O alucinógeno, droga psicodélica (ou psicadélica), droga alucinógena ou droga alucinogénica é, literalmente, uma substância capaz de provocar alucinações.FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. pp. 94, 1 411. A classificação mais consensualmente aceita para tal classe de substâncias psicoativas foi proposta por Jean Delay, que as classifica como dislépticas (modificadoras), em oposição aos analépticas (estimulantes) e lépticas (depressores).Delay J , Deniker P . Caractéristiques psycho-physiologiques des médicaments neuroleptiques. Psychotropic drugs . Amsterdam: Elsevier ; 1957, p. 485 - 501 São considerados efeitos específico dessa classe de substâncias alterar os sentidos, a percepção, a concentração, os pensamentos e a consciência. ALMEIDA, Wilson Castello de. Além da catarse, além da integração, a catarse de integraçãoBeyond catharsis, beyond integration, the catharsis of inte. Rev. bras. psicodrama, São Paulo , v. 18, n. 2, p. 97-106, 2010 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-53932010000200005&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 29 dez. 2016. SCHNEIDER, Daniela Ribeiro; ANTUNES, Larissa. A função imaginária no uso de substâncias psicoativas: contribuições de Jean-Paul Sartre. Rev. NUFEN, São Paulo , v. 2, n. 1, p. 66-91, jun. 2010 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2175-25912010000100005&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 29 dez. 2016.GUEDES, Paulo Luiz Vianna. Experiências com a dietilamina do ácido lisérgico (LSD 25). Arq. Neuro-Psiquiatr., São Paulo , v. 19, n. 1, p. 28-34, Mar. 1961 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-282X1961000100004&lng=en&nrm=iso>. access on 29 Dec. 2016. http://dx.doi.org/10.1590/S0004-282X1961000100004.MARTINEZ, Sabrina T.; ALMEIDA, Márcia R.; PINTO, Angelo C.. Alucinógenos naturais: um voo da Europa Medieval ao Brasil. Quím. Nova, São Paulo , v. 32, n. 9, p. 2501-2507, 2009 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-40422009000900047&lng=en&nrm=iso>. access on 29 Dec. 2016. http://dx.doi.org/10.1590/S0100-40422009000900047.

thumb|300px|Representação em 3D da molécula de LSD

Observe-se, porém, que nem todas as drogas que causam alucinações são consideradas alucinógenos, a exemplo da clássica visão dupla induzida pela intoxicação alcoólica SOYKA M. Alcohol-induced hallucinosis. Clinical aspects, pathophysiology and therapy. Nervenarzt. 1996 Nov. 67(11):891-5. apud: YANG, Zhongshu et al. Alcohol-Related Psychosis. Medscape /Emedicine oct. 2013 Aces. set.2015 ou por grandes doses de café tal como recentemente se constatou e foi amplamente divulgado,Nickell P.V.; Uhde T.W. Dose-response effects of intravenous caffeine in normal volunteers.Anxiety. 1994-1995;1(4):161-8. Abstract Aces. set. 2015 além do que, alucinações podem ocorrer sem utilização de substancias psicoativas por mecanismos ainda não completamente conhecidos.Kumar S, Soren S, Chaudhury S. Hallucinations: Etiology and clinical implications. Industrial Psychiatry Journal. 2009;18(2):119-126. doi:10.4103/0972-6748.62273.SACKS, Oliver. A mente assobrada. SP: Companhia das Letras, 2013 ISBN 978-85-359-2259-2

Na descrição da categoria Psicodislépticos, Goodman & Gilman referem-se a efeitos estimulantes e depressores simultâneos em diferentes sistemas (circuitos) de neurotransmissores ou regiões do cérebro, incluindo os anticonvulsivantes não barbitúricos e relaxantes da musculatura esquelética narcoanalgésicos e analgésicos e antitérmicos psicotogênicos.Goodman; Gilman. As bases farmacológicas da terapêutica. RJ Guanabara Koogan, 1985

Etimologia A palavra alucinógeno é derivada da palavra alucinação. O termo alucinar data de cerca de 1595–1605 e é derivado do latim hallūcinātus, o particípio passado de (h)allūcināri, que significa "vagar na mente." Atribui-se à Esquirol , (1772-1840) a primeiradefinição médica precisa do termo alucinação, enquanto experiência de perceber objetos ou eventos que não possuem uma fonte externa, como ouvir o nome de alguém sendo chamado por uma voz que ninguém mais parece ouvir. Uma alucinação se distingue de uma ilusão , que é uma má interpretação de um estímulo real.Encyclopædia Britannica's editors. Jean-Étienne-Dominique Esquirol / Hallucination. Encyclopædia Britannica Acesso, Janeiro, 2021]]

thumb|direita|300px|Psilocybe cubensis, um dos alucinógenos utilizados pelos antigos Toltecas

Plantas & moléculas O inventário de plantas (e elementos ativos) com propriedades alucinógenas proposto por Hofmann (apud Fontana) Fontana, Alberto E. et all. Psicoterapia com LSD e outros alucinógenos. SP, Mestre Jou 1969 inclui:

Lophophora williamsii (mescalina), da América do Norte e Central;

Rivea corymbosa (Ergina), do México e América Central);

Amanita muscaria (Muscimol, ácido ibotênico), da Europa, Irã e Ásia;

Psilocybe mexicana (Psilocina, Psilocibina), do México e América do Norte e Central;

Psilocybe cubensis (Psilocina, Psilocibina), das Américas;

Peganum harmala (harmina), da Ásia e América do Sul;

Banisteria caapi (Harmina, Harmalina), da Amazônia: componente da Ayahuasca sul-americana;

Piptadenia peregrina (Anadenanthera peregrina e Anadenanthera colubrina (Dimetiltriptamina), do Rio Orinoco, na América do Sul.

Esta lista originalmente incluía a Cannabis sativa (haxixe) da Ásia: contudo, existe grande controvérsia sobre tal classificação, assim como também é controversa a inclusão da muscarina – substância derivada do cogumelo Amanita muscaria.

Quanto à ampliação dessa classificação, nesse grupo deve-se acrescentar um conjunto de outras plantas que contêm a N,N-Dimetiltriptamina, a saber: Psychotria viridis (Chacrona, Chacruna), utilizada em combinação com a B. caapi por diversos grupos indígenas da Amazônia; a Virola calophylla (V. theidora, V. rufula, V. colophylla); o Epena, também da Amazônia; a Jurema (Mimosa hostilis ou M. nigra); do nordeste brasileiro; sapos do gênero Bufos (Bufo alvarius; Bufo marinus ou Cururu) que contenham a bufotenina em suas secreções: a bufotenina corresponde a uma variação molecular da dimetiltriptamina.Qi J, Zulfiker AHM, Li C, Good D, Wei MQ. The Development of Toad Toxins as Potential Therapeutic Agents. Toxins (Basel). 2018;10(8):336. Published 2018 Aug 20. doi:10.3390/toxins10080336 Disponível em https://www.mdpi.com/2072-6651/10/8/336/htm Aces. agosto de 2019 Observe-se também que alguns autores discordam quanto à identidade da planta que seria o ololiuhqui dos astecas/toltecas, que contém ácido lisérgico: são comuns referências a Rivea coribosa e a Ipomoea violácea (glórias-da-manhã). Essa última também é utilizada em preparados homeopáticos do tipo floral.

O cacto de San Pedro (Echinopsis pachanoi) contém vários alcalóides, incluindo o químico mescalina.

De acordo com a semelhança química, os psicodislépticos têm sido classificados, ainda que provisoriamente, em cinco categorias: indólicos, feniletilaminas, anestésicos dissociativos (especialmente em função de pesquisas com ketamina), anticolinérgicos (especialmente os muscarínicos) e canabinoides já referidos.Formigoni, Maria Lúcia O.S. (ed). SUPERA – Sistema para detecção do uso abusivo e dependência de substancia psicoativas. Efeitos de substancia psicoativas. Módulo 2 (5º ed). Brasilia Secretaria Nacional de Polítcas Sobre Drogas, 2014

Efeito

As drogas alucinógenas, como referido, são assim chamadas por um de seus possíveis e mais relatados efeitos, que é a propriedade de causar alucinações (falsas percepções) e visões irreais ou oníricas aos seus utilizadores. Outros nomes propostos também estão associados a efeitos atribuídos e relatados, tais como: Psicotomiméticos e Psicotogênicos, por induzir efeitos semelhantes à psicose (mais especificamente as alucinoses e alucinações); Psicodélicos, por sua propriedade de fazer aparecer ou revelar a psique oculta; Enteógeno pelo reconhecimento antropológico de que tal classe de substâncias é frequentemente utilizado nas mais diversas culturas em rituais religiosos.Cashman, John. LSD. SP, Perspectiva, 1966Bailly, J.C.; Guimard (org) A experiência alucinógena (Mandala). RJ, Civilização Brasileira, 1969

Esse último efeito atribuído também decorre da associação dessas substâncias à capacidade de facilitar a concentração ou meditação, também descrita como "expansão da consciência". No conjunto de alterações da consciência detectáveis por medidas do eletroencefalograma (eeg), situa-se na faixa das frequências alfa - ou dos "sonhos lúcidos" entre a vigília plena e o sono.

No plano das interpretações psicológicas ou psicanalíticas, os alucinógenos situam-se entre os fenômenos de modificação das emoções e personalidade, sendo superficialmente descritas como uma relação entre o ego e o mundo exterior/interior, analogamente às interpretações que se dão ao satori zen–budista, efeitos da ioga ou transe das religiões de possessão africanas, gregas, indígenas, entre outras.Needleman j. Lewis D. No caminho do autoconhecimento, as antigas tradições do oriente e os objetivos e métodos da psicoterapia. SP, Pioneira, 1982Sargant, William. A conquista da mente, fisiologia da conversão e da lavagem cerebral. SP, IBRASA, 1968COHEM, Sidney. A droga alucinante, história do LSD. Lisboa, Livro do Brasil, 1964

Mecanismos de ação A semelhança das substâncias psicodélicas com a Serotonina (5-HT) e Noradrenalina (NA) tem sido a maior pista para explicação do seu efeito. O LSD e a Psilocibina têm, em comum, a semelhança do núcleo indoletilamina da 5-HT. A Mescalina é um derivado da feniletilamina, que, por sua vez, figura na NA. Contudo, por ciclização, isto é, fechamento da cadeia lateral, a mescalina pode gerar um composto semelhante a 5-HT. Graeff, Frederico G. Drogas psicotrópicas e seu modo de ação. SP, EPU / EDUSP, 1984Barron, F.;Murray E.J.; Bunnell, S. As drogas alucinógenas. In Psicobiologia, as bases biológicas do comportamento, textos do Scientific American. SP Polígono, 1970

Estudos bioquímicos do composto da B. caapi e P. viridis presentes na bebida dos remanescentes indígenas do império inca (a Ayahuasca, ou Hoasca, como é conhecida no Brasil) apontam uma interação entre os inibidores da monoamina-oxidase I-MAO e o composto indólico.

Farmacologia do DMT/Efeito ayahuasca

A N,N-Dimetiltriptamina (DMT) foi sintetizada pela primeira vez em 1931 (Manzke), isolada de duas plantas distintas por investigadores independentes, em 1946 (Gonçalves) da Mimosa hostilis e em 1955 (Fish, Jonson and Horning) da Piptadenia peregrina.

O efeito da Jurema, Chacrona e outras plantas pode ser atribuído à presença da N,N-DMT ou N,N-dimethyltryptamine (C12H16N2).Ott, Jonathan. Pharmahuasca, anahuasca and vinho da jurema: human pharmacology of oral DMT plus harmine. Yerbook for Ethnomedicine 1977/98 http://www.melt2000.com/loudtruth/entheosphere/articles/0024.html - 23 de março de 2004Gaujac, Alain. Estudos sobre o psicoativo N,N-dimetiltriptamina (DMT) em Mimosa tenuiflora (Willd.) Poiret e em bebidas consumidas em contexto religioso. Salvador, Ba, Universidade Federal da Bahia Tese Doutorado, Instituto de Química, 2013 Disponível no NEIP Consulta 2015