miniaturadaimagem|Prof. Doutor Bernardo Augusto de Madureira e Vasconcelos Bernardo Augusto de Madureira e Vasconcelos (Baião, Ancede, 7 de março de 1842 — 18 de setembro de 1926), foi sacerdote, teólogo, professor catedrático, poeta, escritor e polemista.

Fazendo a síntese da tradição escolástica conimbricense com o neotomismo, então impulsionado pelo Papa Leão XIII, Bernardo de Madureira foi um dos vultos mais proeminentes do espiritualismo cristão do seu tempoFortunato de Almeida, História da Igreja em Portugal, Livraria Civilização, Porto, 1970, Vol. III, pp. 382, 391, 407, 408 e 412 e um dos grandes impulsionadores da filosofia tomista em Portugal, à qual deixaria o seu nome indelevelmente ligado.Carlos Alberto de Pinho Moreira de Azevedo, Dicionário de História da Igreja em Portugal, Círculo de Leitores e Centro de Estudos de História Religiosa de Portugal da Universidade Católica Portuguesa, Rio de Mouro, 2001, vol. III, ISBN 972-42-2416-2, pp. 304 e Vol IV, ISBN 972-42-2459-7, pp. 281, 286; Deusdado, M. A. Ferreira, La Philosophie Thomiste au Portugal. Notes pour servir à l'histoire de la philosophie en Portugal (suite et fin), in Révue néo-scolastique, Ano 5, nº 20, 1898, pp.445-447; Gomes, Pinharanda, A Filosofia Tomista em Portugal, Lello & Irmão Editores, Porto, 1978, pp. 74, 83-85, 99, 187-193, 232, 235; Rodrigues, Manuel Augusto, Portugal, in Theologische Realenzyklopädie, Band 27, Wadie de Gruyer & Co., Berlim, 1996, pág. 65, ISBN 3-11-2218-04; Rodrigues, Manuel Augusto Rodrigues, Les Sciences Religieuses au Portugal aux XIX et XX siècles, in Les Universités Catholiques dans le Monde (1815-1962), Fédération Internationale des Universités Catholiques, Institut Catholique de Paris, 2002, pp. 121-122, ISBN 2-911048-24-5; Rodrigues, Manuel Augusto Rodrigues, Les Sciences Religieuses au Portugal aux XIX et XX siècles, in A Universidade de Coimbra: Figuras e factos da sua história, Vol. I, Campo das Letras, Porto, 2007, pp. 1030-1033, ISBN 9789896252532; Rodrigues, Manuel Augusto Rodrigues, Coimbra, in Theologische Realenzyklopädie, Wadie de Gruyer & Co., Berlim, 1993, pág. 148, ISBN 3-11-013898-0; Estêvão, Nuno, A Restauração do Tomismo em Portugal no Século XIX: As Instituições Christãs e a Academia de S. Tomás de Aquino em Coimbra (1880-1893), in Lusitânia Sacra, 2ª série, 16, 2004, pp. 43-86.

Natural de Ancede, Baião, onde nasceu na paterna casa da Costa a 7 de março de 1842, era filho de António Barbosa de Madureira e de D. Ana Joaquina de Jesus Ferreira dos Santos. Foi baptizado a 12 de março de 1842 na Igreja de Ancede, tendo como padrinhos seus tios-avós maternos Bernardo Albertino de Vasconcelos e D. Josefa Inácia Garcia de Castro Barbosa, senhores da casa e quinta de Sequeiros. Bernardo de Madureira foi senhor da casa da Costa, em Ancede, que remodelou e modernizou e onde viria a falecer em 18 de setembro de 1926.

Formação Académica Dotado de excepcionais aptidões académicas, cedo as revelou nos estudos preparatórios efectuados no Liceu do Porto. Matriculou-se na Faculdade de Teologia da Universidade de Coimbra em 24 de outubro de 1863, onde foi um distinto aluno, sempre premiado: 1º ano (1º accessit), 2º ano (1º accessit), 3º ano (2º accessit, aprovado nemine discrepante), 4º ano (2º prémio) e 5º ano (1º prémio). Ordenado Presbítero em 16 de junho de 1866, obteve o grau de bacharel em 7 de junho de 1867 e, após os Actos Grandes de Conclusões Magnas, realizados em 10/11 de fevereiro de 1870 e através dos quais viria a concorrer para o magistério, licenciou-se em Teologia em 24 de fevereiro de 1870. Em 10 de julho de 1870, com apenas 28 anos, Bernardo de Madureira vestiria o capelo e a borla doutorais, dissertando sobre o Trinitatis Mysterium e Platonis Philosophia ab Ecclesia minime depropmtum, tendo-lhe sido conferido o grau de Doutor em Teologia com a classificação de Muito Bom com 18 valores.Visconde de Vila Moura, Prefácio a Sol d'Aquino, 2ª edição, Renascença Portuguesa, 1916, pp. 9-19.

Percurso Académico e Científico Após as provas de doutoramento prestou serviços de magistério público no curso teológico do Seminário Patriarcal de Santarém,Provisão de 18 de outubro de 1870 de D. Américo Ferreira dos Santos Silva, Bispo eleito do Porto e Vigário Capitular da Sé Patriarcal de Lisboa. onde leccionou Ciências Eclesiásticas e Teologia Exegética e, em particular, cadeiras dos 4º e 5º anos, entre 18 de outubro de 1870 e março de 1873.

Com a tese O Futuro da Igreja – breves considerações sobre a indefectibilidade do catolicismoCarlos Alberto de Pinho Moreira de Azevedo, Dicionário de História da Igreja em Portugal, Círculo de Leitores e Centro de Estudos de História Religiosa de Portugal da Universidade Católica Portuguesa, Rio de Mouro, 2000, vol. I, ISBN 972-42-2313-2, pp. 94-95 (1873) ascendeu, mediante concurso, por decreto de 26 de fevereiro de 1874, às funções de Lente Substituto da Faculdade de Teologia da Universidade de Coimbra, tendo sido empossado em 16 de março de 1874,Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Registo Geral de Mercês de D. Luís I, liv. 24, f. 260v. passando a reger, a título provisório, as cadeiras de Teologia Litúrgica (1873-1874, como 3º substituto e em 1874-1875, como 2º substituto), Teologia Moral (1874-1875, como 2º substituto) e Teologia Pastoral (1874-1875, como 2º substituto). Por decreto de 9 de abril de 1875Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Registo Geral de Mercês de D. Luís I, liv. 27, f. 254v. foi nomeado Lente Catedrático, lugar de que tomou posse a 21 do mesmo mês. Regeu, desde essa data e até à extinção da Faculdade de Teologia, as cátedras de Teologia Mística (1875-1876, como 7º lente; 1876-1878, como 6º lente; 1878-1881, como 5º lente; 1881-1882, como 4º lente; 1882-1887, como 3º lente; 1887-1890, como 2º lente), História Eclesiástica (1880-1881, como 5º lente), Cristologia, Teologia Moral (1886-1887, como 3º lente; 1901-1902, como 1º lente), Ética Cristã Geral (1909-1910, como 1º lente) e Teologia Dogmática (1890-1911, como 1º lente). Seria, aliás, sobre Teologia Dogmática-Polémica que Bernardo de Madureira escreveria a sua obra mais importante, um tríptico intitulado Institutiones Theologiae Dogmaticae Specialis (3 vols., Coimbra, 1885; 2ª edição, 1890-93; 3ª edição, 1896),Cl. Madureira in suis institutionibus componendis usus est potissimum scriptis celebriorum theologorum Lusitanae... quorum auctoritates passim citat, qui in praesenti potissimum ab aliis theologiae scriptoribus non adducuntur, ac fortesse omnino ignorantur in Divus Thomas: rivista quadrimestrale dello studio filosofico domenicano, Ano XIII, Vol. 5, Placência, 1892.Andrade, Abel Pereira de e Carvalho, Fernando Martins de, Critica litteraria, in O Instituto : jornal scientifico e litterario, Volume XXXIX (1891-1892), Coimbra, pp. 621-625 e 875-883.Carlos Alberto de Pinho Moreira de Azevedo, L'Insegnamento nella Facoltá di Teologia di Coimbra nel Contesto Europeo del Secolo XIX, in Colóquio Internacional A Igreja e o Clero Português no Contexto Europeu, Roma, Viterbo, 2004. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa, Centro de Estudos de História Religiosa, 2005, ISBN 972-8361-21-1, pp. 300, 302, 303. adoptado como manual académico em Coimbra, nos seminários portugueses, no Brasil e nos Estados Unidos. Graças a este importante tratado teológico, Bernardo de Madureira recebeu um louvor régio de D. Carlos (Portaria de 25.1.1887).Rodrigues, Manuel Augusto, Memoria Professorum Universitatis Conimbrigensis 1772-1937 - Vol. II, Arquivo da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1992, pp. 26-27, 76, 351, 380 e 390.

Após a extinção da Faculdade de Teologia de Coimbra, em 1912 transitou para a recém-criada Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, como professor ordinário do 2º Grupo (Filologia Românica),Gomes, António Ferreira, A Universidade de Coimbra durante a I República (1910-1926), Instituto de Inovação Educacional, Lisboa, 1990, pp. 86, 199, 256. sendo transferido para o 6º Grupo (Ciências Filosóficas) em 10 de outubro de 1914.Decreto de 10 de outubro, publicado no Diario do Governo, II Série, Nº 265, de 12 de novembro de 1914. Requereu a sua aposentação em 1912, sendo colocado na disponibilidade por limite de idade nesse ano, vindo a aposentar-se definitivamente em 1914-1915, após 42 anos de docência universitária.

Outros cargos e funções desempenhados Bernardo de Madureira foi Secretário da Faculdade de Teologia (entre 1874 e 1876) e Delegado da Universidade de Coimbra ao Colégio Especial para Eleição dos Pares do Reino (29 de novembro de 1885 a 5 de dezembro de 1885). Integrou a comissão da Universidade de Coimbra que solicitou ao Governo, em 29 de julho de 1880, a criação de uma Faculdade de Letras, a construção de uma sala de leitura diurna e nocturna (anexa à Biblioteca da Universidade) e a instituição de um prémio literário de 500$000 réis a atribuir quinquenalmente a um autor português,Universidade de Coimbra, Actas do Claustro Pleno (1856-1910) fls. 79vº-80vºO Instituto - jornal scientifico e litterario, Volume XXVIII (1880-1881), p. 94-104 bem como da comissão universitária que, no mesmo ano, organizou a comemoração do tricentenário da morte de Luís de Camões.Universidade de Coimbra, Actas do Claustro Pleno (1856-1910) fls. 74vº-79vºRodrigues, Manuel Augusto, A Universidade de Coimbra. figuras e Factos da sua História, Vol. II, Campo das Letras, Porto, 2008, ISBN 978-989-625-284-7, pp. 171-182.

Foi também Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Coimbra (1884-1885), Juiz Desembargador da Relação e Cúria Patriarcal de Lisboa,Decreto de 10 de fevereiro de 1872 de D. Inácio do Nascimento Morais Cardoso, Cardeal Patriarca de Lisboa. sócio efectivo de O Instituto de Coimbra (desde 12 de dezembro de 1885) e membro eleito da respectiva classe de Ciências Morais (1887/1888), membro da Academia de Santo Thomaz d’Aquino, Irmão Confrade da Real Confraria da Rainha Santa Isabel de Coimbra e da Confraria de Santo António de Lisboa, tendo ainda leccionado Teologia Dogmática Especial no Seminário Maior de Coimbra. Presidiu ainda a diversos júris de Latim e Grego em diversos liceus do País.

Conservador e com profundas convicções monárquicas, recusou-se a exercer funções docentes na Faculdade de Letras, contrariamente a outros ex-lentes de Teologia. Da sua personalidade importa ainda reter o seu papel no grave conflito entre o Bispo-Conde de Coimbra, D. Manuel Correia de Bastos Pina e a Faculdade de Teologia de Coimbra, procurando conciliar ambas as partes depois de uma acesa polémica.Archivio della Nunziatura di Lisbona, cx. 314, fasc. 4, fls. 114-117, 227, 228, 245, 314-316, 321, 379, 380, 397; cx. 333, fasc. 2, fl. 298.Arquivo da Universidade de Coimbra, Actas da Faculdade de Teologia (1880-1901), fl. 39.Manuel de Almeida Trindade, A Faculdade de Teologia e o incidente com o Senhor Bispo-Conde D. Manuel Correia de Bastos Pina, Lisboa, Tipografia União Gráfica, 1954 (separata da revista Lumen, novembro e dezembro de 1953 e janeiro de 1954).Ramos, António de Jesus, O Bispo de Coimbra D. Manuel Correia de Bastos Pina, Gráfica de Coimbra, Coimbra, 1995, pp. 164, 259, 347, 350, 374-376, 379-381, 391-392, 396, 408.Neto, Vítor, O Estado, a Igreja e a Sociedade em Portugal (1832-1911), Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, 1998, ISBN 972-27-0884-8, pp. 203-218 Pelo seu carácter singular, merece ainda destaque o vincado papel que Bernardo Augusto de Madureira e Vasconcelos assumiu durante a greve académica de 1907 ao exigir a retirada da polícia da porta das suas aulas.Natália Correia, A questão académica, Editorial Minotauro, Lisboa, 1962.António Pinto Quartin, A Greve Académica de 1907. Uma Página de História da Academia, in revista Ver e Crer, nº 45, Lisboa, 1949.