Os estudos sociais da ciência e da tecnologia, também denominados estudos sobre ciência, tecnologia e sociedade ou estudos de ciência, tecnologia e sociedade ou estudos de ciências-tecnologias-sociedades (CTS) se dedicam a investigar as relações entre estes três campos. Estes estudos partem do entendimento de que ciência e tecnologia são atividades sociais, feitas por pessoas, situadas no tempo, no espaço, na cultura e na sociedade, sendo, portanto, impossível considerá-las e compreendê-las separadamente. Desta forma, os Estudos CTS desconstroem a visão ocidental hegemônica de uma ciência neutra e universal.
Histórico Os estudos Ciências-Tecnologias-Sociedades começam a se delinear na sociologia do conhecimento na obra de Karl Mannheim, Ideologia e Utopia, de 1929, que estabeleceu as bases da disciplina e reconheceu as relações entre o pensamento científico e as condições sociais nas quais ele se dá. Nela Mannheim evidencia o caráter social e histórico do conhecimento científico e o pertencimento de indivíduos – inclusive cientistas – a grupos sociais. O autor coloca que diferentes grupos sociais experimentam e interpretam o mundo de forma diversa. Que em momentos de estabilidade social, uma determinada interpretação do mundo é dominante pois um grupo se encarrega de produzi-la e divulgá-la, cunhando o termo intelligentsia.
Para Mannheim, as rupturas aconteceriam em momentos de mobilidade social, quando as diferentes concepções de mundo passam a se comunicar. Mannheim traz, como exemplo, a discussão sobre o fim do monopólio da Igreja na produção e disseminação do conhecimento em fins da Idade Média e o surgimento dos pensamentos epistemológico, psicológico e sociológico e a relação entre política e ciência, mesmo entre partidos políticos e suas ideias, é debatida e os conceitos de ideologia (manutenção - grupos dominantes) e utopia (transformação - grupos oprimidos) são aportados.
Já na década de 1940, Robert Merton trouxe um enfoque funcionalista para a sociologia da ciência, situando a prática científica como uma atividade social construída sob um conjunto de regras próprias. As normas de Merton do universalismo, comunismo, desinteresse e ceticismo organizado são apresentadas como quase autônomas em relação às demais práticas sociais. A história e a sociologia da ciência tiveram caminhos mais distanciados até as décadas de 1960 e 1970, quando se iniciou um diálogo com as obras de Thomas Kuhn (A Estrutura das Revoluções Científicas) e de David Bloor (Conhecimento e Imaginário Social). Ambos os autores buscavam considerar a dimensão dos processos sociais, políticos e culturais nas práticas científicas. No entanto, Kuhn centra seu trabalho no território demarcado da ciência, mesmo reconhecendo que existe “pressão social” e também que os cientistas, como homens, atuam para a articulação de novos paradigmas. Pode-se ver um exemplo em um trecho do livro A estruturas das revoluções científicas: “Decidir rejeitar um paradigma é sempre decidir simultaneamente aceitar outro e o juízo que conduz a essa decisão envolve a comparação de ambos os paradigmas com a natureza, bem como sua comparação mútua". Já Bloor, em sua definição e defesa do Programa Forte, apresenta o conhecimento – e consequentemente a ciência – como uma parte da cultura. “Knowledge then, is better equated with Culture than Experience (Bloor, p.16)”. Bloor apresenta o cientista como homem, imerso em sua sociedade, em uma visão coletiva do mundo (Bloor, p.15). O Programa Forte foi construído com base em quatro princípios: a causalidade; a imparcialidade; a simetria; e a reflexividade. Defendia a posição de que a história das ciências deveria se libertar do enfoque “presentista” – que julga os fatos passados a partir do que é considerado verdadeiro ou falso no presente.
Kuhn e Bloor, a partir da segunda metade dos anos 1970, transformaram-se em referências para um grupo de sociólogos e historiadores da ciência, que acabaram por se reunir em torno da Sociedade para os Estudos Sociais da Ciência (Society for Social Studies of Science – 4S) e de sua revista, tais como John Law, Steven Shapin, Steve Woolgar, entre outros. A partir de então, a prática científica passa a ser tratada como uma cosmologia e suas dimensões sociais, políticas e culturais são analisadas através da história e da sociologia. A década de 1980 trouxe a incorporação de métodos da antropologia e da sociologia (observação, entrevistas, questionários, ...) para o estudo das práticas científicas; era como uma microssociologia dentro dos laboratórios, na qual sociólogos e historiadores ingressavam nos próprios laboratórios na qualidade de observadores e passam a debater a ciência com um outro olhar. Neste grupo, situa-se o livro de Bruno Latour e Steve Woolgar – Vida de Laboratório – que é o trabalho mais conhecido da área.
CTSA Diante do movimento CTS, um grupo preocupado com o meio ambiente cria um movimento adicionando a letra 'A' ao final da sigla. CTSA é uma proposta pedagógica que desvincula a ciência neutra para uma ciência que se aproxima da realidade do aluno.
O movimento CTSA (Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente), na área educacional brasileira, emerge no momento em que a ciência passa a ser observada como produto dos aspectos econômicos, sociais e políticos. Já na década de 80, o ensino de ciências passa a ser orientado pelas análises das implicações sociais do desenvolvimento científico e tecnológico, pontuando que Ciência e Tecnologia são produzidas pelo homem, apresentam intencionalidade, crença, limite e valor, ou seja, não estão desatreladas do que é tradicionalmente chamado de humanidade.
O movimento CTSA é de relevância para estratégias curriculares, pois permite discussões relacionadas à produção de ciências e tecnologias com consequências para a sociedade e para o meio. A educação em uma perspectiva CTSA não é trivial, "pois implica criar condições para que as pessoas compreendam os problemas postos pelo avanço da civilização, não de maneira simplista, mas, sobretudo, reconhecendo a importância e a necessidade de manter sempre em pauta o diálogo entre a ética e a cultura” (Barolli et al., 2006, p.1).
Educação CTS
A educação CTS não se trata de uma disciplina específica ou conteúdo escolar, mas de uma perspectiva ou enfoque metodológico aplicado ao processo de ensino-aprendizagem na área de ciência e tecnologia em geral. Não apenas restrita as chamadas ciências "exatas" ou "duras", mas aplicando-se a construção do conhecimento técnico e científico. A compreensão da ciência a partir de um conceito de saber confiável permite situar o conhecimento abordado nas salas de aula de forma crítica e situada, distanciando o conteúdo das grandes narrativas, atores e dogmas da ciência.
Ensino Vários dos avanços da ciência e tecnologia são alicerçadas nas disciplinas de Física, Química e Biologia. Essas disciplinas poderão ficar mais interessantes se envolverem o movimento Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS). E o que é CTS? É um movimento iniciado na Europa e EUA que promove a participação democrática das discussões que envolvem Ciência e Tecnologia (C&T), compreendendo melhor que C&T podem gerar impactos positivos e negativos para a vida das pessoas. Para isso, o professor precisa assumir o papel de mediador do conhecimento capaz de mobilizar reflexões com relação as consequências da C&T para a sociedade e vice-versa. Dito de outra forma, mais C&T não significa, obrigatoriamente, maior bem estar para toda a sociedade. O movimento CTS representa uma boa possibilidade de educação científica para um efetivo exercício da cidadania, podendo propiciar adequado posicionamento sobre assuntos de C&T, em meio a uma sociedade cada vez mais complexa. Enfim, uma disciplina de ciências que envolve CTS, pode despertar nos aprendizes uma visão ampliada dos avanços da ciência e da tecnologia, tanto nos benefícios que esse desenvolvimento pode trazer como nas consequências sociais e ambientais que ele pode causar.
Eventos CTS
Internacionais O Fórum de Ciência, Tecnologia e Sociedade, registrado como uma organização sem fins lucrativos desde março de 2006, realiza uma reunião anual, a partir do primeiro domingo de outubro de todos os anos, em Quioto, no Japão. O STS Forum reúne políticos, empresários, cientistas e a mídia de todo o mundo com fins de discutir os progressos da ciência e da tecnologia para o futuro da humanidade, bem como sobre as implicações éticas da aplicação das novas tecnologias.
Inspirado no Fórum japonês anual e após Hon, o primeiro-ministro do Sri Lanka, ter participado como palestrante na inauguração em Quioto, o Sri Lanka criou o Fórum Sri Lanka STS, com o objetivo de discutir o papel da Ciência e da Tecnologia na sociedade, especialmente em relação aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, explorando oportunidades decorrentes de C & T e abordando barreiras para o uso de S & T.
O Programa de Ciência, Tecnologia e Sociedade da John F. Kennedy School of Government na Universidade Harvard oferece recursos únicos para lidar com os desafios resultantes da inovação científica e tecnológica, liberdades civis, cidadania informada e governo democrático. Um dos eventos realizados desde 2006 durante cada semestre é a roda CTS (ou The STS Circle at Harvard), onde um grupo de estudantes de doutorado e doutores recentes se reúnem para criar um espaço para conversas interdisciplinares sobre questões contemporâneas em ciência e tecnologia relevantes para pessoas em áreas como antropologia, história da ciência, sociologia, STS, lei, governo, política pública e ciências naturais.
A Universidade Aveiro (Portugal), criou em julho de 2000 a primeira edição do Seminário CTS que ocorre até hoje com o nome Seminário Ibero-Americano CTS (SIACTS). Da Comissão Organizadora do Seminário fazem parte pesquisadores de diferentes países (Portugal, Espanha, Brasil e Colômbia) e pesquisadores do Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF).
No início de 2012, emergiu a Rede Chilena de Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS-Chile) com o objetivo de analisar, discutir e entender esses processos. A CTS-Chile busca unir os esforços de uma variedade de atores acadêmicos e não-acadêmicos com treinamento em ciências básicas e sociais de instituições chilenas e estrangeiras que têm tentado há vários anos desafiar a estrita divisão entre análise tecnológica - científico versus social. Essa rede iniciou em 2014 o Encuentro de la Red Chilena de Ciencia, Tecnología y Sociedad onde o trabalho pode ser proveniente de todas as áreas da Ciência, Tecnologia e Sociedade. Possui a participação de pesquisadores de várias universidades que enviam trabalhos sobre apresentações orais, dentro de das questões e temas de interesse para a comunidade.
A Alpen-Adria-Universität possui o Institute of Science, Technology and Society Studies que por sua vez realiza anualmente a The STS Conference Graz, uma conferência anual juntamente com a Inter-University Research Centre for Technology, Work and Culture (IFZ) e com o Institute for Advanced Studies on Science, Technology and Society (IAS-STS).
No Brasil