Os cazerajitas ou Banu Cazeraje () foram uma importante tribo árabe estabelecida em Iatrebe, posteriormente denominada Medina, onde, juntamente com os aucitas, constituíam o grupo conhecido como . Descendentes da tribo dos azeditas e tradicionalmente vinculados à linhagem de Catane, emigraram do Iêmen para o norte da Península Arábica, provavelmente durante o , estabelecendo-se em Iatrebe após o colapso da Represa de Maribe. Durante parte do período pré-islâmico viveram sob a influência das tribos judaicas da cidade, até conquistarem autonomia política juntamente com os aucitas. Por serem mais numerosos, durante algum tempo o nome "Cazeraje" foi empregado para designar coletivamente ambas as tribos.
Ao longo do período pré-islâmico, os cazerajitas protagonizaram uma prolongada rivalidade com os aucitas, marcada por sucessivas guerras que culminaram na Batalha de Buate, travada poucos anos antes da Hégira. Essa situação transformou-se rapidamente após o surgimento do islã. Os cazerajitas constituíram a maioria dos primeiros habitantes de Iatrebe a aceitar a nova religião, participaram em maior número dos Pactos de Ácaba e, juntamente com os aucitas, passaram a integrar os ançares, desempenhando papel decisivo na consolidação da comunidade muçulmana de Medina. Durante a vida de Maomé participaram de todas as principais campanhas militares e destacaram-se entre os primeiros propagadores do islã.
Após a morte de Maomé, os chefes cazerajitas chegaram a apresentar Sade ibne Ubada como candidato ao califado na Saquifa dos saidaítas, embora posteriormente reconhecessem a autoridade de Abu Becre . Nos séculos seguintes, membros da tribo exerceram funções militares, administrativas, religiosas e intelectuais em diferentes regiões do mundo islâmico. Diversos companheiros de destaque pertenciam aos cazerajitas, entre eles Abu Aiube Alançari, Anas ibne Maleque, Haçane ibne Tábite, Abedalá ibne Rauá, e Zaíde ibne Tábite, enquanto famílias da tribo se estabeleceram no Egito, no Norte da África e em Alandalus, onde conservaram prestígio por várias gerações.
Origens
Segundo a tradição genealógica árabe, os cazerajitas descendiam de Cazeraje ibne Alharite ibne Salaba ibne Anre Muzaiquia ibne Amir Mauçama ibne Alharite ibne Inru Alcaice ibne Salaba ibne Mazine ibne Asde ibne Gauce ibne Nábete ibne Maleque ibne Zaíde ibne Cailane ibne Sabá ibne Iasjube ibne Jarube ibne Catane. Juntamente com os aucitas, descendentes de seu irmão Auce, constituíam o grupo conhecido como , denominação derivada de sua mãe, Caila. Segundo a tradição preservada pelas fontes islâmicas, os cazerajitas multiplicaram-se a partir dos cinco filhos de Cazeraje — Juxame, Aufe, Alharite, Anre e Cabe —, dos quais se originaram numerosos ramos. Entre os principais figuravam os najaritas (Najar), saidaítas (Saida), anritas (Banu Anre ibne Aufe), cauaquilaítas (Cauaquila), sauaditas (Sauade), zuraiquitas (Zuraique), taziditas (Tazide), salimaítas (Salima), baiadaítas (Baiada) e hublaítas (Hubla). A Encyclopaedia of Islam observa, contudo, que, no período imediatamente anterior ao islã, a tribo não atuava como uma unidade política plenamente integrada. Na prática, seus principais clãs exerciam ampla autonomia e constituíam as verdadeiras unidades políticas envolvidas nas alianças e conflitos de Iatrebe.
As tradições árabes relatam que os antepassados dos cazerajitas viviam originalmente no Iêmen e emigraram para o norte da Península Arábica após o colapso da Represa de Maribe, provavelmente durante o , sob a liderança de Anre Muzaiquia ibne Amir. Juntamente com os aucitas, estabeleceram-se em Iatrebe, posteriormente denominada Medina. Segundo a tradição islâmica, os cazerajitas eram mais numerosos e mais conhecidos do que os aucitas, razão pela qual, durante algum tempo, os árabes empregavam o nome "Cazeraje" para designar coletivamente ambas as tribos. No período pré-islâmico, os cazerajitas tinham como principal divindade Manate, um dos mais importantes ídolos da Arábia ocidental. Durante a peregrinação, após a permanência ritual em Arafate e a circunvolução final da Caaba, dirigiam-se ao santuário de Manate em , onde raspavam os cabelos diante da imagem da divindade, acreditando que somente assim a peregrinação estaria concluída. As fontes acrescentam que atribuíam caráter sagrado a Almuxalal e Cudaide, em contraste com Safá e Marua, que posteriormente se tornariam parte integrante do ritual islâmico da peregrinação.
Estabelecimento em Iatrebe
Após se estabelecerem em Iatrebe, os cazerajitas e os aucitas passaram inicialmente a viver sob a influência das tribos judaicas que dominavam a cidade, sobretudo os cainucaítas, os nadiritas e os curaizaítas. Essas comunidades detinham a primazia política e econômica do oásis, enquanto as tribos árabes ocupavam posição subordinada e, segundo a tradição islâmica, estavam sujeitas a frequentes abusos e formas de dependência. A Encyclopaedia of Islam observa que os aucitas e os cazerajitas permaneceram durante algum tempo subordinados aos judeus antes de conquistarem autonomia política. As tradições preservadas pelos historiadores muçulmanos atribuem a ruptura dessa situação a , chefe do salimita (Cauaquila), pertencente aos cazerajitas. Segundo esse relato, um aristocrata judeu chamado Fidiaune teria imposto que as mulheres aucitas e cazerajitas passassem a primeira noite de casamento em sua residência. Quando sua própria irmã se casou, Maleque disfarçou-se com roupas femininas, entrou no palácio de Fidiaune e matou-o. Em seguida, obteve o apoio dos gassânidas e de tribos árabes aliadas, derrotando numerosos judeus e assegurando a independência política dos aucitas e dos cazerajitas. As fontes situam tradicionalmente esse episódio em 492, embora sua historicidade não possa ser verificada de forma independente. A Encyclopaedia of Islam conserva uma versão mais sucinta dessa tradição, atribuindo igualmente a Maleque ibne Alajelane, do clã salimaíta (Cauaquila), o papel de principal responsável pela emancipação das tribos árabes em relação aos judeus de Iatrebe. Segundo William Montgomery Watt, contudo, essa fase da história de Iatrebe deve ser compreendida sobretudo a partir da atuação dos grandes clãs tribais, e não das tribos consideradas como unidades políticas homogêneas. Em sua análise, as alianças, rivalidades e conflitos envolviam principalmente os principais clãs dos cazerajitas, circunstância refletida na própria Constituição de Medina, que menciona individualmente os cinco grandes clãs da tribo — Najar, Harite, Aufe, Saida e Juxame —, sem fazer referência aos cazerajitas como um corpo político unitário.
Rivalidade com os aucitas
Segundo a tradição islâmica, a independência conquistada pelos cazerajitas e pelos aucitas em relação às tribos judaicas foi seguida pelo surgimento de uma prolongada rivalidade entre as duas tribos árabes. As fontes atribuem esse conflito, ao menos em parte, à ação dos próprios judeus, que teriam incentivado a hostilidade entre ambos após perderem a posição predominante em Iatrebe. Formaram-se então novas alianças: os aucitas associaram-se aos nadiritas e aos curaizaítas, enquanto os cazerajitas estabeleceram estreita cooperação com os cainucaítas. As tradições islâmicas afirmam que essa rivalidade perdurou durante cerca de 120 anos, produzindo uma sucessão de confrontos que marcaram profundamente a história de Iatrebe. Entre os principais combates figuram as batalhas de Sumair, Cabe ibne Anre, Serara, Dic, Fari, a Primeira e a Segunda Guerras Sacrílegas, Rubai e, por fim, Buate, considerada a mais violenta de todas. Travada aproximadamente cinco anos antes da Hégira, Buate terminou com a vitória dos aucitas, apoiados pelos Banu Nadir e pelos Banu Curaiza, sobre os mais numerosos cazerajitas.
A Encyclopaedia of Islam preserva uma descrição mais sucinta desse período, destacando alguns de seus principais protagonistas. Entre os cazerajitas, um dos chefes mais influentes era , do clã baiadaíta, que anteriormente obtivera vantagens sobre o vizinho clã Zuraique e mais tarde participou, juntamente com o clã alharitita (Alharite), dos confrontos contra diversos grupos aucitas. O agravamento dessas hostilidades culminou na Batalha de Buate, na qual Anre ibne Anumane, apoiado pelos Banu Najar e por contingentes beduínos, combateu as forças comandadas por . Ambos os comandantes morreram durante a batalha. Segundo William Montgomery Watt, dois importantes chefes cazerajitas permaneceram neutros durante essa fase dos conflitos: Abedalá ibne Ubai, pertencente ao ramo hublaíta, e , do salimaíta. Antes da chegada de Maomé a Iatrebe, Abedalá ibne Ubai era apontado como o candidato mais provável a assumir a liderança política da cidade, expectativa frustrada pela consolidação da comunidade islâmica após a Hégira.
Conversão ao islã
No décimo primeiro ano da missão profética, durante a peregrinação anual a Meca, seis cazerajitas encontraram-se com Maomé em Ácaba e aceitaram o islã. Ao regressarem a Iatrebe, divulgaram a nova religião entre seus parentes e afirmaram que ela poderia pôr fim à prolongada rivalidade que havia dividido cazerajitas e aucitas durante gerações. No ano seguinte, dez cazerajitas participaram do Primeiro Pacto de Ácaba, enquanto, no Segundo Pacto de Ácaba, realizado um ano depois, estiveram presentes sessenta e dois membros da tribo. A Encyclopaedia of Islam observa que, desde o início da expansão do islã em Iatrebe, os cazerajitas mostraram-se mais numerosos e mais entusiastas da nova religião do que os aucitas. Além da superioridade numérica nos dois pactos de Acaba, nove dos doze naquibes escolhidos por Maomé para organizar a comunidade muçulmana em Iatrebe pertenciam aos cazerajitas, contra apenas três aucitas. Após a Hégira, a antiga rivalidade entre cazerajitas e aucitas foi efetivamente superada. Segundo a tradição islâmica, a fraternidade estabelecida pelo islã entre ambas as tribos cumpriu a exortação expressa no versículo 103 da al-i-Imran, que recorda como Deus teria reconciliado povos anteriormente inimigos, transformando-os em irmãos. Desde então, cazerajitas e aucitas passaram a ser coletivamente conhecidos como ançares (auxiliadores), em referência ao apoio prestado a Maomé e aos muajiritas após sua chegada a Medina.
Os cazerajitas desempenharam papel destacado na organização da comunidade islâmica de Medina e participaram de todas as campanhas conduzidas por Maomé. Na Batalha de Badre, dos 305 combatentes muçulmanos, setenta e quatro eram muajiritas, sessenta e um pertenciam aos aucitas e cento e setenta aos cazerajitas. A Encyclopaedia of Islam apresenta números ligeiramente diferentes, registrando 175 cazerajitas e 63 aucitas entre os participantes da batalha, diferença atribuída às variantes preservadas pelas fontes medievais. Segundo Ahmet Önkal, Maomé manteve para os cazerajitas um estandarte próprio em suas expedições militares, assim como para os aucitas, preservando uma distinção organizacional herdada da estrutura tribal anterior ao islã. As fontes acrescentam que ambas as tribos continuaram utilizando, durante o período islâmico, os estandartes vermelho e verde que já possuíam na época pré-islâmica.
História posterior