Caso Taman Shud, também conhecido como o Mistério do Homem de Somerton, é um caso não resolvido de um homem não identificado encontrado morto em 1948 na praia de Somerton Park, ao sul de Adelaide, Austrália do Sul, Austrália. O caso recebeu o nome da frase persa , que significa "acabou", que foi impressa em um pedaço de papel encontrado meses depois no bolso da calça do homem. O fragmento havia sido arrancado da página final de uma cópia da obra Rubaiyat, de autoria do poeta Omar Caiame, que viveu no século XII. A palavra tamám foi grafada incorretamente como tamán em muitos relatórios anteriores, e esse erro foi repetido muitas vezes, levando a confusão sobre o nome na mídia. Após um apelo público da polícia, o livro do qual a página havia sido arrancada foi localizado. Na contracapa interna, os detetives leram os recortes deixados pela caligrafia anterior – um número de telefone local, outro número não identificado e um texto que parecia uma mensagem criptografada. O texto não pôde ser decifrado ou interpretado de forma satisfatória.

O caso foi considerado, desde os estágios iniciais da investigação policial, "um dos mistérios mais profundos da Austrália".The Advertiser, "Tamam Shud" , 10 de junho de 1949, p. 2 Desde então, tem havido intensa especulação sobre a identidade da vítima, a causa de sua morte e os eventos que levaram a ela. O interesse público pelo caso permanece significativo por vários motivos: a morte ocorreu em um momento de acirramento das tensões internacionais após o início da Guerra Fria; o aparente envolvimento de um código secreto; o possível uso de um veneno indetectável; e a incapacidade das autoridades de identificar o morto.

Além do intenso interesse público que causou na sociedade australiana durante o final dos anos 1940 e início dos anos 1950, o caso também atraiu atenção internacional. A Polícia da Austrália do Sul consultou seus colegas no exterior e distribuiu informações sobre o homem morto internacionalmente, em um esforço para identificá-lo.Guðmundsson, H.H. "Þekkir þú þennan mann?" Skakki turninn, 12 de outubro de 2009, p. 19–27. A circulação internacional de uma fotografia do homem e os detalhes de suas impressões digitais não produziram identificação positiva.Clemo, M. "'Poisoned' in SA – was he a Red Spy? ", Sunday Mail (Adelaide), 7 de novembro de 2004, p. 76. Por exemplo, nos Estados Unidos, o Federal Bureau of Investigation (FBI) não conseguiu comparar a impressão digital do morto com impressões tiradas de arquivos de criminosos domésticos. A Scotland Yard, do Reino Unido, também foi convidada a ajudar no caso, mas não pôde oferecer nenhuma informação.The Advertiser, "Curious aspects of unsolved beach mystery ", 22 de junho de 1949, p. 2

Em 19 de maio de 2021, após uma série de pedidos, o corpo foi exumado para análise. A polícia afirmou que os restos estavam em condições "razoáveis" e estavam otimistas sobre a perspectiva de recuperação de DNA. Em 26 de julho de 2022, o professor da Universidade de Adelaide, Derek Abbott, em associação com a genealogista Colleen M. Fitzpatrick, afirmou que a genealogia genética do DNA de amostras de cabelo removidas de sua máscara mortuária tinha a confirmação plausível de que o homem seria Carl "Charles" Webb, um engenheiro elétrico e fabricante de instrumentos de Melbourne nascido em 1905.https://www.theaustralian.com.au/nation/sevendecade-mystery-ofsomerton-man-solved/news-story/71976d67a215efb89cc50bc8c2425ac8

Vítima thumb|right|Marcado com um "X", o local onde o corpo foi encontrado na Praia de Somerton De acordo com o patologista Sir John Burton Cleland, o homem, de aparência "britânica", teria entre quarenta e quarenta e cinco anos de idade, estando em perfeitas condições físicas. Media 1,80 m de altura, com olhos castanho-claros, cabelo claro de coloração ruiva e ligeiramente grisalho em torno das têmporas, ombros largos, cintura estreita, mãos e unhas sem sinais de trabalho manual, primeiro e quinto dedos dos pés em formato triangular — como os de um dançarino ou fazendeiro (pelo uso de botas de montaria) e músculos da panturrilha definidos como os de um bailarino, um traço predominantemente genético mas desenvolvido também por maratonistas.Inquest Into the Death of a Body Located at Somerton on 1st December 1948 - State Records of South Australia GX/0A/0000/1016/0B, 17 a 21 de junho de 1949 - págs. 12 e 13"Dead Man Found Lying on Somerton Beach" - The News - 1 de dezembro de 1948, pág. 1

Ele estava vestido com uma camisa branca, gravata vermelha e azul, calça marrom, meias, sapatos e, embora o clima estivesse quente durante o dia e a noite, um suéter tricotado marrom e um casaco cinza e marrom estilo europeu. Nenhuma de suas peças de roupa traziam etiquetas e ele também não usava chapéu, fato incomum em 1948, especialmente para alguém vestindo um terno. Barbeado e sem marcas de nascença ou cicatrizes, ele não portava documento de identidade, o que levou a polícia a acreditar inicialmente que seria um caso de suicídio. Sua arcada dentária não bateu com nenhum registro analisado."The dead man who sparked many tales", The Advertiser, 1 de dezembro de 2000

Quando os policiais chegaram ao local do crime, perceberam que o corpo não havia sido perturbado e que o braço esquerdo do homem estava em posição reta, e o direito dobrado. Um cigarro não aceso estava atrás de sua orelha, enquanto outro fumado pela metade estava no colarinho direito do casaco, alinhado à sua bochecha."Riddle of the End" - The Sunday Mail, 1 de janeiro de 2009, págs. 71 a 76 Uma busca em seus bolsos revelou um bilhete de ônibus de Adelaide para St. Leonards em Glenelg, um subúrbio da cidade, e um bilhete de segunda-classe e não utilizado do trem de Adelaide para o subúrbio de Henley Beach, e mais um pente americano de alumínio, um pacote pela metade de chicletes Juicy Fruit, um pacote de cigarros Army Club contendo cigarros Kensitas (uma marca diferente) e uma caixa de fósforos Bryant & May. A parada do ônibus relacionado ao bilhete usado localizava-se 250 metros ao sul do lugar onde o corpo foi encontrado."Dead Man Walks Into Police H.Q." - The News - 2 de dezembro de 1948, pág. 2

Testemunhas se apresentaram para declarar que na noite de 30 de novembro avistaram um indivíduo de aparência similar parado no mesmo local, próximo à instituição Crippled Children's Home onde o corpo foi posteriormente encontrado. Um casal que o viu às 07h00 da noite notou o homem esticando todo o braço direito, deixando-o cair de forma frouxa. Outro casal que o viu entre 07h30 e 08h00 da noite, horário em que os postes de iluminação ainda estavam acesos, afirmou não ter notado o homem se mexer durante todo o tempo que estivera em seu campo de visão, embora tivessem a impressão de que sua posição possa ter mudado. Apesar de comentar entre si que o homem talvez estivesse morto por não reagir aos mosquitos que o rodeavam, o último casal pensou que ele poderia estar ou bêbado ou dormindo, e sendo assim decidiram não tomar qualquer atitude a seu respeito."'Poisoned' in SA - was he a Red Spy?" - Sunday Mail (Adelaide) - 7 de novembro de 2004, pág. 76

Autópsia Uma autópsia foi realizada, concluindo que a hora da morte foi por volta das 02h00 da manhã de 1 de dezembro de 1948. Entre as observações do laudo final estavam:

Apesar da revelação de que a última refeição do homem teria sido um pastel assado consumido três ou quatro horas antes da morte, testes e exames não conseguiram revelar qualquer substância estranha em seu organismo. O patologista Dr. Dwyer concluiu: "Estou convencido de que a morte não foi natural (...) suponho que o veneno utilizado pode ter sido um barbitúrico ou um hipnótico solúvel". Embora o envenenamento tenha permanecido como principal suspeita, chegou-se à conclusão de que o pastel não foi a fonte do veneno. Para além disso, o legista não pôde chegar a uma conclusão acerca da identidade do homem, a causa de sua morte ou se a pessoa vista na Praia de Somerton na noite de 30 de novembro era o mesmo homem, pois não surgiram testemunhas que tenham visto seu rosto enquanto ele ainda estava vivo. A Scotland Yard foi chamada para ajudar no caso, alcançando resultados mínimos, e apesar de uma fotografia do homem e sua impressão digital circularem ao redor do mundo, nunca se chegou a uma identificação positiva."Curious aspects of unsolved beach mystery" - The Advertiser - 22 de junho de 1949, pág. 2

Devido à não-identificação, o cadáver foi embalsamado em 10 de dezembro de 1948, o primeiro registro da realização de tal procedimento na história da polícia australiana."Somerton Body Embalmed" - The Advertiser - 11 de dezembro de 1948

Reação da mídia Os dois jornais diários de Adelaide, The Advertiser e The News, cobriram o caso de maneira distinta. O Advertiser, um standard matutino, mencionou a morte pela primeira vez em um pequeno artigo na página três de sua edição de 2 de dezembro de 1948. Intitulado "Corpo encontrado na Praia", o texto trazia:

O News, um tabloide vespertino, apresentou a história em sua primeira página, divulgando mais detalhes sobre o cadáver.

Identificação do corpo Em 3 de dezembro, E.C. Johnson foi descartado como suspeito, pois se apresentou a uma delegacia de polícia para se identificar."Dead man still unidentified" The Advertiser - 3 de dezembro de 1948 No mesmo dia, o News publicou em sua primeira página uma fotografia do morto, o que levou a mais denúncias sobre a possível identidade do homem. No dia seguinte, a polícia anunciou que as digitais do morto não constavam em seus registros, o que os forçou a expandir as investigações."Mystery of Body on Beach" - The News, 3 de dezembro de 1948, pág. 1 No dia 5 de dezembro, o Advertiser divulgou que a polícia estaria pesquisando registros militares em busca de um homem que supostamente teria bebido com outro de aparência similar ao morto em um hotel em Glenelg no dia 30 de novembro. Durante seu encontro, o homem misterioso teria apresentado um cartão de aposentadoria militar que trazia o nome "Solomonson"."Still no clue to Somerton mystery" - The Advertiser - 5 de dezembro de 1948, pág. 1

Algumas tentativas de identificar o corpo foram realizadas, incluindo uma no começo de janeiro de 1949 quando duas pessoas o identificaram como sendo o ex-lenhador Robert Walsh, de 63 anos."Somerton Mystery Still Unsolved" - The Chronicle (Adelaide) - 13 de janeiro de 1949, pág. 4 A polícia respondeu com ceticismo, acreditando que Walsh seria velho demais para ser o morto, afirmando no entanto que o corpo seria consistente com o de um antigo lenhador, embora o estado de suas mãos indicassem que ele não cortava madeira há pelo menos dezoito meses."Somerton body said to be that of wood cutter" - The Advertiser - 7 de janeiro de 1949, pág. 2 Quaisquer possibilidades de que uma identificação positiva havia sido realizada foram descartadas no entanto quando Elizabeth Thompson, uma das senhoras que havia apontado o corpo como sendo de Robert Walsh, retirou seu testemunho após ver o cadáver uma segunda vez, constatando que a ausência de uma cicatriz em particular, assim como o tamanho das pernas do morto, tornava improvável que aquele fosse mesmo Walsh."Identity of body still in doubt" - The Advertiser - 10 de janeiro de 1949, pág. 2

No princípio de fevereiro de 1949, havia pelo menos oito diferentes identificações "positivas" do morto, incluindo dois homens de Darwin que acreditavam que o corpo era de um amigo deles, um ajudante de estábulo desaparecido, um funcionário de um navio a vapor e um sueco."Body Again 'Identified'" - The News - 4 de fevereiro de 1949, pág. 13"Two More 'Identify' Somerton Body" - The Advertiser - 30 de janeiro de 1949, pág. 2"Somerton Body may be that of stablehand" The Advertiser - 19 de janeiro de 1949

A mala marrom thumb|right|Os detetives Dave Bartlett, Lionel Leane e Len Brown (da esquerda para a direita) apresentam a mala e seu conteúdo, janeiro de 1949.