miniatura|"Por trás das potências inimigas: o judeu" (em alemão: Hinter den Feindmächten: der Jude). Cartaz antissemita alemão de 1941 que retrata um "judeu ganancioso" por trás das bandeiras da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos e da União Soviética, países apresentados como inimigos da Alemanha, representando-o como um suposto manipulador oculto.|274x274px A Conspiração Judaico-Maçônico-Comunista-Internacional (ou Conspiração Judaico-Maçônica-Marxista-Internacional), ou simplesmente de Conspiração Judaico-Maçônica, é uma teoria da conspiração que envolve uma suposta coalizão secreta na qual judeus, maçons e comunistas buscariam alcançar a dominação mundial, controlando e manipulando secretamente a a economia, as leis, as forças policiais, a mídia, a cultura, o sistema financeiro, as instituições de ensino, o Poder Judiciário, os governos e outras instituições.
Embora existam exemplos e antecedentes dessa teoria em diversas partes do mundo, a Conspiração Judaico-Maçônico-Comunista-Internacional foi amplamente utilizada como instrumento político por grupos conservadores, monarquistas, ultracatólicos, reacionários e fascistas, para desacreditar, difamar e estigmatizar a esquerda política, bem como para justificar ações antissemitas e perseguições políticas.
A teoria foi difundida no Império Russo no fim do século XIX e utilizada para justificar os pogroms contra a população judaica, especialmente após a fabricação dos Protocolos dos Sábios de Sião (1903). Durante o século XX, foi incorporada pela Alemanha Nazista e pela Espanha Franquista como instrumento de propaganda política para legitimar a perseguição a judeus, maçons, comunistas e outros adversários, associando-os à suposta conspiração. No Brasil, foi empregada como base para o documento Plano Cohen.
Mais recentemente, após a dissolução da União Soviética, setores da elite dirigente da Rússia passaram a retomar a teoria, segundo a qual os russos teriam sido enganados pela suposta conspiração, que teria conduzido a Revolução Russa e a instauração do Comunismo, com o objetivo de destruir os valores ortodoxos russos. Na década de 2020, versões semelhantes circularam na China, alegando que "capitalistas judeus" estariam manipulando as potências ocidentais para conter a ascensão econômica e geopolítica do país. A teoria também é frequentemente mobilizada pela extrema-direita e por nacionalistas brancos em associação com a teoria da Grande Substituição, que atribui a uma suposta conspiração a substituição demográfica e cultural da população branca por meio da migração em massa.
Antecedentes esquerda|miniaturadaimagem|279x279px|Propaganda alemã nazista de 1935 denunciando a suposta atuação da judaico-maçonaria em diversas revoluções europeias: Revolução Francesa, Revolução Russa, Revolução dos Jovens Turcos, Implantação da República Portuguesa, Atentado de Sarajevo, Revolução Alemã, República Soviética da Baviera, República Soviética da Hungria e Proclamação da Segunda República Espanhola. Desde a Idade Média é possível rastrear a existência do antissemitismo, associado, em sociedades sem um sistema capitalista desenvolvido, a um amplo conjunto de preconceitos ideológicos, principalmente ao desprezo por atividades que, independentemente de sua função econômica, a Igreja Católica definia como usura, incluindo empréstimos com juros e também o comércio quando dele se obtinha lucro. A única forma socialmente aceita de ser rico sem levantar suspeitas era a renda feudal, acessível apenas aos privilegiados, que certamente eram muito mais favorecidos do que os judeus. Por outro lado, os judeus se destacavam nessas atividades, pois sua condição social frequentemente lhes impedia o acesso a outros tipos de ocupações, embora alguns judeus europeus fossem camponeses e exercessem diferentes ofícios manuais e intelectuais. A manipulação desse preconceito tornou-se uma forma útil de desviar conflitos sociais, especialmente o descontentamento dos grupos não privilegiados em períodos de crise, utilizando os judeus como bodes expiatórios. A eles eram atribuídas diversas más intenções, como provocar a peste, sequestrar e assassinar crianças em rituais e profanar sacramentos, como no caso do Santo Menino de La Guardia.
Entretanto, após a divulgação dos Protocolos dos Sábios de Sião (1903), dos quais o conhecido simpatizante do fascismo Henry Ford publicou 500.000 cópias distribuídas por todos os Estados Unidos durante a década de 1920, essas teorias conspiratórias tornaram-se cada vez mais difundidas. O fato de Karl Marx ter nascido em uma família de origem judaica, juntamente com a origem judaica de importantes líderes comunistas, permitiu que os movimentos operários e os grupos associados à ideologia marxista fossem incorporados a essas teorias conspiratórias antissemitas.
Século XX Na França miniaturadaimagem|225x225px|Obra antissemita exposta na exposição antibolchevique “O bolchevismo contra a Europa” (em francês: Le bolchevisme contre l'Europe), realizada em 1942 na França ocupada pela Alemanha Nazista, representando a alegação de uma suposta Conspiração Judaico-Maçônico-Comunista-Internacional e associando judeus e maçons ao comunismo, ao anarquismo, ao sindicalismo e a outros movimentos políticos. A Revolução Francesa alterou profundamente a condição dos judeus na França. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) estabeleceu princípios de igualdade civil e, em 1791, a Assembleia Nacional concedeu cidadania plena aos judeus franceses, iniciando o processo de emancipação judaica na Europa Ocidental. Apesar disso, setores conservadores associaram os judeus às transformações políticas e econômicas decorrentes da Revolução, mantendo discursos antijudaicos.
No final do século XIX, o antissemitismo francês assumiu caráter político, especialmente com obras como La France juive (1886), de Édouard Drumont, que difundia a ideia de uma suposta influência judaica sobre a França. Durante o Caso Dreyfus (1894), essa visão ganhou força ao associar a presença judaica na França a uma suposta ameaça nacional; o capitão Alfred Dreyfus, judeu, foi acusado de espionagem para a Alemanha e condenado com base em provas falsificadas. Nesse contexto, setores nacionalistas, monarquistas e ultracatólicos difundiram a Conspiração Judaico-Maçônica, segundo a qual judeus, maçons e republicanos formariam uma aliança secreta para controlar a política francesa.
No século XX, essa narrativa foi incorporada por movimentos fascistas e autoritários como instrumento de propaganda. Durante o regime de Vichy (1940–1944), a associação entre judeus, maçons e inimigos da nação foi utilizada para justificar políticas de exclusão, perseguição e colaboração com a Alemanha Nazista. O governo de Vichy participou da prisão, deportação e expropriação de judeus. A política de "arianização" transferiu propriedades judaicas para não judeus e foi organizada por autoridades alemãs e francesas, incluindo o Comissariado-Geral para Assuntos Judaicos, criado em 1941. A propaganda antissemita do período, como a exposição Le Juif et la France (1941–1942), retomou acusações sobre uma suposta influência judaica na política francesa e apresentou argumentos pseudocientíficos para legitimar a discriminação. As leis antijudaicas de Vichy restringiram direitos civis, proibiram judeus de diversas profissões e facilitaram sua deportação. Entre 1940 e 1944, mais de 75 mil judeus foram deportados da França para campos de extermínio, com participação da administração francesa.
Na Rússia esquerda|miniaturadaimagem|303x303px|Os Protocolos dos Sábios de Sião (1903), documento forjado por antissemitas russos que difundia a falsa ideia de uma suposta Conspiração Judaico-Maçônica destinada a controlar o mundo por meio da destruição do Ocidente e da civilização cristã. O texto influenciou o nazismo e permanece em circulação até os dias atuais. Durante o Império Russo, os judeus eram vistos com desconfiança, como exemplificado pela frase atribuída ao Czar Pedro, o Grande: "Prefiro ver nossa nação dividida entre o maometismo [islamismo] e o paganismo do que acomodada com os judeus [...] São patifes e trapaceiros. É meu objetivo erradicar o mal, não multiplicá-lo." Eles sofreram com diversos pogroms (destruição simultânea de casas, negócios, centros religiosos, etc. de grupo étnico ou religioso, aprovada ou tolerada pelas autoridades locais) ao longo dos séculos. Alguns direitos civis foram conquistados durante o reinado do Czar Alexandre II apesar da desconfiança da nobreza e da Igreja Ortodoxa Russa.James P. Duffy, Vincent L. Ricci, Czars: Russia's Rulers for Over One Thousand Years , p. 324 Entretanto, após o assassinato de Alexandre II em 1881, durante o reinado de seu sucessor Alexandre III, muitas dessas políticas foram revertidas ou endurecidas, e ocorreram grandes ondas de pogroms antijudaicos.I. Michael Aronson, "The Attitudes of Russian Officials in the 1880s toward Jewish Assimilation and Emigration" . Slavic Review 34.1 (1975): 1–18. online
No início do século XX, jornalistas russos, juntamente com membros da polícia secreta do czar (a Okhrana), participaram da criação e divulgação da falsificação antissemita dos Protocolos dos Sábios de Sião (1903); os jornalistas Matvei Golovinski e Manasevich-Manuylov, sob a supervisão de Pyotr Rachkovsky, chefe da Okhrana, a polícia secreta czarista e a princesa Catherine Radziwiłł, estiveram envolvidos na fabricação do documento que alegava a existência de uma suposta Conspiração Judaico-Maçônica para dominar o mundo por meio da destruição do Ocidente e da civilização cristã."Protocols Forged in Paris" Says Princess Radziwill In an Exclusive Interview With ISAAC LANDMAN, published in The American Hebrew, February 25, 1921, Volume 108 Number 15, page 422.
Entre 1903 e 1906, uma onda de pogroms muito mais sangrenta eclodiu, deixando um número estimado de 2.000 judeus mortos e muitos outros feridos, enquanto comunidades judaicas pegavam em armas para defender suas famílias e propriedades dos agressores. Historiadores como Edward Radzinsky sugerem que muitos pogroms foram incitados pelas autoridades e apoiados pela polícia secreta russa czarista, embora alguns tenham ocorrido de forma espontânea.. De acordo com Radzinsky, Sergei Witte (nomeado primeiro-ministro em 1905) afirmou em suas Memórias que descobriu que algumas proclamações incitando pogroms foram impressas e distribuídas pela Polícia. Os perpetradores que foram processados geralmente recebiam clemência por decreto do czar, que acreditava na existência de uma suposta Conspiração Judaico-Maçônica. miniaturadaimagem|263x263px|"Sacrificada à Internacional" (em russo: В жертву Интернационалу), charge antibolchevique de 1918-1919 que representa vários líderes da União Soviética – Uritsky, Sverdlov, Zinoviev, Lunacharsky, Lenin, Trotsky, Kamenev e Radek (todos judeus) – sacrificando uma figura alegórica que representa a Rússia a uma estátua de Karl Marx (autor do Manifesto Comunista e também judeu). Em primeiro plano, encontram-se estereótipos negativos de personagens do Exército Vermelho: um marinheiro; judeus, um dos quais segura uma bolsa com trinta moedas de prata, – em referência à figura bíblica de Judas Iscariotes – e soldados asiáticos carregando espólios. Com a Revolução Russa e a fundação da União Soviética, todas as restrições legais aos judeus russos foram suspensas. O fato de algumas lideranças revolucionárias de origem judaica, como Lenin, Sverdlov e Trotsky, terem participado do movimento fez com que, durante todo o século XX, setores do Ocidente passassem a enxergar o país como um suposto "judaísmo-maçonismo-bolchevismo" comandado por burocratas empenhados em dominar o mundo.
Na Alemanha