Vegetarianismo é uma filosofia alimentar que exclui, todos os tipos de carnes (boi, peixe, frutos do mar, porco, frango e outras aves etc.), bem como alimentos dela derivados. Quanto aos demais produtos de origem animal (leite, queijo, ovo etc.), as definições variam: segundo o Dicionário Aurélio, o vegetarianismo os exclui, enquanto que o vegetarismo os inclui; segundo a União Vegetariana Internacional, pode os incluir ou não.FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 1 758. É um regime praticado pelo ser humano desde as épocas mais remotas.
Pré-história O Homem pré-histórico era principalmente vegetariano e, se comprimirmos toda a evolução da humanidade na vida de uma pessoa de 70 anos, o consumo de carne só aparece nos últimos nove dias.Colin Spencer, Vegetarianism: A History, Four Walls Eight Windows, 2002, p. 20. ISBN 1-56858-291-9 Donna Hart, professora de antropologia na Universidade de Missouri, e Robert W. Sussman, professor de antropologia e ciência ambiental na Universidade de Washington, argumentam, no livro Man the Hunted, vencedor do W.W. Howells Award em 2006, que os nossos antepassados eram presas de outros animais, e não predadores, e que a necessidade de escaparem a estes animais maiores e mais ferozes incentivou a capacidade intelectual e a linguagem.Donna Hart e Robert W. Sussman, Man the Hunted: Primates, Predators, and Human Evolution, Expanded Edition, Westview Press, 2008, p. 180. ISBN 0813344034
Ainda acrescentaram que é óbvio que os hominídeos não caçaram a grande escala antes do advento do fogo controlado e que não possuem a anatomia e fisiologia próprias para serem comedores de carne.Hart e Sussman, p. 230. Segundo os autores, o crescimento do cérebro ocorreu muito antes de a carne vermelha fazer regularmente parte da dieta do Homem.Hart e Sussman, pp. 255-256.
Índia O vegetarianismo tem sua origem na tradição filosófica indiana, que chega ao Ocidente com a doutrina pitagórica. Nas raízes indianas e pitagóricas do vegetarianismo, este é ligado à noção de pureza e contaminação, não correspondendo à sua atual visão de respeito aos animais. Mahavira, fundador histórico do jainismo, era vegetariano rigoroso, tal como os seus seguidores.Rynn Berry, Famous Vegetarians, Pythagorean Publishers, 2003, pp.19-28. Sidarta Gautama, o Buda, era vegetariano e não permitia que os seus discípulos consumissem carne.Rynn Berry, Famous Vegetarians, Pythagorean Publishers, 2003, pp. 10-18, 263; Howard Williams, The Ethics of Diet, Illinois, 2003, pp. 346-352; Norm Phelps, The Longest Struggle: Animal Advocacy from Pythagoras to PETA, Lantern Books, Now York, 2007, pp. 21-23. Da mesma forma, Asoka, o imperador budista, recomendou o vegetarianismo e proibiu o sacrifício de animais.Kerry e Portmess (ed.),Religious Vegetarianism: From Hesiod to the Dalai Lama, 2001, pp. 75-77.
Egipto No Egipto, por volta de 3200 AC, o vegetarianismo foi adotado por grupos religiosos, que acreditavam que o ato de não se alimentarem de carne criava um poder cármico que facilitava a reencarnação.Associação Vegetariana Portuguesa, O Vegetarianismo ao longo da História da humanidade
Antiguidade Clássica
No mundo greco-romano, o vegetarianismo manifestou-se principalmente nos escritos de Plutarco, Porfírio e Ovídio. Na Grécia Antiga, existia a crença numa Era Dourada em que a humanidade vivia em paz e não comia animais. Tal crença aparece registada na obra do poeta grego do século VIII a.C. Hesíodo.Kerry S. Walters e Lisa Portmess (ed.), Religious Vegetarianism from Hesiod to the Dalai Lama, 2001, pp. 17-22.
Pitágoras, o filósofo e matemático grego, é, geralmente, considerado o pai do vegetarianismo no ocidente. Na sociedade fundada por Pitágoras, as mulheres eram admitidas em pé de igualdade com os homens, e não se consumia carne com base na teoria da transmigração das almas, segundo a qual a alma passava sucessivamente de um corpo para outro, inclusive para o corpo de outros animais, o que fazia com que o consumo da carne destes fosse comparável ao canibalismo.Rynn Berry, Famous Vegetarians and Their Favorite Recipes: Lives and Lore from Buddha to Beatles, Pythagorean Publishers, 2003, pp. 3-9.Jâmblico e Diógenes Laércio, seus biógrafos, escreveram sobre o seu regime vegetariano.Kerry S. Walters e Lisa Portmess, 2001, pp. 13-16.
Pouco depois de Pitágoras, Empédocles, o filósofo, médico, legislador, professor e místico grego, foi um defensor do vegetarianismo e dos animais.Howard Williams, pp.353-354; Richard Sorabji, Animal Minds and Human Morals, London 1993, p. 174-175; Spencer p. 63-64. Outro filósofo posterior a Pitágoras, Platão, é, frequentemente, citado como tendo sido vegetariano. No entanto, não existe evidência de que tenha realmente praticado o vegetarianismo, apesar de ter feito a apologia desse regime na República e nas Leis, embora não o tenha feito com base na consideração pelos outros animais.Norm Phelps, The Longest Struggle: Animal Advocacy from Pythagoras to Peta, Lantern Books, 2007, pp. 32-33.
Uma das passagens mais antigas a favor de um vegetarianismo ético surgiu quando Ovídio, nas Metamorfoses, pôs, na boca de Pitágoras, estas palavras:
Este trecho de Ovídio reflecte os ensinamentos dos pitagóricos no primeiro século.Norm Phelps, The Longest Struggle: Animal Advocacy from Pythagoras to PETA, Lantern Books, Now York, 2007, p. 27.
thumb|left|200px|Plotino, filósofo neoplatônico grego, mestre de Porfírio
O filósofo e taumaturgo neopitagórico Apolônio de Tiana, que era vegetariano, terá, de acordo com o seu biógrafo, Flávio Filóstrato, proferido as seguintes palavras:
Quanto a Porfírio (c.232- c.304), filósofo neoplatônico e discípulo de Plotino, é importante referir aqui que escreveu uma Vida de Pitágoras (Vita Pythagorae) e um tratado a favor do vegetarianismo intitulado Da Abstinência do Alimento Animal (De abstinentia ab esum animalum). Também foi autor da obra A Vida de Plotino (Vita Plotini), onde mencionou o regime vegetariano do seu mestre.
Um ponto de vista diferente era defendido por Aristóteles. Este escreveu que o homem é superior à mulher, aos escravos e aos animais, e que era preferível para estes três grupos estarem sob o governo de um mestre.Walters e Portmess (ed.), Ethical Vegetarianism from Pythagoras to Peter Singer, State University of New York Press, 1999, pp. 259-260. Para ele os animais existiam para o Homem (sendo por isso aceitável come-los). Também defendia que os animais agiam meramente por instinto, um ponto de vista actualmente descartado pelos especialistas em comportamento animal.por exemplo: Jeffrey Moussaieff Masson, O Porquinho que Cantava à Lua: O Mundo das emoções dos Animais Domésticos, editora Sinais de Fogo; Jeffrey Moussaieff Masson, Quando os Elefantes Choram, editora Sinais de Fogo; Jeffrey Moussaieff Masson, A Vida Emocional dos Gatos, editora Sinais de Fogo; Jonathan Balcombe, O Reino do Prazer, editora Europa-America; Mark Bekoff, A Vida Emocional dos Animais, editora Estrela Polar; Amy Hatkoff, The Inner World of Farm Animals: Their Amazing Social, Emotional and Intellectual Capacities, Stewart, Tabori & Chang Inc.; Temple Grandin e Catherine Johnson, Animals in Translation: Using the Mysteries of Autism to Decode Animal Behavior, Harvest Books; Rosamund Young, The Secret Life of Cows, Farming Books & Vídeos; Donald Griffin, Animal Minds: Beyond Cognition to Consciousness, University of Chicago Press; Marian Stamp Dawkins, Through Our Eyes Only?: The Search for Animal Consciousness, OUP Oxford; Donald M. Broom, Farm Animal Behaviour and Welfare (ou Domestic Animal Behaviour and Welfare), CABI Publishing; L. Keeling e H. Gonyou, Social Behaviour in Farm Animals, CABI Publishing; Lesley J. Rogers, Minds of Their Own: Thinking and Awareness in Animals, Westview Press Inc.
Por essa altura, os Essênios, que eram uma seita judaica, não matavam animais nem faziam sacrifícios, e alimentavam-se apenas com alimentos vegetais.Dr. William Alcott, Vegetable Diet: As Sanctioned By Medical Men And By Experience In All Ages, Kessinger Publishing, 2007, p. 225.
Idade Média Segundo os Padres da Igreja primitivos como Tertuliano, Clemente de Alexandria e São João Crisóstomo, evitar a carne era uma maneira de aumentar a disciplina e a força de vontade necessárias para resistir às tentações. São João Crisóstomo, por exemplo, escreveu que a alimentação carnívora é uma luxúria e que o Homem, ao comer carne, é pior que os animais selvagens, que só têm esse forma de se alimentarem.Howard Williams, pp. 76-81. Escreveu, ainda, nas Homilias, que "o ventre, quando sobrecarregado de carnes, vinga-se de nós por uma infinidade de males que nos faz sofrer."Citado na Revista de Portugal, vol. 4, 1892, p. 338. Durante os tempos medievais, o vegetarianismo foi extremamente comum entre inúmeras ordens religiosas. No entanto, não era incentivado por respeito aos animais mas principalmente como uma forma de controlar os desejos corporais. Era um regime extremamente pobre e muito pouco variado, sendo comum a prática de jejum.Historia do Vegetarianismo,Monastérios da Idade Média
Houve, no entanto, muitos santos conhecidos pela sua compaixão para com os animais, não só durante Idade Média, como em épocas posteriores, tais como São Francisco de Assis, São Francisco de Paula, Filipe Néri e Martinho de Porres.Burns and Oates, The Church and Kindness to Animals, 1906. São Francisco de Assis, no entanto, não foi vegetariano, nem a ordem que fundou o foi, apesar de muitos franciscanos individuais o terem sido.Norm Phelps, The Longest Struggle: Animal Advocacy from Pythagoras to PETA, Lantern Books, 2007, p. 58.
De resto, a carne era um símbolo das classes altas.
Renascimento thumb|right|200px|Retrato de Leonardo da Vinci, por Francesco Melzi (depois de 1510)
No Renascimento, a carne era um luxo reservado principalmente para os ricos. Por exemplo, em Portugal, na época dos Descobrimentos, as classes mais pobres alimentavam-se principalmente de cereais (aveia, cevada e trigo), legumes (milho miúdo, ervilhas, favas, feijão e couves) e vinho e, quando faltavam os cereais, recorria-se à bolota, à castanha e por vezes ao pão de milho ou de centeio.Imitiaz Juma, As Plantas Medicinais no Tempo dos Descobrimentos, Galuxo, 1992, p.131.
Nesta época, houve uma maior sensibilidade em relação ao animais. Thomas More e Erasmo de Roterdão criticaram a caça.Williams, 2003, pp. 90-94; Spencer, 2002, pp. 173-174. Leonardo da Vinci parece ter sido vegetariano pelo menos no final da sua vida. Numa carta enviada por Andrea Corsali a Juliano II de Médici, depois de este descrever um povo Indiano do Gujarat que não comia nada com sangue nem feria nenhum ser vivo, acrescentou, "como o nosso Leonardo da Vinci."Edward MacCurdy, The Mind of Leonardo da Vinci (1928) citado em Leonardo da Vinci's Ethical Vegetarianism Leonardo escreveu, nos seus livros de notas, inúmeras passagens em que se indignava com a forma cruel como o homem tratava os outros animais. Por exemplo:
Durante esta época, a filosofia clássica foi redescoberta e o pitagorismo e o neoplatonismo tornaram-se, de novo, muito influentes na Europa. As Metamorfoses de Ovídio, com o seu Pitágoras vegetariano, tornaram-se uma obra imensamente popular nessa altura, sendo citada, imitada e traduzida (para inglês, espanhol, alemão, italiano e espanhol), e era leitura obrigatória para os estudantes.Christiane L. Joost-Gaugier, Pythagoras and Renaissance Europe: Finding Heaven, Cambridge University Press, 2009, p. 16. O filósofo e humanista neoplatónico Marsilio Ficino, tradutor de Platão e de Plotino, descrevia, com frequência, as virtudes do vegetarianismo, e o médico Marco Fabio Calvo (c. 1440-1527) era conhecido como pitagórico e vegetariano.Christiane L. Joost-Gaugier, Pythagoras and Renaissance Europe: Finding Heaven, Cambridge University Press, 2009, pp. 82-83, 121-122.