A avaliação psicológica trata-se de um conjunto de recursos a nível teórico e metodológico que auxiliam o psicólogo no estudo da personalidade e de outras funções cognitivas do ser humano. Logo, pode-se compreender a avaliação psicológica como um corpo organizado de estratégias e instrumentos disponíveis ao psicólogo para a concretização de suas investigações.

Definição

A avaliação neuropsicológica é uma modalidade de avaliação psicológica voltada para o exame das funções cognitivas e seus correlatos neuroanatômicos para casos em que há hipóteses de disfunções relacionadas com algum problema neurológico. É um tipo de avaliação que exige do profissional uma familiaridade com a psicometria, para que consiga enxergar, através de escores de testes, fatores pessoais que podem modificar o desempenho do paciente. Para o exercício de uma prática profissional adequada, são necessários conhecimentos relativos ao desenvolvimento do sistema nervoso, teorias cognitivas dos processos mentais, teorias do desenvolvimento humano, síndromes, transtornos e doenças que acometem o sistema nervoso, correlatos entre a expressão comportamental, desempenho cognitivo e neurofisiologia, de modo a estabelecer um comparativo com o funcionamento esperado e possíveis disfunções.

No processo de avaliação neuropsicológica deve se atentar às particularidades do indivíduo de forma que a partir da anamnese aquele paciente seja tratado como um sujeito único, com peculiaridades e necessidades individuais. Sendo assim, os exames, tarefas, testes psicológicos e estratégias usadas tem que ser focalizados no paciente, só assim será possível fazer uma avaliação neuropsicológica de qualidade e que consiga abarcar tanto as limitações quanto às competências do indivíduo. Cada caso deve ser analisado a partir de hipóteses fundamentadas e as perspectivas adequadas, deixando de lado ideias preconcebidas sobre o paciente ou sobre a possível patologia que ele venha a apresentar.

A avaliação neuropsicológica tem seis objetivos principais, sendo estes o de diagnóstico de comprometimentos cognitivos, orientação a cuidados adequados para o paciente, identificação das necessidades de tratamento em termos de pontos fortes e fracos a serem explorados, avaliação da eficácia das intervenções realizadas com o paciente, pesquisa e resposta a questões forenses quando convocada ao contexto jurídico. Além destes objetivos específicos, o que distingue a avaliação neuropsicológica de outras intervenções, como avaliação psicológica, é o conceito de Cut-Off (ponto de corte), isto é, não basta dizer se os resultados do paciente para determinado teste está abaixo ou acima da média para a população normal, mas até que ponto os resultados permitem identificar o comprometimento cognitivo para alguma função específica.

Contexto histórico e pressupostos teóricos A neuropsicologia surgiu com os estudos nas áreas da saúde por volta da segunda metade do século XIX até cerca de 1929. Nesse primeiro momento, os psicólogos não participavam visto que os estudos eram feitos principalmente por médicos de áreas como neurologia, oftalmologia e outras que se debruçavam sobre o funcionamento cerebral. O interesse por essas investigações sobre o cérebro se aprofundou quando os profissionais perceberam que alguns pacientes possuíam alterações bastante específicas do comportamento que eram recorrentes e associavam-se umas com as outras formando síndromes.

Com o avanço e concretização da área de Neuropsicologia, pode-se falar em diversos pressupostos teóricos sendo três de destaque para finalidades introdutórias: materialismo, localizacionismo e transparência. O materialismo é entendido que do ponto de vista ontológico, da realidade metafísica, não existe diferença entre cérebro e mente, sendo esses dois aspectos de uma mesma coisa. O localizacionismo é a ideia de que o cérebro-mente é uma entidade altamente complexa e dinâmica, mas que se compõe de uma série de subsistemas e de maneira hierárquica. Cada um desses subsistemas pode ser comprometido de uma maneira isolada por lesões ou disfunções cerebrais, através disso sendo possível fazer a relação anatomoclínica ou estrutura-função. A transparência (também chamado de isomorfismo antigamente) diz que a Neuropsicologia pode ser usada para fazer inferência quanto as relações do cérebro e o comportamento, o método é válido, podendo observações serem feitas para realizar as inferências com uma margem de acerto a respeito das regiões cerebrais e seus funcionamentos.

Sendo assim, a Neuropsicologia pode ser definida como uma disciplina que investiga as relações entre o cérebro e o comportamento utilizando uma abordagem metodológica muito específica caracterizada por pressupostos como os anteriormente citados, focados na relação estrutura-função.

Avaliação neuropsicológica infantil A avaliação neuropsicológica infantil é um processo que leva em consideração a relação entre as funções do sistema nervoso e o comportamento das crianças. Essa avaliação pode ser quantitativa, quando há o uso de instrumentos como testes psicométricos e neuropsicológicos, ou qualitativa quando através de relato dos cuidadores ou da própria criança, ou ainda dinâmicas feitas na anamnese em que se observa os comportamentos do paciente. Para além disso, a avaliação neuropsicológica infantil é constituída por passos importantes, são eles: entrevista inicial; observações lúdicas; planejamento da avaliação; seleção de instrumentos e análise e integração dos dados.

As crianças geralmente chegam aos centros de referência em diagnóstico e tratamento apresentando dificuldades não características da idade, observadas pelos pais, professores ou outros profissionais que a acompanhem no dia a dia. Dentre essas dificuldades podem ser citadas: dificuldade de aprendizagem (leitura e cálculo), dificuldade de interação com outras crianças, comportamento considerado inadequado em ambientes escolares, o não acompanhamento da turma em sala de aula, entre outros. As crianças e adolescentes atendidos nesses centros apresentam, em sua maioria, como expressão da patologia, problemas comportamentais, atrasos no desenvolvimento neuropsicomotor e dificuldades de aprendizagem. Tais aspectos podem ser investigados através do processo de avaliação neuropsicológica, em que uma gama de técnicas e instrumentos será utilizada para o levantamento de uma hipótese diagnóstica, já que a avaliação é sempre um corte transversal: avaliação pontual naquele momento do desenvolvimento da criança.

Avaliação neuropsicológica em adultos A indicação para avaliação neuropsicológica em adultos é mais comum para quadros demenciais, lesão cerebral traumática ou outras condições clínicas que afetam o funcionamento cognitivo normal. Por meio da avaliação é possível diminuir dúvidas sobre a tomada de decisão diagnóstica, além de fornecer planejamento de estratégias de manejo individualizadas para pacientes com algum tipo de comprometimento cognitivo. Durante o processo deve-se investigar os fatores que podem afetar a condição atual como as condições emocionais, fatores de personalidade e questões de fundo que podem prejudicar a atenção clínica, o impacto dos sintomas na vida diária do paciente, início e evolução dos sintomas, além dos marcos do desenvolvimento esperados para a fase adulta. São tarefas centrais nesse período a manutenção de padrões de vida saudável, criação dos filhos, realização profissional e cuidado de pais idosos.

Quanto a devolutiva ao paciente, o profissional deve responder as perguntas do próprio paciente e dos seus familiares sobre o funcionamento cognitivo e comportamental de modo a fornecer orientação sobre os cuidados adequados, assim como a compreensão das potencialidades e limitações quanto ao funcionamento normal. A par destas informações é possível discutir estratégias compensatórias mais adequadas ao paciente. Em síntese, deve-se comunicar os achados, diagnóstico, prognóstico e plano de tratamento.

Avaliação neuropsicológica em idosos Há diversas fontes de lesões, doenças e exposições a substâncias tóxicas que podem resultar em afetação no cérebro de um idoso, sendo traumáticos a ponto de desenvolverem delírios, alucinações, alterações frequentes de humor e personalidade. Embora o entendimento seja de alterações por perturbações psicológicas, a base é necessariamente fisiológica. Assim, o profissional de neuropsicologia deve combinar os conhecimentos com a investigação, baseando-se em dados relacionados a acontecimentos antecedentes ao trauma sendo específico como potencializador para desencadeamento dos sintomas. Um nível leve de prejuízo na memória, por exemplo, seria observado na dificuldade de anotações ou execução de lembretes da vida diária. Um prejuízo maior seria representado pela incapacidade do idoso de manter o controle de listas curtas ou de completar uma tarefa de atenção em um período de uma sessão de análise.

O diagnóstico de transtorno neurocognitivo leve é aplicado quando o indivíduo apresenta níveis moderados de declínio cognitivo, apesar disso, tais declínios não são graves a ponto de interferir em sua capacidade de ter uma vida independente. Para tanto, observa-se a capacidade do idoso de aprendizagem e memória. As habilidades a serem avaliadas seriam as de atenção imediata e memória recente, sendo tarefas para mensuração de tais esferas e habilidades, por exemplo, pedir ao idoso que se lembre de uma série de dígitos ou palavras, interpretar informações novas como listas de palavras ou uma história curta, pedindo para o mesmo que reconte o que acabou de ouvir, frisando os pontos principais da história.

Exame das funções excecutivas As Funções Executivas podem ser entendidas como um grupo de processos mentais que são utilizados quando se necessita de concentração, atenção, agir de forma não automática. É um constructo da Neuropsicologia que passou por vários modelos, e atualmente se entende com três funções centrais sendo o controle inibitório; memória de trabalho e a flexibilidade cognitiva, podendo a partir destas estabelecer funções executivas de ordem superior como o raciocínio lógico.

No exame das Funções Executivas, deve-se atentar para os diferentes processos cognitivos envolvidos no constructo uma vez que se tem presente múltiplos componentes do cérebro envolvidos. Investiga-se também as relações entre os sintomas disexecutivos e os circuitos fronto-estriatais. É importante também observar o desenvolvimento das funções executivas ao longo do ciclo vital uma vez que o esperado para cada faixa etária é diferente e pode acarretar em confusão na hora do diagnóstico.

Além dos dados quantitativos, se faz uma coleta a respeito de informações qualitativas longitudinais, com diferentes informantes, a respeito de saber como e quando os sinais começaram a se manifestar. Para isso, se analisa os sintomas em diferentes contextos nos quais o avaliando está inserido e como se comporta nesses ambientes diferentes uma vez que diversas variáveis podem interferir no funcionamento adequado das funções executivas, como ansiedade.

Fundamentos do psicodiagnóstico

Considera-se o Psicodiagnóstico como uma avaliação psicológica, cujo caráter é científico. Refere-se, portanto, à uma prática clínica com objetivos, tempo e papéis bem definidos, o que a difere do processo analítico. Seu intuito é conceber, independente da existência ou não de uma psicopatologia, uma análise e uma identificação das potencialidades e reveses da esfera psíquica do sujeito, tanto para classificar o caso quanto para prever o seu curso (prognóstico) e, assim, pontuar possíveis soluções para o caso.