A Igreja (ou Capela) de São Pedro é um templo religioso de raiz românica situado na cidade de Leiria, distrito de Leiria, em Portugal. Localizado perto do Castelo, o edifício tem origens no século XII e encontra-se classificado como Monumento Nacional desde 1910.Igreja de São Pedro no sítio do IGESPARFicha na base de dados SIPA

História Origens A fundação do templo remonta, com grande probabilidade, ao último quartel do século XII, cerca de 1176, sendo a segunda igreja a ser edificada na vila medieval de Leiria, sucedendo à Igreja de Santa Maria da Pena, situada no interior da cintura muralhada do castelo.

O templo é referido pela primeira vez em documentos de 1200 relacionados a uma disputa entre o bispo de Coimbra e o Mosteiro de Santa Cruz sobre o domínio eclesiástico da cidade.

A sua construção visava servir a população que habitava extra-muros, estando a edificação da igreja ligada à expansão e influência do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, instituição que detinha o domínio eclesiástico do priorado leiriense, facto apoiado pelo bispo D. Miguel Salomão. A primeira referência documental segura surge no contexto de uma violenta contenda, datada de 1200 ou 1201, entre a mitra conimbricense e o referido mosteiro crúzio.REAL, Manuel Luís. A arte românica de Coimbra: novos dados – novas hipóteses, p. 539

A importância do local na malha urbana medieval é atestada pela realização, nas suas imediações, das célebres Cortes de Leiria de 1254, convocadas por D. Afonso III, marco histórico onde se registou a primeira representação do Povo juntamente com a Nobreza e o Clero. A evolução arquitectónica do edificado prosseguiu nos séculos seguintes. Em 1370, por ordem de D. Estêvão Esteves, prior de Santa Cruz, a igreja foi alvo de uma ampliação e o madeiramento da cobertura foi substituído por carvalho.CRISTINO, Luciano Coelho. A vila de Leiria em 1385, in Jornadas sobre Portugal Medieval, Leiria, 1986

Século XVI a XVIII No século XVI, o imóvel apresentava sinais de degradação preocupantes. Uma missiva datada de 18 de Janeiro de 1527, enviada pelo clérigo Simão Álvares, vedor das obras do Cardeal, relata o estado precário dos templos sob a jurisdição de Santa Cruz, alertando para a necessidade urgente de intervenção, apesar de mandados anteriores de D. Manuel I não terem sido executados:nesta vila há 3 igrejas antigas que estão pera cair do madeiramento de cima, como ora esta já uma que é São Pedro (...). É necessário que Vossa Alteza as mande enmadeirar de novo e com tempo, porque depois de cairem custará o dobroApesar destas dificuldades, com a elevação de Leiria a diocese em 1545, a Capela de São Pedro assumiu a função de Sé Catedral, sucedendo à Igreja de Nossa Senhora da Pena, estatuto que manteve até 1574, altura da inauguração da Sé de Leiria.

A transferência definitiva do Cabido para a nova catedral, cuja construção se iniciara em 1559, marcou o início de um lento declínio da paróquia de São Pedro. A sua área de influência foi progressivamente restringida, sendo desmembradas várias paróquias da sua colegiada — ocorre a 28 de Dezembro de 1713 o golpe final, com a erecção da freguesia dos Pousos para onde foi transferida a paroquialidade de S. Pedro. Contudo, o templo ainda sofreu alterações morfológicas significativas na transição do século XVII para o XVIII.

Neste período, a nave foi alongada, o que obrigou à deslocação da fachada principal e ao desaparecimento da torre sineira original. O interior contava então com coro-alto e retábulos, incluindo um altar-mor dedicado a São Pedro (flanqueado por São Paulo e Santo Agostinho), e altares laterais com localização precisa: Nossa Senhora da Piedade e Santo António situavam-se do lado da Epístola, enquanto o altar de São João Baptista (posteriormente de São Simão) se encontrava do lado do Evangelho. Havia ainda, no corpo da igreja, um altar de São Sebastião pertencente à confraria dos cristãos-novos, localizado abaixo do altar de São João Baptista.O Couseiro ou Memórias do Bispado de Leiria, Braga, 1868ZÚQUETE, Afonso – Leiria: Subsídios para a História da sua Diocese, Leiria, 1945

Século XIX: de celeiro a sala de espectáculos O século XIX trouxe a dessacralização e a utilização profana do espaço, tendo a igreja sido reduzida a usos seculares por D. Manuel de Aguiar. Em 1834, após a extinção das ordens religiosas e o falecimento do bispo D. João Inácio da Fonseca Manso, o edifício foi convertido em celeiro. No ano seguinte, em 1835, um grupo de cidadãos adaptou o espaço a sala de espectáculos. Esta datação foi confirmada em Junho de 1866, durante obras de reparação, quando se descobriu uma tábua oculta sob o forro dos camarotes com a seguinte inscrição:No ano de 1835, restaurada a Pátria/ da usurpação miguelista, foi edificado/ este Teatro, pela Comissão da Mocidade/ Leiriense, composta de Mourão, Presiden/ te e quatro membros maisO Teatro de São Pedro funcionou durante várias décadas. A 26 de Dezembro de 1854, o jornal O Leiriense noticiava a representação das peças O Capitão Paulo, de Alexandre Dumas, e As duas bengalas. Os estatutos da agremiação teatral foram aprovados por decreto a 19 de Julho de 1867 e ratificados por carta régia a 10 de Dezembro de 1868, tendo como signatários figuras como Abílio Barreto Figueiredo Perdigão, Francisco Manuel de Almeida e Silva, Luís Augusto do Souto, Manuel Joaquim Henriques e Francisco Maria Teixeira. Em Fevereiro de 1871, realizaram-se reuniões para a formação da direcção administrativa sob a presidência de Francisco Pereira da Silva.

Contudo, a inauguração do novo Teatro D. Maria Pia em 1880 ditou o abandono desta função. O edifício entrou em ruína progressiva, servindo sucessivamente de armazém de madeiras, prisão ou depósito de trapos — "volvidos alguns anos, a velhice das adaptações, o seu estado de ruína e a dificuldade de acesso que a ele levava deixaram de acalentar o ânimo dos leirienses". Já em 1896, Ernesto Korrodi propusera a sua classificação como monumento nacional, mas apenas em 1920, encontrando-se o templo em ruínas, foi a sua tutela entregue ao museu da cidade.

Fase contemporânea A recuperação física do imóvel ocorreu sob a égide da DGEMN. Entre 1933 e 1937, e prolongando-se até 1940, foram executadas vastas obras de restauro e reconstrução dirigidas pelo arquitecto Baltazar de Castro, que permitiram a reabertura ao culto em 1940. Na actualidade, a igreja encontra-se encerrada ao culto regular desde 1997, abrindo pontualmente para cerimónias de casamento ou eventos culturais. Em 2019, o monumento foi alvo de uma nova reabilitação estrutural e de valorização.

Descrição

Arquitectura e exterior Tipologicamente, a igreja filia-se no estilo românico, constituindo o único exemplar remanescente desta corrente na urbe e evocando as influências da região de Coimbra, bem como afinidades com a desaparecida igreja de São Cristóvão.

A estrutura, de calcário e alvenaria, apresenta uma planta longitudinal, composta por uma nave única rectangular e uma cabeceira escalonada, dividida em capela-mor e dois absidíolos também rectangulares. As fachadas encontram-se rebocadas e pintadas, sendo delimitadas por cunhais em cantaria. A cobertura é diferenciada, apresentando telhados de duas águas na nave, uma água nas capelas colaterais e três águas na capela-mor.

Do ponto de vista da História da Arte, a edificação do templo ilustra a confluência de duas correntes: a cabeceira denota a influência das oficinas de Coimbra (a "corrente românica coimbrã"), enquanto a fachada principal, terminada posteriormente, revela a ascensão das oficinas de Lisboa e a importação de modelos artísticos britânicos, trazidos pela comunidade estrangeira estabelecida no Tejo após o Cerco de Lisboa de 1147. A capela de São Pedro demonstrará o quão "poderosa" foi a corrente românica coimbrã, ao ponto de exportar soluções estéticas e artífices para áreas meridionais como esta cidade de Leiria e até Torres VedrasALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de – História da Arte em Portugal, 1.ª ed., Lisboa, Editorial Presença, 2001, p. 134, embora outros estudos sugiram uma confluência com a escola de Lisboa.

O templo implanta-se na vertente da encosta, no interior da cintura muralhada, a Este do Castelo de Leiria, e ladeado por duas construções de elevado relevo histórico, designadamente o antigo Paço Episcopal e os antigos Celeiros da Mitra, onde actualmente funciona o m|i|mo.

A igreja abre-se para um adro desnivelado, o Largo de São Pedro, acessível através de uma calçada de pedra que se inicia após o arco da Torre Sineira e da Casa do Sineiro da Sé. No limite Oeste deste largo, sobre uma plataforma elevada fronteira à capela, ergue-se um grande cruzeiro. A Norte, vê-se um exemplar de arquitectura militar, e a Sul, a Porta do Sol. É nesta última, adossada ao Edifício do Governo Civil, que se encontra erguida a actual Torre Sineira, em posição distinta da original. Na base do morro do Castelo, vislumbra-se a Sé de Leiria.

A fachada principal, orientada a Oeste, termina em empena triangular e é rasgada por um portal inserido num alfiz (comum em muitas igrejas medievais portuguesas) rematado por cimalha, a qual repousa sobre uma cachorrada esculpida com representações de figuras humanas. O pórtico estrutura-se em arco de volta perfeita (ou a pleno centro), desdobrando-se em quatro arquivoltas assentes em colunas de fuste cilíndrico liso que alternam com pilastras; deve notar-se que alguns destes colunelos se encontram já sem os fustes originais. Os capitéis que as encimam ostentam motivos fitomórficos e zoomórficos, enquanto o tímpano permanece liso. Sobre o portal, existe uma fresta para iluminação.

Um dos elementos mais distintivos deste portal reside na decoração das arquivoltas, onde se identificam botões esculpidos nas aduelas e um notável conjunto de beak-heads. Estas figuras, cujos braços repousam nos torosRODRIGUES, Jorge – "O mundo românico (séculos XI-XIII)", in História da Arte Portuguesa, vol. 1, Lisboa, Círculo de Leitores, 1995, p. 297, são de origem provável no vocabulário românico anglo-normando, introduzidas possivelmente pela referida comunidade estabelecida no Tejo depois de 1147. A sua iconografia, ainda objecto de discussão, sugere a representação de entidades malignas tentando libertar-se do mundo infernal para alcançar o plano celestial figurado no centro da composição. As figuras já estão muito erodidas, restando as mãos, torsos e cabeças. Esta fachada, terminada sob o signo da escola de Lisboa, contrasta com a cabeceira, que denota a influência das oficinas de CoimbraGRAF, Gerhard N. – Portugal roman, v. 66 (La nuit des temps), Zodiaque, 1986.

As fachadas laterais do corpo da nave são rematadas por beiral e rasgadas por janelões de verga curva protegidos por gradeamento em ferro, denunciando alterações posteriores. A fachada posterior da nave exibe uma empena encimada, no seu vértice, por uma cruz templária. Na cabeceira, o remate superior é feito em cornija sustentada por uma cachorrada zoomórfica, onde se distinguem cabeças de carneiro, palmas estilizadas e algumas siglas de canteiro. A iluminação desta zona é assegurada por uma rosácea e diversas frestas inseridas na parede fundeira das absides, sobre as quais corre um cordão relevado com decoração vegetalista.

Interior O espaço interno, simples e sóbrio, é de nave única, pavimentada com lajes de pedra e coberta por um tecto de madeira de dois planos (substituído por madeira de carvalho durante as intervenções históricas). As paredes, rebocadas e pintadas de branco, são iluminadas pelas janelas de verga barroca em arco segmentar rasgadas na nave e por um óculo com forte enxalço situado sobre o arco triunfal. miniaturadaimagem|A Ermida de São Pedro de Vir-a-Corça (Monsanto) partilha características arquitectónicas únicas com a igreja leiriense