Veiros é uma localidade portuguesa do Município de Estarreja cuja função é sediar a Freguesia de Veiros. Essa freguesia possui 11,29 km² de área e 2 503 habitantes (2011), tendo, por isso, uma densidade populacional de 221,7 hab/km².
Extinguiu-se-a em 2013, no âmbito de uma reforma administrativa nacional, para, em conjunto com a Freguesia de Beduído, formar uma nova freguesia denominada União das Freguesias de Beduído e Veiros com sede em Beduído.Diário da República, 1.ª Série, n.º 19, Lei n.º 11-A/2013 de 28 de janeiro (Reorganização administrativa do território das freguesias). Acedido a 2 de fevereiro de 2013. Contudo, em 14 de março de 2025, as freguesias agregadas foram repostas às suas características iniciais pela lei n.º 25-A/2025, pelo que a Freguesia de Veiros foi de novo reposta.
População <small> População da Freguesia de Veiros (1864 – 2011)[Instituto Nacional de Estatística (Recenseamentos Gerais da População) - https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_publicacoes] Ano População 1864 2.217 1878 2.290 1890 2.159 1900 2.185 1911 2.544 1920 2.427 1930 2.498 1940 2.690 1950 2.463 1960 2.414 1970 2.346 1981 2.034 1991 2.116 2001 2.618 2011 2.503 <big> História Veiros (Veeyros) é povoado muito antigo, nas terras baixas marginais da zona central da (actual) Ria de Aveiro, onde (há dois/três milénios) vinham espraiar-se as águas e aluviões do Rio Vouga e do Rio Antuã, e aí começava o mar aberto. O cordão de dunas entre Esmoriz e Mira e, por efeito conjugado e de sentido oposto das águas daqueles dois referidos rios e da corrente de Rennel de Norte para Sul na costa portuguesa, veio a dar origem à formação da restinga e zona lagunar conhecida por Ria de Aveiro, só regularizada a partir do início do século XIX com as obras da Barra e com a construção de um canal a desviar a foz do rio Vouga (Rio Novo do Príncipe). As cotas dos terrenos em Veiros são as mais altas (por isso mais antigas e consolidadas) deste conjunto de várzeas emergentes de grandes aluviões, e de localidades habitadas aqui implantadas (terras marinhoas), e a sua exposição a Sul (ao sol) e de costas para os ventos dominantes de Norte, tudo isso criou condições para a fixação natural de gentes que se dedicavam à pesca; e nesse contexto, no curso de uma ribeira (agora designada Carvalhosa) que drenava dessas terras de cotas mais elevadas e se juntava às águas salgadas e marés (no desaparecido Delta do Vouga), nasceu um esteiro com condições para aí aportarem e atracarem as embarcações dos pescadores, onde o pescado era desembarcado e vendido, e dali seguia para terras do interior.
Foi famoso o Mercado de Peixe de Veiros, que, desde datas imemoriais mas certamente anteriores à nacionalidade portuguesa, veio até ao século XVIII, tendo sido extinto por Decisão do Tribunal da Relação do Porto, em 1792, como desfecho de uma contenda entre os pescadores e o Convento de Arouca, surgida a propósito dos muitos impostos que incidiam sobre o pescado e eram arrecadados pelos procuradores daquele Convento, detentores de uma Quinta e Celeiro em Antuã-Estarreja, e com interesses pessoais nos rentáveis negócios das pescas.
Até aí, Veiros era uma terra muito activa e notável, que escritos notariais de então denominavam como Praça de Veiros, e ao cais da Ribeira chegou a chamar-se Porto de Veiros. Aqui se encontravam tabeliães, baicharéis de direito, cirurgiões, boticários, companhas de pescaria e famílias de nomeada. A ligação de Veiros ao mar e à ria não se fica pela pesca. No lugar de Santa Luzia de Veiros, era actividade principal a construção de embarcações dedicadas às fainas nestas águas – moliceiros, mercantéís e bateiras – e foram famosas as pinturas de proas de moliceiros que aí se faziam, em estaleiros anexos ás residências de famílias ainda lembradas, como é o caso dos “mestres Raimundos” ou Henriques.
E faz-se notar que na criação do Concelho da Murtosa em 1926, a linha divisória do de Estarreja passou exactamente por este lugar e atravessa propriedades das mesmas pessoas e famílias, que ora ficaram num Concelho ora no outro, em continuidade urbana, onde antes tudo era Santa Luzia; e nisto, parte das terras, casas e estaleiros dos Raimundo passaram a ser reclamados como se sempre tivessem sido Murtosa; e tal prejudica a verdade histórica.
Exactamente em Santa Luzia, foi cavado um cais em derivação do esteiro da Ribeira, designado Ribeira Nova, onde eram lançadas à água as embarcações construídas nestes estaleiros com a madeira dos pinhais que aqui abundavam, cujas manchas florestais têm vindo a ser substituídas por eucaliptos, na sua maioria Extinto o Mercado, foi na terra e seu cultivo, e nalgumas actividades artesanais, que os veirenses mais se concentraram, mas a terra entrou em franca decadência e desapareceu aquela classe de gente ilustrada que fazia jus à expressão “Praça de Veiros”.
Quanto à agricultura, foi famosa a cebola produzida em larga escala nestas terras arenosas e fertilizadas com o moliço arrancado pelos moliceiros aos fundos da Ria, …cebola essa que era vendida em todos os mercados dos arredores, designadamente Santo Amaro e São Miguel de Fermelã; e em Aveiro, para onde seguia por via aquática em mercantéis à vela que regressavam ao cais da Ribeira carregados de telha, areia de Esgueira e cal para alvenarias de casas, muros e poços.
No respeitante a actividades artesanais, foi notável a produção de esteiras de bainho, destinadas especialmente a acondicionar o transporte de mobiliário, cujo mercado principal era o Porto. Da história é também a fabricação de fósforos (tipo espera-galego) pelos processos antigos, anteriores à instalação da indústria fosforeira de Lorvão e Espinho, para onde se mudaram famílias inteiras que antes aqui eram fosforeiros.
E ainda notável, foi a fabricação e comercialização de refrigerantes, segundo métodos inteiramente artesanais, tendo ficado famoso o “pirolito de Veiros”, até à década de 1960, quando criada a sociedade UPREL (União dos Produtores de Refrigerantes de Estarreja), em resultado de legislação que passou a proibir aquelas pequenas indústrias artesanais. De tudo isto, nos tempos modernos nada resta.
A agricultura dedica-se em exclusivo à cultura do milho e forragens para a produção de leite, havendo um efectivo pecuário de cerca de 700 vacas leiteiras divididas por pequeno grupo de casas agrícolas.
Depois da extinção da Praça do Peixe e da desaceleração das outras actividades, especialmente ao longo do século XIX e primeira metade do XX, Veiros virou-se decididamente para a emigração, cujos destinos foram, inicialmente, o Brasil, e depois os Estados Unidos da América, países onde é imensa a comunidade de veirenses descendentes. E estas comunidades, desde o terceiro quartel do século passado, têm vindo a investir na sua terra, quer no património residencial que se tem vindo a renovar, quer nas instituições de solidariedade e cultura, tendo surgido uma Associação Beneficente (Filantrópica Veirense, 1958, convertida em IPSS em 1998) promotora de equipamentos locais (Salão Paroquial e Centro Comunitário), e na influência e esteira desse movimento foi fundado um Clube Cultural e Desportivo, com moderno edifício-sede e pavilhão gimnodesportivo, onde se deu espaço ao exercício de modalidades desportivas e a uma Escola de Música no seio da qual uma Orquestra Filarmónica, de tipo Banda Filarmónica.
No domínio associativo, conta-se também um Grupo Folclórico e Etnográfico com tradições e palmarés desde 1939, extinto na década de 1940 e refundado em 2000; e mais três associações legalmente constituídas e activas, ligadas especialmente ao carnaval e aos santos populares – “Os Chatiados”, “GRESFA” e “A Esteira de Veiros”. Veiros enquanto Freguesia, teve também uma Biblioteca Cadastrada e pública, integrada no Clube Cultural e Desportivo, mas o desinteresse municipal por esta “sédès sapientia” levou ao seu fecho inglório, e ali jazem encerrados em duas salas milhares de livros há quase duas décadas. Também como Freguesia, teve uma Extensão se Saúde com secretariado, médico e enfermagem até finais de 2018, tendo sido desactivado e tudo lá permanece sem uso, de portas e janelas fechadas, no mesmo edifício do Clube Cultural que é propriedade da Freguesia.
Veiros foi parte integrante e inteiramente dependente da Freguesia de São Tiago de Beduído até ao ano de 1612, quando as famílias veirenses reunidas em 13 de Dezembro de 1603 no adro da capela de Santa Luzia, decidiram construir uma Igreja nova, grande e digna, tendo por modelo a Igreja de Santa Maria de Válega, para convencerem o Bispo do Porto a conceder-lhes autonomia paroquial e separarem-se de Beduído. E em 13 de Dezembro do ano de 1612, passou a Curato com vida paroquial autónoma e cemitério local em campo anexo à igreja, no terreiro central designado Largo do Cruzeiro, onde se fazia o mercado do peixe e havia também uma pequena capela e o referido Cruzeiro, de onde irradiavam os seis caminhos principais nas direcções de Estarreja/Cabeças (estrada velha do Molarinho), Cais da Ribeira, Santa Luzia/Murtosa/Mâmoa, Areia/Canedo, Cavalo/São Geraldo e Telhões/Molar. Com a Reforma Administrativa liberal, passou ao Estatuto de freguesia em 1835.
E no ano de 2013, no âmbito da redução administrativa do número de freguesias, perdeu esse Estatuto e regressou à situação de 1612, a fazer parte integrante da Freguesia de Beduído, com a designação de Freguesia de Beduído e Veiros, exactamente um ano depois de ter inaugurado um novo edifício sede da freguesia, que passou a funcionar como Delegação.
O Topónimo Conhecem-se documentalmente apenas as versões Veeyros e Veiros. A primeira é encontrada em documentos escritos em latim, no reinado de D. Sancho II. Curiosamente, é de notar que a letra Y, do Grego, é estranha no latim, no entanto a escrita latina manteve-a onde ela estava do antecedente. É pois de admitir que a designação deste povoado, associada a gentes vindas do mar e que às actividades de pesca aqui se vieram a dedicar e enraizar, tenha a origem em colonizadores vindos do mediterrâneo oriental em tempos anteriores aos romanos. E a esta hipótese não é estranho o barco moliceiro com a sua proa característica a fazer lembrar embarcações fenícias. Modernamente e como chavão turístico-cultural, diz-se que “a Murtosa é a pátria do moliceiro”; mas não esqueçamos que esta localidade (actual vila e sede de concelho) foi inicialmente uma extensão do lugar de Veiros (Murtosa de Veiros). Em vários documentos da historiografia local, se encontram tentativas de desvendar o significado de Veeyros (Veiros), caindo-se na tentação de o associar a veios (de água) que aqui abundam em tempo de chuvas, mas são secos na estiagem. Mas a definição de dicionário, de veio, veios, não corrobora a hipótese. Tem mais razoabilidade a ligação original ao termo vieira (molusco marinho, acéfalo e com concha) e vieiros (os apanhadores de vieiras), muito associados a Vieira de Leiria e a Vila Franca de Xira. Mas falta-lhe o Y Grego, que se encontra em Veeyros.
Personalidades Afonso João. Juiz de Veiros ao tempo da decisão de se construir a Igreja Matriz de São Bartolomeu, encabeçou uma Comissão eleita pelo povo e levou a bom termo o Processo, que culminou com a inauguração da igreja em 13 de Dezembro de 1612 e criação do Curato de Veiros, primeiro passo para posterior criação da Freguesia de Veiros Padre António José Marques. Primeiro professor de ensino Primário em Veiros, no século XVIII, nomeado por Decreto, foi o autor da “Notícia Histórica de Veiros”, a pedido do historiador Pinho Leal, cujo documento tem constituído uma notável referência sobre a História de Veiros até ao seu tempo. António Joaquim Freire Pereira de Melo (século XVIII-XIX). Foi o primeiro senhor, bem conhecido, da Casa da Ajuda; capitão-mor de Estarreja; Juiz da Igreja de Veiros; primeiro Regedor de Veiros, entre 1836 e 1848; impulsionador das grandes obras de reparação da Matriz entre 1808 e 1819.