A Revolta de Carrancas, também conhecida como Levante de Bela Cruz, foi uma insurreição de pessoas escravizadas ocorrida em 13 de maio de 1833 nas fazendas Campo Alegre e Bela Cruz, pertencentes à família Junqueira, na então freguesia de Carrancas, Comarca do Rio das Mortes, sul da Província de Minas Gerais. Constituiu o maior levante de pessoas escravizadas documentado em Minas Gerais durante o Período Regencial e um dos episódios mais significativos da resistência à escravidão no Império do Brasil.

A revolta desenvolveu-se em um contexto de expansão da escravidão no centro-sul do Império, impulsionada pela intensificação do tráfico atlântico de africanos e pela consolidação de grandes propriedades rurais na Comarca do Rio das Mortes. A insurreição teve início na Fazenda Campo Alegre e estendeu-se à Fazenda Bela Cruz, resultando na morte de integrantes da família Junqueira, de seus agregados e de outras pessoas ligadas às propriedades. Reprimido pelas autoridades provinciais e por proprietários da região, o movimento deu origem a um amplo processo criminal que culminou na condenação de dezenas de pessoas escravizadas, dezesseis das quais foram executadas por enforcamento em São João del-Rei.

A repercussão da Revolta de Carrancas ultrapassou os limites da província de Minas Gerais e influenciou os debates sobre a repressão às insurreições escravas durante o período regencial, sendo considerada um dos antecedentes da Lei de 10 de junho de 1835, que estabeleceu procedimento especial para o julgamento de pessoas escravizadas acusadas de crimes contra seus senhores e familiares. Desde a década de 1990, o episódio tem sido objeto de crescente atenção historiográfica, sendo interpretado como um dos principais movimentos coletivos de resistência escrava do Brasil oitocentista.

Antecedentes

A escravidão na Comarca do Rio das Mortes Nas primeiras décadas do século XIX, a Província de Minas Gerais consolidou-se como uma das principais regiões escravistas do Império do Brasil. Embora a mineração já não ocupasse a posição predominante do século anterior, a expansão da agropecuária voltada ao abastecimento interno e a intensificação das relações comerciais com as províncias do Rio de Janeiro e de São Paulo estimularam a ampliação da demanda por mão de obra escravizada.

A Comarca do Rio das Mortes destacou-se como uma das principais regiões receptoras de africanos introduzidos pelo tráfico atlântico durante o período. Entre 1825 e 1833, Minas Gerais recebeu parcela significativa dos africanos desembarcados no Brasil, concentrando grandes propriedades rurais cuja produção se destinava sobretudo ao abastecimento do mercado interno.

Na freguesia de Carrancas, a população escravizada representava aproximadamente 62% dos habitantes. Segundo levantamento realizado por Marcos Ferreira de Andrade, dos 4 053 moradores recenseados, 2 494 eram pessoas escravizadas, proporção que colocava a localidade entre aquelas de maior concentração de trabalho escravo na província.

A composição dessas escravarias refletia a continuidade do tráfico atlântico. Predominavam africanos oriundos da África Centro-Ocidental, embora também houvesse indivíduos provenientes da África Oriental e pessoas escravizadas nascidas no Brasil. Para Andrade, essa diversidade de origens não impediu a formação de vínculos de solidariedade entre os escravizados, aspecto considerado relevante para a articulação da revolta de 1833.

O aumento da população africana e a existência de grandes escravarias alimentavam o receio de levantes entre proprietários rurais e autoridades provinciais. Nos discursos políticos da época, era frequente a referência ao chamado haitianismo, expressão utilizada para designar o temor de que acontecimentos semelhantes à Revolução Haitiana viessem a ocorrer no Brasil.

A família Junqueira e suas propriedades A Revolta de Carrancas teve como principal cenário as fazendas Campo Alegre e Bela Cruz, pertencentes à família Junqueira, uma das mais influentes proprietárias de terras da Comarca do Rio das Mortes durante os séculos XVIII e XIX. A origem do patrimônio familiar remonta ao português João Francisco Junqueira, natural da freguesia de São Simão da Junqueira, em Portugal, que se estabeleceu no sul de Minas Gerais em meados do século XVIII, onde recebeu sesmarias e iniciou a formação de um extenso patrimônio fundiário.

Na primeira metade do século XIX, os descendentes de João Francisco Junqueira controlavam diversas propriedades rurais voltadas à criação de gado, à produção agrícola e ao abastecimento do mercado interno. Entre elas destacavam-se a Fazenda Campo Alegre, pertencente ao deputado Gabriel Francisco Junqueira, e a Fazenda Bela Cruz, propriedade de seu irmão José Francisco Junqueira.

As fazendas da família caracterizavam-se pela elevada concentração de pessoas escravizadas. Inventário realizado em 1839 registra que a Fazenda Campo Alegre possuía 103 pessoas escravizadas, empregadas principalmente na pecuária e na agricultura. A Fazenda Bela Cruz apresentava estrutura semelhante, composta por casa-sede, senzalas, currais, chiqueiros, paiol, engenhos e extensas áreas destinadas às atividades agropecuárias.

Segundo Marcos Ferreira de Andrade, a composição das escravarias das propriedades da família Junqueira era marcada pela predominância de africanos oriundos da África Centro-Ocidental, coexistindo com africanos provenientes da costa oriental e pessoas escravizadas nascidas no Brasil. Apesar dessa diversidade de origens, estabeleceram-se vínculos de solidariedade entre diferentes grupos, fator apontado pelo autor como um dos elementos que favoreceram a articulação da revolta de 1833.

A crise política do Período Regencial A Revolta de Carrancas ocorreu durante um período de intensa instabilidade política no Brasil. A abdicação de Pedro I do Brasil, em 1831, inaugurou o Período Regencial, marcado por disputas entre liberais moderados, exaltados e restauradores, além da ocorrência de diversas revoltas provinciais e conflitos de natureza política e social.

Em Minas Gerais, a crise culminou na Revolta do Ano da Fumaça, desencadeada em 1833 após a deposição do presidente da província e a ocupação de Ouro Preto por forças restauradoras. Segundo Marcos Ferreira de Andrade, a circulação de notícias sobre esses acontecimentos favoreceu a propagação de rumores segundo os quais os caramurus concederiam liberdade às pessoas escravizadas, expectativa que teria contribuído para estimular movimentos de resistência em diferentes localidades da província.

Embora a relação entre a Revolta do Ano da Fumaça e a insurreição de Carrancas não possa ser entendida como de causa e efeito, a historiografia considera que ambos os episódios integraram um mesmo contexto de instabilidade política e de circulação de informações que influenciaram as expectativas da população escravizada.

A tentativa de insurreição de 1831 Em julho de 1831, quase dois anos antes da Revolta de Carrancas, autoridades da freguesia registraram uma tentativa de insurreição envolvendo pessoas escravizadas da região. Conforme a documentação da época, o movimento teria sido motivado pela circulação de rumores de que Pedro I do Brasil pretendia decretar a liberdade das pessoas escravizadas.

As investigações atribuíram ao vigário Joaquim José Lobo a difusão dessas notícias entre parte da população escravizada. Acusado de incentivar o movimento, o sacerdote foi preso e conduzido à vila de São João del-Rei. A rápida atuação das autoridades impediu que a conspiração se transformasse em uma rebelião aberta, mas reforçou o clima de apreensão entre os proprietários rurais da comarca.

A historiografia considera a tentativa de 1831 um importante antecedente da Revolta de Carrancas, por evidenciar a existência de canais de comunicação entre diferentes escravarias e a capacidade de articulação coletiva das pessoas escravizadas da região.

A revolta

Preparação da insurreição Os autos do processo criminal instaurado após a repressão da Revolta de Carrancas indicam que o movimento foi precedido por contatos entre pessoas escravizadas pertencentes a diferentes propriedades da família Junqueira. Embora a documentação não permita reconstruir integralmente a forma como esses contatos ocorreram, os depoimentos das testemunhas revelam que havia circulação de informações entre as fazendas Campo Alegre, Bela Cruz e propriedades vizinhas antes do início da insurreição.

Segundo Marcos Ferreira de Andrade, a articulação entre escravizados de diferentes origens étnicas constitui um dos aspectos mais significativos do episódio. Africanos centro-ocidentais, africanos orientais e pessoas escravizadas nascidas no Brasil participaram conjuntamente do movimento, evidenciando a existência de redes de solidariedade que ultrapassavam as distinções de procedência registradas na documentação oitocentista.

Entre os participantes apontados pelas testemunhas destacavam-se Ventura Mina, da Fazenda Campo Alegre, Joaquim Mina, da Fazenda Bela Cruz, e Damião, da Fazenda Campo Belo. Embora frequentemente identificados pela historiografia como os principais líderes da insurreição, a documentação judicial não permite estabelecer com precisão a estrutura de comando do movimento nem o papel desempenhado individualmente por cada um deles.

Os depoimentos reunidos durante a investigação também sugerem que os insurgentes pretendiam ampliar a revolta para outras propriedades da Comarca do Rio das Mortes, expectativa reforçada pelos rumores de liberdade que circulavam na região desde os acontecimentos políticos de 1833.

Os insurgentes Os autos do processo identificam pessoas escravizadas pertencentes a diferentes fazendas como participantes da revolta. A maioria era composta por africanos, muitos deles identificados apenas pelo prenome seguido da designação de origem, prática comum na documentação da época.

Os principais participantes mencionados pela documentação foram Ventura Mina, Joaquim Mina, Damião, Antônio Resende e Adão, entre outros cujas identidades seriam posteriormente apuradas durante o processo criminal.

Fazenda Campo Alegre Na manhã de 13 de maio de 1833, um grupo de pessoas escravizadas iniciou a insurreição na Fazenda Campo Alegre, propriedade do deputado Gabriel Francisco Junqueira. Gabriel Francisco encontrava-se no Rio de Janeiro, exercendo mandato na Câmara dos Deputados, circunstância que deixou a administração cotidiana da propriedade sob responsabilidade de familiares e administradores.

Segundo os autos do processo criminal, os insurgentes surpreenderam os moradores da fazenda e atacaram os integrantes da família Junqueira e seus agregados. Durante a ação foram mortos José Francisco Junqueira, Ana Cândida da Costa, Antônia Maria de Jesus, Manoel José da Costa, Emiliana Francisca Junqueira e Francisco da Costa, além de outras pessoas atingidas durante os confrontos.

Concluído o ataque, os insurgentes reuniram armas de fogo, armas brancas, munições, cavalos e mantimentos existentes na propriedade. Em seguida, deslocaram-se em direção à Fazenda Bela Cruz, pertencente a José Francisco Junqueira, onde esperavam incorporar novos participantes ao movimento.

Os sobreviventes conseguiram fugir para propriedades vizinhas e comunicaram os acontecimentos às autoridades locais, dando início à mobilização de fazendeiros, guardas nacionais e moradores da região para perseguir os revoltosos.

Fazenda Bela Cruz Após o ataque à Fazenda Campo Alegre, os insurgentes seguiram para a Fazenda Bela Cruz, propriedade de José Francisco Junqueira, situada a pequena distância da primeira. O objetivo era incorporar novos participantes ao movimento e dar prosseguimento à insurreição antes que as autoridades locais conseguissem organizar uma reação.