A noética (do grego nous: mente) é uma disciplina que estuda os fenômenos subjetivos da consciência, da mente, do espírito e da vida a partir do ponto de vista da ciência.Harman, Willis. What Are Noetic Sciences?. Institute of Noetic Sciences. Newsletter, Vol. 6, No. 1, Spring 1978Schlitz, Marilyn; Taylor, Eugene & Lewis, Nola. Toward a Noetic Model of Medicine. Noetic Sciences Review, nº 47, Winter 1998 Como conceito filosófico, em linhas gerais define a dimensão espiritual do homem.Coelho Júnior, Achilles Gonçalves & Mahfoud, Miguel. As Dimensões Religiosa e Espiritual da Experiência Humana: distinções e inter-relações na obra de Viktor Frankl. IN Revista de Psicologia. São Paulo: USP, 2001. v.12 n.2

Na filosofia

Apesar de ser uma disciplina de formulação recente, seu objeto e as metas que persegue já foram estudados por várias correntes de filosofia e fazem parte de todas as tradições esotéricas das religiões do mundo. No oriente Buda disse que o mundo é criado por nossos pensamentos, que a consciência está em toda parte e que a realidade e a vida são uma só, estando todos os seus elementos constituintes inextrincavelmente ligados por teias de interdependência.Gyatso, Tenzin, XIV Dalai Lama. Contemplative Mind, Hard Science. Shift Magazine, nº 9, December 2005-February 2006 Diversos povos indígenas ao redor do mundo compartilham dessa visão em alguma medida.Crawford, Jennifer. Spiritually-engaged knowledge: the attentive heart Ashgate Publishing, 2005. p. 89

Na tradição ocidental, a noética foi fortemente influenciada pelas teorias dos filósofos da Grécia Antiga a respeito da consciência, do conhecimento e do eu. Deriva dos termos gregos nous, a mente, a alma racional, a inteligência; noema, o objeto ou foco de nous, e noesis, que significa estritamente o ato de pensar em si, e também uma compreensão global, completa e instantânea de qualquer questão sem o intermédio da articulação pela linguagem, equivalente ao insight moderno ou ao conceito de intuição. Noesis contrasta com o significado de dianoia, que remete ao conhecimento racional discursivo ou dialético. Para Platão noesis era superior à dianoia, sendo a mais elevada atividade mental possível, habitando a esfera do Bem e da Harmonia divinos, e trabalhando com axiomas e princípios, ideias, formas e causas primordiais. É o que possibilita o acesso ao mundo divino, transcendente, absoluto, além do raciocínio humano comum.McPartland, Thomas J. Noetic Science. Wagner Columbus Publishing Co. Ltd., sd, p. 6. Disponível em VoegelinView.comLima, Jorge dos Santos. A Perfeição da Justiça em Platão: uma análise comparativa entre a Alegoria da Linha Dividida em os personagens de A República. Dissertação de Mestrado. Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Natal: Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2007. pp. 17-19; 23-24; 28-29

Aristóteles dizia que o nous compreende tanto a capacidade humana de questionamento acerca do fundamento do ser, como esse próprio fundamento, que é experienciado como o motor orientador das questões: "Acentuemos que toda a substância vem a ser a partir de algo com o mesmo nome". Da parte do nous humano, o conhecimento questionante, isto é, o ato noético, é a compreensão da sua participação no fundamento do ser, possível em virtude da participação do nous divino no nous humano, sendo a noesis a capacidade perceptiva ou cognoscente do homem que o distingue dos animais. Ainda para ele a experiência noética é aquela que transforma o cosmos primordial - onde todas as coisas são consubstanciadas numa unidade transcendente - no fundamento do ser e no mundo objetivo, múltiplo e diferenciado, chamando esse conjunto de ousia, tudo o que é "convincentemente real".Voegelin, Eric. A Consciência do Fundamento. Publicado originalmente pela University of Notre Dame Press, 1978. Disponível em Lusosofia.net Tanto para Platão como para Aristóteles, nous expressava a irrupção do divino no processo da busca pelo conhecimento.McPartland, p. 5 A partir da definição clássica, o elemento noético foi absorvido pela doutrina judaica. Fílon escreveu que o cosmos noético não é nada mais que o logos de Deus em sua atividade criativa, justificando sua tese a partir do que consta no Gênesis. Dali o conceito passou para os primeiros filósofos cristãos. Basílio e Gregório Magno se referiram ao noético como o mundo espiritual, ontologicamente superior ao mundo em que vive o homem, definição que foi adotada por seus sucessores.Van Winden, J. C. M.; Den Boeft, J. & Runia, David T. Arché: a collection of patristic studies. Volume 41 de Vigiliae Christianae Supplement Series. Brill, 1997. pp. 139-141; 221 Outras definições

Segundo as definições de Viktor Frankl, fundador da Logoterapia, "Homem e animais são constituídos por uma dimensão biológica, uma dimensão psicológica e uma dimensão social, contudo, o homem se difere deles porque faz parte de seu ser a dimensão noética. Em nenhum momento o homem deixa as demais dimensões, mas a essência de sua existência está na dimensão espiritual. Assim, a existência propriamente humana é existência espiritual. Neste sentido, a dimensão noética é considerada superior às demais, sendo também mais compreensiva porque inclui as dimensões inferiores, sem negá-las - o que garante a totalidade do homem".

A dimensão noética seria, então, uma dimensão não-determinada, mas determinante; a dimensão da unicidade, da identidade mais profunda do ser humano, implicando também a transcendência livre, criativa e responsável das limitações. Frankl assinala que ela é necessariamente inconsciente, pois impulsiona a pessoa para fora e para além de si mesmo, onde a consciência do eu deixa de existir e todo o interesse se volta para o outro. A dimensão noética pode se manifestar de várias formas - no trabalho e no amor altruístas, na intuição verdadeira e na experiência religiosa. Para Husserl, a noética, além de ser a dimensão espiritual, é o fator determinante na atribuição de significado à experiência. Ao animar o elemento material, entrelaçando-se em sínteses e continuidades múltiplo-unitárias, dá lugar à consciência de algo, de modo que em tal consciência pode "anunciar-se, demonstrar-se e determinar-se racionalmente a unidade da objetividade".Bello, Angela Ales. Teologia negativa, mística, hilética fenomenológica: a propósito de Edith Stein. IN Memorandum, Memória e História em Psicologia. Belo Horizonte: UFMG; Ribeirão Preto: USP, Out/2002. nº 3, pp. 98-111 Também afirmou que somente a subjetividade transcendental possui um verdadeiro sentido, e que o mundo objetivo está na sua dependência.Frota, Ana Maria M. C. Da Fenomenologia Transcendental à Hermenêutica Ontológica – alguns elementos a serem discutidos. Trabalho apresentado no III Fórum Brasileiro da A.C.P. 10-16 de outubro de 1999, Ouro Preto. Disponível no website da Associação Paulista da Abordagem Centrada na Pessoa Voegelin disse que o elemento noético aparece quando a consciência procura tornar-se explícita para si mesma e interpretar o seu próprio logos.

Segundo Tulving, noética é uma das três formas de consciência: anoética, com uma atenção simples a estímulos externos; noética, que envolve atenção de representações simbólicas do mundo, e autonoética, que envolve a atenção do self e a experiência pessoal estendida no tempo.Queiroz, João. Tipologia da consciência: Um estudo comparativo baseado na filosofia de C. S. Peirce. IN Galaxia, Revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica. São Paulo: PUC-SP, 2001. nº 1 Ronai Rocha definiu como noético tudo que pertence ao intelecto ou mente humana: crenças, ideias, pensamentos e conceitos, e esta é uma das definições do termo para a Psicologia moderna, centrando sua atenção no aspecto cognitivo e sendo o elemento de contato do indivíduo com o mundo real exterior, possibilitando a formulação de juízos, abstrações, figurações e raciocínios coerentes e significativos.Da Rocha, Ronai Pires. Espaço da Filosofia no Currículo Escolar. Página pessoal do professor de filosofia da Universidade Federal de Santa MariaRamón, Saturnino Pesquero. A Importância da "Act-Psichology" de Franz Brentano. IN Psicologia, Reflexão e Crítica. Revista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, nº2, vol. 19, 2006Chiappo, Leopoldo. La Configuración Noético-Perceptiva. Acerca de la Conceptualización de la Esquizofrenia. IN Alcmeon. Revista da Fundación Argentina de Clínica Neuropsiquiatrica. Año VIII - Vol 5 - Nº 4 - Marzo de 1997

Para Marc Halévy a noética é essencialmente a ciência do conhecimento. Não somente dos valores da epistemologia, dos mecanismos mentais e neurobiológicos descritos pelas ciências cognitivas, mas de maneira muito mais ampla, é o estudo de todos os aspectos do conhecer, da sua produção (criatividade), formulação (semiologia e metalinguagem), estruturação (teoria dos sistemas, paradigmas e ideologias), validação (critérios de pertinência, epistemologia) e proliferação de ideias (processos de apropriação e normalização) em seu sentido mais lato. Estuda também a dinâmica e os ciclos da vida, das ideias e das teorias, das condições de sua emergência, desenvolvimento, apogeu, decadência e extinção.Halévy-van Keymeulen, Marc. Facing the Noetic Revolution. Disponível em Noetique.eu Segundo Stratton, noética se refere a uma estrutura individual de conceitos, sendo o somatório de ideias, crenças e opiniões de cada um, e a forma pela qual tais conceitos se relacionam entre si e com o mundo externo.Stratton, S. Brian. Coherence, consonance, and conversation: the quest of theology, philosophy, and natural science for a unified world-view. University Press of America, 2000. pp. 75-76

A noética como ciência História thumb|William James

A noética moderna teve um precursor na figura de Charles Darwin, que procurou estudar a evolução das espécies numa perspectiva global e sintética, mas foi primeiro definida pelo psicólogo norte-americano William James, dizendo que ela descreve "estados de insight em verdades profundas inalcançadas pelo intelecto discursivo. Estes insights seriam revelações e iluminações cheias de significado, mas todas inarticuladas; como regra, elas trazem consigo um curioso senso de autoridade". Ele foi um dos pioneiros da valorização do potencial da transcendência humana no terreno do estudo científico da consciência, enquanto que mais ou menos ao mesmo tempo, na Europa, neurologistas como Jean-Martin Charcot e Pierre Janet definiam a hipótese psicogênica para sintomas físicos. Esta hipótese foi levada adiante por psicanalistas e médicos da escola de Viena como Freud e Jung, e por outros norte-americanos, desenvolvendo uma complexa teoria de psicologia dinâmica do inconsciente para demonstrar que os sintomas das doenças muitas vezes são simbólicos de causas de origem física e/ou psíquica, lançando as bases em torno de 1930 da moderna psicossomática.