má conduta sexual, o Budismo não costuma lidar com a sexualidade dos leigos, sua doutrina estabelece que as paixões são fonte de infelicidade e dificultam a iluminação e o Nirvana; os fiéis devem moderar os seus instintos, entre eles o sexual, independentemente das orientações de cada indivíduo.AbhidharmakośaCutler/Newland The Great Treatise On The Stages Of The Path To Enlightnment p.220Harvey,Peter Shantideva’s Siksasamuccaya p.421http://www.tibet.ca/en/newsroom/wtn/archive/old?y=1999&m=5&p=25_1

Homossexualidade na literatura Outra coisa marcante na antiga cultura chinesa era a importância dada à amizade entre pessoas do mesmo sexo. Há muitos exemplos em romances clássicos, é o caso de Water Margin, um livro sobre amizades masculinas profundas e duradouras. Tais vínculos eram geralmente baseados no companheirismo entre soldados em tempos de guerra e não na homossexualidade. Entretanto, outras obras retratavam muito mais que meras relações platônicas. No romance da dinastia Qing (século XVIII) O Sonho da Câmara Vermelha há exemplos de práticas envolvendo homens tanto homo como heterossexuais.Hellern, Hinsch; Bret.Passions of the Cut Sleeve.University of California Press, 1992.

Muita da antiga poesia chinesa era escrita em voz feminina e descrevia relacionamentos quase sexuais entre meninas na adolescência, antes que elas fossem separadas pelo casamento. Entre os poetas, alguns também usavam a narrativa feminina para lamentar o seu abandono pelo companheiro ou rei.

Em 1944, o professor Sun Cizhou (孫次周) publicou um trabalho afirmando que um dos mais famosos poetas da China Antiga, Qu Yuan (屈原) , era um amante de seu rei. O estudioso citou um poema do autor para sustentar sua opinião. Na obra mais importante de Qu Yuan, Li Sao, ('Dor da partida'), o autor se denomina mei ren (um belo homem) (ou mulher, 美人 Pinyin: měirén). A palavra que ele usou para descrever seu rei era a mesma usada naquela época pelas mulheres para referir-se aos seus amantes.

Há ainda uma tradição da literatura erótica, que é menos conhecida porque a maioria das obras foram eliminadas na queima de livros periódicos que ocorreram ao longo da história chinesa. Entretanto, alguns manuscritos isolados sobreviveram, sendo um dos mais importantes os da antologia Bian er chai (弁而釵), ('Capa sem alfinete' ou 'O alfinete de uma dama sob a capa de um homem'), uma série de quatro pequenas histórias em cinco capítulos, sobre paixão e sedução. A primeira, chamada "Crônica de um amor leal", descreve um professor de vinte anos que persegue um estudante de quinze e um grupo de jovens servas. Um outro conto, "Qing Xia Ji" (淸侠妓), (Memória de um herói apaixonado), o protagonista, Zhang, um soldado corajoso que tem duas esposas guerreiras, é seduzido por seu jovem amigo Zhong, uma situação considerada inusitada, já que o costume era que o homem mais velho tomasse a iniciativa. A obra foi publicada numa única edição entre 1630 e 1640.

Mais recentemente, Ding Ling, uma autora que vivia na China da década de 1920, foi uma importante e polêmica feminista. Acredita-se que suas obras continham teor homossexual e bissexual. Sua obra mais famosa é Shāfēi Nǚshì de rìjì (莎菲女士的日記) ('O diário da senhorita Sofia'), um trabalho onde a autora expressa a sexualidade feminina e o desejo sexual por outra mulher. Além disso, uma outra autora contemporânea, Huang Biyun (黄碧云, Cantonês: Wong Bikwan), escreve a partir de uma perspectiva lésbica em sua história "Ela é uma mulher jovem e eu também" (她是女士,我也是女士).

História China antiga thumb|350px|right|Jovens envolvidos num jogo erótico; Aquarela sobre rolo de papel do final do século XIX, dinastia Qing, Pequim., Coleção privada Há registros da prática de homossexualidade na China desde os tempos antigos. Um exemplo são as expressão estereotipadas que fazem alusão ao homossexualidade, yútáo e duànxiù (余桃 断袖). Yútáo ou "A sobra do pêssego/pêssego mordido", citado por Han Fei, fala sobre Mi Zixia (彌子瑕), um rapaz de rara beleza, logo virou um objeto de desejo do Duque Ling de Wei (卫灵公). Conta-se que um dia Mi dividiu com o Duque um delicioso fruto que já fora mordido por ele, o Duque apreciou o gesto (embora, uma vez que Zixia tornou-se adulto, e perdeu sua beleza, o Duque lembrou do episódio e disse que o jovem havia sido falso com ele).Artigo sobre Mi Zixia Duànxiù ('rasgando a manga') refere-se ao ato do imperador Ai Di da dinastia Han, que cortou sua manga sobre a qual dormia seu adorado amante Dongxian, fez isso para não acordá-lo.

As pesquisas de Pan Guangdan (潘光旦) indicaram que quase todos os imperadores da dinastia Han tinham um ou mais parceiros sexuais homens.Pan Guangdan. "Zhongguo wenxianzhong tongxinglian juli" (Exemplos de homossexualidade nos documentos chineses). Em Xing xilu xue (Psicologia do sexo). Pekin. 1946. Também há descrições de lésbicas em alguns livros de história. Acredita-se que a homossexualidade era popular nas dinastias Sung, Ming e Qing. Os homossexuais chineses nunca sofreram grandes perseguições em comparação aos homossexuais da Europa cristã durante a Idade Média até o século XIX.

Em algumas áreas o amor homossexual era particularmente apreciado. Durante a dinastia Ming havia uma piada muito popular que dizia que a província de Fujian era o único lugar onde a classe alta prosperou graças ao comércio de cortesãos masculinos.Brook, 232. Contudo, escritores de Fujian não gostaram desse clichê. Xie Zhaozhe (1567–1624) escreveu que de Jiangnan e Zhejiang até Pequim e Shanxi, não havia ninguém que não sabia dessa afeição aos homossexuais. Até os missionários jesuítas europeus como Matteo Ricci (1552–1610) que registrou esse fato e o que eles julgavam como sendo "perversões anormais", lamentando que sua prática era frequente e de natureza pública.Brook, 231. O historiador Timothy Brook escreveu que essa não era a única preocupação dos jesuítas, desde o celibato os sacerdotes eram alvos fáceis para especulações das mais variadas, incluindo sexuais. As práticas homossexuais envolvendo catamitos ou "jovens cantores" eram associadas, principalmente pela classe média trabalhadora, com o luxo e a decadência da elite.Brook, 231–233 Sabe-se que alguns desses homens eram bissexuais, visto que alguns deles procuravam moças com a mesma frequência que procuravam seus servos masculinos.Brook, 233.

A primeira lei contra a homossexualidade entrou em vigor na China durante a Dinastia Sung. Contudo, a lei não foi efetivamente cumprida. Ironicamente, o acontecimento mais devastador para os homossexuais chineses foi o conhecimento que veio após o Movimento de autofortalecimento, quando a homofobia foi importada pela China juntamente com a ciência e a filosofia do Ocidente.

O funcionário da dinastia Qing, Zhu Gui (1731-1807), um administrador e coletor de impostos à serviço de Fujian em 1765, quis melhorar as deficiências morais das pessoas de sua jurisdição promulgando uma proibição aos "cultos licenciosos", criticando o respeito que a população tinha por tais cultos. Um culto que ele considerou bastante problemático era o de Hu Tianbao, os homens vinham a procura da interseção dessa entidade para conseguir o amor de outro homem. O próprio Zhu Gui relata:

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