Lúcio Vitélio (; antes de 10 a.C. – depois de 51), dito o Velho (), foi um senador e censor romano eleito cônsul por três vezes, uma honra bastante rara na época, a primeira em 34 com Paulo Fábio Pérsico, a segunda em 43 e a terceira em 47, ambas com o imperador Cláudio. Além disso, Vitélio serviu como governador da Síria entre 35 e 39. Casado com Sextília, o futuro imperador Vitélio e o cônsul Lúcio Vitélio, o Jovem, eram seus filhos.
Origem e família Vitélio era membro da gente Vitélia, provavelmente originária de Lucéria, na Apúlia. Seu pai, Públio Vitélio, é o primeiro membro conhecido da família e para cuja origem o historiador Suetônio ofereceu duas teorias: segundo Quinto Elógio, eles eram descendentes do deus Fauno com uma senhora romana chamada Vitélia e sempre foram reconhecidos em Roma como patrícios; Cássio Severo, porém, afirma que os Vitélios eram descendentes de um liberto que ficou rico como sapateiro.Suetônio, Vidas dos Doze Césares, Vida de Vitélio 1,2–3; 2,1. Ambas são consideradas especulações pelos historiadores modernos.
Públio Vitélio trabalhou como procurador para Augusto e teve quatro filhos: Aulo Vitélio, que foi cônsul em 32 com Cneu Domício Enobarbo e era conhecido como um bon vivant, Quinto Vitélio,Suetônio, Vidas dos Doze Césares, Vida de Vitélio 1,2 que foi questor na época de Augusto e acabou expulso do Senado por ordem de Tibério,Tácito, Anais 2,48.Suetônio, Vidas dos Doze Césares, Vida de Vitélio 2,2 o jovem Públio Vitélio, que acompanhou Germânico em sua viagem pelo oriente e, em 20, foi um dos acusadores no julgamento de Cneu Calpúrnio Pisão;Werner Eck/Antonio Caballos/Fernando Fernández, Das Senatus consultum de Cn. Pisone patre, München 1996. mais tarde se tornou pretorSuetônio, Vidas dos Doze Césares, Vida de Vitélio 2,3 e, como aliado do prefeito pretoriano Lúcio Élio Sejano, foi preso depois que ele foi executado e tentou se matar, sem sucesso; acabou morrendo de uma enfermidade decorrenteSuetônio, Vidas dos Doze Césares, Vida de Tibério 52,3Tácito, Anais 1,70; 2,6; 2,74; 3,10; 3,13; 5,8. e, finalmente, o filho cuja carreira foi a mais significativa, o mais novo dos quatro, Lúcio. É provável que ele tenha sido muito querido por Antônia Menor, uma neta de Augusto, e por conta disto tenha tido acesso desde muito jovem à família imperial.Tácito, Anais 11,3,1. Com sua esposa, Sextília, Lúcio teve dois filhos, dos quais Aulo Vitélio, o futuro imperador, era membro da jovem corte do idoso Tibério em seu retiro em Capri. Por conta disto, já na época se alegava que ele havia ajudado a carreira de seu pai se deixando abusar sexualmente por Tibério.Suetônio, Vidas dos Doze Césares, Vida de Vitélio 3,2. Seja como for, a carreira de Lúcio foi, ainda assim, comparativamente lenta, pois em 34, o ano de seu primeiro consulado, ele já tinha 44 anos, dois a mais do que a idade tradicional esperada para o consulado.Werner Eck, L. Vitellius, Sp. 261 f.
Carreira Vitélio e os partas thumb|220px|direita|Província romana da Síria no Vitélio foi eleito para o consulado em 34 com Paulo Fábio Pérsico e, em 26 de junho, os dois celebraram o vigésimo aniversário do reinado de Tibério.Tácito, Anais 6,28,1Dião Cássio, História Romana 58,24,1 = Hermann Dessau, Inscriptiones Latinae selectae, Nr. 6396. Um ano depois, nobres partas reclamaram a Tibério sobre o xá Artabano II e o imperador enviou Fraates, filho do xá Fraates IV e morador de Roma por muitos anos, para assumir o trono parta, mas ele morreu na viagem. Em paralelo, depois da morte do rei Zenão, do reino cliente da Armênia, Artabano II apresentou seu próprio candidato ao trono, o que era contrário aos interesses de Roma na região. Em resposta, Tibério enviou Vitélio, como legado imperial propretor, e Tiridates, outro príncipe parta e candidato ao trono, para a Síria.Tácito, Anais 6,31–32Dião Cássio, História Romana 58,26,1–2. Se Vitélio também recebeu na ocasião o comando extraordinário (imperium maius) sobre toda a região oriental do Império, como fica aparente em Tácito, é discutível.Tácito, Anais 6,32,2Theo Mayer-Maly, Vitellius, p. 1734.
Como governador da importante província fronteiriça da Síria, Vitélio tinha sob seu comando quatro legiões, mais de soldados. Quando ele mobilizou suas forças e ameaçou invadir o Império Parta, Artabano e seu exército, que já haviam lutado na Armênia contra os iberos de Mitridates, recuaram para o interior de seu território. Depois desta humilhação, foi fácil para Vitélio e seus aliados partas inflamarem a própria nobreza parta contra o rei, que acabou fugindo para se salvar.Tácito, Anais 6,36Dião Cássio, História Romana 58,26,3. A situação parecia perfeita para Tiridates assumir o trono na Armênia. Vitélio o acompanhou com o exército até o Eufrates, onde os dois realizaram sacrifícios para agradecer aos deuses pela vitória. Como demonstração final de força, Vitélio ordenou que seu exército cruzasse o poderoso rio de volta para o território romano numa ponte de barcos.Tácito, Anais 6,37.
Nesse ínterim, uma tribo da Cilícia havia recusado a realização de um censo e a pagar os impostos associados a ele e se entrincheirou nos montes Tauro pronta para lutar. Vitélio encarregou Marco Trebélio de acabar com a revolta e ele seguiu com legionários para a Ásia Menor, onde ele cercou os insurgentes em duas montanhas e os obrigou a se renderem.Tácito, Anais 6,41. Na Armênia, Tiridates foi reconhecido pela nobreza local e pelas cidades partas. Depois, viajou até a capital parta, Selêucia-Ctesifonte, onde foi coroado e assumiu o tesouro e o harém de seu antecessor. Porém, ele não conseguiu o apoio de alguns dos mais poderosos nobres, que procuraram e encontraram o deposto rei Artabano na Hircânia, no mar Cáspio, para convencê-lo a tentar recuperar seu trono.Tácito, Anais 6,41–6,43.
Artabano não os fez esperar muito. Ele recrutou tropas citas e marchou com elas até Selêucia-Ctesifonte. Para conquistar a simpatia da população, ele continuou usando as roupas simples que utilizou para fugir. Tiridates hesitou entre tentar atrair Artabano ou tentar ganhar tempo e, quando ele finalmente decidiu realizar um recuo tático, a maioria de seus soldados já havia se juntado à causa de seu adversário, que aproveitou para tomar novamente o trono da Pártia. Tíridates foi obrigado a retornar derrotado para Vitélio.Tácito, Anais 6,44. No começo do verão de 37, o governador romano e o recém-reempossado Artabano se encontraram numa ponte do Eufrates. Artabano reconheceu a superioridade romana e concedeu aos romanos a soberania sobre a Armênia. Desta forma, a crise dos anos 35 a 37 terminou com uma vitória estratégica para os romanos, o que representou, nas palavras do historiador Karl Christ, "uma das mais importantes conquistas em política externa de Tibério", que era conhecido por sua inação em política externa.Karl Christ, Geschichte der römischen Kaiserzeit, München 2002, p. 206Suetônio, Vidas dos Doze Césares, Vida de Vitélio 2,4Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 18,4,5Dião Cássio, História Romana 59,27,3.
Vitélio na Palestina Como governador da Síria, Vitélio também estava encarregado da Judeia, que, dada a estrutura de sua elite e a fé monoteísta dos judeus que viviam na região, tinha uma relação tensa com Roma. A Judeia e os territórios adjacentes haviam sido divididos, em 4 a.C., entre os quatro filhos de Herodes, o Grande, um regime conhecido Tetrarquia. O último filho sobrevivente do rei, o tetrarca Herodes Antipas havia se desentendido com Aretas IV, do Reino Nabateu, depois de abandonar a filha dele para ficar com Herodíade. Disputas de fronteira acabaram provocando um conflito militar entre os dois reis e Herodes sofreu uma pesada derrota. Ele reclamou por escrito ao imperador Tibério, que sempre ajudava a sua família e, por isso, Vitélio recebeu ordens do imperador de retaliar contra Aretas. Por causa de sua aversão pessoal em relação a Herodes Antipas, Vitélio não viu vantagem nenhuma em sua ressurgência como um poder na região e resolveu seguir a ordem do imperador de forma relutante, tentando atrasar o máximo possível os preparativos para a campanha.Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 18,5,1Rainer Metzner: Die Prominenten im Neuen Testament. Ein prosopographischer Kommentar. Göttingen 2008. p. 34. upright=.75|thumb|esquerda|Moeda cunhada por Vitélio comemorando o censorado de seu pai. Além disto, no inverno de 36 para 37 Vitélio teve que lidar com uma reclamação dos samaritanos, que acusaram o prefeito Pôncio Pilatos, conhecido do Novo Testamento, de assassinar peregrinos samaritanos. Um homem que alegava conhecer a caverna onde os utensílios do templo de Moisés (incluindo o tabernáculo e a Arca da Aliança) estavam escondidos desde a época do exílio na Babilônia fez com que diversos samaritanos, incluindo, aparentemente, homens armados, se dirigissem ao monte Gerizim, o centro espiritual samaritano.Reinhold Mayer, Inken Rühle: War Jesus der Messias? Geschichte der Messiasse Israels in drei Jahrtausenden. Tübingen 1998. p. 54. Os soldados de Pilatos tentaram impedi-los e, sob ordens do prefeito, em 15 de julho de 36, provocaram um massacre.Gerd Theißen: Der historische Jesus. Ein Lehrbuch. 4. Aufl., Göttingen 2011. p. 141fAlexander Demandt: Pontius Pilatus. München 2012, p. 62 f. Vitélio enviou Pilatos de volta para Roma para que respondesse pelos seus atos ao imperador e encarregou seu amigo Marcelo da administração da Judeia.Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 18,4,1–2Dazu Jens Herzer, Pilatus zwischen Historie und Literatur, p. 442–444Klaus-Stefan Krieger, Geschichtsschreibung als Apologetik bei Flavius Josephus, p. 48–59, 69–71.
Finalmente, no começo de março de 37, o próprio Vitélio marchou com duas legiões para ajudar Herodes Antipas através da Judeia e o acompanhou até Jerusalém para a celebração da Páscoa judaica, aproveitando para saber mais sobre a situação na região. Se Vitélio já havia visitado Jerusalém antes, é tema de debate. Seja como for, por razões ainda obscuras, mas aparentemente relacionadas à deposição de Pilatos, Vitélio havia deposto o já havia muito tempo sumo-sacerdote Caifás e o substituiu por Jonatã.Rainer Metzner: Die Prominenten im Neuen Testament. Ein prosopographischer Kommentar. Göttingen 2008. p. 81 f. Depois de ser recebido amigavelmente pela população, Vitélio devolveu aos sacerdotes do Templo autoridade sobre as vestimentas sagradas que estavam sob custódia romana desde a morte de Herodes e também concedeu à cidade o direito de cobrar impostos sobre as frutas. Ele também substituiu o sumo-sacerdote Jonatã por seu irmão TeófiloFlávio Josefo, Antiguidades Judaicas 15,11,4; 18,4,3., ambos filhos de Anás, o líder de uma influente família sacerdotal com fortes laços com as autoridades romanas. No quarto dia de sua estadia, Vitélio recebeu notícias da morte de seu patrono, o imperador Tibério, e da ascensão de Calígula. Por causa disto, ele voltou com as legiões para a SíriaFlávio Josefo, Antiguidades Judaicas 18,5,3Fílon, Da Embaixada a Caio 231. e considerou que a campanha contra os nabateus não era mais necessária.
Vitélio na Itália thumb|200px|direita|Busto de Messalina, a terceira esposa de Cláudio e aliada de Vitélio. 200px|thumb|direita|Depois que Messalina foi executada, Cláudio se casou com sua sobrinha Agripina Menor e Vitélio rapidamente mudou sua aliança, cainda nas graças da nova imperatriz.