Waldo Motta (ou Valdo Motta, nome artístico de Edivaldo Motta, São Mateus, 27 de outubro de 1959) é um poeta, ator, numerólogo, curador, místico e agitador cultural brasileiro, comummente ligado à geração marginal da década de 1980 e, mais especialmente, à de 1990,HOLANDA, Heloísa Buarque de (Org.). Esses poetas – uma antologia dos anos 90. Rio de Janeiro: Aeroplano, 1998 & SAVARY, Olga (Org.). Antologia da nova poesia brasileira. Rio de Janeiro: Fundação Rio-Rioarte, 1992 apontado como uma das mais representativas vozes da poesia brasileira no final do século XX e início do século XXI,HUDSON, Rebecca. A poesia brasileira: tendências do localismo e do cosmopolitismo a partir dos anos 1990. Tese (Doutorado em Estudos Literários Latino-Americanos). – Departamento de Estudos Latino-Americanos, Universidade Livre de Berlim, 2010 ao lado de Fabrício Carpinejar, Angélica Freitas, Micheliny Verunschk, Frederico Barbosa, Cláudia Roquette-Pinto e Cuti. A obra do autor é bastante conhecida pela intertextualidade que conecta o erotismo à religião, além de tratar explicitamente de temas esotéricos como a cabala, a numerologia, cosmovisões indígenas e afro-religiosas.

Biografia

Descendente de negros praticantes da cabula, Waldo Motta passou os primeiros anos de vida na região de Braço do Rio, pertencente a Conceição da Barra (ES), município vizinho de São Mateus, para cuja sede se mudou posteriormente. Iniciou a carreira artística em 1979, com a publicação de plaquetes como Pano Rasgado (São Mateus: Edição do Autor, 1979), Os anjos proscritos e outros poemas (parceria com Wilbett R. Oliveira – São Mateus: Edição dos Autores, 1980), O signo na pele (São Mateus: Centro de Cultura Negra do Vale do Cricaré, 1981), As peripécias do coração (São Mateus: Centro de Cultura Negra do Vale do Cricaré, 1981), De saco cheio (São Mateus: Edição do Autor, 1983) e Salário da loucura (São Mateus; Vitória: Edição do Autor, 1984).Bundo e outros poemas. Organização: Iumna Maria Simon e Berta Waldman. Campinas: Editora da Unicamp, 1996. Coletânea reunindo poemas dos livros Waw e Bundo A coletânea desse período está em Eis o homem (Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida / Universidade Federal do Espírito Santo, 1987).Eis o homem. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida / Universidade Federal do Espírito Santo, 1987. Coletânea

Mudou-se para Vitória na década de 1980, quando iniciou, e não concluiu, o curso de Comunicação-Jornalismo na Universidade Federal do Espírito Santo e trabalhou ministrando oficinas no Departamento Estadual de Cultura (DEC-ES). A segunda fase de sua poética se inicia nos anos 1990, com pesquisa autodidata de hebraico, cabala e numerologia, entre outros, culminando com a publicação de Bundo e outros poemas (Campinas: Editora da Unicamp, 1996),Bundo e outros poemas. Organização: Iumna Maria Simon e Berta Waldman. Campinas: Editora da Unicamp, 1996. Coletânea reunindo poemas dos livros Waw e Bundo o livro que projeta o artista no cenário nacional e internacional,BODNÁROVÁ, Jana. Básnik mystiky a rebélie. Apresentação de poemas traduzidos em eslovaco. Fragment, Bratislava, 3-4, p. 177-184, dez. 2005 & ANTELO, Raul. Não mais, nada mais, nunca mais. Poesia e tradição moderna. In: PEDROSA, Celia (Org.). Poesia hoje. Niterói: Editora da UFF, 1998. Coleção Ensaios, 13. v. 1, p. 27-45 indicado ao Prêmio Jabuti de Literatura 1997.Transpaixão. 2ª edição. Vitória: Editora da Universidade Federal do Espírito Santo, 2009

Indicado pelo Instituto Goethe, entre candidatos de 40 países, é premiado com uma bolsa de residência artística pelo Landeshauptstadt München Kulturreferat, na Alemanha, onde passa três meses, entre 2001 e 2002, na Vila Waldberta. Nesse interim, além de recitar poesias para alunos na Universidade de Munique, fez um curso básico de alemão, que lhe permitiu traduzir, da versão alemã para o português, o livro infantil Was ich am See zu sehen bekam, da escritora eslovaca Jana Bodnárová. Participou também, em 2002, do Programa Literário Writer-in-residence, na Universidade da Califórnia em Berkeley.

Publicou traduções próprias, do hebraico para o português, de partes da Bíblia, tais como: Salmos 1,SANTOS NEVES, Reinaldo; MARVILLA, Miguel (Orgs.). A parte que nos toca – literatura brasileira feita no Espírito Santo. Vitória: Florecultura, 2000 70, 82 e 110, além da narrativa cosmogônica inicial, em Gênesis. Essas traduções, publicadas recentemente, precederam a criação de poemas anagramáticos, que lhe renderam, entre outros, o livro Recanto – Poema das 7 Letras (Vitória: Ímã, 2002).Recanto: poema das 7 letras. Vitória: Imã, 2002 Ministrou várias oficinas de poesia e teatro, principalmente na FAFI, antiga Faculdade de Filosofia de Vitória. Como resultado de algumas dessas oficinas, idealizou, montou, roteirizou e dirigiu o espetáculo Terra sem mal – um mistério bufante e deleitoso, com apresentações na capital espírito-santense ao longo de 2009, no Centro Cultural Majestic e Mercado São Sebastião. A peça teatral é baseada em um livro homônimo, ainda não publicado pelo autor.

Ainda em 2009, lança a segunda edição da coletânea Transpaixão, dessa vez indicada ao vestibular da Universidade Federal do Espírito Santo. Realiza palestra na Universidade de São Paulo em 2010, dentro do Programa Voz do Escritor. Em 2011, juntamente com Reginaldo Secundo e outros artistas e agitadores culturais capixabas, cria a Rede Caranguejo, um movimento de reivindicação junto ao poder público por valorização dos artistas e ampliação do mercado de trabalho cultural.

Obra

Os anjos proscritos e outros poemas (parceria com Wilbett R. Oliveira). São Mateus: Edição dos Autores, 1980. O signo na pele. São Mateus: Centro de Cultura Negra do Vale do Cricaré, 1981. As peripécias do coração. São Mateus: Centro de Cultura Negra do Vale do Cricaré, 1981. Obras de arteiro. São Mateus: Edição do Autor, 1983. De saco cheio. São Mateus: Edição do Autor, 1983. Salário da loucura. São Mateus; Vitória: Edição do Autor, 1984. Eis o homem. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida / Universidade Federal do Espírito Santo, 1987. Coletânea. Poiezen. Vitória; São Paulo: Universidade Federal do Espírito Santo / Massao Ohno, 1990. Bundo e outros poemas. Organização: Iumna Maria Simon e Berta Waldman. Campinas: Editora da Unicamp, 1996. Coletânea reunindo poemas dos livros Waw e Bundo. Transpaixão. Vitória: Edições Kabungo, 1999. Coletânea. Cidade cidadã. A cor da esperança. Organização: Adilson Vilaça. Vitória: Secretaria Municipal de Cidadania e Segurança Pública, 1998, v. 4. Publicação em homenagem ao Dia Nacional da Consciência Negra. Recanto: poema das 7 letras. Vitória: Imã, 2002. Transpaixão. 2ª edição. Vitória: Editora da Universidade Federal do Espírito Santo, 2009. Terra sem mal. São Paulo: Patuá, 2015.

Crítica

Waldo Motta se insere na linha dos poetas místicos, ainda pouco estudados no Brasil. A obra do artista “foge aos enquadramentos usuais da literatura brasileira”SIMON, Iumna Maria. Sobre a poesia de Valdo Motta. Revista USP, São Paulo, v. 36, p. 172-77, dez.jan.fev. 1997-1998 e tem imbricadas relações com os campos da religião e da ciência. Erige-se sobre a ideia de uma identidade absoluta entre sexualidade e religião, tendo o ânus como veículo motriz de sua poética e cosmovisão homoerótica. Conforme o crítico Roberto Schwarz, trata-se de uma poesia que “toma o ânus do poeta como centro do universo simbólico. A partir daí mobiliza bastante leitura bíblica, disposição herética, leitura dos modernistas, capacidade de formulação, talento retórico e fúria social. O ponto de vista e a bibliografia fogem ao usual, mas o tratamento da opressão social, racial e sexual não tem nada de exótico”.SCHWARZ, Roberto. Um crítico na periferia do capitalismo. Revista de Pesquisa FAPESP, São Paulo, n. 98, p. 12-19, abr. 2004. Entrevista concedida a Luiz Henrique Lopes dos Santos e Mariluce Moura

Para Raul Antelo, Waldo Motta “reabre a agenda modernista”.ANTELO, Raul. Não mais, nada mais, nunca mais. Poesia e tradição moderna. In: PEDROSA, Celia (Org.). Poesia hoje. Niterói: Editora da UFF, 1998. Coleção Ensaios, 13. v. 1, p. 27-45 O dramaturgo José Celso Martinez Corrêa comparou-o a Antonin Artaud, pela junção poética entre teatro e vida. Bundo é considerado por José Celso “um breviário de teatro”. Este livro tornou-se polêmico porque oferece interpretações pouco convencionais para os textos sagrados, principalmente os contidos na bíblia, tornando-se uma espécie de “Evangelho do Deus Anal”.

Iumna Maria Simon destaca a “riqueza e variedade formais, raras hoje em dia, que revelam uma capacidade poderosa de incluir mundos e experiências as mais particulares, desde a gíria até referências míticas, religiosas e sexuais, ampliando a experiência existencial de um escritor que procurou entender sua homossexualidade por vias inusuais”.

Posteriormente às pesquisas em hebraico, o artista estudou tupi-guarani, recriando poeticamente mitos indígenas como o de Jurupari. O resultado está no livro ainda inédito, Terra sem mal, cujos textos foram usados em peça teatral de mesmo nome, em 2009. A fortuna crítica do autor, apesar de extensa, deixa alguns vazios, principalmente no que diz respeito aos anagramas em hebraico, ou naquilo que o poeta denomina de “poesia quântica” ou “física das partículas verbais”.

Bibliografia

ALVES, Gustavo. Místico herege. O Globo, Rio de Janeiro, 30 out. 2004. Ela, p. 5. ANDRADE, Fábio de Souza. Gozo místico. Folha de S. Paulo, 7 set. 1997. Mais!, p. 13. ANTELO, Raul. Não mais, nada mais, nunca mais. Poesia e tradição moderna. In: PEDROSA, Celia (Org.). Poesia hoje. Niterói: Editora da UFF, 1998. Coleção Ensaios, 13. v. 1, p. 27-45. AZEVEDO FILHO, Deneval Siqueira de. Bundo vasto Bundo – a poética de Waldo Motta. In: AZEVEDO FILHO, D.S.; SANTOS, Rick J. (Orgs.). Estudos gays & lésbicos – Uma visão de teóricos brasileiros. Nova Iorque; Vitória: SUNY Press / EdUFES / GEITES, 2008. v. 1, p. 1-201. ___________. Lendas e sexualidade. Uau! Waw!: por uma estética Ererê / Ogunhê de Odes e Hades. In: AZEVEDO FILHO, Deneval Siqueira de (Org.). ETA - Estudos Avançados de Transgressão. 1 ed. Campos dos Goytacazes; Nova Iorque: Editora do GEITES / Nassau College-SUNY, 2003. v. 1, p. 175-183. ___________. Lira dos sete dedos – a poética de Valdo Motta. In: AZEVEDO FILHO, Deneval Siqueira de. A literatura brasileira contemporânea do Espírito Santo. Tese (Doutorado em Teoria e História Literária). – Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade de Campinas, Campinas, 1999. BARCELLOS, José Carlos. Poéticas do masculino: Olga Savary, Valdo Motta e Paulo Sodré. In: PEDROSA, Celia (Org.). Mais poesia hoje. Rio de Janeiro: 7Letras, 2000. p. 77-86. BERÇACO, Ériton Bernardes. Exus, cus e ecos: a poética erótico-sagrada de Waldo Motta. Dissertação (Mestrado em Estudos Literários). – Departamento de Letras, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2008. ___________. Pedras no espelho: analogia e ironia na poesia de Waldo Motta. Trabalho apresentado no X Congresso em Estudos Literários: A Crítica Literária: Percursos, Métodos, Exercícios. – Departamento de Letras, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2008. ___________. Quanto vale? Quem dá mais? Valor literário na poesia de Waldo Motta. In: AZEVEDO FILHO, Deneval Siqueira de (Org.). Bandidos(as) na pista: leituras homoculturais. Vitória: GEITES / EdUFES / PPGL, 2008. v. 1. p. 95-141. ___________. Do cabo ao rabo (ou de lá para cá): a poiésis de Waldo Motta. In: OLIVEIRA, Luiz Romero de; NEVES, Reinaldo Santos; COSTA, Rita de Cássia Maia e Silva; SALGUEIRO, Wilberth Claython Ferreira (Orgs). Bravos companheiros e fantasmas: estudos críticos sobre o autor capixaba. Vitória: Florecultura, 2006. v. 1, p. 84-97.