thumb|250px|Nicholas Jean-de-Dieu Soult, Marechal de França, Duque da Dalmácia (1769–1851). A Segunda Invasão Francesa de Portugal, que opôs forças portuguesas e britânicas às do Império Francês, teve início a 3 de Fevereiro de 1809 e teve fim após a Segunda Batalha do Porto a 12 de Maio de 1809, o que levou à retirada das tropas francesas do Norte de Portugal.
Antecedentes Após a assinatura da Convenção de Sintra, que estabeleceu um fim à Primeira Invasão Francesa, Dalrymple, Burray e Arthur Wellesley são chamados a Londres a fim de serem ouvidos numa comissão de inquérito sobre os termos daquele documento. Com isso, o comando das forças britânicas na Península foi entregue a Sir John Moore em 6 de Outubro de 1808.
No Congresso de Erfur (27 de Setembro a 14 de Outubro de 1808) foram reafirmados os termos do Tratado de Tilsit (7 de Julho de 1807) entre Napoleão e Alexandre I da Rússia. O imperador francês ficava assim liberto para vir à Península Ibérica resolver a questão urgente da Guerra Peninsular. Napoleão entra em Espanha a 4 de Novembro e dispõe, na Península, de uma força superior a 200 mil homens.
Esta grande ofensiva dirigida pelo próprio imperador levou Sir John Moore, com a maior parte das forças britânicas existentes em Portugal, a deslocar-se para Espanha com o objectivo de, juntamente com os exércitos espanhóis, enfrentar esta ameaça. A campanha terminou com a retirada das tropas britânicas da Península após a batalha da Corunha (16 de Janeiro de 1809). Napoleão, entretanto, tinha voltado para França para defrontar os austríacos e tinha deixado a perseguição do exército britânico a cargo do seu II Corpo da Grande Armée, sob comando do marechal Nicolas Jean-de-Dieu Soult.
As ordens que Soult tinha recebido de Napoleão consistiam em marchar em direcção ao Porto após o embarque das tropas britânicas de Corunha, devendo aquela cidade ser ocupada a 1 de Fevereiro. Dez dias mais tarde o II Corpo deveria estar em Lisboa. O I Corpo, situado em Mérida (Espanha, a cerca de 65 km de Badajoz), sob o comando do marechal Claude Victor-Perrin, enviaria uma coluna em direção a Lisboa quando Soult se aproximasse da capital portuguesa e, simultaneamente, a sua 2.ª Divisão (comando do general Pierre Bellon Lapisse) que se encontrava em Salamanca devia marchar sobre Ciudad Rodrigo e Almeida assim que recebesse notícias da chegada de Soult ao Porto.
Ao estabelecer este plano, Napoleão não teve em conta as condições meteorológicas e a péssima condição das estradas que não permitiam rápidos movimentos de tropas. Também não previu a acção das forças irregulares portuguesas que, não podendo travar o avanço de uma força experiente, disciplinada e bem equipada, podiam pelo menos flagelá-la, retardar o seu avanço e pôr em perigo as suas linhas de comunicações. Este plano não podia funcionar sem que a comunicação entre o I e o II Corpo, que se encontravam afastados muitas dezenas de quilómetros, se processasse normalmente e esta comunicação era praticamente impossível a menos que toda a correspondência fosse transportada por forças de efectivos numerosas.
Quando Soult deixou a Corunha dirigiu-se ao Ferrol que se submeteu sem dificuldade a 26 de Janeiro de 1809. À vontade da população em resistir aos franceses, opunha-se a falta de determinação dos comandantes militares. O mesmo sucedeu com Vigo e Tui. No dia 2 de Fevereiro a guarda avançada de Soult chegou à margem norte do rio Minho mas só no dia 15 de Fevereiro, depois de estarem reunidas todas as forças, foi feita a tentativa de entrar em Portugal.
A Invasão de Portugal Primeiras Tentativas
Soult manda passar o rio Minho no dia 15 de Fevereiro de 1809 em direcção a Vila Nova de Cerveira mas uma resposta imediata da artilharia portuguesa impede a passagem das forças e estas retiram.
Em Soult faz mais uma tentativa de entrar em Portugal com uma travessia entre Camposancos (na margem norte, a cerca de 3 km da foz do rio Minho) e Caminha (na margem sul). A travessia foi tentada em duas ou três dezenas de barcos de pescadores e, desta forma, apenas podiam ser transportados cerca de 300 homens de cada vez. As forças irregulares portuguesas apoiadas por dissidentes galegos, que vigiavam na margem sul abriram fogo e só três embarcações chegaram ao seu destino com trinta e poucos homens que foram imediatamente aprisionados.
Soult decidiu não fazer outra tentativa de atravessar o Minho e deu ordem às suas unidades para marcharem em direcção a Ourense e daí seguirem em direcção a Chaves pelo vale do rio Tâmega. Numa viagem marcada por confrontos com os insurrectos espanhóis, as primeiras forças chegaram a Ourense no dia 20 de Fevereiro e encontraram intacta a ponte que lhes permitia atravessar o rio. Só no dia 24 é que concentrar-se-iam todas as forças. Soult conservou o seu quartel general em Ourense por mais 9 dias para reabastecer e reparar equipamentos. O avanço para Portugal ficou marcado para 4 de Março.
Chaves No dia 4 o exército francês marchou de Ourense para Allariz e daí para Monterrei onde esperou mais três dias para permitir às unidades e comboios de apoio logístico mais à retaguarda acompanharem o grosso das forças. No dia 10 de Março retomou a marcha em direção a Chaves com forças em ambos os lados do Tâmega. As forças espanholas do tenente-general marquês de La Romana tinham retirado daquela região e o brigadeiro Silveira, governador militar de Trás-os-Montes, ficou isolado perante o invasor. Outras forças portuguesas encontravam-se em Braga e Porto, sob o comando do general Bernardim Freire de Andrade, governador militar do Porto, mas foi decidido que não se juntariam a Silveira.
Perante a impossibilidade de resistir ao invasor, Silveira retirou as suas forças regulares para as posições de São Pedro de Agostém, a sul de Chaves. No entanto, as numerosas forças irregulares que o acompanhavam, bem como parte do Regimento de Infantaria 12 de Chaves, decidiram defender aquela praça. Soult resolveu começar por atacar as forças do brigadeiro Silveira em São Pedro que foram obrigadas a retirar para Vila Real. Sentindo-se menos protegidos, os defensores da praça de Chaves renderam-se no dia 12 de Março. Soult fez de Chaves a sua base para as futuras operações em Portugal.
Em Chaves, Soult decidiu seguir para o Porto através da Serra da Cabreira e descer o vale do rio Cávado por Ruivães e Salamonde. Desta forma evitava as forças do brigadeiro Silveira e um território que era mais fácil de defender. Pelo itinerário escolhido, depois de Salamonde chegaria a Braga e, a partir daí, dispunha de uma boa estrada até ao Porto. thumb|400px|Principais movimentos das forças francesas na 2.ª Invasão Francesa de Portugal.
Braga O general Bernardim Freire colocou apenas postos de observação nas posições de Ruivães e Salamonde onde existiam boas condições de defesa. Enviou pedidos de ajuda dirigidos ao bispo do Porto e à Regência e do primeiro recebeu o 2.º batalhão da Leal Legião Lusitana, sob o comando do Barão de Eben mas os reforços enviados de Lisboa — dois batalhões — ainda nem tinham atravessado o rio Douro. Bernardim Freire, não confiando nas suas tropas, uma multidão indisciplinada e mal armada, começou a enviar para a retaguarda os seus comboios e vagões de abastecimentos e a artilharia de posição para se juntar à defesa do Porto. Este ato foi visto como traição pela população que era maioritariamente da zona e Bernardim Freire, que acabou por ser assassinado às mãos do povo de Braga.
Soult iniciou o movimento de Chaves para Braga, no dia 14 de Março. Enviou um destacamento na direção de Vila Real para fixar as forças do brigadeiro Silveira. A 3ª Divisão de Cavalaria do general Jean–Baptiste Franceschi–Delonne e a 3ª Divisão do general Delaborde seguiram à frente e facilmente afastaram os focos de resistência que encontravam mesmo nas mais pequenas povoações onde entre os combatentes se encontravam homens e mulheres, novos e velhos, clérigos e camponeses.
Na povoação de Carvalho d'Este, a pouco menos de 10 km de Braga, nas colinas de cada lado da estrada, uma força muito heterogénea com cerca de 25 mil portugueses pretendeu travar o avanço do invasor, mas tal não aconteceu, uma vez que não tinha capacidade de enfrentar com êxito um exército bem equipado, treinado, disciplinado e experiente. A Batalha do Carvalho d'Este, a 20 de Março de 1809, foi facilmente resolvida a favor das tropas francesas que, em seguida, ocuparam Braga.
Porto Depois de ocupada a cidade de Braga, Soult seguiu em direcção ao Porto. Novamente as improvisadas forças portuguesas, na sua maioria constituídas por milicianos, ofereceram resistência no rio Ave (ver artigo A passagem do rio Ave, Março de 1809), em Ponte de Ave e na Ponte da Lagoncinha, em Lousado, e na Barca da Trofa, mas não conseguiram impedir a passagem das forças francesas e, no dia 27, Soult avistava os trabalhos de fortificação da defesa do Porto.
A cidade estava defendida por uma linha de trincheiras e baterias com cerca de 10 km de extensão, sobre as colinas que circundavam a cidade, desde o Forte de São João Baptista da Foz até à capela de Bonfim onde existe hoje a igreja paroquial. Os trabalhos de defesa foram efectuados sob a direcção de oficiais de engenharia portugueses e britânicos. Existiam quase 200 bocas de fogo de artilharia, as principais ruas da cidade foram barricadas e todo o dispositivo estava guarnecido por uma força numerosa.
O exército que foi possível reunir para defender o Porto tinha cerca de 5 mil homens de tropas regulares, a maioria deles recrutas com poucas semanas de serviço, três ou quatro regimentos de milícias mal armados e de pouca disciplina e um número elevado de cidadãos com falta de armas, disciplina e qualquer experiência militar. Não se conhece ao certo o efectivo desta força, mas pensa-se que não seria inferior a 30 mil homens OMAN, pag 241.
Os portugueses recusaram as propostas de Soult para se renderem e a Batalha do Porto (28 de Março de 1809) que se seguiu foi mais uma demonstração da falta de eficácia das forças improvisadas. As defesas portuguesas foram quebradas e a cidade caiu nas mãos dos franceses. A luta prolongou-se dentro da cidade, nas sucessivas barricadas que tinham sido levantadas em cada rua, mas sem possibilidades de conter o invasor. Para além das habituais atrocidades cometidas sobre a população, o desastre da Ponte das Barcas provocou também numerosas mortes. Após a ocupação do Porto, Soult enviou um contingente para sul do Douro formada pela cavalaria de Franceschi e a infantaria do general Mermet.
Reorganização do Exército Português
A Regência formada após a Primeira Invasão Francesa, perante a situação caótica em que se encontrava o exército que tinha sido desmantelado por Junot, solicitou ajuda ao Reino Unido no sentido de indicar um oficial que levasse a cabo a tarefa de reorganização sem a qual não estaríamos em condições de enfrentar qualquer nova ameaça. Foi nomeado para essa tarefa o major-general William Carr Beresford que ao chegar a Portugal recebeu o título de Marechal do Exército Português.
Quando Beresford chegou a Portugal já as forças francesas atravessavam a fronteira a norte de Chaves. Muitos oficiais britânicos vieram prestar serviço no Exército Português. A influência britânica foi determinante na reorganização do exército que inicialmente abrangeu apenas o centro e sul do País pois as unidades a norte do Douro estavam empenhadas contra Soult. Quando, dois meses mais tarde, se concentraram as forças para expulsarem as tropas francesas de Portugal, Beresford dispunha de dez regimentos de infantaria, embora alguns com apenas um batalhão, três batalhões de caçadores e três regimentos de cavalaria incompletos. Alguns batalhões iriam atuar já integrados em brigadas britânicas.
A Defesa de Amarante