thumb|Mesquita Azul (Sultanahmet Camii), em Istambul thumb|Interior da cúpula da Mesquita Azul (Sultanahmet Camii), em Istambul Arquitetura otomana refere-se à arquitetura do Império Otomano, que emergiu em Bursa e Edirne (atual Turquia) nos séculos XV e XVI. A arquitetura do império desenvolveu-se a partir da anterior arquitetura seljúcida e teve influências da arquitetura persa e bizantina, bem como das tradições islâmicas dos mamelucos depois da conquista de Constantinopla (atual Istambul) pelos otomanos. Durante praticamente quatro séculos, obras da arquitetura bizantina como a Basílica de Santa Sofia serviram de modelo para muitas mesquitas otomanas. A arquitetura otomana tem sido frequentemente descrita como uma síntese das tradições arquitetónicas do Mediterrâneo e Médio Oriente.
Os otomanos tornaram-se mestres na técnica de construir vastos espaços interiores confinados por cúpulas que, apesar da sua grande dimensão e peso aparentam uma grande leveza, conseguindo uma perfeita harmonia entre os espaços interiores e exteriores e uma perfeita articulação entre luzes e sombras. A arquitetura islâmica, que até então consistia em edifícios simples extensivamente decorados, foi transformada pelos otomanos através de um vocabulário arquitetónico de abóbadas, cúpulas, semicúpulas e colunas. A mesquita deixou de ser uma sala algo apertada e escura com as paredes cobertas de arabescos para passar a ser um santuário de equilíbrio entre estética e técnica, de refinada elegância e evocativo de uma transcendência celestial.
Antecedentes esquerda|thumb|İnce Minareli Medrese, um madraça seljúcida em Cônia, por alguns considerado um exemplo precoce de Barroco esquerda|thumb|O Khan As'ad Paşa, um caravançarai otomano em Damasco, Síria Nas suas terras ancestrais, os turcos viviam em tendas em forma de cúpula, apropriadas ao meio ambiente local. Estas tendas viriam a influenciar a arquitetura e as artes ornamentais turcas. Quando os turcos seljúcidas chegaram pela primeira vez ao Irão, encontraram uma arquitetura baseada em antigas tradições. Integrando essas tradições com elementos das suas, os seljúcidas produziram novos tipos arquitetónicos, que usaram principalmente em madraças (escolas teológicas islâmicas). Os primeiros madraças seljúcidas, conhecidos como nizamias, foram construídos no por Nizame Almulque, vizir de Alparslano e Maleque Xá I. As mais notáveis nizamias desse período são os madraças estatais de Nixapur e Tus, no Irão, o de Baguedade, no Iraque e o madraça de Harguerde, em Coração, no Irão. Outra área para a qual a contribuição dos seljúcidas para a arquitetura se revelou importante, foi a dos monumentos funerários, os quais podem ser divididos em dois tipos: com abóbadas e grandes mausoléus semelhantes a cúpulas, chamados estes últimos de türbes.
Há ainda a destacar os caravançarais seljúcidas, um misto de fortificação e estalagem para viajantes, dos quais os Ribat-e Sharif e o Ribat-e Anushirvan são bons exemplos dos que foram construídos no e que sobreviveram até aos nossos dias. Mais tardio, mas igualmente notável pode referir-se o Sultanhanı, próximo de Aksaray, um dos maiores caravançarais da Turquia. Nos edifícios seljúcidas usava-se geralmente tijolo, sendo as paredes interiores e exteriores decoradas com uma mistura de mármore, cal, gesso e outros materiais moídos. Nos edifícios anatólios típicos do período seljúcida o principal material de construção era a madeira, disposta horizontalmente, exceto ao longo das janelas e portas, onde colunas de pedra eram consideradas mais decorativas.
Período antigo (1299-finais do ) thumb|O Khan al-Umdan, um caravançarai em Acre (Israel) thumb|A Mesquita de Calide ibne Iázide, em Homs, Síria Com o estabelecimento do Império Otomano, os anos entre 1299 e 1453 constituem o primeiro período otomano, em que se assistiu à procura de novas ideias. A mesquita de Hacı Özbek, de 1333, em İznik, o primeiro centro importante da arte otomana, é o exemplo mais antigo de uma mesquita otomana de uma só cúpula.
Período de Bursa (1326-1437) O estilo baseado em cúpulas evoluiu em Bursa e Edirne. A Grande Mesquita de Bursa (Ulu Camii, também conhecida por Mesquita Sagrada) foi a primeira mesquita seljúcida a ser convertida numa mesquita de cúpula. Edirne foi a última capital otomana antes de Istambul, onde se assistiu às últimas fases da evolução arquitetónica que culminaria na construção das grandes mesquitas imperiais de Istambul. Os edifícios construídos em Istambul no período entre a conquista da cidade, em 1453, e a construção da Mesquita de Bajazeto ainda são considerados como fazendo parte do período antigo da arquitetura otomana. Entre essas construções encontram-se a Mesquita do Conquistador, de 1463-1470, a Mesquita de Mahmut Paşa, as partes mais antigas do Palácio Topkapı e o Quiosque Esmaltado. À semelhança do que os seljúcidas fizeram em alguns locais, os otomanos integraram as mesquitas na comunidade e juntaram-lhes complexos denominados külliyes que incluíam refeitórios de beneficência (imaret), escolas teológicas (madraças) e primárias (sıbyan mektebi), hospedarias de dervixes (tabhanes), caravançarais (hans), enfermarias, balneários públicos (hamans), etc.
Período clássico (1437-1703) upright|esquerda|thumb|A Mesquita Aladja em Escópia, na Macedónia do Norte Durante este período, as mesquitas passaram a incluir pátios interiores e exteriores. O pátio interior e a mesquita propriamente dita eram inseparáveis. O principal arquiteto deste período, Mimar Sinan, nasceu numa aldeia próxima de Kayseri em 1492 e morreu em Istambul em 1588. Sinan iniciou uma nova era na arquitetura mundial, criando 334 edifícios em várias cidades. A primeira obra importante de Sinan foi a Mesquita de Xazade, finalizada em 1548. A segunda sua obra significativa foi a Mesquita Süleymaniye (de Solimão) e o respetivo külliye, construída para glorificar o sultão Solimão, o Magnífico e finalizada em 1557. A obra-prima de Sinan, a Mesquita de Selimiye, em Edirne, foi construída entre 1568 e 1574, no auge da sua carreira de arquiteto imperial. Outras obras famosas de Sinan dentre as centenas da sua autoria, destacam-se as de Rüstem Paşa, as duas de Mihrimah Sultan (a de Edirnekapı e a de Üsküdar), os Banhos de Roxelana e os türbes (mausoléus) de Solimão e da sua esposa principal, Roxelana.
As obras do período clássico otomano tomaram como base a arquitetura bizantina, nomeadamente dos Balcãs, à qual acrescentaram elementos étnicos, criando assim um estilo arquitetónico próprio.
Obras do período clássico otomano podem ser observadas não só na Turquia, mas também nos Balcãs, Hungria, Síria, Egipto, Tunísia e Argélia, onde existem mesquitas, pontes, fontes e escolas desses tempos.
Período de ocidentalização (1703-1876) thumb|Türbe (mausoléu) do santo alevita Otman Baba, em Teketo, , Bulgária thumb|A Mesquita Tzisdarakis em Atenas thumb|Casas tradicionais otomanas em Ohrid, Macedónia do Norte O reinado de e do governo do seu grão-vizir İbrahim Paşa foi um período de paz. Devido às suas relações com França, a arquitetura otomana começou a sofrer influências dos estilos Barroco e Rococó, então em voga na Europa.
Segundo alguns académicos, as primeiras manifestações do Barroco devem-se aos seljúcidas. Exemplos de criações barrocas dos seljúcidas podem ser observados, por exemplo, no hospital e Grande Mesquita e Hospital de Divriği (datado de 1229, na ) classificados pela UNESCO como Património Mundial, no Çifte Minare (em Sivas), no (em Cônia), além de muitos outros locais. Este estilo seljúcida é usualmente designado como "Portal Seljúcida Barroco". O Barroco ressurgiu depois em Itália e posteriormente a sua popularidade cresceu no Império Otomano. Foram enviados observadores às cidades europeias, especialmente a Paris, para conhecerem os costumes e modos de vida contemporâneos europeus. Os elementos decorativos do Barroco e Rococó europeus influenciaram tanto a arquitetura profana como a religiosa. Por outro lado, Mellin, um arquiteto francês, foi convidado por uma irmã de Selim III para visitar Istambul, onde pintou as costas do Bósforo e as mansões de recreio (yalıs) aí situadas.
Era Tulipa (1703-1757) O reinado de Amade III é conhecido como o "Era Tulipa" devido ao uso profuso daquela flor nas decorações desse tempo. Durante esse período, durante o qual foi determinante a influência do grão-vizir Ibraim Paxá e da sua esposa Fatma Sultan, filha de Amade III, a arquitetura e artes decorativas otomanas foram grandemente influenciadas pelo Ocidente, que então exercia um grande fascínio sobre as elites do império. Em vez de monumentos e obras clássicas, foi dado ênfase à construção de yalıs (villas, palacetes e pavilhões), que foram construídos à volta do centro de Istambul. Foi também durante este período que foi construído o Palácio de Isaque Paxá, na Anatólia Oriental, junto ao que é hoje a fronteira da Turquia com a Arménia, Irão e Iraque, na província de Are.
A partir deste período, as classes altas e as elites do império começaram a usar as áreas abertas e públicas mais frequentemente, mudando os hábitos sociais até então muito tradicionalmente introvertidos. A construção de fontes monumentais e de residências à beira de água (yalıs), como o , construído no início do , tornaram-se populares. Um canal (chamado Cetvel-i Sim) e uma área de piqueniques (em Kâğıthane) tornaram-se áreas de recreio. Embora a Era Tulipa tenha acabado em 1730, com a revolta de Patrona Halil, que depôs Amade III, ela tornou-se o modelo para atitudes de ocidentalização. Durante os anos de 1720 a 1890, a arquitetura otomana afastou-se dos cânones do período clássico. Durante o reinado de Mamude I, o sucessor do deposto Amade III, foram construídas as primeiras mesquitas barrocas. esquerda|thumb|A Mesquita de Ortaköy
Período barroco (1757-1808)
Durante a década de 1740, um novo estilo "barroco" otomano ou turco surgiu na sua plena expressão e rapidamente substituiu o estilo do Período das Tulipas. Esta mudança marcou o fim definitivo do estilo clássico. As condições políticas e culturais que conduziram ao Barroco Otomano têm as suas origens em parte no Período das Tulipas, quando a classe dominante otomana se abriu à influência do mundo ocidental. Após o Período das Tulipas, o estilo otomano imitou abertamente a arquitetura europeia, tanto que a tendência arquitetónica e decorativa na Europa muitas vezes se refletiam no Império Otomano contemporaneamente ou após um curto atraso. As alterações eram particularmente notórias nas decorações e nos detalhes dos novos edifícios, em vez das suas formas gerais do espaço, embora também tenham sido introduzidas novas tipologias de edifícios resultantes de influências europeias. O termo "Rococó Turco", ou simplesmente "Rococó", é também utilizado para descrever o Barroco Otomano, ou partes dele, devido às semelhanças e influências do estilo Rococó francês em particular, mas esta terminologia varia de autor para autor.
left|thumb|Sebil de Abdulhamid I, Istambul (cerca de 1780) As primeiras estruturas a exibir o novo estilo barroco em muitas fontes e imagens foram construídas por patronos da elite em Istambul em 1741-1742. O monumento mais importante que anuncia o novo estilo barroco otomano é o complexo da Mesquita de Nuruosmaniye, iniciado por Mahmud I no início de 1748 e concluído pelo seu sucessor, Osman III (a quem é dedicado), em dezembro de 1755. Doğan Kuban descreve-o como "uma construção monumental mais importante depois da Mesquita Selimiye em Edirne", marcando a integração da cultura europeia na arquitetura otomana e a tradução do classicismo otomano. Marcou também a primeira vez desde a Mesquita do Sultão Ahmed I (início do século XVII) que um sultão otomano construiu o seu próprio complexo imperial islâmico em Istambul, inaugurando assim o regresso desta tradição.
thumb|Decoração barroca no exterior do Salão do Conselho Imperial (Divã) no Palácio de Topkapi