Florêncio José Ferreira Coutinho (Arraial do Inficcionado, C.1750 – Vila Rica, 10 de junho de 1819) Foi militar, músico, cantor e compositor de música colonial barroca no Século XVIII.

Biografia Florêncio José Ferreira Coutinho nasceu em c.1750Vários pesquisadores divergem sobre o ano correto de seu nascimento. O Prof. Rubens Ricciardi (ECA-USP) no seu "Florêncio José Ferreira Coutinho e a Sexta-feira Maior de Manhã" adota 1749; O Prof. Paulo Castagna (UNESP), no trabalho "Uma análise paleoarquivística da relação de obras do arquivo musical de Florêncio José Ferreira Coutinho" indica 1750; O Prof. Aldo Luiz Leoni , (UNICAMP) no seu "Os que vivem da Arte da Música - Vila Rica, século XVIII", indica 1751. na Capitania das Minas Gerais, na região da Serra do Caraça, freguesia de Mariana, mais precisamente no Arraial do Inficcionado, hoje a cidade de Santa Rita Durão. Segundo o historiador Diogo de Vasconcelos, Inficcionado (ou Inficionado) era o nome dos lugares onde as lavras de mineração eram assaltadas com freqüência. Já o poeta Frei Santa Rita Durão afirma que o lugar levou esse nome pela má qualidade do ouro que ali foi encontrado na virada do século XVII para o XVIII.

Florêncio era pardo e livre, mas de sua família pouco se sabe. Seu nome “Ferreira” certamente veio de seu pai e possivelmente “Coutinho” de sua mãe, visto que seus descendentes apenas carregaram o patronímico “Ferreira”. Florêncio José tinha um irmão, Gregório Ferreira Coutinho, 14 anos mais jovem que Florêncio, nascido em 1764. Embora com muito menos expressão que o irmão, Gregório também foi músico militar em Vila Rica tendo iniciado sua carreira em tenra idade aos 11 anos em 1775, exercendo-a até cumprir 36 anos em 1800, mas tendo tocado apenas na Ordem 3a-Irmandade de São Francisco de Paula e na Confraria de São José.LEONI, Aldo "Os que vivem da Arte da Música - Vila Rica, século XVIII"- página 188, registro 92 e "Historia da Musica nas Irmandades de Vila Rica", volume I - Anuário MIOP De seu irmão Gregório, Florêncio teve também um sobrinho, Tristão José Ferreira, nascido em Resende em c.1793 que, como o tio, viria a tornar-se compositor, professor e maestro de renome.LEONI, Aldo "Os que vivem da Arte da Música - Vila Rica, século XVIII"- página 192, registro 200

Florêncio José Ferreira Coutinho ingressou na carreira militar muito jovem e também cedo iniciou-se na música. Militar ativo, informa-nos sobre as “viagens de conquistas” das quais teria participado, em ações contra negros aquilombados e índios ainda não submissos à coroa, principalmente contra os Botocudo, cujo território situava-se entre o Vale do Rio Doce e a Vila do Príncipe, mostrando-nos que os intelectuais da época também conviviam com a violência das guerras. Em carta que escreveu à Rainha D. Maria I solicitando sua confirmação no posto de timbaleiro, Ferreira Coutinho deixa isso claro: “...lhe foi perciso viajar em diversas jornadas q’ fez, jà à Serra Diamantina, jà às novas conquistas dos Indios, e outros descobrimentos”.Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, Minas Gerais, caixa 136, documento 73 – não há indicação de número nestas folhas. Como bem diz o Prof. Ricciardi, este é um retrato das contradições típicas do ciclo do ouro, onde a civilização e a barbárie postavam-se lado a dado na vida cotidiana dos mineiros. Ferreira Coutinho que era compositor de música erudita, para vencer seu mísero soldo, participava diretamente em guerras de massacres aos nativos. Como músico militar, aos 24 anos de idade ocupou vários cargos que incluíram o de ajustador, trompista, trombeteiro e timbaleiro do Regimento de Cavalaria Regular junto aos Dragões de Vila Rica.

Música Florêncio José Ferreira Coutinho teve, entretanto, carreira mais importante como músico nas irmandades de Vila Rica, e aqui cabe uma nota explicativa. Em 1759, por ordem do Marquês de Pombal, os Jesuítas e demais ordens religiosas foram expulsos do reino de Portugal e colônias. Este fato transferiu a responsabilidade de toda a atividade religiosa para as organizações de leigos: as irmandades, que eram associações em torno de um Santo, organizadas de acordo com a cor dos seus integrantes: irmandades dos homens pretos, dos homens pardos e dos brancos, em uma clara demonstração do preconceito racial da época. A Irmandade de Santa Cecília, padroeira dos músicos, foi fundada em Vila Rica em 1749, com sede na Igreja Matriz do Pilar. Seus estatutos foram aprovados pela Diocese e confirmados pelo rei em 1761. Os músicos desta participavam também da Irmandade de São José dos Bem-Casados, uma irmandade de pardos, o que mostra ser a música uma atividade de pardos livres que ocupavam uma posição modesta na sociedade, ao lado dos demais artesãos. A Irmandade dos Músicos foi também instalada em Mariana em 1749, mas não vingou. Em São João d"El Rey, os músicos pertenciam à Irmandade de N. Sra. da Boa Morte, até a fundação da de Sta. Cecília, em 1829. Os músicos de Sabará pertenciam à Irmandade de Sta. Cecília de Vila Rica.

As festas religiosas oficiais eram sempre acompanhadas de música. Promovidas pelos "Senados das Câmaras" (assembleias) das respectivas vilas, eram colocadas em "arrematação", vencendo quem oferecesse o menor preço. No caso da música, o diretor do conjunto musical apresentava uma lista de instrumentistas e cantores, dos quais era o "arrematante", devendo fornecer garantias e assinar um "termo de arrematação" em cartório. As festas oficiais do reino para as quais havia encomendas, eram: Festa da procissão de Corpus Christi; Festa do Anjo Custódio (anjo da guarda) do Reino; Festa da Visitação de Santa Isabel; Festa de S. Francisco de Borja, padroeiro do Reino; Festa do Patrocínio de Nossa Senhora e a Festa de N. Sra. da Conceição, padroeira do Reino.

Além destas, as Irmandades promoviam a Semana Santa em todas as vilas, a Festa do Divino Espírito Santo, realizada desde 1711 em Sabará, as "Razoras" ou "Razoulas" (procissões em torno das igrejas), também em Sabará, promovidas pela Irmandade da Ordem Terceira do Carmo e a "Encomendação das Almas" e os "Cânticos da Verônica", em São José d"El Rey (Tiradentes). Finalmente, além deste calendário, eram comemorados com música os nascimentos, casamentos, posses, etc. na família Real. Alguns exemplos destas festividades avulsas podem incluir a Festa dos Desposórios do Infante (1786), em comemoração ao casamento de D. João e D. Carlota Joaquina; os Funerais de D. Pedro III (1787) e o Te Deum pelo Malogro da Inconfidência Mineira (1792), por ocasião da chegada do corpo de Tiradentes a Vila Rica. Destas festas participaram músicos como Ignácio Parreiras Neves, Florêncio José Ferreira Coutinho e Marcos Coelho Neto.CAMPOS Antonio "A Música Barroca de Minas Gerais" Seção 4. "A música religiosa das irmandades: de 1750 a 1810"

Ferreira Coutinho desde 1770 pertencia à fraternidade Irmandade de São José dos Homens Pardos em sua cidade natal. Ele também foi membro e trabalhou na Ordem Terceira de São Francisco dos mínimos de Paula desde 1811, era associado às Ordem Terceira do Carmo, Confraria Santa Cecília e Confraria de São José. Ainda como músico (cantor e compositor) atuou nas mais diversas funções religiosas, tanto nas principais irmandades como a da Mercês de Cima - Irmandade de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia, Ordem Terceira de São Francisco de Paula, Mercês de Baixo - Irmandade de Nossa Senhora das Mercês e Perdões, Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos do Caquende, como para o Senado da Câmara de Vila Rica. Além disso, atuava na Casa da Ópera de Vila Rica do Ouro Preto, não só como cantor (baixo), mas também como compositor, organista, maestro e trompetista.

Nos anos de 1807 e 1808, Florêncio foi convidado por Francisco de Mello Rodrigues, soldado músico do mesmo regimento que ele, para cantar nas festas anuais da Ordem Terceira do CarmoCódice 168, auto 2282, 1º ofício – 1810, MIAH.. Como pagamento, receberia 10 oitavas de ouro, “preço comum que sempre se costuma pagar às vozes que cantavam no dito partido”, no entanto recebeu apenas cinco oitavas. O tal Francisco convidou também o contralto João Alves de Souza prometendo o mesmo pagamento, porém não honrou o compromisso. João Alves, este último, por estar necessitado de dinheiro, pediu um empréstimo a Florêncio no valor que lhe era devido: as 10 oitavas de ouro. Florêncio José então assume esse crédito e passa a cobrar de Francisco de Mello Rodrigues um total de 15 oitavas. Francisco solicita a prorrogação do pagamento da dívida até a liberação dos seus soldos no Regimento, adicionando que assumiria o pagamento das custas, mas também não a cumpriu e foi para o Rio de Janeiro. Em 26 de junho de 1810, Florêncio entra com um libelo pelo pagamento da dívida que João Alves se recusava pagar. Por isso foram inquiridas testemunhas a favor de Florêncio e, segundo as mesmas, Florêncio era músico de profissão, trombeta mor do Regimento de Cavalaria de Linha em Vila Rica e cantava com voz de baixo. Os testemunhos deixaram claro que Florêncio tinha razão e Francisco foi condenado.

Casamentos e Filhos

Florêncio José Ferreira Coutinho provavelmente sempre viveu em Vila Rica. Havia sido casado com Francisca Ferreira de SáTemos aqui uma divergência: o nome de sua mulher aparece como "Ferreira" no papel de alforria passado por Florêncio José Ferreira Coutinho "como cabeça de sua mulher Francisca Ferreira de Sá, herdeira de seu pai Manuel Ferreira de Sá ao escravo Amaro de nação Angola." Livro de Notas 158 - ano 1778, fl. 70v. MIAH./ entretanto, no registro genealógico dos Mórmons, baseado no assentamento de seu casamento com Florêncio, consta "Francisca Teixeira de Sá", o que pode ser um erro de interpretação caligráfica do manuscrito da época., filha do Almotacé das Execuções (inspetor do mercado) Manual Ferreira de Sá. Sua mulher havia herdado do pai “uma morada de casas de sobrado, cobertas de telhas”, na Rua do Bonfim, paróquia do Pilar. No ano de 1804 residiam nessa casa, Florêncio então com 53 anos e Francisca com 45 anos de idade mais um agregado João Damasceno de 5 anos, servidos por um casal de escravos.

Com o falecimento de Francisca naquela mesmo ano a casa passou para o viúvo.Francisca Ferreira da Sá, inventário, códice 47, auto 571, 1º ofício – 1811, MIAH. Florêncio casou novamente, com a parda Maria Rosa Leite da Silva, filha de Rosa Maria Fernandes e do Capitão do Terço dos Pardos Antonio Leite da SilvaEm seu testamento Rosa Maria Fernandes afirmou ser filha da escrava Maria Pinheira. Livro de contas de testamento – 1810-1824. MIAH. “Maria Rosa Leite da Silva moradora na rua do Rosário, filha do Antônio Leite da Silva e casada que foi com Florêncio José Ferreira Coutinho, músico”. Livro 1º de Conta Corrente da Ordem 3ª de São Francisco de Assis, (1767-1842), vol. 11, fls. 260v., AEPP., mas também não teve filhos desta união. Florêncio teve duas filhas naturais, isto é, fruto de união ilegítima: Francisca Romana Ferreira e Felisbina Josefa Ferreira. Não é verdade, embora existam afirmações em contrário, que Florêncio se casou com Micaela dos Anjos Gonçalves Lima, mulher que as criava as meninas e que, segundo dizem, era a mãe das mesmas. Entretanto, numa forte indicação de que tais rumores eram verdadeiros, antes de morrer Florêncio José doou às três, a casa na Rua do Bonfim.Códice 115, auto 1522, 2º ofício – 1821; Códice 54, auto 644, 1º ofício – 1820, MIAH.

Morte e Legado