Alice Piffer Canabrava (Araras, 22 de outubro de 1911- São Paulo, fevereiro de 2003) foi uma historiadora, professora universitária e pesquisadora brasileira.
Alice revolucionou o método de pesquisa da História econômica do Brasil. Em vez de buscar informações em escritos de outros pesquisadores, ela mudou a forma de levantar dados sobre a construção da economia do Brasil e das Américas, dedicando-se a procurar registros da época dos acontecimentos que se propunha a pesquisar.
Vida Nascida em 1911 na cidade de Araras (São Paulo), no interior de São Paulo, era filha de Otília Piffer, nascida na Áustria e professora de piano, e do fazendeiro Clementino Canabrava. Desde a infância, sofreu a influência dos pais, que sempre reafirmaram o valor do estudo e do trabalho para as mulheres.
Em Araras, cursou todo o ensino primário e, em seguida, junto com sua irmã Clementina, foi transferida para o Colégio Stafford, em São Paulo, onde cursou o ginásio e concluiu o curso normal na Escola Normal Caetano de Campos da Praça da República, também em São Paulo. Posteriormente, no final da década de 1920, fez o magistério e tornou-se professora do ensino primário. Ingressou na recém-criada Universidade de São Paulo (USP), beneficiando-se de uma política do governo estadual que permitia que professores de escolas públicas cursassem o ensino superior na nova instituição. Todo esse contexto se desenrolava no inicio dos anos 30, nesse período, Alice cursou História e Geografia na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
Seu destaque acadêmico resultou em um convite para assumir a posição de professora assistente de História da América. Esse convite serviu como incentivo para iniciar o processo de mestrado e doutorado à medida que sua carreira tomava novos rumos e desafios .
Carreira Alice Canabrava formou-se na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, onde foi influenciada por professores que incentivavam a adoção de métodos interdisciplinares na pesquisa histórica. Esses métodos promoviam a interconexão entre história, geografia e economia, aspectos que marcaram sua abordagem ao longo de sua carreira acadêmica.
Durante as décadas de 1930 e 1940, o Brasil passou por um período de rápida industrialização e urbanização sob a administração de Getúlio Vargas, o que resultou em profundas alterações sociais e econômicas. Alice Canabrava, atenta ás mudanças do contexto nacional, inseriu-se nesse cenário buscando compreender o desenvolvimento econômico do país através de uma perspectiva histórica.
Alice Canabrava foi influenciada pela Escola dos Annales dando ênfase nos elementos econômicos e sociais. Na história econômica consolidou-se como uma ferramenta essencial para entender as transformações e o desenvolvimento do Brasil, o que a tornou uma referência nesse campo de estudo.
O mundo acadêmico, junto ao seu fascínio pela economia, levou Alice Canabrava a empregar técnicas de quantificação e análise de dados econômicos e isso possibilitou que Alice introduzisse uma nova abordagem no estudo da história. Explorando questões relacionadas ao comércio, à circulação de riquezas e aos impactos econômicos nas sociedades coloniais, essa abordagem consolidou sua trajetória profissional e fortaleceu o campo da história econômica no Brasil.
Após concluir seu doutorado com a tese O comércio português no Rio da Prata, 1580–1640, que examinava os caminhos clandestinos de prata de Potosí ao Brasil, Alice avançou para o cargo de 1ª assistente na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. A obra O Caminho Percorrido, reflete sobre a candidatura de Alice Canabrava ao cargo de professora titular de História Americana na USP (1946) da qual ela não foi nomeada. Neste mesmo ano, Alice obteve o título de livre-docente com a tese "A Indústria do Açúcar nas Ilhas Inglesas e Francesas do Mar das Antilhas (1697-1755)".
Em 1951, Alice Canabrava foi nomeada professora titular de História Econômica do Brasil na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), onde, ao término de seu contrato, ela se tornou a primeira mulher da USP a conquistar a posição de catedrática por concurso com a tese "O Desenvolvimento da Cultura do Algodão na Província de São Paulo (1861-1875)" Em 1961, foi uma das fundadoras da Associação dos Professores Universitários de História (ANPUH) e participou do “Encontro Internacional de Estudos Brasileiros” em 1971, onde debateu importantes questões sobre a historiografia brasileira.
Foi diretora da FEA-USP de 24 de junho de 1954 a 23 de junho de 1957, tendo sido a primeira mulher a ocupar esse cargo. Em 4 de janeiro de 1984, a Congregação da Faculdade lhe concedeu o título de professora emérita. Dentre as pessoas que orientou estão so professores Alcides Ribeiro Soares, Flávio Azevedo Marques Saes, Francisco Vidal Luna e Nelson Hideiki Nozoe.
Na década de 1970, Alice Canabrava realizou contribuições em duas áreas como: as reflexões sobre Von Martius, Varnhagen e Capistrano de Abreu, e a análise da estrutura da propriedade da terra, escravidão e riqueza na capitania de São Paulo utilizando métodos da história quantitativa. Nessas reflexões, Alice discutiu que a acumulação de riqueza em São Paulo se dava a partir de uma dinâmica interna, desprendendo-se da visão de Caio Prado.
Em reconhecimento a sua contribuição para a área acadêmica, Alice Canabrava foi agraciada com o título de Professora Emérita da USP em 1985, mesmo após sua aposentadoria em 1981. Sua influência continua a ser reconhecida e sua trajetória acadêmica permanece na história da pesquisa histórica e econômica no Brasil.
Contribuições Além do pioneirismo que cerca a carreira profissional da Alice Piffer Canabrava, suas pesquisas sobre história econômica do Brasil também possuem grande relevância para a historiografia brasileira. Na década de 1940, no Brasil, a História Econômica ainda não era uma disciplina bem definida. As duas teses que Alice Canabrava apresentou à cátedra de História da América na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, pelas quais obteve os títulos de doutora e livre-docente, podem ser consideradas pesquisas em História Econômica. As obras; "O comércio Português no Rio Prata, 1580-1640" (1942), "A indústria do Açúcar nas ilhas Inglesas e Francesas do Mar das Antilhas, 1697-1755 (1946) e "O Desenvolvimento da Cultura do Algodão na Província de São Paulo, 1861-1875" (1951), são o ponto central das primeiras pesquisas históricas de Alice Canabrava, estabelecendo uma ligação clara e direta com o campo da história econômica. Canabrava se dedicou a investigar as dinâmicas econômicas e suas relações com o desenvolvimento histórico, consolidando-se como uma das pioneiras na aplicação de métodos econômicos à análise histórica no Brasil.
A obra de Alice Canabrava é diferente dos estudos de outros autores de sua geração em diversos aspectos. Os seus objetivos de pesquisa, método e fontes utilizadas refletem, em sua grande maioria, na formação adquirida no curso de História e Geografia da Faculdade de Filosofia da USP. Canabrava preferiu se concentrar seus estudos em monografias, focados em análises detalhadas e específicas. O historiador e sociólogo, Sérgio Buarque de Holanda, já havia mencionado a Alice Canabrava em um comentário a respeito de suas obras:
Legado Alice Canabrava deixou um grande legado em diferentes áreas. No âmbito social, foi defensora dos trabalhadores pobres e das mulheres brasileiras, no campo acadêmico foi responsável pela cadeira de História Econômica Geral e do Brasil do curso de Ciências Econômicas da Universidade de São Paulo, tornando-se a primeira mulher da universidade a atingir a posição de Catedrática. Canabrava escreveu livros como O açúcar nas Antilhas e O Comércio Português no Rio da Prata, que moldaram as dinâmicas sociais e econômicas do colonialismo europeu nas Américas, além de impactar o ensino infantil ao escrever livros pedagógicos com novas metodologias e abordagens do ensino.
A tese O Comércio Português no Rio da Prata revelou as vias clandestinas pelas quais a prata extraída das minas de potosí, localizadas no atual território da Bolívia, fluía para o Brasil durante o período colonial. Esse trabalho foi amplamente elogiado pela crítica tanto nacional quanto internacional, devido à sua profundidade e originalidade.
Embora não tenha sido o primeiro estudo de História Econômica realizado no Brasil, essa pesquisa se destacou por introduzir na historiografia econômica brasileira métodos e técnicas de pesquisa extremamente avançados para a época. Entre as inovações, destacou-se o uso intensivo de fontes primárias, que proporcionou uma base documental sólida para as conclusões do estudo. Esses métodos e técnicas modernizaram a pesquisa acadêmica brasileira e permaneceram incorporados nos estudos universitários por um longo período, influenciando gerações de historiadores e economistas.
Morte Alice Canabrava morreu em São Paulo em 2003
Obras Desenvolvimento da cultura do algodão na província de São Paulo: 1861-1875 (1951) O comércio português no Rio da Prata (1942) tese de doutorado História econômica: estudos e pesquisas (2005)
Ver também
Caio Prado Júnior Zélia Cardoso de Mello
Ligações externas O comércio português no Rio da Prata, 1580–1640- A trajetória intelectual de Alice Piffer Canabrava: Um oficio como sacerdócio (1935- 1997) A indústria do açúcar nas ilhas inglesas e francesas do Mar das Antilhas: (1697-1755)
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