O gavião-real (nome científico: Harpia harpyja), também chamado cutucurim, harpia, uiraçu, uiracuir, uiruuetê, uraçu, águia-imperial-brasileira, águia-imperial ou uiraçu-verdadeiro, é uma ave acipitriforme da família dos acipitrídeos (Accipitridae). É a maior e mais poderosa ave de rapina encontrada em toda a sua extensão e está entre as maiores espécies de águias existentes no mundo. Geralmente habita florestas tropicais de baixa altitude na camada superior (emergente) do dossel. A destruição de seu habitat natural fez com que desaparecesse de muitas partes de seu antigo território e está quase extirpado de grande parte da América Central.
Etimologia
O o nome do gênero Harpia (sinônimo de Harpyia) deriva do grego harpē (), "ave de rapina". O epíteto específico harpyja deriva do latim harpe, "ave de rapina", que derivou do grego harpē, com o mesmo significado. Ambos referem-se às harpias da mitologia grega, espíritos do vento que levavam os mortos para o Hades ou Tártaro, e diziam ter um corpo como um abutre e o rosto de uma mulher. Por causa do tamanho e ferocidade do animal, os primeiros exploradores europeus da América Central nomearam-nas como harpias. "Gavião-de-penacho" e "gavião-real" são referências ao penacho na cabeça característico da espécie, com um formato semelhante ao de uma coroa. "Uiruuetê" é um termo tupi que contém o termo e'tê, "verdadeiro", gwï'ra, "ave", e talvez 'una no sentido de "preto" ou -u'su no sentido de "grande". "Uiraçu" e "uraçu" (registrado a primeira vez em 1822 como uiraaçu) vieram do termo tupi gwïrawa'su, construído a partir de gwï'ra, "ave", e wa'su, "grande". Uiracuir ou uirakuir vieram da junção dos termos tupi para "pássaro" (gwirá, uirá) e para "cortante/afiado" (kuir, cuir) utilizados por nativos guaranis da região mais a sudeste da América do Sul. Por fim, Cutucurim é de origem incerta, mas possivelmente deriva de cutiú (do tupi kuti'u), que significa "gavião preto do Amazonas", e o elemento final -una, "preto", que pode reduzir-se a -um e -u.
No Brasil, o nome "gavião-real" foi selecionado como nome vernáculo técnico para a espécie pelo Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos.
Taxonomia
O gavião-real foi descrito pela primeira vez por Carlos Lineu em seu livro de 1758 10.ª edição do Systema Naturae como Vultur harpyja. É uma espécie monotípica e o único membro do gênero Harpia. As relações filogenéticas do grupo ao qual pertence são incompletamente conhecidas, mas dois estudos recentes baseados em dados de sequência de DNA colocam-no perto da base dessa radiação. Ele pertence à família dos acipitrídeos (Accipitridae) e à subfamília dos acipitríneos (Accipitrinae); outras fontes colocam-no na subfamília dos harpiíneos (Harpiinae). Sabe-se que está mais intimamente relacionado com o uiraçu-falso (Morphnus guianensis) e a águia-papua (Harpyopsis novaeguineae). Apesar de antigamente ser classificado como próximo da águia-filipina (Pithecophaga jefferyi), os mesmos estudos de DNA mostraram que essa espécie é mais próxima ao grupo dos circetíneos (Circaetinae).
Descrição
Medidas
280px|miniaturadaimagem|upright=1.1|Um crânio de adulto exibido no Museu de História Natural de Berlim, na Alemanha
Os gaviões-reais fêmeas geralmente pesam de seis a nove quilos. Uma fonte afirma que as fêmeas adultas podem pesar até 10 quilos. Uma fêmea cativa excepcionalmente grande, chamada "Jezebel", pesava 12,3 quilos. Estando em cativeiro, esta grande fêmea pode não ser representativa do peso possível em gaviões selvagens devido às diferenças na disponibilidade de alimentos. O macho, em comparação, é muito menor, variando de quatro a seis quilos. O peso médio dos machos foi relatado como 4,4 a 4,8 quilos contra uma média de 7,3 a 8,3 quilos para fêmeas adultas, uma diferença de 35% ou mais na massa corporal média. Os gaviões-reais podem medir de 86,5 a 107 centímetros de comprimento total e com uma envergadura de 176 a 224 centímetros. Entre as medidas padrão, a corda da asa mede 54 a 63 centímetros, a cauda mede 37 a 42 centímetros, o tarso tem 11,4 a 13 centímetros comprimento, e a cimeira exposta da cera tem de 4,2 a 6,5 centímetros. O tamanho médio da garra é de 8,6 centímetros nos machos e 12,3 centímetros nas fêmeas.
Essa ave é citada como a maior águia ao lado da águia-filipina, que é um pouco mais longa em média (com média de um metro de comprimento), mas pesa um pouco menos, e o pipargo-gigante (Haliaeetus pelagicus), que talvez seja um pouco mais pesado em média (a média de três aves assexuadas foi de 7,75 quilos). O gavião-real pode ser a maior espécie da América Central, e grandes aves aquáticas, como pelicanos-americanos (Pelecanus erythrorhynchos) e jaburus (Jabiru mycteria), podem ter massas corporais médias apenas um pouco mais baixas. Sua envergadura é relativamente pequena, embora as asas sejam bastante largas, uma adaptação que aumenta a manobrabilidade em habitats florestais, sendo uma característica compartilhada por outras aves de rapina em habitats semelhantes. A envergadura é superada por grandes águias que vivem em habitats mais abertos, como as dos gêneros Haliaeetus e Aquila. A águia-de-haast (Harpagornis moorei) extinta era significativamente maior do que todas as águias existentes, incluindo o gavião-real.Museum of New Zealand (1998).
Coloração
Adultos
Machos e fêmeas da espécie apresentam plumagem idêntica. A cabeça e o pescoço são cinza-claro, com uma crista dupla formada por penas alongadas e enegrecidas na coroa, geralmente ereta e dividida ao meio em dois lados. A parte superior do peito apresenta uma larga faixa preta que separa a cabeça cinza da parte inferior do corpo, que é predominantemente branca. As penas da tíbia são brancas com listras pretas, e os tarsos emplumados também exibem esse padrão. A superfície superior das asas, o dorso e a garupa são cinza-escuros ou enegrecidos. As coberteiras inferiores das asas menores e medianas são predominantemente pretas, com listras ou manchas brancas, enquanto as coberteiras primárias inferiores são principalmente brancas com pontas pretas. As rémiges inferiores são brancas, listradas de preto, com pontas pretas largas, especialmente nas primárias externas. A cauda possui coloração preta na parte superior, com três faixas cinza-acinzentadas largas e uma ponta branco-acinzentada. A parte inferior da cauda é preta, com três faixas brancas largas, cuja base é frequentemente coberta pelas coberteiras infracaudais. As íris variam entre cinza, castanho e vermelho; a cera e o bico são pretos ou enegrecidos, e os tarsos e dedos são amarelos.
Juvenis
miniaturadaimagem|esquerda|upright=1.1|Indivíduo avistado em 2018 em Pijibasal, no tampão de Darién, no Panamá
Os filhotes nascem cobertos por uma penugem branca suja. As primeiras rêmiges começam a surgir por volta dos 45 dias, e, aos 54 dias, já é possível observar penas na coroa, nas laterais da cabeça, no dorso, nas escápulas e nas coberteiras superiores das asas. As retrizes emergem por volta dos 77 dias. Na fase juvenil, a plumagem é predominantemente esbranquiçada, com vermiculações cinzentas nas partes superiores e algumas manchas pretas nas coberteiras superiores maiores das asas. As rêmiges superiores são pretas com manchas e barras cinza claro, e a cauda apresenta, na face superior, coloração acinzentada com sete a oito barras pretas, enquanto a face inferior é esbranquiçada com seis a oito barras pretas estreitas. As coberteiras inferiores das asas são brancas, e as rêmiges inferiores também brancas, mas com barras escuras menos definidas do que nos adultos. Na primeira plumagem básica, o padrão geral se assemelha ao juvenil, mas com coloração um pouco mais escura. As partes superiores ganham manchas pretas mais visíveis, a crista passa a ter ponta escura, e o peito e as axilas tornam-se cinza-claro. O padrão da cauda é variável: na superfície superior, pode haver de uma a cinco barras pretas estreitas e interrompidas ou de seis a sete barras pretas. A parte inferior da cauda é esbranquiçada, com duas a seis barras pretas, e a parte inferior das asas apresenta marcações mais nítidas do que na plumagem juvenil.
Na segunda plumagem básica, há intensificação das manchas pretas nas partes superiores, inclusive na ponta da crista e no peito, além de barras pretas que podem surgir nas penas da tíbia. A cauda torna-se cinza na face superior, com quatro a seis barras pretas bem definidas; na inferior, apresenta quatro a cinco barras pretas sobre fundo esbranquiçado. A terceira plumagem básica já se aproxima da aparência adulta, mas algumas manchas claras ainda permaneçam nas partes superiores. A faixa preta do peito pode apresentar manchas cinza-claro, e a cauda superior adquire coloração preta ou enegrecida, com três a quatro barras cinza. A plumagem definitiva é alcançada na quarta muda pré-básica, por volta dos quatro anos de idade.
Distribuição e habitat
miniaturadaimagem|Antigo ninho de gavião-real em Pijibasal, Panamá
O gavião-real ocorria anteriormente na encosta atlântica do sul do México, com registros históricos no estado de Veracruz, onde era descrito como "não incomum" no extremo sudeste até o final da década de ; em Tabasco, onde era conhecido apenas por espécimes do ; no nordeste de Oaxaca, com dois espécimes do ; e em Chiapas. A distribuição anteriormente se estendia para o sul através do norte da Guatemala e do sul de Belize, ao longo da costa atlântica até o leste do Panamá. A espécie aparentemente também ocorria em Salta, noroeste da Argentina, mas não há relatos recentes dessa região. Na costa atlântica do Brasil, era mais amplamente distribuída no passado, mas desapareceu de diversas áreas, incluindo o Rio Grande do Sul, onde foi registrada até meados do . Apesar dessas extinções locais, a distribuição geral da maioria das populações meridionais da espécie não mudou significativamente.
Atualmente, o gavião-real é considerado raro em toda sua extensão, embora continue presente desde o México, passando pela América Central e América do Sul, até o sul da Argentina. Com exceção de algumas áreas do Panamá, encontra-se quase extinto na América Central, principalmente devido ao desmatamento das florestas tropicais, estando completamente extirpado de El Salvador. Ainda persiste em pequenas áreas no sul de Veracruz, leste de Oaxaca e leste de Chiapas, no México, com poucos registros nas últimas décadas; e em números muito reduzidos na Guatemala e em Belize. Populações mais robustas permanecem em Honduras, Nicarágua e Panamá. Na encosta do Pacífico, ocorre na península de Osa e em pontos isolados do Panamá. Também há registros na encosta pacífica do noroeste da Colômbia, especialmente em Chocó, embora tenha desaparecido de áreas como o vale do Magdalena e o oeste do Equador, onde foi visto pela última vez na década de 1980. A espécie é residente em toda a sua faixa de ocorrência, apresentando ampla distribuição desde o leste da Colômbia até o Amapá, no Brasil, estendendo-se ao sul até o centro da Bolívia e ao leste até o Brasil meridional, ao sul da Amazônia. Há ainda uma população disjunta no leste da América do Sul, do Espírito Santo, no Brasil, até Misiones, na Argentina, e o sul do Paraguai. Embora seja considerada rara em quase toda a sua área, é relativamente mais comum no Brasil.