O EE-11 Urutu é um veículo blindado de transporte de pessoal, anfíbio, com tração 6x6, desenvolvido e fabricado no Brasil pela Engesa, a partir de 1974. Sua base de transmissão e componentes do chassi são do EE-9 Cascavel, do mesmo fabricante. Ambos os veículos foram criados no contexto da mecanização da cavalaria do Exército Brasileiro e expansão da indústria bélica nacional.
O Urutu serviu como complemento carregador de tropas para o Exército e o Corpo de Fuzileiros Navais (CFN). O CFN não quis o veículo em grandes números, mas o Exército Brasileiro adquiriu 217, que entraram em serviço a partir de 1975.
O binômio Cascavel-Urutu foi a base da nova cavalaria mecanizada brasileira por quatro décadas até sua substituição pelo VBTP-MR Guarani, a partir de 2014.
O Urutu revelou sua idade e falhas no contingente brasileiro na Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti (2004–2017), onde teve funções de policiamento. Alguns Urutus brasileiros foram transferidos a forças de segurança pública, incluindo o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) do Rio de Janeiro.
Foi o primeiro blindado totalmente anfíbio desenvolvido no Brasil, podendo se impulsionar na água com velocidades de até 8 km/h, utilizando um par de hélices. Urutus já foram operados por mais de trinta exércitos nacionais e forças de segurança pelo mundo. Foram extremamente populares no Oriente Médio, especialmente com a Líbia e o Iraque, os quais compraram um grande número para complementar suas frotas de EE-9 Cascavel. O Iraque empregou seus Urutus na Guerra Irã-Iraque, que se tornou efetivamente um campo de prova para o veículo. Mesmo na década de 2010, Urutus ainda apareciam nos conflitos na região. O veículo teve muitas variantes especializadas para segurança interna, recuperação de veículos, defesa aérea, transporte de carga e evacuação médica. Uma variante híbrida foi modificada para aceitar a mesma torre com canhão de 90 mm do Cascavel, que foi oferecida sem sucesso ao Exército dos Estados Unidos, como o “Uruvel”.
História Desenvolvimento No início dos anos 1960, a indústria de defesa brasileira era irrisória e fazia pouco além de produzir armas portáteis ou repotenciar equipamento militar americano obsoleto. Entre 1964 e 196, o governo brasileiro lançou um programa para revitalizar a indústria de armamentos em resposta à uma crescente relutância dos EUA em transferir tecnologias modernas de defesa necessárias para seu próprio esforço de guerra no Vietnã. Isso proveu o ímpeto para um número de firmas de engenharia brasileiras para começar a desenvolver novas armas para uso doméstico, nomeadamente a Engenheiros Especializados SA (Engesa). Em 1967 iniciou-se o projeto de um novo carro blindado para substituir o velho M8 Greyhound, ainda em serviço nas unidades de reconhecimento do Exército Brasileiro. Isso evoluiria ao EE-9 Cascavel, que era baseado num Greyhound atualizado, com um novo motor e suspensão. José Luiz Whitaker Ribeiro, presidente da Engesa, criou o desenho final do Cascavel e de um projeto paralelo conhecido como o “Carro Transporte de Tropas Anfíbio” (CTTA), que seria uma variante anfíbia transportadora de tropas montada num chassi semelhante. O primeiro protótipo foi terminado em 1970. No final de 1973, a Marinha do Brasil aceitou o CTTA para testes preliminares com o Corpo de Fuzileiros Navais. Os Fuzileiros Navais não aceitaram comprar o veículo em grandes números e só pediram seis. Oficiais do Exército Brasileiro tiveram mais interesse e encomendaram 217. A produção em massa do CTTA começou em 1974. Os veículos foram montados numa nova fábrica construída pela Engesa para esse fim, em São José dos Campos. Os primeiros CTTAs entraram em serviço no Exército Brasileiro no ano seguinte.
O Urutu beneficou-se grandemente do sucesso de exportação inicial do EE-9 Cascavel, com um número de exércitos nacionais encomendando ambos os veículos para simplificar a logística. O Chile comprou 37 em 1975 para complementar sua frota preexistente de Cascavéis, seguido por ordens semelhantes da Líbia e Iraque. Alguns dos Urutus líbios e iraquianos foram reexportados para outros estados e movimentos militantes regionais.
Em 1980, o Exército dos Estados Unidos publicou uma licitação por um novo blindado sobre rodas para uma força de desdobramento móvel recém-proposta, capaz de trazer poder de fogo aerotransportável no evento de uma crise no Oriente Médio ou Ásia. Em resposta, a Engesa propôs um Urutu com um anel de torre grande e o mesmo canhão de 90 mm do Cascavel. Este veículo híbrido era conhecido com o “Uruvel”. Ao menos um Urutu modificado foi entregue para testes nos EUA. Se o Exército Americano adotasse o Uruvel, pouco mais da metade da produção do veículo seria feita nos EUA pela FMC Corporation. Antecipando uma proposta bem-sucedida, a FMC chegou a comprar licenças da Engesa para produzir tanto o Urutu quanto o Cascavel, assim como suas partes associadas. A variante também participou sem sucesso de concorrências no Canadá, onde foi denominada “Hydracobra”, e na Malásia. O programa foi arquivado no final dos anos 1980, e o Uruvel foi adotado apenas pela Tunísia, que comprou doze unidades.
A Engesa passou por uma crise financeira no início dos anos 1990, que a obrigou a suspender todas as suas linhas de produção. Em 1993 a firma já estava na bancarrota e a produção do Urutu foi formalmente terminada.
Serviço No Brasil miniaturadaimagem|esquerda|Cavalaria mecanizada brasileira: Urutu, fuzileiros desembarcados e Cascavel Em 1972, o Exército Brasileiro e o Corpo de Fuzileiros Navais formalmente expressaram interesse no veículo, e no final de 1973 as primeiras unidades de pré-produção estavam sendo testadas. Os Urutus dos fuzileiros navais tinham aletas de guarnição, hélices envoltas, um par de lemes e quatro tubos de ar. Ao contrário da versão do Exército, projetada apenas para atravessar rios, o Urutu naval deveria deslocar-se no mar. O CFN investia muito na motomecanização. Pela associação do blindado à cavalaria, seus pioneiros adotaram o cavalo-marinho como símbolo. Porém, o Urutu mostrou-se lento e difícil de governar no mar, pois tinha hélices e lemes pequenos, ao invés de turbina d'água, e formato pouco hidrodinâmico. Sugestões foram enviadas à Engesa, mas as atenções da Marinha passaram ao LVTP-7 americano. Os “Urutus-mar” adquiridos tiveram serviço curto. A Engesa apresentou uma versão bastante melhorada em 1986, mas a Marinha não tinha mais interesse em comprar.
Considerações financeiras e a falta de confiabilidade sentida sobre o fornecimento de equipamento militar pelos EUA proveram o ímpeto para o sucesso do programa do Urutu com o Exército Brasileiro. A Engesa havia cultivado uma relação próxima de trabalho com oficiais do Exército, e ligações pessoais foram vitais para assegurar o contrato inicial para um novo transporte.. p. 143-145. Na reorganização militar da virada da década de 1970, a cavalaria hipomóvel (montada a cavalo) estava sendo eliminada e novos meios motorizados, mecanizados e blindados eram incorporados. O binômio Urutu–Cascavel, de fabricação nacional, foi o que permitiu a criação de brigadas de cavalaria mecanizada.. p. 61-62. Além dos cavalos, eles substituíam veículos mais antigos, no caso do Urutu, os meia-lagartas e M3 Scout Cars.. p. 222.
O Urutu era também avaliado favoravelmente porque o Exército queria veículos leves sobre rodas capazes de operar em grandes distâncias sem as considerações logísticas exigidas por veículos mais pesados ou sobre esteiras. Dois Cascavéis e um Urutu eram usados em conjunto em cada pelotão, complementando um ao outro com suas características automotivas semelhantes. A logística e partes compartilhadas facilitavam essa prática. O Urutu transportava um grupo de combate de nove fuzileiros mecanizados, a “infantaria” da cavalaria mecanizada. A organização dos pelotões previa também outro Urutu carregando um morteiro médio de 81 mm.. p. 30.
Os Urutus do Exército foram empregados nas intervenções em greves no final dos anos 1980, notavelmente na Companhia Siderúrgica Nacional em 1988. O Jornal do Brasil cunhou o termo "Era Urutu" para o fenômeno das intervenções.
miniaturadaimagem|Urutus modificados com base na experiência no Haiti e entregues à polícia Trabalhos de recuperação no Cascavel e Urutu, que já estavam antigos, mas eram caros de substituir, iniciaram-se no final dos anos 90. O Urutu participou do contingente brasileiro na Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti, a partir de 2004. Ele serviu basicamente para o policiamento e teve melhor desempenho nessa função do que blindados, como o caveirão usado no Rio de Janeiro.. p. 12-13. O Urutu era o único blindado nas forças de manobra do contingente, afora os veículos dos Fuzileiros Navais. Nas vielas estreitas de Porto Príncipe enfrentou grandes manifestações, suportou ataques de gangues armadas e atravessou obstáculos, como fossos cavados por criminosos. A experiência no Haiti revelou diversas deficiências de design, especialmente vulnerabilidades defensivas. Os veículos sofreram intenso desgaste. Eles receberam atualizações, como uma cabine blindada para o motorista, torreta blindada para o atirador, “berço” blindado nas escotilhas de cima e lâmina do tipo “bulldozer” na frente, para remoção de obstáculos. Apesar da idade do veículo, ainda haviam empresas capazes de realizar sua manutenção.. p. 89.
O Exército iniciou também o projeto de um sucessor do Urutu, originalmente denominado “Urutu III”, que deu origem ao Guarani. Em 2010, um programa de modernização das viaturas antigas havia obtido um protótipo com reforço na blindagem, um motor mais potente e econômico, o que aumentou a velocidade máxima e a autonomia, e um sistema de câmbio automático. Porém, com quatro décadas de idade, a tecnologia básica do Urutu já estava bastante ultrapassada, apesar das atualizações constantes. Em 2014 saiu o primeiro lote do Guarani, a partir de então substituindo o Urutu. Três unidades com as atualizações realizadas para as favelas do Haiti, além da retirada da metralhadora principal, foram doadas para a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, em 2018. Outras duas passaram para o Departamento Penitenciário Nacional, em 2020.
135 Urutus do modelo M2 ainda estavam em serviço em setembro de 2022, quando o Exército desativou 130. As remanescentes foram três modelos ambulância e dois modernizados. Das viaturas desativadas, duas seguiram à preservação histórica, 11 foram doadas ao Uruguai e 30 separadas para outras doações, incluindo 20 para o Paraguai. Em março de 2024, 20 viaturas do modelo M5 e 76 do modelo M6 foram também desativadas, deixando 41 viaturas M6 em serviço até que possam ser substituídas pela VBTP Guarani.
No exterior
A Engesa conseguiu exportar Urutus amplamente em três continentes. A natureza rústica dos veículos, assim como sua simplicidade tecnológica e de manutenção, tornavam-nos aquisições atraentes para um número de exércitos na América do Sul, Oriente Médio e África. Além disso, a Engesa era financeiramente dependente na perspectiva de exportações, sem as quais ela seria incapaz de sustentar a produção, mesmo com os largos pedidos de Cascavel e Urutu feitos pelo Exército Brasileiro. Como o mercado doméstico era simplesmente insuficiente para suportar uma indústria de veículos blindados, as ordens de exportação eram vistas como úteis para atingir a economia de escala necessária para tornar as operações da Engesa viáveis. Em 1973, a Engesa participou sem sucesso da licitação para desenvolver um novo veículo de combate de infantaria sobre rodas para o Exército da África do Sul. A África do Sul era a primeira potência estrangeira a expressar interesse direto no Urutu e até mesmo testou um modelo otimizado para as condições sul-africanas, o “Vlakvark”. A Engesa perdeu a licitação para uma firma alemã que produziu um protótipo do que depois se tornaria o Ratel.