A Operação Carne Moída (em inglês: Operation Mincemeat) foi uma operação de desinformação na Segunda Guerra Mundial com o objetivo de disfarçar a invasão Aliada da Sicília em 1943. Membros da Serviço de Segurança Britânico obtiveram o corpo de Glyndwr Michael, um mendigo que morreu depois de comer raticida, vestindo-o como um oficial dos Fuzileiros Reais e colocando itens pessoais que o identificavam como o fictício capitão (major em exercício) William Martin. Também foram colocadas correspondências falsas que sugeriam que os Aliados planejavam invadir a Grécia e a Sardenha, enquanto a Sicília era apenas o alvo de uma distração.

A Operação Carne Moída, parte da mais ampla Operação Barclay, foi baseada no "Memorando da Truta" de 1939, escrito pelo contra-almirante John Henry Godfrey, o diretor da Divisão de Inteligência Naval, e por seu assistente pessoal, o tenente-comandante Ian Fleming. O plano foi aprovado por Winston Churchill, o primeiro-ministro do Reino Unido, e pelo general estadunidense Dwight D. Eisenhower, o comandante das operações militares no Mar Mediterrâneo. O corpo foi transportado para o litoral sul da Espanha por um submarino e jogado perto de Huelva, onde foi encontrado pela manhã por pescadores locais. O nominalmente neutro governo espanhol compartilhou cópias dos documentos com a Abwehr, o serviço de inteligência militar alemão, em seguida devolvendo os originais aos britânicos. Exames forenses mostraram que eles tinham sido lidos, enquanto transmissões decodificadas mostraram que os alemães caíram na enganação. Reforços militares foram transferidos para a Grécia e Sardenha antes e durante a invasão da Sicília.

Não se sabe o efeito total da Operação Carne Moída, mas a Sicília foi libertada mais rapidamente do que antecipado e as baixas foram menores do que previstas. Os eventos foram retratados no romance Operation Heartbreak de 1950, escrito pelo ex-ministro Duff Cooper. Três anos depois, Ewen Montagu, um dos oficiais que planejou e realizou a Operação Carne Moída, escreveu um livro próprio. Este serviu de base para o filme The Man Who Never Was de 1956. Um segundo filme, Operation Mincemeat, foi lançado em 2021.

Antecedentes Inspirações thumb|esquerda|170px|John Henry Godfrey, em cujo nome o Memorando da Truta foi circulado O contra-almirante John Henry Godfrey, o diretor da Divisão de Inteligência Naval, começou a circular em 20 de setembro de 1939, algumas semanas depois do início da Segunda Guerra Mundial, o "Memorando da Truta", documento que comparava a enganação de um inimigo em guerra com pesca com mosca. O autor e jornalista Ben Macintyre comentou que apesar do memorando ter sido publicado sob o nome de Godfrey, ele "trazia todas as marcas registradas do... tenente-comandante Ian Fleming", seu assistente pessoal. O documento continha sugestões de esquemas para serem usados contra o Eixo a fim de atrair submarinos e navios de superfície para campos minados. A vigésima oitava sugestão tinha o título de "Uma Sugestão (uma não muito boa)"; era a ideia de implantar documentos enganadores em um corpo que seria encontrado pelo inimigo:

A ideia de deliberadamente implantar documentos falsos para serem encontrados pelo inimigo não era nova; conhecida como Ardil da Mochila, tinha sido praticada na Primeira e Segunda Guerras Mundiais. Um corpo foi colocado em um carro explodido em um campo minado na frente da 90ª Divisão de Infantaria Leve alemã em agosto de 1942, antes da Batalha de Alam Halfa. No corpo estava um mapa que supostamente mostrava campos minados britânicos; os alemães usaram esse mapa e seus tanques foram direcionados para áreas de areia macia, onde atolaram.

Uma aeronave voando do Reino Unido para Gibraltar caiu perto de Cádis, na Espanha, em setembro de 1942. Todos a bordo morreram, incluindo o tenente James Hadden Turner, um estafeta levando documentos secretos, e um agente francês. Os documentos de Turner incluíam uma carta do major-general estadunidense Mark W. Clark, o Vice-Comandante das Forças Expedicionárias Aliadas, para o tenente-general britânico Noel Mason-MacFarlane, o governador de Gibraltar, informando que o general estadunidense Dwight D. Eisenhower, o Supremo Comandante Aliado, chegaria na véspera da "data alvo" para a Operação Tocha, 4 de novembro. O corpo de Turner foi parar em uma praia perto de Tarifa e recuperado pelos espanhóis. A carta ainda estava com o corpo quando foi devolvido ao Reino Unido e técnicos determinaram que o documento não tinha sido lido. Outras fontes estabeleceram que o caderno do agente francês fora copiado pelos alemães, mas estes acharam que era desinformação. Aos planejadores britânicos foi mostrado que materiais obtidos pelos espanhóis estavam sendo repassados aos alemães.

Inteligência britânica thumb|240px|Cholmondeley e Montagu levando o corpo em 17 de abril de 1943 O oficial de inteligência britânico Charles Cholmondeley, um mês depois do acidente de Turner, delineou sua variação do plano do Memorando da Truta. O codinome era Cavalo de Troia em homenagem ao Cavalo de Troia da Guerra de Troia. O plano era:

Cholmondeley era um tenente de voo da Força Aérea Real que tinha sido destacado para trabalhar no Serviço de Segurança, a agência de segurança e contraespionagem doméstica britânica. Ele tinha sido nomeado secretário do Comitê Vinte, uma pequena equipe de inteligência interserviço e interdepartamental encarregada dos agentes duplos britânicos. O Comitê Vinte recusou o plano de Cholmondeley em novembro de 1942 por ser considerado impraticável, mas mesmo assim achou que existia potencial na ideia. Como o plano tinha uma conexão naval, John Cecil Masterman, o presidente do comitê, designou Ewen Montagu, o representante naval, para trabalhar com Cholmondeley e desenvolver melhor a ideia. Montagu, um advogado em tempos de paz e Conselheiro do Rei que tinha se voluntariado no começo da guerra, trabalhava na Divisão de Inteligência Naval sob Godfrey administrando a NID 17(M), um sub-ramo que lidava com trabalhos de contraespionagem. Godfrey também tinha nomeado Montagu para supervisionar todas as enganações navais envolvendo agentes duplos. Montagu, como parte de seus deveres, tinha sido instruído sobre a necessidade de operações de enganação com o objetivo de ajudar nos objetivos de guerra Aliados nas iminentes operações de invasão no Mar Mediterrâneo.

Situação militar thumb|esquerda|260px|Localização da Sicília no Mediterrâneo Os Aliados conquistaram sucesso na Campanha Norte-Africana no final de 1942, assim os planejadores militares transferiram sua atenção para o alvo seguinte. Os britânicos consideravam que uma invasão da França a partir do Reino Unido só seria possível de ser montada em 1944 e o primeiro-ministro Winston Churchill queria usar as forças Aliadas reunidas no Norte da África para atacar a "barriga macia" da Europa. Existiam dois possíveis alvos de ataque. A primeira opção era a ilha italiana da Sicília, cujo controle permitiria abriria o Mediterrâneo para navios Aliados e permitiria uma invasão da Europa continental por meio da Itália. A segunda opção era a Grécia e os Bálcãs, prendendo as forças alemãs entre os invasores anglo-americanos e os soviéticos. Os Aliados concordaram em janeiro de 1943 na Conferência de Casablanca que o alvo seria a Sicília, codinome Operaçãp Husky, e foi determinado que a invasão deveria ocorrer até julho. Os planejadores ficaram preocupados que a Sicília era uma escolha óbvia – Churchill supostamente afirmou que "Todo mundo, menos um idiota, saberia que é a Sicília" – e que o acúmulo de recursos para a invasão seria detectado.

O ditador alemão Adolf Hitler estava preocupado com uma invasão dos Bálcãs, pois a área era a fonte de matérias-primas usadas na indústria bélica alemã, incluindo cobre, bauxita, cromo e petróleo. Os Aliados sabiam dos temores de Hitler e lançaram a Operação Barclay, uma operação de desinformação para manipular esses medos e enganar os alemães em acharem que os Bálcãs eram o objetivo, desviando recursos da Sicília. A desinformação reforçou o pensamento estratégico alemão sobre o provável alvo britânico. Os Aliados, para reforçarem a desinformação, estabeleceram um quartel-general no Cairo, no Egito, para uma formação ficcional, o Décimo Segundo Exército, formado por doze divisões. Manobras militares foram realizadas na Síria, com os números inflados por tanques e blindados de mentira para enganar observadores. Intérpretes gregos foram recrutados e mapas e dinheiro gregos armazenados. Comunicações falsas sobre movimentações de tropa foram gerados do quartel-general do Décimo Segundo Exército, enquanto o posto de comando Aliado em Túnis, na Tunísia, o quartel-general da invasão da Sicília, reduziu suas transmissões de rádio ao usar telefones fixos sempre que possível.

Desenvolvimento Praticidade e corpo thumb|170px|Sir Bernard Spilsbury, patologista que prestou ajuda para a operação Montagu e Cholmondeley tiveram a assistência do major Frank Foley, um representante do Serviço Secreto de Inteligência, enquanto analisavam as praticidades do plano. Montagu falou com o patologista sir Bernard Spilsbury para determinar que tipo de corpo precisariam e quais os fatores a ser levados em conta para enganar um patologista espanhol. Spilsbury contou que aqueles que sofriam acidentes aéreos morriam de choque, não afogamento, desta forma os pulmões não necessariamente estariam cheios d'água. Ele também comentou que "Espanhóis, como Católicos Romanos, são aversos a autópsias e não as realizam a menos que a causa de morte seja de grande importância". Spilsbury aconselhou que uma pessoa poderia ter sofrido de diferentes causas de morte que poderiam ser mal interpretados em uma autópsia. Montagu depois escreveu:

Isto significava não apenas que eles tinham uma chance maior de sucesso do que anteriormente pensado, mas também que existiriam um número maior de corpos potencialmente disponíveis para seleção quando chegasse a hora. Montagu discutiu a possibilidade de conseguir um corpo com o doutor Bentley Purchase, o médico legista do Distrito Norte de Londres, que lhe disse que existiriam dificuldades práticas e legais: "Eu acho que corpos são as únicas mercadorias que não estão em falta no momento, [mas] mesmo com corpos por todo lugar, cada um precisa ser contabilizado". Purchase prometeu procurar um corpo adequado que não tivesse parentes que pudessem reivindicá-lo para um enterro.

Purchase entrou em contato com Montagu em 28 de janeiro de 1943 dizendo que tinha localizado um corpo adequado, provavelmente aquele de Glyndwr Michael, um mendigo galês que morreu em Londres depois de comer um raticida que continha fósforo. Purchase informou Montagu e Cholmondeley que a pequena quantidade de veneno no organismo não seria identificada em um corpo que supostamente estava flutuando no mar por vários dias. Montagu comentou que o corpo malnutrido de Michael não parecia em forma para um oficial de campo, mas Purchase lhe disse que "ele não precisa parecer um oficial, apenas um oficial de estado-maior" mais acostumado com trabalho burocrático. O médico concordou em manter o corpo no refrigerador do necrotério a uma temperatura de quatro graus Celsius; mais frio do que isto e a carne congelaria, o que ficaria óbvio depois do corpo degelar. Ele avisou Montagu e Cholmondeley que o corpo precisava ser usado em até três meses, depois do qual se decomporia além da utilidade.

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