O Edifício, a Igreja e o Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Leiria constituem um conjunto arquitectónico situado na Rua Miguel Bombarda (antiga Rua da Misericórdia), no centro histórico da cidade de Leiria, em Portugal.Ficha na base de dados SIPA A igreja foi erigida inicialmente no século XVI e reedificada no século XVIII, tendo, em 2015, sido classificada como Monumento de Interesse Público (portaria nº 208/2015).
No conjunto edificado, de traça maneirista e tardo-barroca, está instalado, desde 2017, o CDIL — Centro de Diálogo Intercultural de Leiria.
História
A igreja quinhentista A Misericórdia de Leiria estabeleceu-se no ano de 1544. O acto fundacional desta irmandade pautou-se pela centralização das estruturas de assistência pré-existentes na malha urbana, resultando na anexação de um vasto conjunto de centros de apoio, alguns dos quais com actividade documentada desde os séculos XII e XIII.
Este processo de fusão englobou diversas albergarias, nomeadamente as de Santo Estêvão, de Nossa Senhora da Graça e de São Brás, bem como uma rede de unidades hospitalares que incluía o Hospital de Nossa Senhora de Todos os Santos, e os hospitais dos Tecelões, do Espírito Santo, dos Ferreiros, de Porto Covo e do Arrabalde. A estes somou-se ainda a integração das gafarias, com destaque para a de Santo André, destinada ao isolamento e tratamento de leprosos.
Na sequência da expulsão dos judeus de Portugal (em 1496), a igreja primitiva foi erigida no exacto local da sinagoga medieval da cidade, de cuja presença subsistem diversos vestígios arquitectónicos. O templo religioso judaico localizava-se na rua que era já desde o século XIV designada como Rua Nova dos Judeus (no século XIX rebaptizada como Rua da Misericórdia).
Durante o século XVII, a infra-estrutura assistencial sofreu ampliações significativas.ALMEIDA, Álvaro Duarte de; BELO, Duarte (2007). Portugal Património: Guia-Inventário. III. Lisboa: Círculo de Leitores. p. 353-354
A configuração actual (século XVIII) O edifício que hoje se observa não corresponde, contudo, à construção original de meados de quinhentos. A actual configuração resulta de uma campanha de reconstrução integral iniciada no século XVIII, mais precisamente em 1707. Esta empreitada, que conferiu ao templo a sua estrutura chã e decoração austera enquadrável no tardo-maneirismo nacional, deveu-se à iniciativa do bispo D. Álvaro de Abranches e Noronha. A historiografia aponta como provável autor do risco arquitectónico o mestre José da Silva, oriundo da localidade do Juncal.
Entre os anos de 1627 e 1636, por determinação do bispo D. Dinis de Melo e Castro, procedeu-se à edificação e anexação de um novo corpo hospitalar. Esta ala destinada aos cuidados de saúde manteve-se em funcionamento contínuo até ao ano de 1800.
O edifício que hoje se observa não corresponde, contudo, à construção original de meados de quinhentos. A actual configuração resulta de uma campanha de reconstrução integral iniciada no século XVIII, mais precisamente em 1707: é esse templo setecentista, de cariz maneirista (estilo chão), de exterior sóbrio e com estrutura simples, de uma só nave coberta por teto de esteira, que encontramos actualmente.. Esta empreitada, que conferiu ao templo a sua estrutura chã e decoração austera enquadrável no tardo-maneirismo nacional, deveu-se à iniciativa do bispo D. Álvaro de Abranches e Noronha. A historiografia aponta como provável autor da traça arquitectónica o mestre José da Silva, oriundo da localidade do Juncal.
Já no final do século XIX, regista-se a intervenção na torre sineira, cujo sino foi executado em 1882 por António Dias de Campos Corrilha.
Requalificação como espaço cultural (século XXI) Na actualidade, o imóvel, inserido no centro histórico, transitou para a gestão da Câmara Municipal de Leiria. Tendo cessado as suas funções culturais e hospitalares primitivas, o espaço foi requalificado como infra-estrutura cultural, adoptando a designação de Centro Intercultural de Leiria.
Descrição
Arquitectura e exterior O conjunto edificado manifesta uma implantação de volumes escalonados e pendor verticalista, sendo constituído pela igreja, de planta rectangular composta por nave única e capela-mor, à qual se adossa, a Norte, a sacristia de traça também rectangular e, a Sul, o corpo do antigo hospital. Este último apresenta uma planta poligonal irregular que incorpora um pátio central e uma torre sineira quadrangular, visível apenas a meia altura e dotada de uma sineira em arco de volta perfeita em cada face. As coberturas são diferenciadas, optando-se por telhados de duas águas na igreja e sacristia, e de quatro águas na torre e nas dependências hospitalares.
Fachadas da igreja A fachada principal da igreja, orientada a Oeste, exibe um embasamento em cantaria e encontra-se rebocada e pintada. A sua composição organiza-se em três panos delimitados por quatro pilastras de ordem toscana. Estas sustentam uma arquitrave com friso dórico e um frontão triangular de proporções atarracadas, ladeado por pináculos.
No pano central, de maior largura, rasga-se o portal de verga recta, devidamente moldurado e sobrepujado por um friso dórico onde triglifos alternam com pontas de diamante. O remate superior do portal faz-se através de um frontão contracurvado de tímpano concheado, ladeado por pináculos sobre plintos e encimado por uma cruz latina. No registo superior, sobre o portal, abrem-se duas janelas rectangulares gradeadas, cujas molduras almofadadas apresentam ângulos recortados.
A fachada lateral Norte, correspondente à nave, possui soco em cantaria e divide-se em dois panos através de pilastras sobre plintos. O remate é feito por entablamento de friso dórico e cornija saliente, onde se destacam gárgulas alinhadas com os triglifos.
A entrada lateral faz-se por um portal de verga recta com moldura de almofada côncava, flanqueado por pilastras de fuste e plintos igualmente côncavos. A fenestração deste alçado compõe-se, no plano inferior, por duas janelas rectangulares jacentes (entaipadas) e, superiormente, por dois vãos rectilíneos de moldura em cantaria. A capela-mor, marcada exteriormente por pilastras toscanas nos cunhais coroadas por pináculos, possui uma janela termal lateral moldurada.
Por sua vez, a fachada lateral Este, posterior, revela a empena da nave com entablamento interrompido e uma janela rectangular jacente na capela-mor, apresentando ainda um painel de azulejos na zona da sacristia.
Neste painel, encontramos uma representação figurativa de uma tipografia com uma cartela onde se lê "PRELVMAS CESIANVM". Trata-se de uma referência à tipografia hebraica da família Orta, que funcionou num espaço contíguo à actual igreja. Nos azulejos, pode-se ler:... ATESTA DE FAMA E VOZ CONSTANTE NO SEU TEMPO, QUE JÁ VINHA AUTORIZADA DO NOSSO INSÍGNE MATEMÁTICO PEDRO NUNES, E DOUTROS VARÕES MUI SABEDORES DAS NOSSAS COUSAS, QUE LEIRIA FÔRA A PRIMEIRA CIDADE EM TODA A HESPANHA QUE TIVERA IMPRESSÃO DE FÔRMA OU DE CARACTERES METALICOS, QUAIS JOÃO DE GUTTENBERG HAVIA INVENTADO NA CIDADE DE NOGUNCIA. PEDRO AFONSO DE VASCONCELOS (DA FAMOSA ARTE DA IMPRIMISSÃO - DE AMÉRICO CORTEZ PINTO). ALELUIA.
Edifício do antigo hospital O corpo do antigo hospital exibe fachadas de três pisos, rebocadas e pintadas, com cunhais apilastrados e remate em cornija e platibanda decorada. A fenestração segue um ritmo regular, combinando janelas de sacada e de peitoril, algumas de verga abatida e outras de verga recta.
O portal principal do hospital, contíguo à igreja, possui verga recta e moldura recortada. No topo Sul, o gaveto apresenta revestimento em cantaria nos pisos superiores e um nicho de volta perfeita com interior concheado sob a janela do terceiro piso. A estrutura denota diferentes campanhas construtivas, sendo a parte mais antiga de cariz setecentista.
Interior miniaturadaimagem|Planta: 1 – Capela dedicada à Rainha Santa Isabel 2 – Nave 3 – Capela-mor4 – Sacristia O espaço interno da nave, de paredes rebocadas e pintadas de branco, define-se por uma estrutura ampla organizada em dois registos. Estes são separados por um duplo friso e cornija rectilínea proeminente, sendo o nível superior ritmado por almofadas de mármore policromo. As paredes laterais são seccionadas em quatro panos por pilastras sóbrias de fuste liso e almofada côncava, assentes em altos plintos e rematadas por capitéis coríntios.
O pavimento é constituído por tacos de madeira com guias de cantaria, enquanto a cobertura se faz por uma falsa abóbada de barrete de clérigo em madeira. O centro do tecto ostenta uma pintura do brasão nacional, orlado por motivos fitomórficos, volutas e coroa.
Os alçados laterais da nave apresentam, no segundo e quarto panos do primeiro registo, portais de verga recta com moldura almofadada. Estes são sobrepujados por nichos em arco de volta perfeita, de interior concheado, que albergam as imagens dos quatro Evangelistas sobre mísulas: São Marcos e São João no lado do Evangelho, e São Lucas e São Mateus no lado da Epístola.
No pano intermédio, confrontam-se dois púlpitos rectangulares com bacia de cantaria decorada com acantos, guarda de madeira pintada e baldaquino com sol pintado. O registo superior da nave é caracterizado pela existência de tribunas rectilíneas com balaustrada, que comunicam com as galerias superiores cobertas por abóbada de berço.
Coro No primeiro pano da nave ergue-se o coro-alto, sustentado por três arcos de pedra sobre pilares de fuste almofadado: os laterais são de volta perfeita e o central, abatido, configura uma asa de cesto. O acesso ao coro e às galerias superiores realiza-se através de corredores laterais abobadados, acessíveis por portas de verga recta situadas no sub-coro.
Capela-mor A transição para a capela-mor efectua-se através de um arco triunfal de volta perfeita, ladeado por duas capelas colaterais pouco profundas. Junto ao arco triunfal, encontra-se a seguinte inscrição:HIC HABITABO QVONIAM ELLEGIT EAM AQVI JAS O CONIGO LVIS DE AZEVEDO PEREIRA IRMAO Q FOI DESTA S CAZA PEDE HVM PADRE NOSSO FALECEO EM 17 DE IANR.O DE 1738 DISPERSIT DE DIT PAV PERIBVSLeia-se:
Aqui habitarei, porque a escolhi.
Aqui jaz o Cónego Luís de Azevedo Pereira, que foi Irmão desta Santa Casa. Pede um Pai Nosso. Faleceu em 17 de Janeiro de 1738.
Distribuiu e deu aos pobresAs capelas colaterais contêm retábulos tardo-barrocos: o nicho central de perfil curvo do lado do Evangelho é dedicado à Rainha Santa Isabel e o do lado da Epístola a São Sebastião. De estrutura semelhante ao retábulo-mor, os retábulos colaterais são em talha policroma a bege, de perfil recto e um eixo definido por duas colunas coríntias, assentes em plintos paralelepipédicos. Estas suportam o ático em fragmentos de cornija: no meio, encontra-se um espaldar decorado com painel e rematado em cornija contracurvada. No topo do conjunto, encontra-se sotobanco com apainelado em mármore e reboco. O altar é de tipo urna, pintado a marmoreados fingidos, e com ornamentos fitomórficos na cartela central do frontal.
A zona do presbitério encontra-se sobrelevada e delimitada por uma teia de madeira.
Na capela-mor, a sobriedade dominante da nave parece ceder lugar a uma maior exuberância decorativa. Esta apresenta paredes decoradas com mármores embutidos e painéis pintados. No segundo registo, destaca-se um painel central de moldura quadrilobada representando a Fuga para o Egipto (lado da Epístola), ladeado por almofadas de mármore. A cobertura é em falsa abóbada de aresta de madeira, pintada com temática vegetalista e cartelas ovais contendo símbolos marianos, como duas torres, um poço e uma fonte.