Teresa de Lisieux, O.C.D. (Alençon, 2 de janeiro de 1873 – Lisieux, 30 de setembro de 1897), nascida Marie-Françoise-Thérèse Martin e universalmente conhecida como Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face, foi uma freira carmelita descalça francesa. É lembrada como um dos mais influentes modelos de santidade para católicos e religiosos em geral, sobretudo por sua espiritualidade marcada pela confiança filial em Deus e por sua "forma prática e simples de viver e ensinar a vida interior". Ela, ao lado de São Francisco de Assis, figura entre os santos mais amados e populares de toda a história da Igreja. São Pio X chamou-a de "a maior entre os santos modernos", antes mesmo de ser beatificada e canonizada.
Teresa reconheceu cedo a sua vocação para a vida religiosa e, no ano de 1888, após superar consideráveis obstáculos e contando com apenas quinze anos de idade, ingressou no Carmelo de Lisieux, na Normandia, unindo-se a duas de suas irmãs mais velhas. Durante nove anos de vida monástica exerceu funções humildes, como sacristã e auxiliar da mestra de noviças, até viver os últimos dezoito meses mergulhada numa intensa experiência de “noite da fé”. Marcada pela tuberculose, ofereceu seus sofrimentos como oblação de amor e morreu em 30 de setembro de 1897, com apenas vinte e quatro anos.
O impacto de sua obra autobiográfica, “História de uma Alma”, publicada postumamente em 1898, foi extraordinário, tornando-a rapidamente uma das figuras espirituais mais queridas do século XX. O Papa Pio XI, que a chamou de “estrela de seu pontificado”, promoveu sua beatificação em 1923 e sua canonização apenas dois anos depois. Em 1927, Teresa foi declarada copadroeira das missões ao lado de São Francisco Xavier, e, em 1944, foi proclamada copadroeira da França juntamente com Santa Joana d’Arc. No centenário de sua morte, em 19 de outubro de 1997, o São João Paulo II concedeu-lhe o título de Doutora da Igreja, sendo a pessoa mais jovem e a terceira mulher a receber tal reconhecimento.Thérèse of Lisieux: God's gentle warrior by Thomas R. Nevin, 2006 ISBN 0-19-530721-6 p. 26.
Além de sua autobiografia, Teresa deixou um precioso legado espiritual composto por cartas, poemas, peças religiosas, orações e suas últimas conversas, preservadas pelas irmãs do Carmelo. Fotografias e retratos feitos sobretudo por sua irmã Céline difundiram sua imagem por todo o mundo, reforçando a ternura de sua devoção.
Segundo alguns biógrafos e críticos, como Guy Gaucher, a memória de Teresa, após a morte, foi inicialmente envolvida por um excesso de devoção sentimental que nem sempre refletia a simplicidade radical de sua mensagem. Ela, consciente de sua pequenez, rejeitava exageros e afirmou em seu leito de morte: “Eu amo apenas a simplicidade. Tenho horror à pretensão”. Defendia que a vida dos santos fosse narrada em sua verdade concreta, sem adornos artificiais.Guy Gaucher, The Spiritual Journey of Therese of Lisieux, p.2
Sua espiritualidade, por ela mesma resumida como “toda de confiança e de amor”, inspirou milhões de fiéis. Reconhecendo-se pequena e incapaz de grandes feitos ascéticos, Teresa depositava inteiramente sua santidade nos braços de Jesus, descrevendo-os como o “elevador” que a conduziria ao Céu.
Hoje, a Basílica de Lisieux figura como o segundo maior centro de peregrinação na França, sendo superada apenas pelo Santuário de Lourdes, testemunho da atualidade de sua mensagem e da popularidade de sua santidade.
Biografia Família
Ecos deste "caminho", porém, aparecem por toda sua obra. De fevereiro de 1895 em diante, Teresa passou a assinar suas cartas adicionando "muito pequena" (toute petite) à frente do nome. De acordo com a biógrafa Ida Görres, porém, este linguajar deve ser sempre entendido em contraste com a "infalível e férrea auto-conquista de toda sua vida". Ainda segundo Görres, "sabemos o quão intensamente sua vida foi dedicada aos deveres, à realização das boas obras, ao cultivo de todas as virtudes…[porém] ela rejeitava todos os esforços ascéticos não direcionados diretamente a Deus, mas à 'perfeição' pessoal. Foi com base neste ponto de vista que ela baseou sua extraordinária recusa em considerar importantes suas faltas diárias." Por não ter ilusões sobre a natureza humana, Teresa não dava a elas mais importância do que mereciam:
Oferta ao amor misericordioso No final da segunda peça que Teresa escreveu sobre Joana d'Arc, a fantasia que ela estava vestindo quase pegou fogo. Os fornos de álcool utilizados para representar a estaca em Ruão (Joana foi queimada viva amarrada numa estaca) atearam fogo no cenário atrás de Teresa. Ela não se apavorou, mas o incidente definitivamente deixou marcas, pois o tema do fogo passou a ter um lugar cada vez mais importante em suas obras.p.219 Descouvement, Thérèse and Lisieux Em 9 de junho de 1895, durante a Missa que celebrava a Festa da Santíssima Trindade, Teresa teve uma súbita inspiração de que deveria se oferecer em sacrifício para o "amor misericordioso", talvez inspirada por algumas freiras que, na ocasião, se ofereceram à "justiça divina". Em sua cela, escreveu um "Ato de Oferenda" (no sentido da oferenda eucarística) para si mesma e Céline; em 11 de junho, as duas se ajoelharam perante a Virgem e Teresa leu o documento que havia escrito e assinado: "No crepúsculo da minha vida, aparecerei diante de Ti com as mãos vazias, pois não peço a Ti, Senhor, que conte minhas obras…" De acordo com Ida Görres, o documento ecoa a felicidade que ela sentiu quando o padre Alexis Prou, o pregador franciscano, assegurou-a de que suas faltas não provocavam tristeza em Deus. Na "Oferenda", ela confirmou: "Se por uma fraqueza eu por acaso cair, que um olhar de Seus Olhos purifique imediatamente a minha alma e consuma todas as minhas imperfeições — como o fogo consome todas as coisas em si próprio".
Em agosto de 1895, as quatro irmãs Martin receberam a prima, Marie Guérin, na vida religiosa, agora "irmã Maria da Eucaristia". Em outubro, um jovem seminarista e sub-diácono dos Padres Brancos, Abbé Bellière, pediu ao Carmelo de Lisieux que enviasse uma freira que pudesse apoiar — com orações e sacrifício — sua obra missionária e as almas que seriam no futuro encarregadas a ele.Gorres, p.188 Madre Agnes nomeou Teresa, que jamais se encontrou com Bellière; dez cartas foram trocadas entre eles.
Um ano depois, padre Adolphe Roulland (1870–1934), da Sociedade para as Missões Estrangeiras de Paris, fez o mesmo pedido. Novamente Teresa foi a escolhida para ser a "irmã espiritual". Em ambos os casos, Teresa se via como professora e doadora, consolando e aconselhando, respondendo questões, confirmando e instruindo os padres sobre o significado de sua "pequena via".Gorres, p.189
Anos finais thumb|esquerda|300px|Teresa em 1896, um ano antes de sua morte. Os anos finais de Teresa foram marcados por um rápido declínio de sua saúde que ela aguentou resolutamente e sem jamais reclamar. A tuberculose foi o principal elemento do seu sofrimento, mas ela via a doença como parte de sua jornada espiritual. Depois de observar um rigoroso jejum durante a quaresma de 1896, Teresa se deitou na véspera da Sexta-Feira Santa sentindo-se muito feliz e escreveu: "Ó! Quão doce esta memória realmente é!… Eu tinha acabado de deitar a cabeça no travesseiro quando senti algo como uma corrente borbulhante se acumulando nos meus lábios. Não sabia o que era."
Na manhã seguinte, encontrou sangue no lenço e compreendeu o seu destino: tossir sangue significava tuberculose e tuberculose significava morte.The making of a social disease: tuberculosis in nineteenth-century France by David S. Barnes 1995 ISBN 0-520-08772-0 page 66 Ela escreveu: "Pensei imediatamente na coisa alegre que eu teria que aprender e fui até a janela. Consegui ver que não estava enganada. Ah! Minha alma estava preenchida de uma grande consolação; eu fui interiormente persuadida que Jesus, no aniversário de sua própria morte, queria que eu ouvisse Seu primeiro chamado!" miniaturadaimagem|300x300px|Teresa em 1897, já fraca e acamada. Nesta época, Teresa passou a se corresponder com uma missão carmelita que existia na Indochina Francesa e foi convidada a se juntar a ela, mas, por causa de sua doença, não podia mais viajar.
Por causa da tuberculose, Teresa sofreu terrivelmente. Quando estava perto da morte, "seu sofrimento continuou aumentando até o ponto que o próprio médico foi levado a exclamar, 'Ah! Se vocês ao menos soubessem o que esta jovem freira está sofrendo!'".Therese of Lisieux CTS Stories Great Saints Series by Vernon Johnson. Pg 54 miniaturadaimagem|300x300px|Teresa, pouco depois de sua morte. Em suas horas finais, a própria Teresa exclamou: "Eu jamais acreditaria ser possível sofrer tanto, nunca, nunca!".Therese of Lisieux CTS Stories Great Saints Series by Vernon Johnston. Pg. 62 Em julho de 1897, ela se mudou pela última vez para a enfermaria do mosteiro. Em 19 de agosto, comungou pela última vez. Santa Teresinha morreu em 30 de setembro de 1897 com apenas 24 anos de idade. Em seu leito de morte, suas últimas palavras foram "Meu Deus, eu te amo!".
Ela foi enterrada em 4 de outubro no espaço das carmelitas no cemitério municipal de Lisieux, junto com Zélie e Louis Martin, seus pais.
Em maio de 2025, quando se comemorava o primeiro centenário da canonização de Teresa, foi anunciada a descoberta de elevadas quantidades de mercúrio em fios de cabelo da santa retirados de relíquia da igreja de Herbitzheim, na França, com autorização da Arquidiocese de Estrasburgo. O mercúrio era usado em medicamentos contra a tuberculose e, pelo constatado no exame comandado pelo patologista forense Philippe Charlier, é bastante provável que altas doses de medicamento tenham sido administradas nas últimas semanas de vida da santa. Ao invés de melhorar seu quadro, contudo, a presença intensa de mercúrio, que é um metal pesado e tóxico, pode ter contribuído para sua fraqueza. Os antibióticos que ajudam na cura da tuberculose só foram descobertos em 1928, mais de 30 anos depois da morte de Teresinha.
Legado espiritual Aos quatorze, Teresa já sabia que sua vocação era rezar pelos padres, ser um "apóstolo dos apóstolos". Em setembro de 1890, em seu exame canônico antes de professar seus votos religiosos, foi perguntada do motivo pelo qual queria entrar no Carmelo. Sua resposta foi: "Quero salvar almas e, especialmente, rezar pelos padres". Por toda sua vida, Teresa rezou fervorosamente por eles e se correspondeu com vários outros. Ela acreditava, como escreveu para sua irmã, que "nossa missão enquanto carmelitas é formar missionários evangélicos que irão salvar milhares de almas de quem seremos mães".
Teresa era devota da meditação eucarística. Numa delas, em 26 de fevereiro de 1895, escreveu de supetão, sem sequer um rascunho, sua obra-prima poética, "Viver de Amor". Ainda em vida, o poema foi enviado para várias comunidades religiosas e foi incluída num caderno de seus poemas.Therese and Lisieux by Pierre Descouvemont, Helmuth Nils Loose, 1996 ISBN 0-8028-3836-7 page 245Collected poems of St Thérèse of Lisieux by Saint Thérèse (de Lisieux), Alan Bancroft 2001 ISBN 0-85244-547-4 page 75
Menino Jesus e Santa Face