Station to Station é o décimo álbum de estúdio do músico inglês David Bowie, lançado pela RCA Records em 1976. Considerado de maneira geral como uma de suas obras mais significativas, Station to Station também é notável por ter sido veículo de sua última grande persona, o Thin White Duke. O álbum foi gravado logo depois de ele ter completado as filmagens para o longa The Man Who Fell to Earth, de Nicolas Roeg, e a capa, inclusive, mostra uma cena do filme. Durante as sessões de estúdio, Bowie estava no auge de seu vício em drogas, especialmente a cocaína, e não se lembra de quase nada das gravações do disco.

Musicalmente, Station to Station foi um álbum de transição para Bowie: o desenvolvimento do funk e soul music de seu lançamento anterior, Young Americans, ao apresentar uma nova direção com o uso de sintetizadores e ritmos de motorik influenciados por bandas alemãs como Kraftwerk e Neu!. Esta tendência viria a culminar em alguns de seus trabalhos mais aclamados, a então chamada Trilogia de Berlim, gravada com Brian Eno de 1977 a 79. O próprio músico revelou que este disco era "um apelo para eu retornar à Europa".Pegg, 2004, pp. 297–300.

Station to Station já foi descrito como simultaneamente um de seus álbuns mais acessíveis e também impenetráveis.Carr & Murray, 1981, pp. 78–80. Provavelmente isso se deve ao fato de que, nesta obra, Bowie soube misturar funk e baladas românticas a letras concernentes a Nietzsche, Aleister Crowley, mitologia e religião. O álbum foi imensamente bem recebido pela crítica e público, teve sérias consequências na vida de Bowie, e influenciou significativamente algumas das bandas que surgiriam nos anos seguintes, como a Magazine. Em 2003, foi considerado o 323º melhor álbum de todos os tempos na eleição da Lista dos 500 melhores álbuns de sempre da revista Rolling Stone.

Antecedentes Segundo o biógrafo David Buckley, o magérrimo Bowie que morava em Los Angeles, estimulado por um vício "astronômico" em cocaína e subsistindo através de uma dieta a base de pimentas e leite, passou grande parte dos anos de 1975 e 76 "em um estado de terror paranormal."Buckley (2000): pp. 259, 264. Diversas histórias circularam—oriundas de entrevistas a Playboy e a Rolling Stone—sobre o cantor nessa época, vivendo em uma casa cheia de artefatos do antigo Egito, queimando velas negras, assistindo corpos passarem por sua janela, desesperado pelo fato de bruxas terem roubado seu sêmen, recebendo mensagens secretas enviada pelos Rolling Stones, e tendo um medo mórbido da figura do guitarrista Jimmy Page, que era aficionado por Aleister Crowley.Pegg (2004): pp. 297–300. Bowie diria mais tarde sobre a estadia em Los Angeles: "essa porra de lugar deveria ser varrido para fora da Terra."

E foi durante os sets de gravação de seu primeiro grande filme, The Man Who Fell to Earth, dirigido por Nicolas Roeg, que Bowie começou a escrever uma pseudo-autobiografia chamada The Return of the Thin White Duke. Enquanto isso, ele também compunha música para a trilha sonora da produção, embora isso não viria a se concretizar (em vez disso, sob a recomendação de Bowie, John Phillips do Mamas and the Papas acabou escrevendo e produzindo toda a música original do filme).Phillips, John (1986). Papa John. Dolphin Books. O diretor Nicolas Roeg advertiu à estrela que o personagem Thomas Jerome Newton permaneceria com o ator por algum tempo mesmo após a produção estar concluída. Com a deixa de Roeg, Bowie desenvolveu o seu próprio olhar sobre o filme, e este acabou incorporando à sua imagem pública e nas duas capas do álbum ao longo dos próximos 12 meses, o mesmo ar de fragilidade e indiferença de Newton.Buckley (2000): pp. 260–263.

The Thin White Duke tornou-se o porta-voz do Station to Station e, ao menos durante os próximos seis meses, do próprio Bowie. Impecavelmente vestido com camisa branca, calça preta e colete, o duque branco e magro era um homem vazio que cantava canções românticas com uma intensidade agonizante, enquanto parecia não sentir nada, feito "gelo mascarado de fogo".Carr & Murray (1981): pp. 78–80. Esta persona tem sido descrita pelos autores e biógrafos como um "aristocrata louco", um "zumbi amoral",Buckley (2000): p. 258. e até mesmo de "super-homem ariano sem emoção". Mas, para Bowie, o duque não passou de um "personagem desagradável".Wilcken (2005): p. 24.

Gravação e produção Station to Station foi gravado no Cherokee Studios, Los Angeles. Em 1975, os editores Roy Carr e Charles Shaar Murray, da NME, suporam que foi cortado—"em 10 dias de atividade febril"—quando Bowie havia decidido que já não havia mais esperança em produzir a trilha sonora de The Man Who Fell to Earth. Livros mais recentes dizem que o álbum foi gravado ao longo de um par de meses, em outubro-novembro de 1975, e foi na lata antes de Bowie iniciar suas sessões abortadas para a trilha sonora.Buckley (2000): pp. 277–279.Wilcken (2005): p. 16.

Depois de se pensar intitulá-lo The Return of The Thin White Duke,Buckley (2000): p. 263. ou Golden Years, Station to Station foi co-produzido por Harry Maslin, associado a Bowie através das canções "Fame" e "Across the Universe" do Young Americans. Tony Visconti, que após três anos de ausência havia retornado então recentemente na mixagem de Bowie para Diamond Dogs e co-produzindo David Live e Young Americans, não se envolveu com este álbum de 76 devido a horários conflitantes.Buckley (2000): pp. 269–270. No entanto, formou a banda que acompanharia Bowie pelo resto da década: o baixista George Murray juntou-se a Dennis Davis, baterista do Young Americans, e ao guitarrista Carlos Alomar.

O processo de gravação desenvolvido com esta equipe estabeleceu o padrão de álbuns de Bowie, incluindo o Scary Monsters (and Super Creeps) de 1980: faixas de apoio estabelecidas por Murray, David e Alomar; saxofone, teclado e guitarra solo (aqui por Bowie, Roy Bittan e Earl Slick, respectivamente); vocais e, finalmente, diversos truques de produção para completar a canção.Buckley (2000): p. 270. De acordo com Bowie, "tenho coisas extraordinárias de Earl Slick. Acho que isso capturou sua imaginação para fazer barulhos na guitarra, e texturas, ao invés de tocar as notas certas."Loder, Kurt; David Bowie (1990). Notas para Sound + Vision por David Bowie [box set booklet]. Rykodisc. Alomar relembra: "Foi um dos álbuns mais gloriosos que eu já fiz... Nós experimentamos muito nele." Harry Maslin acrescenta: "amei essas sessões, porque estávamos totalmente abertos a experimentar em nossa abordagem."

Bowie, por sua vez, não se lembra de quase nada das sessões de Station to Station, nem mesmo do estúdio. Certa vez admitiu, anos depois: "Eu sei que foi em Los Angeles porque eu li que havia sido lá." O músico, no entanto, não usava cocaína sozinho durante as sessões; Carlos Alomar comenta: "se há a coca fará com que você fique acordado até as 8 da manhã para que você possa fazer a sua parte na guitarra, você irá ir pelo caminho da coca... o uso da cocaína é impulsionado pela inspiração." Assim como Bowie, Earl Slick tinha lembranças bastante vagas da gravação: "Esse álbum é um pouco confuso por razões óbvias! Estávamos no estúdio e tudo estava louco—muitas horas, muitas noites."Buckley (2000): pp. 271–272.

A capa frontal mostra uma cena de The Man Who Fell to Earth em preto e branco, em que Bowie, interpretando o personagem Thomas Jerome Newton, entra na cápsula espacial que o levará de volta a seu planeta natal. Bowie insistiu na imagem cortada e em preto e branco porque achava que a imagem original e a cores mostrava um céu que parecia artificial demais. Quando a Rykodisc relançou o catálogo de Bowie no início dos anos 90, a versão colorida foi usada. A capa traseira mostrava Bowie desenhando signos da Cabala com giz, algo que fazia constantemente no set de filmagem do filme.

Estilo e temas Station to Station é frequentemente citado como um álbum de transição na carreira de Bowie. Nicholas Pegg, autor de The Complete David Bowie, definiu o álbum como o "ponto preciso da jornada de Young Americans a Low", enquanto que para Roy Carr e Charles Shaar Murray o disco "divide efetivamente os anos 70 para David Bowie. Ele abandona por completo a era de Ziggy Stardust e do plastic soul, e introduz o primeiro gosto da nova música que se seguiu com Low."

Em termos de criatividade, o sabor eurocêntrico de Station to Station tem seus antecedentes com faixas como "Aladdin Sane 1913-1938-197?" e "Time" (1973), enquanto seus elementos de funk/disco são desenvolvimentos do soul/R&B de Young Americans (1975). Neste trabalho, Bowie absorve a influência do motorik e da música eletrônica de bandas alemãs como Neu!, Can e Kraftwerk. Tematicamente, o álbum revisita conceitos tratados anteriormente em canções como "The Supermen" de The Man Who Sold the World (1970) e "Quicksand" de Hunky Dory (1971): o 'Super Homem' de Nietzsche, o ocultismo de Aleister Crowley, e acrescenta a fascinação nazista pela mitologia do Santo Graal e pela Kabbalah. De fato, Pegg considerou os temas deste disco como um choque entre "ocultismo e Cristianismo".

O estilo musical de "Golden Years", a primeira faixa gravada para o álbum, construída sob a influência do funk e do soul de Young Americans mas com uma aresta mais dura, tem sido descrito como "um ar de arrependimento por oportunidades perdidas e os prazeres do passado." Bowie disse que foi escrita para—e rejeitada por—Elvis Presley, seu ídolo, enquanto que Angela Bowie, sua esposa na época, alega que a canção foi escrita para ela.Buckley (2000): pp. 272–273. Embora o single tenha atingido o Top 10 nos dois lados do Atlântico, raramente foi tocada em apresentações ao vivo depois da turnê do Station to Station.Pegg (2004): pp. 82–83. "Stay" é outra peça guiada por um riff de funk, "gravada durante nosso frenesi de cocaína", segundo conta Alomar. Sua letra tem sido interpretada como uma reflexão acerca da "incerteza da conquista sexual", e como um belo exemplo do "romantismo espúrio do Duque."

O elemento cristão do álbum mostra-se evidente no hino "Word on a Wing", embora para alguns críticos, a religião, assim como o amor, era simplesmente uma outra forma do Duque "testar sua dormência". O próprio Bowie, porém, clama que nessa canção, pelo menos, a "paixão é verdadeira." Quando a cantou ao vivo em 1999, o cantor descreveu-a como oriunda dos "piores dias da minha vida... tenho certeza de que era um pedido de ajuda."Pegg (2004): pp. 240–243. "Wild Is the Wind", balada que fecha o disco, é a única regravação do trabalho, e é elogiada como uma das melhores performances vocais da carreira de Bowie.Buckley (2000): pp. 274–275. Ele se inspirou em regravar a canção depois que conheceu a cantora/pianista/composita americana Nina Simone, que a cantou no álbum Wild Is the Wind (1966). A cena de The Man Who Fell to Earth em que Thomas Jerome Newton esparrama-se na frente de dezenas de monitores de televisão é citada como fonte inspiratória da faixa mais otimista deste álbum, "TVC 15".Buckley (2000): p. 274. Outros escrevem que é sobre supostamente a namorada de Iggy Pop sendo engolida por uma televisão,Pegg (2004): p. 223. e tem sido descrita como "incongruentemente alegre" e "o tributo aos The Yardbirds mais oblíquo possível".