Introdução

Utilizando-se do rico repertório deixado por Vignola, bem como das tradições mouriscas e heranças da Antiguidade, os portugueses conseguiram desenvolver uma linguagem arquitetônica própria, que fincou raízes não apenas em terras lusitanas, mas em todos os territórios que faziam parte de seu Império Colonial e que hoje se constituem na Comunidade dos Países Lusófonos.

Mesmo havendo ocorrido, a partir do século XIX, o processo de descolonização, podemos ainda hoje encontrar uma forte identidade - não apenas linguística - em todas as ex-colônias portuguesas onde, ao se mesclar com as tradições culturais de cada localidade, a cultura lusitana permanece viva.

Tomemos como exemplo a Igreja da Polana, erigida em Maputo, capital de Moçambique, construída em 1962, a partir de projeto de Nuno Craveiro Lopes.

thumb|right|Catedral de Maringá, Paraná, Brasil.

Basta compará-la com a Catedral de Maringá, dedicada a Nossa Senhora da Glória, do arquiteto José Augusto Bellucci, cuja pedra fundamental foi assentada em 1958.

Será que houve plágio? Ou será que tradições arquitetônicas comuns a portugueses O arquiteto Nuno Craveiro Lopes (Lisboa, 1921-Maputo, 1972) era lusitano. e brasileiros, que foram evoluindo paralelamente, podem ter levado a concepções semelhantes?

Paralelismos

A coincidência de padrões arquitetônicos não é fato recente.Se tomarmos, por exemplo, a Catedral-Basílica Primacial de São Salvador, de 1663, e a compararmos com a Igreja de Nossa Senhora da Conceição do Colégio dos Jesuítas, em Santarém, veremos que também guardam paralelismos em relação à Basílica do Bom Jesus em Goa e com a hoje destruída, Catedral de São Paulo em Macau.

thumb|left|Catedral de Salvador, Bahia, foto de 1858. thumb|riht|Igreja de Nossa Senhora da Conceição do Colégio dos Jesuítas-Santarém-Portugal (sec XIX). thumb|left|Igreja Bom Jesus Goa. thumb|right|Ruínas (fachada) da Catedral de São Paulo, em Macau.

Na arquitetura civil também há inúmeros exemplos, como por exemplo o Palácio Nacional de Mafra (especialmente as torres) e a Estação de Maputo, em Moçambique.

thumb|left|Palácio de Mafra, Portugal. thumb|right|Estação de Maputo, Moçambique.

"Os trabalhos no palácio e mosteiro em Mafra começaram em 1717, depois de João V ter jurado construir um mosteiro como prova de gratidão pelo nascimento de um herdeiro ao trono. Foi, ao princípio, um edifício modesto, cujo objectivo era dar guarida a um pequeno número de monges. Mas, à medida que os barcos íam chegando a Portugal, trazendo mais e mais riqueza do Novo Mundo, novos planos se íam fazendo. Ao todo, 52.000 homens trabalharam no monumento que, depois de concluído, tinha capacidade para receber 330 frades, incluía uma zona real e uma das bibliotecas mais ricas da Europa, com cerca de 40.000 obras. No 41º aniversário do rei, a Basílica foi finalmente consagrada e os festejos duraram oito dias seguidos. João V morreu em Lisboa a 31 de Julho de 1750.

Vários monarcas encararam o palácio como casa de caça. Quando a família partiu para o exílio no Brasil, em 1807, levou a maior parte da mobília consigo. À medida que as tropas se juntaram para formar a invasão de Napoleão, Mafra foi-se tornando uma base militar e o mosteiro passou a servir como quartel.

Actualmente, este edifício está parcialmente sob as regras do IPPAR (Instituto Português do Património Arquitectónico), que se encontra a desenvolver um programa de recuperação. Uma das principais prioridades no campo da recuperação centrou-se nos históricos órgãos."

Quanto à estação ferroviária de Maputo: "Segundo a Revista Newsweek, "A Estação Central de Maputo, provavelmente a mais bela de África, foi desenhada por Gustave Eiffel em 1910 e a ideia era que a sua aparência se assemelhasse a um Palácio com pilares de mármore e enfeites em ferro fundido".(...)A construção da estação central dos Caminhos de Ferro de Lourenço Marques (hoje Maputo), hoje totalmente encoberta pela imponente fachada que depois se lhe acrescentou encimada pela magnífica cúpula em cobre com a esfera armilar, havia sido começada no ano de 1908. Veio substituir a antiga - de madeira e zinco, construída pela companhia concessionária, que existia do outro lado da avenida 18 de Maio, defronte do actual Posto médico dos CFM. Tendo sido dada por concluída, ela foi solenemente inaugurada no dia 19 de Março de 1910. Tratava-se de um melhoramento importante que se ficava a dever ao engenheiro Lisboa de Lima, autor do projecto. Freire de Andrade, então Governador geral, solicitara ao Ministro e Secretário do Estado da Marinha e do Ultramar que fossem enviados «dois escudos de Armas Reais portuguesas, lavrados em mármore, para serem afixados nos pórticos». Mas elas só chegariam em 1911, depois de proclamada a República, e as armas tiveram que ser alteradas. Mesmo assim, jamais lá seriam colocadas por incúria dos que sucederam a Freire de Andrade: Para o pórtico da estação, por iniciativa, do Governador geral, Freire de Andrade, fora requisitada de Lisboa um Escudo Nacional em mármore lavrado, o qual tendo chegado a Lourenço Marques (Maputo) em 1911 a bordo do paquete «Beira», depois se perdeu. Por fim recuperado nos nossos dias, foi solenemente colocado no seu lugar em Julho de 1970 por iniciativa do Gabinete de História dos Caminhos de Ferro de Moçambique - CFM. O Escudo Nacional, trabalhado em pedra de liós, é uma obra de arte de muita valia, tendo sido executado em Lisboa nas oficinas de Germano José de Salles & Filhos.

Ao acto solene da inauguração da nova estação, mesmo sem o escudo das Armas Reais, fez-se nesse dia aos 19 de Março de 1910, com a saída dos dois primeiros comboios para S. José de Lhanguene, onde se celebrava a festa de S. José, padroeiro daquela missão, presidiu o Governador geral Freire de Andrade. sete meses depois deste acontecimento proclamava-se a República Portuguesa. Uma vez implantado o novo regime, passado o período de entusiasmo pela vitória da revolução, inicia-se o da fúria demagógica na perseguição movida pelos «carbonários» de Lourenço Marques, que se intitulavam de «vigilantes da República», contra Freire de Andrade e certos directores e chefes de serviços públicos tidos por desafectos à República e por «reaccionários e traidores ao novo regime». Exige-se a demissão imediata de tais entidades e a sua expulsão de Moçambique, o que por fim veio a verificar-se em 8 de Abril de 1911. Era então nomeado Governador geral da Província (Moçambique), o capitão-tenente Freitas Ribeiro. O engenheiro Lisboa de Lima, vítima também dessa desconcertante incompreensão popular, demite-se do cargo de director de porto e do Caminho de Ferro de Lourenço Marques. É substituído pelo engenheiro Lopes Galvão. Este, por sua vez, é substituído em 1912 pelo engenheiro João Henrique Von Haffe. Porém, a confusão política, com reflexos na administração pública da Província, continua. Em 14 de Março de 1912 regressam a Lourenço Marques os cidadãos que em 2 e 5 de Julho de 1911 haviam sido, pelo Alto Comissário Azevedo e Silva, mandados desterrar para diferentes pontos da Província, como «carbonários». As grandes figuras republicanas da época julgam então ter chegado a altura de submeter ao Ministro das Colónias uma representação-protesto reclamando melhoramentos imediatos para Moçambique. Em sessão magna reuniram-se os dirigentes da Associação dos Proprietários, dos Empregados de Comércio e da Indústria, dos Lojistas e da Câmara de Comércio. Os Serviços dos Caminhos de Ferro de Moçambique, estiveram sempre em mãos de engenheiros distintos, com sobejas provas da sua capacidade e a eles coube solucionar diversos e intrincados problemas do pôs-guerra, num ambiente de ligeira trégua política. Assim, deu-se por concluído o majestoso edifício sede dos CFM, um dos mais belos de Lourenço Marques e de Maputo."newsweekCompilação: Paulino Sicavele (editor).Moçambique para todos

Ainda em se tratando da arquitetura civil, o Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa, e o Paço de São Cristóvão no Rio de Janeiro, não apenas foram construídos na mesma época, como também contemplam soluções arquitetônicas semelhantes.

thumb|left|Paço Imperial de São Cristóvão (Quinta da Boa Vista), Rio de Janeiro, Brasil. thumb|center|Palácio Nacional da Ajuda, Lisboa, Portugal. thumb|left|Paço Imperial de São Cristóvão (Quinta da Boa Vista), Rio de Janeiro, Brasil. thumb|center|Palácio Nacional da Ajuda, Lisboa, Portugal.

"Implantado no local onde a família real portuguesa construiu a "Real Barraca" após o terramoto de 1755, assim designada por ser de madeira, o Palácio da Ajuda iniciou-se em 1795 segundo um projecto de Manuel Caetano de Sousa. Pouco depois o plano sofreria uma evolução significativa, com a introdução da estética neo-clássica e as novas formulações dos arquitectos Francisco Xavier Fabri e José da Costa e Silva. Apesar da magnificência do plano e dos avultados recursos financeiros, o Palácio foi habitado com muitas interrupções, até que D. Luís aqui se instalou definitivamente. Sua mulher, D. Maria Pia de Sabóia, empreendeu então obras de actualização estética, contratando para tal Joaquim Possidónio Narciso da Silva, que dotou o Palácio de novos espaços exóticos e outros de carácter funcional. Encerrado após a implantação da República, foi parcialmente transformado em Museu em 1968, servindo ainda como sede do Ministério da Cultura, IPPAR e IPM. As colecções de artes decorativas, datadas dos Séculos XV a XX, provêm do acervo do antigo Paço Real da Ajuda. A diversificada tipologia de objectos decorativos e utilitários preenchem e recriam os diferentes ambientes oitocentistas, ao longo do percurso das salas do Museu."Palácio Nacional da Ajuda

PAÇO DE SÃO CRISTÓVÃO

Pouco tempo depois da trasladação da família real para o Rio, um rico comerciante português, Elias Antônio Lopes, pôs à disposição de D. João a sua bela casa de campo. A Chácara do Elias, situada em S. Cristóvão.

Era a Quinta da Boa Vista, no tempo "a melhor e mais ampla" de quantas vivendas no mesmo gênero existiam nos arredores da cidade. D. João gostou muito do presente, e dêsse sítio, fora do bulício do centro, e cercado de grande parque por onde serpeavam águas cantantes, fez a sua residência preferida, indo aí instalar-se com três de seus filhos, D. Miguel, D. Pedro e D. Maria Teresa.

Dona Carlota Joaquina, alegando as maiores facilidades que encontraria, em ponto mais acessível , para a educação das filhas menores que ficavam em sua companhia, deixou-se estar no Palácio da Praça do Carmo. Entretanto, aquela alegação seria apenas uma desculpa com que esconderia as desinteligências do casal, uma vez que ela não esquentava lugar e, a pretexto de mudança de ares, arranjou logo várias moradias de recreio e ora estava na Praia de Botafogo, esquina do Caminho Novo, ora em Mata-Porcos, ou ainda em Laranjeiras ou no Andaraí.

A mudança do Príncipe Regente para a Quinta muito concorreu para o desenvolvimento levado ao bairro de S. Cristóvão e zonas adjacentes. Até então a cidade quase que só se estendia até o Rossio Pequeno, depois Praça Onze de Junho. Daí por diante, no que começava a ser a Cidade Nova, ainda predominavam os alagadiços. Afora as comunicações marítimas, por barcos e canoas que partiam de vários pontos do centro e eram os mais procurados, dois caminhos levavam ao local.

Um deles, o mais curto, era o chamado Caminho dos Lanternas, apenas uma estreita língua de terra através de extenso mangue. O nome lhe veio de uma fieira de lampiões fincados à sua beira e que, à noite, indicavam as pranchas de madeira por onde deveriam correr os coches reais. Quanto ao outro, muito mais longo porém mais cômodo e pitoresco porque se fazia sempre por terreno enxuto e verdejante, partia de Catumbi e fraldejava os morros. Todavia, pela rapidez do trajeto, era aquele o preferido e passou a ter um enorme trânsito desde que a Quinta se transformou em Palácio de S. Cristóvão.