Evergetismo (do grego εύεργετέω: "eu faço boas obras") foi a prática, na Antiguidade Clássica, de oferecer doações significativas para a comunidade, manifestas geralmente como a oferta de edifícios públicos, monumentos ou benfeitorias infraestruturais e distribuição de alimentos ou dinheiro. O termo pode ser aplicado à munificência dos reis helenísticos e dos imperadores romanos, mas é mais usado para designar a prática das elites municipais.Zuiderhoek, Arjan. "Euergetism". In: Oxford Classical Dictionary, 23/05/2019 O termo foi consagrado academicamente em 1923 pelo historiador francês André Boulanger, e popularizado nos estudos sociais por Paul Veyne em meados do século XX.Anastassiadis, Anastassios. "The Peregrinations of Euergetism in the Eastern Mediterranean from the 18th to the 19th Century: Christian Ethics, Government Technology, and Historiographical Concept". In: Le Mouvement Social, 2011; 234 (1):45-62 O evergetismo se distingue da caridade ou da filantropia porque seus praticantes esperam um reconhecimento público de seus atos,Humanities Council. "Domingo Gygax explores the origins of euergetism". Princeton University, 14/07/2017 mas essa distinção nem sempre é clara.

Na Grécia O evergetismo podia se manifestar na forma de construção de obras públicas como templos, estradas, teatros, ginásios e termas, de organização de festivais, banquetes, jogos atléticos e lutas de gladiadores, ou de distribuição de dinheiro, alimentos e outros bens. Em troca pelos benefícios recebidos, a comunidade reconhecia publicamente o caráter nobre do benfeitor e lhe concedia variados tipos de distinções.

No período arcaico da Grécia Antiga o evergetismo foi praticado principalmente por forasteiros, que buscavam se inserir na comunidade local conspicuamente, assumindo o aspecto de uma troca de favores dentro das práticas de estabelecimento de uma amizade ritualizada com os estrangeiros, que pelos seus benefícios recebiam os títulos de proxenos ou evergetas, que não eram somente honoríficos mas também eram investidos de vários privilégios. Atletas vitoriosos nos jogos também podiam ser considerados evergetas, pois a vitória trazia honra e fama para a cidade, e em troca os atletas eram distinguidos com uma estátua e um prestigioso reconhecimento social.

Durante o período clássico foi uma instituição quase exclusiva de Atenas, cujo desenvolvimento social distinto de outras cidades favoreceu sua consolidação em sua forma mais conhecida. Ali o evergetismo surgiu pela necessidade de recompensar os generais que se destacaram na Guerra do Peloponeso e como uma forma de estabelecer modelos de conduta patriótica, mas também satisfazia as elites que haviam dedicado muito dinheiro para o sustento do Estado e da população durante períodos de crise, e se tornava uma forma de incentivar um fluxo contínuo de rendas e bens de forasteiros úteis para a administração pública. As recompensas aos benfeitores podiam se materializar como a concessão de títulos honoríficos, um banquete em sua honra, oferecimento de coroas de louro ou de ouro, estátuas, instalação de uma inscrição comemorativa em um local público muito frequentado, isenção de taxas e impostos, concessão da cidadania, outorga do direito de adquirir bens de raiz no território da cidade ou outros privilégios. Na Atenas clássica não há registros de evergetas locais, e segundo o historiador Domingo Gygax isso provavelmente se deve ao temor de se promover a institucionalização de uma classe especial de cidadãos que ameaçasse o sistema democrático. Há escassa informação sobre outras cidades neste período, mas alguns poucos registros sobreviventes parecem mostrar que havia muito menos resistência em honrar publicamente benfeitores nativos.

Tornou-se um hábito progressivamente mais disseminado no período helenístico, principalmente praticado por nativos abastados, sendo geralmente entendido pelos estudiosos como um processo que contribuiu para a oligarquização da sociedade helenística, legitimando o poder e prestígio de um grupo de elite que pela sua generosidade ajudava a minimizar as desigualdades sociais. Devido à alta taxa de mortalidade e baixa expectativa de vida na Antiguidade, o incentivo ao evergetismo, com a honra e prestígio que acarretava, era também uma forma de recrutar para a elite governante das cidades homens novos bem providos de rendas e capitais, que ajudariam a manter o sistema funcionando, preenchendo o vácuo produzido pela frequente extinção de famílias nobres mais antigas. Os evergetas precisavam despender grandes somas para manter seu status, mas compensavam as perdas através do acesso ao governo, onde poderiam extrair largos proventos através da cobrança de taxas, impostos e propinas.Zuiderhoek, Arjan. "Oligarchs and Benefactors. Elite demography and euergetism in the Greek East of the Roman Empire". In: Van Nijf, Onno M.; Alston, Richard; Williamson, C. G. (eds.). Political Culture in the Greek City After the Classical Age. Peeters, 2011, pp. 185-196 Nas palavras do historiador Arjan Zuiderhoek,

"Se como sistema social e político a ordem oligárquica provou ser muito durável, a posição dos indivíduos nesta ordem era altamente transitória. [...] A fragilidade da posição dos indivíduos na elite produzia uma necessidade de enfatizar sua legitimidade e pode ter predisposto os membros da elite a produzirem símbolos duráveis de seu poder social, que pudessem sobreviver à passagem do tempo. O evergetismo, como um sistema de benefícios da elite para a comunidade em troca de monumentos e inscrições honoríficas, atendia perfeitamente a ambas as necessidades. Para as famílias novas que entravam na ordem, oferecia a chance de se firmarem através da beneficência, enquanto que as famílias antigas enfatizavam sua grandiosidade através de gastos em escala verdadeiramente vasta. Se tivessem sorte, os edifícios doados ainda estariam de pé muito depois da extinção da família do doador, assim como perdurariam as inscrições comemorativas de sua generosidade. De fato, pode ser que tenha sido exatamente a falta de continuidade social e genética no longo prazo o que tenha levado à proliferação da epigrafia honorífica e funerária na Grécia durante o período da Roma imperial".

Devido à instabilidade das fortunas familiares e à transitoriedade dos cargos públicos, as inscrições comemorativas geralmente enfatizam o mérito do indivíduo doador, e não do seu grupo social, reiterando sua superioridade moral em relação ao povo comum, e essa mesma alegada superioridade era um dos elementos preponderantes na legitimação de sua posição dentro da elite. É provável que essa retórica comemorativa tenha emanado principalmente dos homens novos, interessados em afirmar sua posição dentro de um grupo de famílias antigas já amplamente conhecidas por todos.

A prática estava associada ainda ao sistema de enobrecimento da Antiguidade. Embora os costumes variassem de cidade para cidade, na cultura grega havia, de modo geral, dois modos de adquirir nobreza: nascer em uma família de grandes proprietários de terras ou em uma família sacerdotal, que eram nobres inatos, ou conseguir uma expressiva riqueza, que dava credenciais para o acesso a cargos públicos na administração ou na legislatura, cujo desempenho conferia uma nobreza vitalícia, mas não hereditária.Martin, Thomas R. "The Definition of Aristocracy". In: An Overview of Classical Greek History from Mycenae to Alexander. Perseus Digital Library, Tufts University Em ambos os casos a riqueza era indispensável para assumir um posto público, pois vinha embutida na função a obrigação moral de oferecer do próprio bolso benesses para a população. A prática, em suas origens voluntária, se tornou tão comum que em muitas cidades a população passou a considerá-la um direito adquirido, tornando-se imperativa. Essa transição não se realizou sem resistências. Há registros de nobres convidados a exercer a beneficência mas relutavam, alegando pobreza ou outros motivos. Segundo Paul Veyne, "por isso foi que os dignitários locais pouco a pouco deixaram de ser eleitos pelos cidadãos para serem designados pela oligarquia do Conselho, que os escolhia em seu próprio seio. [...] Os notáveis tinham interesse em se sujeitar a tal sistema apenas porque o costume o impunha, pois se rebelavam tão frequentemente quanto se prestavam a ele de bom grado". A nobreza sempre esteve intimamente associada à vida pública e à ostentação, e aos que se negavam ao evergetismo restava a alternativa de se retirar para o campo, mas retirar-se equivalia a cair no esquecimento, e isso o típico orgulho nobiliário não podia suportar. Embora as honras advindas do evergetismo fossem outorgadas pelos governos, o reconhecimento social efetivo dependia da concordância da população em geral.Veyne, Paul. "O Império Romano". In: Veyne, Paul (org.). História da Vida Privada: do Império Romano ao ano mil. Companhia de Bolso, 2009, pp. 102-110 Veyne continua, dizendo:

"O evergetismo foi um ponto de honra nobiliário em que o orgulho de casta acionou todas as motivações cívicas e liberais sobre as quais os historiadores se estenderam habilmente, mas também com demasiada exclusividade: civismo, prazer de dar, desejo de se destacar... Essas árvores sentimentais e cívicas esconderam-lhes a floresta do orgulho nobre e a existência de uma nobreza patrimonial, hereditária de fato. [...] O evergetismo não era tão virtuoso como creem seus comentaristas mais recentes, nem tão maquiavélico como dizem os comentaristas que os precederam, imbuídos de um vago marxismo. A nobreza residia, ao pé da letra, num jogo de competição, tão irracional, política e economicamente, quanto o esbanjamento por mera ostentação. Isso ia muito mais longe que a necessidade de preservar a posição ou marcar as barreiras de classe, e não há como conciliar o fenômeno fundamental da competição de esbanjamento com explicações sociais ao gosto dos modernos, tampouco se pode atribuí-lo às explicações dos antigos — patriotismo, festa e banquete, generosidade, etc".Veyne, pp. 110-111

Em Roma

Enquanto na Grécia o evergetismo florescia, ele era cultivado também entre os romanos desde o período republicano, quando era um hábito da elite oferecer jogos, edifícios e monumentos, especialmente por ocasião da celebração de triunfos militares. Durante os séculos I a III do Império Romano a prática do evergetismo foi particularmente generalizada e diversificada. Ao contrário do que se poderia supor, os benefícios nem sempre eram arbitrários, mas muitas vezes dependiam de uma negociação com a comunidade, que se manifestava sobre qual tipo de doação gostaria de receber e sobre as condições em que isso se faria.Rogers, Guy. "The Gift and Society in Roman Asia: Orthodoxies and Heresies". In: Scripta Classica Israelica, 1993; XII: 188-199Sterrett-Krause, Allison E. The Impacts of Private Donations on the Civic Landscapes of Roman Africa Proconsularis. University of Cincinnati, 2012, p. 6