Cronologia dos atos de violência organizada no Brasil em 2006.

Quinta-feira, 11 de Maio A inteligência da polícia de São Paulo intercepta ligações entre membros do PCC e descobre planos de megarrebelião, como a de 2001, para o Dia das Mães. Como resposta o governo estadual decide pela transferência de 765 líderes da facção criminosa entre outros presos de maior periculosidade para a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, com o intuito de desarticular o grupo. Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, reivindica 60 aparelhos de TV para assistir aos jogos da Copa do Mundo e a liberação de visita no Dia das Mães. O governo se recusa a negociar.

Sexta-feira, 12 de maio Marcola e mais sete líderes do PCC são levados para interrogatório na sede do DEIC em São Paulo. Marcola se recusa a depor oficialmente. Enquanto isso era dada a ordem de início das rebeliões por todo o estado. Por volta das 20 horas começam atentados na Grande São Paulo de forma simultânea. Os primeiro alvos são o 55º DP no Parque São Rafael, atacada por 15 carros, e um policial civil, próximo de sua casa em Guaianases, na zona leste de São Paulo. 9 pessoas são feridas em 19 ações registradas até a meia-noite. Morreram 4 policiais civis e um militar, além de um agente carcerário, em São Paulo, e dois guardas civis de Jandira, na região metropolitana. Na cidade de São Paulo, por volta das 21 horas, ataques contra postos policiais matam 3 policiais. Há suspeita que o Primeiro Comando da Capital (PCC) teria sido responsável pelos ataques. Até a meia-noite já eram 7 policiais mortos e outros 8 policiais ficam feridos em outros ataques.

Sábado, 13 de maio Uma série de 45 atentados e de rebeliões de presos de 29 penitenciárias ocorrem no estado de São Paulo. Os ataques são atribuídos ao Primeiro Comando da Capital (PCC) contra os postos e delegacias policiais civis e militares, também atingindo alvos civis e do Corpo de Bombeiros, matando 25 pessoas e ferindo outras 38, entre militares e civis. Carlos Camacho, o Marcola, apesar de preso, era considerado líder do PCC desde 2002, sendo o 3º sucessor. Havia suspeita que alguns dos 12.601 presos libertados para passarem o dia das mães no dia 10 de maio, com previsão de voltarem no dia 17 de maio, estariam por trás dos ataques. Pela manhã, a situação é de uma megarrebelião em presídios sem precedentes. No total, 24.472 presos de 24 unidades prisionais se rebelaram e fizeram 129 reféns. A polícia prende 17 suspeitos em todo o estado. Em reunião com os principais membros da Secretária de Segurança Pública, o governador Cláudio Lembo se informa sobre os números relacionados aos atentados. Nada de novo foi decidido, além da mobilização do efetivo policial. Em entrevista coletiva o governador e o secretário de segurança pública, Saulo Abreu, consideraram a reação do PCC "previsível". O governador repudiou os ataques e os atribuiu a represália pela transferência do Marcola e líderes do PCC a penitenciárias de máxima segurança. O presidente Lula, que está em Viena, Áustria, condena e repudia os ataques. Candidatos à presidência da República, líderes de governos (federal, estadual e municipal) e toda a sociedade civil reagem condenando os ataques, que são atribuídos à falta de competência da segurança pública, aos altos índices (de desemprego, falta de oportunidades, alto desigualdade social, falta de escolaridade, muitos outros) e principalmente às leis, à Justiça e ao Código Penal (que são alvos de questionamentos e críticas, principalmente em decisões dos juízes no código, que é de 1940). A Secretaria de Segurança de São Paulo informa que foram 63 ataques, 5 a mais do que foi registrado no fim de tarde, e que há rebeliões em 18 presídios (24 rebeliões de presídios foram registrados), com 35 mortos, 30 feridos e 18 suspeitos presos. No fim da noite já eram contabilizados 69 ataques - 44 na Grande São Paulo. Os mortos chegavam a 32, sendo 22 deles policiais, 5 agentes carcerários, 1 civil e 4 criminosos. As rebeliões em andamento eram seis e ainda havia centenas de reféns nas cadeias do estado, a maioria parentes dos presos.

Domingo, 14 de maio O PCC volta a atacar e praticar atentados em São Paulo e arredores. Nos primeiros ataques mais de 20 postos policiais e delegacias são atacados e mesmo alvos civis não são poupados pelo PCC. Os ataques foram mais intensos na Zona Leste e Zona Sul. Em Mato Grosso do Sul e Paraná houve uma série de rebeliões de presos: em Mato Grosso do Sul 5 penitenciárias são dominados por detentos e 1 penitenciária em Foz do Iguaçu. A polícia finalmente reage com energia. 15 agressores são mortos nos 33 ataques registrados até as 18 horas de domingo. O número de criminosos presos passa de 70. No começo da tarde líderes da unidade de Vila Maria da Febem recebem instruções do PCC de se rebelarem. Durante o Dia das Mães mais 47 presídios iniciaram rebeliões em todo o estado. No total 71 das 105 cadeias em regime fechado do estado registraram motins até as 23 horas. Também foi registrada rebelião no Complexo Tatuapé da Febem. Na manhã e tarde são enterradas mais de 20 pessoas entre policiais e um bombeiro e civis; entres os enterros uma viúva de um policial diz indignada com a situação: “cadê os órgãos dos direitos humanos? Até agora nenhum deles visitaram na minha casa para me confortar. Eles só querem saber em defender os presos e bandidos!”. Na tarde já eram 52 mortos e dezenas de feridos em 85 atentados. Nas primeiras 24 horas de ataques do PCC, iniciados às 21 horas de sexta-feira 12 de maio de 2005, aconteceram 100 atentados, 72 pessoas morreram, na sua maioria policiais civis e militares, guardas civis, bombeiros e havia 35 feridos, inclusive alvos civis, além de mais de 50 rebeliões de penitenciárias. Há casos de que os ataques já se ampliaram além contra policiais: carros foram atacados a tiros ou incendiados, casas que moravam policiais sendo atingidas aos tiros e recebendo telefones de ameaças. Na tarde o governador de São Paulo, Cláudio Lembo, dá uma coletiva de imprensa, pede ajuda de outros estados e afirma que a polícia estadual está firme. A governadora do Rio de Janeiro, Rosinha Garotinho, anuncia que está solidária e oferece ajuda a São Paulo. O presidente Lula, que chegou de Viena, Áustria, anunciou que não descarta a possibilidade de enviar o Exército para as ruas de São Paulo. No começo da noite também foram registrados dezenas de ataques a ônibus em São Paulo, principalmente nas zonas sul e leste da capital. Logo em seguida começaram a ser relatados ataques a agências bancárias. Na noite presos de 3 penitenciárias de Mato Grosso do Sul e de 4 penitenciárias do estado São Paulo encerram as rebeliões. Há informações de ataques de outras cidades do interior do estado de São Paulo, especialmente contra alvos policiais. A onda de ataques do PCC na cidade de São Paulo repercute no mundo inteiro. No fim da noite criminosos também lançaram coquetéis molotov contra duas bases da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), em frente ao terminal Parque Dom Pedro e outra no Glicério, na cidade de São Paulo.

Segunda-feira, 15 de maio No início da madrugada tiros atingiram um guichê da estação Artur Alvim do metrô (Zona Leste), mas não houve confirmação sobre o possível envolvimento do PCC no caso. Durante a madrugada 11 agências bancárias foram atacadas na cidade de São Paulo e emTaboão da Serra, na região metropolitana, o que indica que o plano era desestabilizar a segurança pública envolvendo também ataques ao sistema bancário. No primeiro ataque um grupo de homens ataca a tiros e queima uma agência do Banco Itaú. Entre a madrugada, a manhã e a tarde são atacados alvos de transporte público, postos policiais, guardas civis e 45 carros são incendiados. Na madrugada há mais de 20 ônibus incendiados e ocorre outro ataque contra um banco, no qual matam um vigilante. Ocorrem prisões e enfrentamento entre policiais e bandidos, o que desde a véspera deixaram 18 pessoas mortas.

Pela manhã 5 mil dos 15 mil ônibus da frota da cidade de São Paulo deixam de circular. Algumas empresas de transporte colocam apenas o mínimo exigido por lei nas ruas. Em Heliópolis, na zona sul, três bancos amanheceram metralhados. Chegam a 56 os ônibus atacados. Na manhã há informações que um comboio do metrô, o Centro de Engenharia de Tráfego (CET) e delegacias foram alvos de coquetéis molotov sem ferir ninguém. Há também informações entre fim de manhã e início da tarde de que 3 ônibus foram incendiados e 1 foi roubado e queimado em seguida, com os criminosos anunciando o local dos crimes. Entre madrugada e o dia seguinte ocorrem mais de 20 atentados. O rodízio de automóveis no centro expandido de São Paulo é suspenso. Há pressões tanto políticas, da sociedade civil e de militares para que o governo estadual e federal reagissem aos ataques com firmeza. Enquanto ocorriam os ataques eram enterrados policiais e civis que foram mortos na sexta e sábado. Cerca de 30% dos alunos não compareceram às aulas na zona sul devido à paralisação dos ônibus, conforme informado pela Secretaria Estadual de Educação. A Escola Estadual Dr. Alarico Silveira situada no bairro da Barra Funda região central da cidade de Capital registra o menor número de alunos nas escolas estaduais, apenas 6 alunos (dos mais de 1000 matriculados no período da tarde) compareceram às aulas. O pânico toma conta da região da Capital. Comerciantes fecham as portas, pelo menos 12 shoppings encerraram as atividades no dia e escolas e faculdades particulares suspendem as aulas alegando falta de segurança. No início da tarde 91 morreram em ataques. Na tarde presos das 5 rebeliões de Paraná se rendem depois de mais de 24 horas de rebelião. O governo do estado afirma que as rebeliões não tinham ligação aos ataques do estado de São Paulo. O governo do Mato Grosso do Sul anuncia o fim das rebeliões no estado e que os amotinados preferiram encerrar a rebelião. A Polícia do estado de Pernambuco prende em Recife 7 membros de PCC, que estariam planejando repetir as ações de São Paulo, como queima de ônibus e ataques contra a polícia. Não é a primeira vez que membros do PCC são presos no estado, em janeiro daquele ano 8 foram presos por tentarem planejar ataques contra delegacias para resgatar presos. No fim de tarde já são 7 ônibus que foram incendiados em menos de 8 horas. No início da tarde o Ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, anuncia a ajuda do governo federal e de outros estados ao São Paulo, pela iniciativa do presidente Lula. Por volta das 14h e 10min um boato surgido na polícia, que foi divulgado pela Rede Record, dizia haveria um toque de recolher às 20h. O boato foi desmentido pela Secretária de Estado e pela Polícia às 14h e 50min. Até o fim de tarde aconteceram 184 ataques, nos quais 31 policiais, 8 vigias e 4 civis foram mortos, além de 31 criminosos. 94 criminosos haviam sido presos, 61 agências bancárias de 8 bancos foram atacadas. A violência dos ataques leva as empresas de ônibus a não colocar várias linhas em funcionamento. Devidos a problemas de trânsito, a CET encerra a contagem e chega aos 197 km de engarrafamento, a maior do ano na Grande São Paulo. No início da noite o congestionamento chega a 212 km, outro recorde do ano. O pânico chega ao interior do Estado, cidades como Limeira, Mogi Guaçu, Mogi Mirim, Bauru, Itapira param no meio da tarde, com todas as lojas dos centros fechadas. No fim de tarde o governador de São Paulo, Cláudio Lembo, rejeita pela 2ª vez a proposta do governo Lula de enviar 4 mil militares do Exército, tendo ocorrido a 1ª rejeição na véspera, apesar da visita do Ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos ao estado. Durante a tarde todas as rebeliões são controladas e os ataques praticamente cessam. O governo paulista, que havia acusado a imprensa de espalhar boataria, teria supostamente negociado com o PCC o cessar-fogo. O governo desmente.