Los caprichos é uma série de 80 gravuras do pintor espanhol Francisco de Goya, que representa uma sátira da sociedade espanhola de finais do século XVIII, sobretudo da nobreza e do clero.

Na primeira metade apresentou as gravuras mais realistas e satíricos criticando à luz da razão o comportamento dos seus congêneres. Na segunda parte abandonou a racionalidade e representou gravuras fantásticas nas quais, mediante o absurdo, mostrou visões delirantes de seres estranhos.

Empregou uma técnica mista de água-forte, água-tinta e retoques de ponta seca. Deformou exageradamente as fisionomias e os corpos dos que representam os vícios e torpezas humanas, dando-lhes aspectos bestiais.

Goya, muito relacionado aos iluministas, compartilhava suas reflexões sobre os defeitos da sociedade em que vivia. Eram contrários ao fanatismo religioso, às superstições, à Inquisição, algumas ordens religiosas, aspiravam a leis mais justas e a um novo sistema educacional. Tudo isto foi criticado humoristicamente, mas sem piedade nestas lâminas. Consciente do risco que assumia e para se proteger, dotou algumas das suas estampas com rótulos imprecisos, sobretudo as sátiras da aristocracia e do clero. Também diluiu a mensagem ordenando ilogicamente as gravuras. Contudo, os seus contemporâneos interpretaram as gravuras, até mesmo as mais ambíguas, como uma sátira direta da sua sociedade, bem como de personagens concretos, aspecto este que o artista sempre recusou.

Foi editado em 1799, mas, ao perder o poder Godoy e os iluministas, o pintor retirou a edição precipitadamente por temor à Inquisição. Apenas esteve à venda 14 dias. Em 1803, para salvar Los Caprichos, decidiu oferecer as pranchas e os 240 exemplares disponíveis ao rei, com destino à Real Calcografia, em troca de uma pensão vitalícia de doze mil reais anuais para o seu filho Javier.Gudiol, Goya, p.20

Das placas foram realizadas vinte impressões. A primeira reimpressão foi editada entre 1821 e 1836, desconhecendo-se a data concreta, e a última em 1937.

Los Caprichos influenciaram várias gerações de artistas de movimentos tão díspares quanto o Romantismo francês, o Impressionismo, o Expressionismo alemão ou o Surrealismo.

MacColl e Malraux consideraram Goya um dos precursores da arte moderna, mencionando as inovações e rupturas de Los Caprichos.

História

Em 1799, foi posta à venda uma coleção de oitenta estampas de assuntos caprichosos gravadas à água-forte pelo pintor Francisco de Goya, que contava 53 anos de idade. Nestas gravuras, mediante o ridículo, a extravagância e a fantasia, censurava erros e vícios da Espanha da época.

thumb|left|220px|"25.- Quebrou o cântaro." (Pormenor) Goya criticou nesta estampa a violência na educação das crianças.Os iluministas criam que a educação podia corrigir os defeitos e erros humanos. Para conhecer a gênese dos Caprichos é preciso referir-se aos anos anteriores. Assim, na década de 1780, Goya começou a relacionar-se com alguns dos mais importantes intelectuais do país, Gaspar Melchor de Jovellanos, Juan Meléndez Valdés, Leandro Fernández de Moratín e Juan Agustín Ceán Bermúdez que o introduziram nos ideais do iluminismo. Compartilhou com eles a oposição ao fanatismo religioso, à superstição, à Inquisição e a algumas ordens religiosas. Pretendiam leis mais justas e um sistema educacional acorde com o indivíduo.Glendinning, Goya y sus críticos, p.40

Em 1788 subiu ao trono Carlos IV. Por ocasião da sua coroação, Goya retratou-o com a sua esposa Maria Luísa, sendo nomeado Pintor de Câmara do rei.Pérez y Gallego, op. cit., p.12

O período da Revolução francesa teve repercussões na Espanha. Carlos IV paralisou as ideias iluminadas e afastou da vida pública os pensadores mais avançados. Os amigos iluministas de Goya foram perseguidos. A prisão de Francisco Cabarrús e o desterro de Jovellanos deveram preocupar a Goya.

Em uma viagem de Madrid a Sevilha em janeiro de 1793 caiu doente, talvez de um ataque de apoplexia. Foi restabelecer-se a Cádiz, à casa do seu amigo iluminista Sebastián Martínez, procurando os bons médicos da Faculdade e o clima benevolente desta cidade. Não está clara a doença que teve; há várias hipóteses: doença venérea, trombose, sindrome de Meniere, síndrome de Vogt-Koyanagi-Harada e, ultimamente, uma intoxicação por chumbo. Ficou surdo, a princípio não via bem, andava dificultosamente com problemas para manter o equilíbrio. A doença manteve-o quase meio ano em Cádiz. Ao voltar para Madrid demorou muito tempo a recuperar a sua atividade habitual. Assim, em março de 1794, o diretor da Fábrica de Tapices considerava que Goya estava impossibilitado para pintar como consequência da sua doença. Em abril de 1797, foi demitido como Diretor da Academia devido às convalescênças das suas doenças frequentes.Glendinning, La década de los Caprichos, p.24-25

A grande crise na sua vida que provocou a sua grave doença, a comoção que produziu a proximidade da morte e a surdez permanente, implicou uma mudança crucial na sua vida. A sua obra posterior a 1793 tem uma profundidade e uma seriedade novas.Licht, op. cit., p.14 A sua atitude tornou-se mais crítica e a sua surdez agravou a sua receptividade interior. A sua linguagem tornou-se rica e enigmática. O ideário do Iluminismo tornou-se um referente constante.Pérez, Goya y la ilustración , p.23 Reconheceu-o Francisco Zapater, o seu amigo e biógrafo, que manifestou que Goya no último decênio do século XVIII, viu-se agitado pelas novas ideias que percorriam a Europa.López-Rey, op. cit., p.29 Contudo, o seu ideário evoluiu para o cepticismo. Passou de confiar no pensamento iluminista que visava a melhora da sociedade mostrando os seus erros e vícios a tornar-se num precursor do mundo atual que perdera a confiança na capacidade intelectual dos homens para regenerar a sua sociedade e só encontra um mundo obscuro sem ideais. Este trânsito e evolução no seu modo de pensar aconteceu durante a elaboração dos Caprichos e aprecia-se claramente numas lâminas com umas sátiras de clara inspiração ilustrada e noutras nas que aparece o seu cepticismo nas possibilidades do homem.Licht, op. cit., p.132-133

Na sua obra, os críticos distinguem entre o realizado antes da sua doença e o executado depois, considerando isto último o estilo mais valioso e autêntico do pintor. Há um importante testemunho, a carta que escreveu Goya ao seu amigo da Academia Bernardo Iriarte a 4 de janeiro de 1794 onde dizia que convalecente da sua grave doença, realizara obras nas quais fazia observações e descobertas que não seriam possíveis nas obras por encomenda. Referia-se a pinturas pequenas, muito originais de temas como a Inquisição ou o manicómio e outras populares. Nelas desenvolvia uma visão muito pessoal e intensa com um estilo expressivo extremado. Portanto, não somente há uma divisão cronológica da sua arte fixada pela sua doença, mas também uma divisão entre obras de encomenda, sujeitas a inevitáveis restrições pelos convencionalismos da época e outras obras mais pessoais para amigos e para ele próprio, que o permitiram expressar-se com total liberdade.Helman, Jovellanos y Goya p.114

thumb|220px|center||13.-Estão quentes (pormenor) Nesta gravura, cujo primeiro desenho preparatório pertence ao Álbum B, apreciam-se as novidades que introduziu no supradito álbum e que empregou com profusão nos Caprichos: claro-obscuro, uso expressionista e não realista da luz, iluminando só os pontos a destacar, lenda ambígua e mensagem visual múltipla thumb|143px|left|A sua relação com a Duquesa de Alba inspirou as suas sátiras sobre a inconstância da mulher no amor e a sua impiedade com os amantes.Dibujo do Álbum A da Duquesa peiteando-se.Tinta chinesa lavada O 1796 regressou a Andaluzia com Ceán Bermúdez e desde julho esteve com a Duquesa de Alba, que ficara viúva o mês anterior, em Sanlúcar de Barrameda. O encontro com ela implicou um período de sensualidade que refletiu numa série de desenhos magistrais nos que aparece a Duquesa: o Álbum chamado A ou Álbum de Sanlúcar que inspirará alguns dos temas dos Caprichos.Pérez y Gallego, op.cit., p.13 Também o amargo desenlace e a separação parece inspirar outras estampas da série.Pérez, Caprichos, p.55

Depois realizou os desenhos do denominado Álbum B ou de Sanlúcar-Madrid, no que criticou vícios da sua época mediante caricaturas. Neste álbum incrementou o efeito do claro-obscuro, usando as zonas de luz para se destacar as zonas que tinham importância ideológica. Este uso expressionista e não realista da luz, já utilizado nas pinturas da Cartuja de Aula Dei, foi empregado com profusão nos Caprichos. Também neste caderno, começou a escrever títulos ou frases nas composições. Trata-se de comentários pungentes e, com frequência, com um duplo significado na melhor tradição literária espanhola. Assim mesmo começou a encher os seus imagens também de um duplo significado visual, e combinando ambas as encontramos desenhos com vários significados diferentes tanto nas imagens como nos textos. Também este aspecto foi desenvolvido em profundidade nos Caprichos.Sayre, Dibujos dos Álbumes A e B, p.112-3

thumb|left|230px|43.-O sonho da razão produz monstruos (pormenor)Em princípio Goya tinha previsto que fosse a capa das suas gravuras. Aqui retratou-se de modo muito diferente a como finalmente decidiu apresentar-se no começo dos Caprichos: abstraído, meio dormido e rodeado das suas obsessões. Uma coruja achega-lhe os utensílios de desenhar, assinalando claramente a procedência das suas invenções.No desenho preparatório, pensado como Sonho, diz: "... O Autor sonhando. A sua tentativa é apenas desterrar vulgaridades prejudiciais e perpetuar com esta obra de caprichos, o testemunho sólido da verdade".Gabinete de Estudios de la Calcografía, Dibujos y Estampas, capricho 43 Goya concebeu inicialmente esta série de gravuras como Sonhos (e não como Caprichos), realizando pelo menos 28 desenhos preparatórios, 11 deles do Álbum B (no Museu do Prado salvo algum que desapareceu). Pensava intitular a capa: Sonho 1º Idioma universal. Desenhado e gravado por Francisco de Goya. Ano de 1797. O Autor sonhando. A sua tentativa é apenas desterrar vulgaridades prejudiciais e perpetuar com esta obra de caprichos, o testemunho sólido da verdade.Sayre, Los Caprichos, p.114 Os Sonhos seriam uma versão gráfica dos Sonhos literários do escritor satírico Francisco de Quevedo, que escreveu entre 1607 e 1635 uma série na qual sonhava que estava conversando no Infierno, tanto com os demônios como com os condenados. Nos Soños de Quevedo, como depois nos Caprichos, os pecadores conservam a sua forma humana ou tomam atributos de animais que simbolizam os seus vícios ou são bruxas como no Sonho 3. O projeto desta edição constava de 72 estampas. A venda foi anunciada em 1797, especificando que o tempo de assinatura ia durar dois meses, pois ainda faltavam por imprimir as lâminas. O preço fixado foi de 288 reais, a ser pagos em dois meses.Camón Aznar, op. cit., p.39

Também há outros precedentes nos que Goya se pôde ter inspirado. Assim, nas coleções reais encontravam-se as obras de Hieronymus Bosch, nas que as suas estranhas criaturas seguramente eram homens e mulheres cujos vícios os tornaram em animais que representam os seus defeitos. Nas sátiras de Arriaga (1784) veem-se os homens tornados em burros, monos ou cães, os ministros e ladrões são lobos e os escrivas são gatos (igual a nos Caprichos 21 e 24).Cano, Los Caprichos, p.144-145

Goya, num momento dado, mudou o nome das suas gravuras a Caprichos e pensava aproveitar todos os Sonhos menos três como Caprichos. É conhecido isto porque os desenhos apresentam sinais de ter sido umidecidos para os pasar à prancha. A palavra Capricci é empregue nas conhecidas estampas de Jacques Callot de 1617 e nos Capricci de Giambatista Tiepolo para denominar imaginações da realidade.