Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça (Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1896 - Rio de Janeiro, 31 de março de 1971) foi uma poetisa feminista brasileira.
Poetisa, tradutora e feminista carioca, teve seus poemas e crônicas publicados pelos mais importantes jornais do país. Atuou em defesa dos direitos das mulheres e nas iniciativas promovidas pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Participou da associação Damas da Cruz Verde que criou a maternidade Pro Matre. Ajudou a fundar a Casa do Estudante do Brasil, juntamente com Pascoal Carlos Magno, localizada na Praça Ana Amélia, no Centro do Rio de Janeiro, e a União Nacional dos Estudantes, da qual foi eleita como a primeira presidente. Foi a primeira mulher membro de um tribunal eleitoral do país. Traduziu poemas do inglês, francês e alemão, inclusive duas peças de William Shakespeare.
Biografia Anna Amélia Mendonça nasceu em 1896 na então Capital Federal brasileira, filha de Laura Palhares Machado e do engenheiro e colecionador José Joaquim de Queiroz Júnior.
Anna Amélia Mendonça passou a infância no interior de Minas Gerais e foi educada por preceptoras brasileiras, inglesas e alemãs. Ao retornar ao Rio, passa a viver com a família na Estrada Nova da Tijuca. Casou-se com Marcos Carneiro de Mendonça, goleiro da seleção e do Fluminense FC e historiador. A partir de 1944 o casal passou a residir em um palacete do século 19 no bairro do Cosme Velho, conhecido como "Solar dos Abacaxis", por conta dos adornos em ferro fundido que ainda hoje decoram a balaustrada das janelas frontais do solar. A mansão foi erguida em 1843 pelo bisavô de Anna Amélia, o comendador Borges da Costa.
Anna Amélia Mendonça gostava de futebol, chegando a ensinar o jogo aos operários da fábrica de seu pai e dando instruções preciosas durante as partidas. Desde muito jovem era entusiasta do esporte: no seu 12º aniversário, pediu aos pais como presente, uma bola, uma botina de sola grossa e começou a treinar.COUTINHO, Edilberto. Literatura e futebol. In: II Salão do Futebol. Belo Horizonte: Palácio das Artes, 1982.
Carreira Anna Amélia Carneiro de Mendonça foi diretora no suplemento feminino do Diário de Notícias. Além disso, foi colaboradora em diversos jornais do Rio de Janeiro, como O Globo, O Jornal, A Noite e na Revista O Cruzeiro.
Anna Amélia Mendonça foi a primeira mulher a integrar o Tribunal Superior Eleitoral, fazendo parte da mesa apuradora das eleições de 1934.
Em 1929, fundou a Casa do Estudante do Brasil.
Em 1922, em seu segundo livro "Alma", a poetisa introduziu o tema do futebol na literatura brasileira e colaborou para difundir e popularizar esse esporte com a poesia O Salto.
Em 1931, foi vice-presidente da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF) onde lutou pelo direito ao voto feminino.
Em 1935, representou oficialmente o Brasil no XII Congresso Internacional de Mulheres em Istambul.
Entre 1941 e 1942, foi presidente da Associação Brasileira de Educação e secretária do Hospital Pró-Matre, cuja finalidade era amparar a mãe carente.
Em 1942, foi escolhida como representante do Brasil na Comissão Internacional de Mulheres, com sede na União Pan-Americana em Washington.
Em 1967 foi convidada pelo governo de Israel para representar a mulher brasileira no Congresso Internacional Feminino pela Paz e Desenvolvimento.
Ao longo de sua carreira, Anna Amélia Mendonça traduziu diversos autores, sendo William Shakespeare um dos mais importantes autores que ela trouxe para o português. Dentre as traduções estão Hamlet em 1968, posteriormente reeditada diversas vezes. Também traduziu Ricardo III e Romeu e Julieta.
Atuação feminista Anna Amélia Carneiro de Mendonça teve atuação destacada no movimento feminista brasileiro das primeiras décadas do século XX, especialmente nas campanhas em defesa do sufrágio feminino, da educação das mulheres e de sua inserção na vida pública.
Durante as décadas de 1920 e 1930, integrou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF), principal organização sufragista do país, fundada por Bertha Lutz. Na entidade, Anna Amélia ocupou o cargo de vice-presidente e participou de campanhas voltadas para a ampliação dos direitos civis e políticos das mulheres brasileiras.
Sua atuação esteve associada ao chamado feminismo liberal da Primeira República, caracterizado pela defesa da instrução feminina, do acesso ao trabalho intelectual e da participação das mulheres na política institucional. Ao lado de outras intelectuais da época, participou de conferências, associações culturais e iniciativas educacionais voltadas para a valorização da presença feminina na sociedade brasileira.
Anna Amélia também esteve envolvida em iniciativas de assistência social e proteção à maternidade, integrando associações femininas ligadas à saúde pública e à filantropia. Participou das atividades da associação Damas da Cruz Verde e colaborou com a organização da maternidade Pró-Matre, voltada ao atendimento de mulheres em situação de vulnerabilidade.
Em 1935, representou oficialmente o Brasil no XII Congresso Internacional de Mulheres, realizado em Istambul, ampliando sua inserção nas redes internacionais do movimento feminista. Posteriormente, em 1942, foi indicada como representante brasileira na Comissão Interamericana de Mulheres, vinculada à União Pan-Americana, em Washington.
Seu pioneirismo político foi reconhecido em 1934, quando se tornou a primeira mulher a integrar uma mesa apuradora da Justiça Eleitoral brasileira, poucos anos após a conquista do voto feminino no país. Sua trajetória é frequentemente mencionada em estudos sobre a participação feminina na política brasileira e sobre a formação das primeiras redes feministas organizadas do país.
Educação e movimento estudantil Anna Amélia Carneiro de Mendonça teve participação destacada em iniciativas ligadas à educação, à assistência estudantil e à organização do movimento estudantil brasileiro nas primeiras décadas do século XX. Sua atuação esteve associada à defesa da formação intelectual da juventude e à ampliação do acesso estudantil à vida cultural e universitária do país.
Em 1929, ao lado de Pascoal Carlos Magno, participou da fundação da Casa do Estudante do Brasil (CEB), instituição criada no Rio de Janeiro com o objetivo de oferecer apoio material, assistência social e atividades culturais para estudantes oriundos de diferentes regiões do país. A Casa do Estudante do Brasil tornou-se um importante espaço de sociabilidade intelectual e formação política da juventude brasileira ao longo do século XX.
A instituição também exerceu papel relevante na promoção de atividades artísticas, literárias e educacionais, funcionando como ponto de encontro de estudantes, escritores, músicos e intelectuais ligados à vida cultural carioca. A atuação de Anna Amélia na entidade foi marcada pela defesa da educação como instrumento de modernização social e ampliação da participação cidadã.
Anna Amélia também esteve associada aos primeiros processos de organização nacional do movimento estudantil brasileiro. A Casa do Estudante do Brasil foi uma das instituições que contribuíram para a articulação política estudantil que culminaria na criação da União Nacional dos Estudantes (UNE), fundada em 1937. Em algumas fontes memorialísticas e institucionais, Anna Amélia é mencionada como uma das primeiras mulheres associadas à organização do movimento estudantil nacional.
Além da assistência estudantil, participou de iniciativas ligadas à educação feminina e à valorização da presença das mulheres nos espaços intelectuais brasileiros. Entre 1941 e 1942, presidiu a Associação Brasileira de Educação, entidade que reuniu intelectuais, educadores e reformadores envolvidos nos debates sobre modernização do ensino brasileiro nas primeiras décadas republicanas.
Sua trajetória na área educacional é frequentemente associada às iniciativas de modernização cultural e formação intelectual promovidas por setores das elites urbanas brasileiras no período entre as décadas de 1920 e 1940.
Vida pessoal Anna Amélia e Marcos tiveram quatro filhos: Márcia Claudia (1918 – 2012), Eliana Laura (1920 – 1920), José Joaquim (1921 – 1999) e Bárbara Heliodora (1923 – 2015). A filha mais nova, Bárbara Heliodora, se tornou professora, crítica e tradutora, e herdou da mãe Anna Amélia Mendonça o gosto por Shakespeare.
Obras Esperanças (1911) Alma (1922) Ansiedade (1926) A Harmonia das coisas e dos seres (1936) Versos que eu digo (1937) Mal de amor (1939) Castro Alves, um estudante apenas (1950) Poemas (1951) 50 poemas de Ana Amélia (1957) Todo mundo (1959)
Legado e reconhecimento Ao longo do século XX, Anna Amélia Carneiro de Mendonça consolidou-se como uma das principais intelectuais femininas ligadas ao movimento sufragista e à vida cultural brasileira da Primeira República e da Era Vargas. Sua atuação em defesa da educação, dos direitos políticos das mulheres e da participação feminina na esfera pública foi destacada em estudos sobre a história do feminismo brasileiro e sobre a presença feminina nas instituições republicanas.
Como vice-presidente da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF), Anna Amélia participou das campanhas em favor do sufrágio feminino e da ampliação da presença das mulheres nos espaços educacionais e políticos do país. Sua participação na entidade a inseriu entre as principais representantes do feminismo liberal brasileiro das décadas de 1920 e 1930.
Em 1934, tornou-se a primeira mulher a integrar uma mesa apuradora da Justiça Eleitoral brasileira, sendo frequentemente mencionada em pesquisas sobre a participação feminina na política nacional após a conquista do voto feminino em 1932.
Na área educacional e estudantil, teve participação destacada na criação da Casa do Estudante do Brasil, fundada em 1929 ao lado de Pascoal Carlos Magno. A instituição tornou-se um importante centro de sociabilidade intelectual e assistência estudantil no Rio de Janeiro ao longo do século XX. Em reconhecimento à sua atuação, a praça localizada em frente ao edifício recebeu o nome de Praça Ana Amélia.
Na literatura, Anna Amélia foi reconhecida como uma das pioneiras na introdução do futebol como tema poético na literatura brasileira, especialmente através do poema O salto, publicado em Alma (1922). Pesquisadores apontam que sua obra contribuiu para ampliar a presença feminina em espaços tradicionalmente masculinos da cultura esportiva e intelectual brasileira.
Sua atuação como tradutora também recebeu destaque, sobretudo pelas traduções de obras de William Shakespeare para o português, posteriormente associadas à tradição crítica desenvolvida por sua filha, Bárbara Heliodora.
Parte de seu acervo documental foi incorporada ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas, contribuindo para pesquisas sobre intelectuais, feminismo e participação feminina na vida pública brasileira do século XX.
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