A Sé de Leiria ou Igreja de Nossa Senhora da Assunção é um templo quinhentista de estilo maneirista localizado no centro da cidade de Leiria, distrito de Leiria, Portugal. Caracteriza-se pelo facto de a sua torre sineira estar separada do corpo principal.
O edifício foi classificado Monumento Nacional em Novembro de 2014 (Decreto n.º 30/2014, DR, 2.ª série, n.º 224 de 19 de Novembro de 2014).
História
Origens A génese deste monumento remonta a meados do século XVI, num período de reorganização administrativa e religiosa do reino de Portugal. A 22 de Maio de 1545, através da Bula Pro excellenti do Papa Paulo III, foi criada a Diocese de Leiria, separando-a da jurisdição de Coimbra e do priorado de Santa Cruz conimbricense.
No mesmo ano, a 13 de Junho, D. João III elevava a povoação à categoria de cidade. Inicialmente, a cátedra episcopal foi instalada na Igreja de Nossa Senhora da Pena e, subsequentemente, na Igreja de São Pedro.
Todavia, a pequenez destes templos revelou-se incompatível com a dignidade da nova sede diocesana, levando o primeiro bispo, Frei Brás de Barros, a solicitar ao monarca, em 1546, a edificação de um novo edifício que fosse "conueniente em lugar homde commodamente e com menos opresam"JORGE, Virgolino Ferreira – Catedral de Leiria: História e Arte. Leiria: [Editora], 2005, p. 108 os fiéis pudessem assistir aos ofícios litúrgicos.ALMEIDA, Álvaro Duarte de; BELO, Duarte (2007). Portugal Património: Guia-Inventário. III. Lisboa: Círculo de Leitores. p. 354
Fase inicial de construção e sagração (1550-1574) Após a colocação da primeira pedra em 1550, registou-se a chegada do arquitecto Afonso Álvares à cidade em Julho de 1551, trazendo consigo a planta da nova sé. Contudo, os trabalhos de construção da catedral iniciaram-se efectivamente em Agosto de 1559, já sob a prelatura do Bispo D. Frei Gaspar do Casal e a administração do deão Luís de Araújo de Barros. A obra foi dirigida por Afonso Álvares (a traça poderá, no entanto, ser de Miguel de Arruda, sogro de Afonso Álvares).Serrão, Vítor – História da arte em Portugal: o renascimento e o maneirismo. Lisboa: Editorial Presença, 2002, p. 187-189.
Para o financiamento da obra, Frei Gaspar do Casal obteve, em 1557, a quantia de 140 ducados. A construção avançou a bom ritmo e por fases: em 1560 realizava-se o primeiro sepultamento; a capela-mor, cuja cobertura esteve a cargo de Baltasar Álvares, provável sobrinho de Afonso Álvares, estava terminada em 1569.
No ano seguinte, iniciava-se a construção do corpo da igreja, que se finalizava em 1572 com a edificação da fachada. A cobertura da igreja foi concluída em Agosto de 1573. Assim, em 1574, dava-se por terminado o edifício na sua generalidade, reunindo as condições para a sagração da nova Catedral e a transferência do Cabido.
Não obstante a sagração, o complexo estava longe de estar concluído, faltando executar dependências fundamentais como a sacristia, o claustro, a casa do cabido e o adro, bem como todo o programa decorativo.
Segunda fase (1576-século XVIII) Para apoiar estas fases subsequentes, D. Sebastião doou ao bispo, em 1576, a barbacã da cerca e respectivas torres, e em 1587 foi emitido um Alvará de D. Filipe I para facilitar a aquisição de materiais. Em 1597, o bispo D. Pedro de Castilho obteve os Paços de São Simão e uma azinhaga para financiar as obras do claustro e da sacristia.
Ao longo dos séculos seguintes, a Sé de Leiria foi objecto de contínuas campanhas de enriquecimento artístico e estrutural, nas quais intervieram nomes cimeiros da arquitectura e arte portuguesas, bem como artífices estrangeiros.
Em 1598, o engenheiro-mor do reino, Leonardo Turriano, trabalhou nas obras da capela-mor. Já no século XVII, registou-se a intervenção do arquitecto castelhano Juan Moreno.
Entre 1605 e 1615, o bispo D. Martim Afonso Mexia encomendou ao reputado mestre lisboeta Simão Rodrigues as telas do retábulo principal — parcialmente destruídas séculos mais tarde — e a Gonçalo Rodrigues as esculturas, enquanto Amaro do Vale dourava a Capela do Santíssimo. No mesmo período (1603), foram adquiridas as pias baptismais e de água benta. O adro foi concluído em 1618, em terrenos adquiridos pela Diocese, conforme atesta uma inscrição num dos muros.
Ainda no século XVII, o pedreiro Manuel de Castro trabalhou na catedral (1625) e o Bispo D. Dinis de Melo e Castro (1627-1636) isolou a capela-mor com grades. Entre 1640 e 1645, a cobertura da capela-mor sofreu nova intervenção dirigida por Frei João Turriano.
O terramoto de 1 de Novembro de 1755 provocou danos consideráveis na fachada principal e no tramo adjacente à entrada. As obras de restauro subsequentes, iniciadas por D. Frei João de Nossa Senhora da Porta e continuadas por D. Frei Miguel de Bulhões e Sousa, conferiram à fachada o aspecto actual, que denuncia a campanha de reconstrução executada depois do terramoto, numa estrutura simétrica e despojada de grandes elementos decorativos, nunca tendo recebido o aparato originalmente previsto.
Segundo as Memórias Paroquiais de 1758, a igreja, cujo orago é Nossa Senhora da Assunção, possuía então uma renda de 120$000 réis e o Cabido era composto por 37 pessoas, incluindo cinco dignidades e diversos cónegos. É ao prelado D. Frei Miguel de Bulhões e Sousa que se deve a característica mais singular do conjunto: a construção da torre sineira afastada da Sé.
Reza a lenda que a primitiva torre não permitia que os sinos fossem ouvidos na encosta do castelo. Assim, em 1770 (tendo o sino sido fundido em 1772 por André de Aregos), ordenou-se a edificação de uma nova torre sineira sobre um antigo baluarte das Portas do Sol, dissociada fisicamente do templo. Esta idiossincrasia originou o dito popular:Leiria tem uma torre que não é Sé e uma Sé que não tem torreApós obras de beneficiação, a catedral foi novamente sagrada a 24 de Julho de 1791, e em 1798 procedeu-se à bênção do cemitério junto à fachada posterior.
Século XIX e fase contemporânea O sino principal actual foi fundido em 1801 por João Craveiro.
O início do século XIX trouxe a devastação com as Invasões Francesas. Em 1810, um incêndio provocado pelas tropas napoleónicas destruiu parcialmente o templo, consumindo o cadeiral original, parte das pinturas de Simão Rodrigues, o mecanismo dos órgãos e o cartório episcopal. A recuperação foi rápida, destacando-se a execução de um novo órgão por Joaquim António Peres Fontanes em 1813.
Contudo, a instabilidade política conduziu à extinção da Diocese de Leiria a 4 de Setembro de 1882, pelo Papa Leão XIII. O cemitério da Sé havia sido desafectado em 1871.
Durante a supressão da diocese, o edifício manteve uma certa relevância. Em 1907, o arquitecto Ernesto Korrodi desenhou as estruturas que envolvem os retábulos do transepto e as lápides para a trasladação das ossadas dos bispos. A devolução de imóveis cedidos ao Município (decretos de 1911 e 1917) à posse do Estado, incluindo a casa do sineiro, ocorreu administrativamente entre 1951 e 1952.
A Diocese seria restaurada em 1918 por acção do Papa Bento XV, facto assinalado numa lápide de 1922. Em 1944, regista-se a intervenção do organizeiro Manuel V. Ferreira dos Reis.
Em 1969, os restos mortais de vários bispos foram trasladados para um mausoléu na Capela do Sagrado Coração de Jesus. A designação da diocese foi alterada para Leiria-Fátima em 1984. O órgão moderno, de Georges Heintz, foi inaugurado em 1997.
Classificação como Monumento Nacional A 23 de Outubro de 2014, o Conselho de Ministros aprovou a classificação da Sé de Leiria como Monumento Nacional, culminando um processo administrativo iniciado em 2010 pelo Cabido da Catedral junto do IGESPAR. Esta distinção patrimonial abrange o conjunto edificado composto pela Sé, o claustro, o adro envolvente, a casa do sineiro e a torre sineira, que se encontra localizada a noroeste e separada do corpo principal da igreja.
Sobre o valor do edifício, Marco Daniel Duarte, à altura director do Departamento do Património Cultural da Diocese, descreve-o como "um templo notável" cuja monumentalidade "espelha um dos períodos mais ricos da história da arte e da cultura portuguesas: o humanismo vivido ao tempo de D. João III". A decisão veio equiparar a Sé a outros monumentos leirienses, corrigindo a ausência de classificação que persistia desde a Primeira República, período em que o templo havia sido reduzido administrativamente a igreja paroquial.
Fez-se em 2016 um acordo para a musealização da torre.
Descrição A Sé de Leiria constitui um dos mais significativos exemplos da arquitectura religiosa maneirista em Portugal, caracterizada pelo estilo "chão". Destaca-se por uma estrutura em que a "escala, nudez de paramentos e geral espacialidade do corpo são verdadeiramente monumentais"SERRÃO, Vítor – O Renascimento e o Maneirismo. Lisboa: Editorial Presença, 2002, p. 189. A catedral adopta "o figurino das novas igrejas jesuíticas", embora esta fosse "uma solução incompatível com uma igreja-mãe diocesana" e, por isso mesmo, não voltasse a ser utilizada nas catedrais que se edificaram posteriormente em PortugalJORGE, Virgolino Ferreira – Catedral de Leiria: História e Arte. Leiria: [Editora], 2005, p. 103.
Estruturalmente, apresenta notáveis afinidades com as catedrais contemporâneas de Portalegre e de Miranda do Douro. O edifício implanta-se a meia-encosta, sobre uma plataforma artificial, destacando-se no tecido urbano pela sua volumetria.
Exterior O templo desenvolve-se segundo uma planta de cruz latina, composta por três naves de igual altura (tipologia Hallenkirche ou igreja-salão) com quatro tramos, um transepto saliente com corpo tripartido e uma cabeceira tripartida dividida em três capelas de diferentes profundidades.
A fachada principal, orientada a Ocidente, denota uma austera grandiosidade, ritmada por quatro robustas pilastras e contrafortes que dividem o frontispício em três corpos ou tramos. O corpo central é rematado por um frontão triangular interrompido pelos remates dos contrafortes (pináculos sobre plintos). Exibe três portais de moldura circular, enquadrados em pórticos de pedra e encimados por janelões; dos três, destaca-se o central, de maiores dimensões, com portal de volta perfeita e fustes almofadados, encimado por um janelão de perfil contracurvo. Os portais laterais são rematados por frontão semicircular com pináculo de bola e tímpano rebocado e pintado de branco.
As fachadas laterais são marcadas pela projecção dos contrafortes e rasgadas por janelas de volta perfeita em capialço. Do lado esquerdo, projecta-se o corpo quadrangular do baptistério com janelas rectilíneas. Na fachada lateral direita, existe um corpo adossado de menores dimensões com janela e porta de perfis em arcos abatidos. A fachada posterior apresenta uma empena cega, flanqueada por cunhais apilastrados que possuem gárgulas zoomórficas.
A Torre Sineira, edificada separadamente sobre um antigo baluarte das Portas do Sol, apresenta planta quadrangular e cobertura em coruchéu bolboso encimado por um anjo metálico. O sino maior ostenta a inscrição:SENDO Bº DESTA CID. E DE LRª O EXMº E REMº SR. D. MANOEL DE AGUIAR FOI FEITO ESTE SINO E TODO O INSTRUMENTO DESTA TORRE EM 8.ª POR JOÃO CRAVEIRO NO ANO DE 1801
Interior O espaço interior é definido pela igual altura das três naves amplas, separadas por oito pilares cruciformes de ordem toscana. Estes pilares "exprimem o vigor da estrutura, ritmam a composição e perturbam visualmente o espaço harmónico"JORGE, Virgolino Ferreira – Catedral de Leiria: História e Arte. Leiria: [Editora], 2005, p. 106.
O pavimento é constituído por taburnos de madeira e réguas de cantaria, contendo sepulturas numeradas. Podem-se ver pilares renascentistas e coberturas tardo-medievais em abóbadas estreladas (nave central e transepto) e de nervura (naves laterais). Nos bocetes da cobertura da nave central, encontram-se inscritas várias datas e siglas, tais como "1572 ANOS", "INRI", "1766" e "1570".