Os odontocetos (Odontoceti, Flower, 1867) constituem uma parvordem de cetáceos caracterizada por possuir dentes, ao contrário das baleias e espécies semelhantes (misticetos) que possuem formações quitinosas denominadas barbas, com função filtrante.

Caracterização Os Odontoceti são uma parvordem dos Cetáceos formada majoritariamente por golfinhos e narvais, possuindo 10 famílias, que contém em média 70 espécies. Possui representantes marinhos e dulcícolos. São animais homodontes, ou seja, que possuem dentes não diferenciados entre si, os quais persistem durante toda a vida do animal, em número de 2 a 200. Possuem dietas carnívoras, se alimentando de peixes, lulas e outros mamíferos. Os seus representantes mais conhecidos são as orcas, os cachalotes, golfinhos e botos.

Ao contrário dos Misticeti, a outra parvordem dos cetáceos, os Odontocetos possuem um crânio assimétrico. Em algumas espécies, a região frontral é muito desenvolvida, com longos bicos. Sua audição é extremamente desenvolvida. Por serem mamíferos, esses animais possuem pulmões, logo precisam voltar a superfície frequentemente para captar ar. O orifício respiratório é único e localizado no topo da cabeça. Esses animais contém uma grande camada de gordura, que parece ter função na ecolocalização (sentido de localização que consiste na emissão de curtos pulsos sonoros e na recepção desses pulsos após refletirem em algum objeto), além de ajudar no isolamento térmico. Seu corpo tem formato hidrodinâmico, com pescoços inflexíveis, membros modificados em nadadeiras, sem peças auditivas externas e uma cauda alongada.

miniaturadaimagem|Duas Orcinus orca na natureza Possuem inteligência característica, realizando a ecolocalização, vocalização e comportamento social.

Possuem dimorfismo sexual, sendo que os machos são geralmente maiores que as fêmeas, mas existem morfologias invertidas em alguns grupos. O período gestacional desse grupo aumenta, conforme aumenta o tamanho da espécie, podendo chegar até a 16 meses, nas Cachalotes. Como em todo grupo Mammalia, as fêmeas possuem glândulas mamárias e amamentam seus filhotes pós nascimento, processo que pode persistir em até dois anos do nascimento. Também há cuidado parental, que pode ser realizado pela mãe, sozinha, ou com ajuda de outras fêmeas do grupo.

Reprodução Os Odontoceti, como qualquer mamífero, se reproduzem por fecundação interna. Os machos possuem um pênis retrátil, que é exteriorizado na cópula. A escolha do parceiro não é trivial, a corte desses animais contêm vocalização, troca de toques, saltos e movimentos com as nadadeiras. Já a cópula é normalmente curta, suficiente para fertilização. Esses animais apresentam variação em relação ao dimorfismo sexual. Em algumas espécies, como nas orcas e cachalotes, os machos se apresentam muito maiores que as fêmeas. Já os Berardius apresentam a fêmea maior que o macho.

Muitas espécies de odontocetos possuem um sistema de acasalamento promíscuo, no qual muitos machos podem acasalar com uma única fêmea. Contudo, algumas espécies podem apresentar alguma forma de manter seus parceiros sexuais.

O período de gestação dos odontocetos varia em torno de 7 e 17 meses e quase todas as espécies apresentam intervalos entre as gestações maiores que 1 ano.  Normalmente o tempo de gestação e a taxa de crescimento do feto dependem do tamanho do indivíduo ao nascer, sendo que espécies maiores possuem um período maior de gestação. Os odontocetos produzem normalmente uma prole por vez, sendo bem desenvolvida.

A prole é caracterizada por exigir períodos longos de lactação, variando entre 32 a 100 semanas, que é realizado pela fêmea. Os odontocetos tendem a apresentar cuidado materno, resultando em uma forte ligação entre a prole e a mãe. Algumas espécies após seu completo desenvolvimento permanecem em grupos de família por toda a vida, como algumas populações de orcas. Alguns odontocetes apresentam um comportamento alomaternal, no qual um indivíduo cuida de uma prole desconhecida. Esse mecanismo aparentemente está relacionado com o aumento da taxa de sobrevivência dos nascidos e defesa contra predação.

Alimentação As diferentes espécies de Odontoceti alimentam-se de peixes, lulas, crustáceos, aves e ocasionalmente outros mamíferos. Eles se diferenciam dos Mysticeti pelos hábitos de predação como captura e perseguição, além de se alimentarem de presas maiores.

Os dentes dos Odontocetis são de formatos uniformes (homodontes), diferentemente dos outros mamíferos terrestres. A maioria das espécies possuem o dente com formato de pinos com raízes abertas simples. Assim, a dieta desses animais é refletida na morfologia das mandíbulas e nos tipos e número de dentes.

Espécies que se alimentam majoritariamente de peixes tendem a possuir mais dentes que são usados para agarrar uma única presa. Já os indivíduos que se alimentam principalmente de lulas tendem a apresentar redução nos dentes, já que as presas são capturadas por sucção. Esse mecanismo de captura é realizado pelo uso da língua como um pistão, envolvendo a distensão do assoalho da boca pela expansão dos sulcos da garganta juntamente com a retração da língua. Além disso, algumas espécies conseguem debilitar a presa, emitindo sons de alta intensidade.

A hipótese do uso de sucção intraoral ou gular para a captura de alimento foi confirmada por documentação experimental e observação direta em várias espécies, como belugas (Delphinapterus leucas) e orcas (Orcinus orca). Nessa estratégia, as partes da presa são separadas antes de serem engolidas. Esse método é o predominante em predadores vertebrados aquáticos e também o mais eficiente.

Algumas espécies possuem adaptações notáveis  associadas à alimentação, como o golfinho-roaz. Esse animal carrega esponjas nos bicos para se proteger, ao explorar os corais em busca de peixes. Essa mesma espécie também possui outro comportamento diferenciado que consiste na perseguição de peixes até que eles encalhem em águas rasas, para imobilizá-los e facilitar a caça.

Adaptações para a vida marinha Os Odontoceti são um clado dentro de Mammalia, um grupo primitivamente terrestre, portanto, foram necessárias adaptações para que esses animais vivessem na água. miniaturadaimagem|Golfinho na superfície da água. Na imagem é possível localizar o orifício respiratório O trato respiratório dos mamíferos é especializado para ambientes terrestres, logo, os Odontoceti precisam voltar a superfície da água para respirar, o que é facilitado pela localização do seu único orifício nasal, no topo da cabeça. Ademais, esse orifício possui válvulas, que permitem seu fechamento quando o animal mergulha, protegendo suas vias respiratórias da água.

Além da respiração, a locomoção desses animais teve que ser adaptada. Para isso, seus corpos são hidrodinâmicos, ou seja, alongados, com nadadeiras substituindo os membros e uma forte musculatura no pedúnculo caudal. Além disso, os Odontoceti, ao contrário dos outros mamíferos, não possuem pelos, pois esses causariam fricção na água, dificultando o nado. Ademais, a maioria das espécies possui nadadeiras dorsais, que auxiliam no equilíbrio. Os músculos desses animais possuem altos níveis de mioglobina, permitindo uma maior retenção de oxigênio, o que possibilita mergulhos mais longos entre as tomadas de ar na superfície.

Para manter sua temperatura corporal, os Odontoceti possuem uma camada de gordura sob a pele, que proporciona isolamento, dificultando a perda de calor para o ambiente, além de servir como reserva energética. A pressão também é um problema, uma vez que é maior nas profundezas, causando um colapso no volume pulmonar. Para evitar esse problema, os Cetáceos possuem  um caixa torácica articulada e dobrável, além de vasos sanguíneos que se adaptam à mudança de volume do órgão respiratório.

Diversidade As baleias com dentes são animais mamíferos, da infraordem dos Cetáceos e da parvordem Odontoceti.

A parvordem Odontoceti apresenta 10 famílias. São elas: miniaturadaimagem|Ilustração de espécies da Ordem cetácea, em que 4 representa a Cachalote, representante de Phytherseridae. 2 representa a Orca, da família Delphinidae. 5 ilustra o Narval e 8 a Beluga, ambos representantes de Monodontidae. Phytherseridae: Família de uma espécie,  o Cachalote, o maior Odontoceti, chegando a atingir 20 m de comprimento. Sua cabeça é larga, com formato quadrado e muito modificada, possuindo um “órgão do espermacete”, que armazena óleo.

Kogiidae: Essa família possui apenas duas espécies, o Cachalote-anão e o Cachalote-pigmeu, que compõem um único gênero. Possuem menos de seis metros de comprimento. Apesar de possuírem o mesmo nome popular que o Cachalote, eles compartilham apenas a mesma estrutura basal e assimetria do crânio, porém a dos Kogiidae é muito menor..

Monodontidae: Representados pela Narval e a Beluga (baleia-branca), essa família possui apenas 2 gêneros e 2 espécies. Seus integrantes possuem menos de 6 metros de comprimento, com cabeças bulbosas e sem barbatana dorsal. Ao contrário da maioria dos Cetáceos, as vértebras cervicais desses animais não são fundidas, permitindo uma maior flexibilidade no pescoço.

Ziiphidae: As Baleias-de-Bico, reunidas nessa família de 19 espécies e 5 gêneros, são cetáceos de tamanho médio, que possuem uma barbatana dorsal pequena na região posterior do corpo. A taxonomia desse grupo é muito discutida.

Delphinidae: São os golfinhos marinhos, reunidos nessa família de 32 espécies e 17 gêneros. Possuem forma diversa, mas compartilham o tamanho pequeno a médio, o bico pronunciado, dentes cônicos e uma barbatana dorsal larga localizada medialmente.  A espécie mais cohecida é Orcinus orca, chamada de "Baleia Assassina". miniaturadaimagem|Phocoena phocoena, conhecida como Toninha. Phocoenidae: Família de 6 espécies e 4 gêneros, conhecidas como Toninhas ou Marsuínos. Agrupam pequenos Cetáceos, com bico indistinguível ou ausente, barbatana dorsal triangular e dente em forma de espada.

Platanistidae: Essa família inclui os golfinhos de rio do Sul da Ásia, possuindo duas espécies em um gênero. Os animais desse grupo são quase cegos, dependendo da ecolocalização. Possuem corpo pequeno, com um bico longo, sem barbatana dorsal verdadeira. miniaturadaimagem|Boto, da espécie Inia geoffrensis ,representante da família Iniidae. Iniidae: Essa família é composta por uma única espécie, o Boto da Amazônia. É um animal muito único, muito largo para um golfinho de rio, com um focinho relativamente longo e fino, barbatana dorsal indistinguível e coloração rosa na idade adulta.

Pontoporiidae: Essa família de 2 espécies e 2 gêneros, agrupa um golfinho de rio da China e uma espécie marinha da costa Leste da América do Sul. Ambos possuem um bico bem longo e fino e uma nadadeira dorsal triangular.

Inteligência O cérebro dos Odontoceti são significamente maiores que mamíferos não primatas, sinalizando sua imensa inteligência. Cientistas acreditam que o cérebro desses animais evoluiu em resposta a fatores sociais - a alta complexidade social das baleias com dentes requerem habilidades de comunicação, memória e colaboração. Estudos laboratoriais já documentaram várias dimensões das habilidades cognitivas de golfinhos, como entendimento de símbolos, manipulação de objetos, autoconhecimento e mais.